David Bowie – 1.Outside

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Após os álbuns com o Tin Machine, a ótima volta solo com Black Tie White Noise e o experimental Buddha of Suburbia, David Bowie começou a entrar realmente na década de 90 com um disco bem experimental, uma obra conceitual que contava a história de um assassinato, através dos diários de um detetive, Nathan Adler: 1.Outside. A grande novidade do disco era a volta de uma antiga parceria com Brian Eno. 1.Outside não foi um sucesso de vendas, mas restabeleceu Bowie no mercado provando que ainda estava vivo e com idéias.

Por Rubens Leme da Costa


Após gravar os dois últimos álbuns, Bowie reencontrou Brian Eno. Após os álbuns no final dos anos 70, os dois poucos se encontraram, embora sempre ficasse a possibilidade de voltarem um dia, a trabalharem juntos. Enquanto a parceria não acontecia novamente, Eno produziu alguns dos discípulos do cantor, sendo os mais famosos o Talking Heads e o U2.

Juntos, agora, e com a companhia de Reeves Gabrels, Mike Garson, Erdal Kizilcay e Sterling Campbell começaram a gravar em Montreux (Suíça), no dia 12 de março de 1994.

Após gravarem mais de três horas e meia de música, no Mountain Studios, começaram a decupar a obra.

Bowie conta que as sessões ocorreram de forma intensa e de maneira frenética.

Finalizado, levaram as faixas para serem mixadas no Westside Studiosm, em Londres.

O disco, no entanto, não tinha certeza alguma de ser lançado, já que Bowie estava sem gravadora e as faixas eram extremamente anti-comerciais. “Talvez ele irrite os fãs mais do que o Tin Machine”, disse Reeves Gabrels.

Bowie acabou salvando o projeto ao assinar um novo contrato com a Virgin, na América, e ainda conseguiu manter a integridade do projeto. No Reino Unido, seria editado pela BMG.

Bowie descreveu a obra como “um drama gótico não-linear”, onde vários personagens eram apresentados nas músicas.

Na verdade, não havia muito o conceito de canções, já que as músicas não apresentavam uma estrutura com refrões e versos. Bowie tinha optado por contar uma história, com mudanças constantes de tempo e estrutura.

A narrativa é centrada no detetive Nathan Adler, que investiga, no ano de 1999, um fenômeno conhecido como Art Crime, onde corpos de vítimas são mutilados para a criação de uma arte bizarra e as músicas são feitas em cima de um diário mantido pelo investigador.

O disco trazia uma forte influência de um fenômeno literário chamado cyberpunk, onde os personagens principais vivem à margem de uma sociedade futurista, solitário que são obrigados a viver em um futuro despótico, onde a tecnologia comanda as ações em mundo dominado pela tecnologia e degradação radical na ordem social.

Entre os escritores, destaca-se William Gibson. E vários filmes abordam o tema, como o revolucionário Blade Runner e Matrix.

Bowie era obcecado pela entrada em um novo século e, por isso, a história começa no dia 31 de dezembro de 1999.

Adler trabalha para o governo inglês e a história é ambientada em Londres, Oxford, além de New Jersey (EUA) e Ontario (Canadá). Adler começa pelo assassinato da jovem Baby Grace Blue, de apenas 14 anos.

O som era radicalmente diferente dos últimos álbuns, seguindo uma linha mais pesada, industrial, muito influenciado pelo Nine Inch Nails.

O disco mais parecia um pesadelo e confundiu fãs e críticas. Alguns elogiaram a volta de um Bowie criativo, ousado e cantando bem. E alguns reclamaram exatamente da ausência de melodias e canções mais acessíveis.

1.Outside foi editado em setembro de 1995 e trazia as seguintes faixas:

1. “Leon Takes Us Outside” Leon Blank – 1:25 (Bowie, Eno, Gabrels, Garson, Kizilcay, Campbell)
2. “Outside” Prologue – 4:04 (Armstrong, Bowie)
3. “The Hearts Filthy Lesson” Detective Nathan Adler – 4:57 (Bowie, Eno, Gabrels, Garson, Kizilcay, Campbell)
4. “A Small Plot of Land” The residents of Oxford Town, New Jersey – 6:34 (Bowie, Eno, Gabrels, Garson, Kizilcay)
5. “(Segue) – Baby Grace (A Horrid Cassette)” Baby Grace Blue – 1:39 (Bowie, Eno, Gabrels, Garson, Kizilcay, Campbell)
6. “Hallo Spaceboy” Paddy – 5:14
7. “The Motel” Leon Blank – 6:49
8. “I Have Not Been to Oxford Town” Leon Blank – 3:47
9. “No Control” Detective Nathan Adler – 4:33
10. “(Segue) – Algeria Touchschriek” Algeria Touchshriek – 2:03 (Bowie, Eno, Gabrels, Garson, Kizilcay, Campbell)
11. “The Voyeur of Utter Destruction (as Beauty)” The Artist/Minotaur – 4:21 (Bowie, Eno, Gabrels)
12. “(Segue) – Ramona A. Stone/I Am With Name” Ramona A. Stone and her acolytes – 4:01 (Bowie, Eno, Gabrels, Garson, Kizilcay, Campbell)
13. “Wishful Beginnings” The Artist/Minotaur – 5:08
14. “We Prick You” Members of the Court of Justice – 4:33
15. “(Segue) – Nathan Adler” Detective Nathan Adler – 1:00 (Bowie, Eno, Gabrels, Garson, Kizilcay, Campbell)
16. “I’m Deranged” The Artist/Minotaur – 4:31
17. “Thru’ These Architects Eyes” Leon Blank – 4:22 (Bowie, Gabrels)
18. “(Segue) – Nathan Adler” Detective Nathan Adler – 0:28 (Bowie, Eno, Gabrels, Garson, Kizilcay, Campbell)
19. “Strangers When We Meet” Leon Blank – 5:07 (Bowie)

Apesar de tanta reclamação, o disco rendeu algumas canções bem interessantes, como os singles Stranger When We Meet, Hallo Spaceboy e The Hearts Filthy Lesson.

Bowie também ousou na sonoridade. Ora eletrônico, ora com elementos de jazz, especialmente no piano de Mike Garson, colaborador de longa data, mostrando que buscava algo mais do que o rock.

Suas experimentações com a eletrônica lembravam os melhores momentos do álbuns Low e “Heroes”.

Bowie ficou tão animado com o resultado que, mesmo apesar das vendagens modestas – o disco chegou ao 8º lugar, no Reino Unido e 21º, nos EUA, que resolveu sair em uma longa excursão.

Os singles também tiveram vendas modestas: “The Hearts Filthy Lesson” ficou, em 35º e 92º nas paradas inglesa e norte-americana, respectivamente, enquanto “Strangers When We Meet”, ficou apenas em 39º no Reino Unido.

Com a vida mais calma, graças ao casamento com Iman, menos tenso e em ótima forma, aos 48 anos, Bowie montou uma banda com os seguintes músicos: Peter Schwartz (teclados), Reeves Gabrels (guitarra solo), Gail Ann Dorsey (baixo e vocal), Carlos Alomar (guitarra), Zachary Alford (bateria), Mike Garson (piano) e George Simms (backing vocals e teclados).

Batizada de The Outside Tour, começou em setembro, na América e se estendeu até fevereiro de 1996, pela Europa. A banda voltaria a se reunir em junho para shows no Japão, Rússia, Islândia, Dinamarca, Bélgica, França, Itália, Suíça, etc.

Alguns shows tiveram o show de abertura por um antigo ídolo de Bowie, Morrissey, que se mostrou encantado com a gentileza e simpatia de seu mentor.

Infelizmente, alguns apresentações foram canceladas por alguns problemas de saúde do ex-líder dos Smiths.

Outra banda usada nos shows de abertura foi o Nine Inch Nails e as apresentações mostravam um David excitado, com muita disposição e uma banda afiada, bem longe do cantor entediado no final dos anos 90.

Bowie havia feito um pacto consigo mesmo de que daria a volta por cima em sua carreira-solo, após discos constrangedores nos anos 80. E começava a pagar a promessa. Em alta, algumas canções ganharam remixes especiais, como é o caso de Pet Shop Boys com “Hallo Spaceboy”.

A turnê deu ao cantor nova visibilidade e ele não se incomodou em fazer um longo trabalho de entrevistas, aparições em programas de rádios e foi capa de várias revistas. Bowie estava, novamente, na moda.

E havia a música. Vários bootlegs foram editados dos shows e um deles tem minha predileção até hoje: Stage 1.Hurling Disdain, um cd duplo gravado na Philadelphia, Wembley Stadium e Earls Court.

Uma qualidade sonora impressionante, performances arrasadoras, ainda que uma faixa ou outra se repita e um curioso dueto com a baixista Gail Ann Dorsey, em “Under Pressure”, relembrando o que havia feito com Annie Lennox no tributo a Freddie Mercury. Sem contar a releitura de “The Man Who Sold the World”, apresentada à nova geração pelo Nirvana.

Bowie estava de volta e com novos e ousados projetos. Mas isso é papo para outro dia. Um abraço e até a próxima coluna.

VÍDEO – DAVID BOWIE – THE HEART’S FILTHY LESSON

VÍDEO – David Bowie – Ramona A. Stone (I am with Name)

httv://www.youtube.com/watch?v=i4zNIafhQcM

Discografia

David Bowie (1967)
Space Oddity (também conhecido como Man of Words/Man of Music, 1969)
The Man Who Sold The World (1971)
Hunky Dory (1971)
The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars (1972)
Aladdin Sane (1973)
Pin Ups (1973)
Diamond Dogs (1974)
David Live (1974)
Young Americans (1975)
Station to Station (1976)
ChangesOneBowie (1976)
Low (1977)
“Heroes” (1977)
Stage (1978)
Prokofiev’s Peter and the Wolf (1978)
Lodger (1979)
Scary Monsters (And Super Creeps) (1980)
ChangesTwoBowie (1981)
Christiane F. Win Kinder (trilha sonora, 1982)
David Bowie in Betrtort Brecht’s Baal (1982)
“Peace on Earth” /“Little Drummer Boy” (com Bing Crosby, 1982)
Ziggy Stardust: The Motion Picture (1983)
Let’s Dance (1983)
Golden Years (1983)
Love You Till Tuesday (1984, gravado em 1969)
Tonight (1984)
Never Let Me Down (1987)
Tin Machine (1989)
Sound and Vision (1989)
ChangesBowie (1990)
Tin Machine II (1991)
Oy Vey, Baby (1992)
Black Tie White Noise (1993)
Singles: 1969-1993 (1993)
Buddha of Suburbia (1994)
1.Outside (1995)
Earthling (1997)
The Best of David Bowie 1969/1974 (1997)
The Best of David Bowie 1974/1979 (1998)
“hours…” (1999)
Singles Collection (1999)
Bowie at the Beeb: The Best of the BBC Radio Sessions (2000)
London Boy (2001)
Heathen (2002)
Reality (2003)

História janeiro 30th 2010

London

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“I decree today that life
Is simply taking and not giving
England is mine – it owes me a living
But ask me why, and I’ll spit in your eye
Oh, ask me why, and I’ll spit in your eye
But we cannot cling to the old dreams anymore
No, we cannot cling to those dreams
Does the body rule the mind
Or does the mind rule the body ?
I dunno…”

MAPAS

MAPA TURÍSTICO

MAPAS DA CIDADE

ROTAS DE ÔNIBUS

METRÔ

MAPAS DA INGLATERRA

Cidades janeiro 29th 2010

São Paulo

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“As sirenes tocaram
As rádio avisaram
Que era pra correr
As pessoas assustadas
mal informadas
Puseram a fugir… sem saber do que
Pânico em SP, pânico em SP, pânico em SP (2x)
O jornal, a rádio, a televisão
Todos os meios de comunicação
Neles estavam estampados
O rosto de medo da população
Pânico em SP, pânico em SP, pânico em SP (2x)
Chamaram os bombeiros
Chamaram o exército
Chamaram a Polícia Militar
Todos armados
Até os dentes
Todos prontos para atirar
Pânico em SP, pânico em SP, pânico em SP
(2x)
Mas o que eles não sabiam
Aliás o que ninguém sabia
Era o que estava acontecendo
O que realmente acontecia
Pânico em SP, pânico em SP, pânico em SP (2x)”

MAPAS

Mapa do metrô ( é atual, mas por uma questão de facilidade, vamos considerá-lo como vigente à epoca)

Cidades janeiro 29th 2010

New York

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“Waves of fear, squat on the floor
looking for some pill, the liquor is gone
Blood drips from my nose, I can barely breathe
waves of fear, I’m too scared to leave
Waves of fear, waves of fear
waves of fear, waves of fear
I’m too afraid to use the phone
I’m too afraid to put the light on
I’m so afraid I’ve lost control
I’m suffocating without a word
Crazy with sweat, spittle on my jaw
what’s that funny noise, what’s that on the floor
Waves of fear, pulsing with death
I curse my tremors, I jump at my own step
I cringe at my terror, I hate my own smell
I know where I must be, I must be in hell
Waves of fear, waves of fear
waves of fear, waves of fear”

PRINCIPAIS BAIRROS


METRO

MAPA CENTRAL

MAPA ESTRADAS E AEROPORTOS

Cidades janeiro 29th 2010

Pequena nota de jornal

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Procura-se Nathan Adler (desesperadamente). Paga-se bem pela informação.

Nathan era um bom detetive, é verdade, não era nenhum Sherlock Holmes ou Poirot mas tinha talento, muito mais que inteligência ele era instinto, puro instinto, mas nada de ordem e método. Isso não era mesmo com ele. Prova disso é o diário que ele deixou. Tem até um papel de bala. Quem ele estava caçando afinal? M o Vampiro de Dusseldorf? Nathan, você devia ter usado mais a cabeça, cara.

Fecho o diário e ponho de volta na gaveta. Sento na cadeira e fico tamborilando os dedos sobre a mesa, então acendo um cigarro e me levanto. Olho a parede à minha frente e caminho até ela. Está suja e com restos de cola. Mania que ele tinha de colar o calendario da Pirelle na parede. Bom, ele não virava mesmo as folhas, mas isso é coisa de borracharia, não de escritório de detetive do governo. Aliso os pedaços de papel e cola que pendem da parede. Ainda há um pedaço de papel exibindo uma parte do seio de uma garota. Vejo a aureola escura do mamilo e não consigo identificar se é o direito ou o esquerdo. Mal sabia eu que em breve também faria parte da decoração daquela parede. Acho que quem me encontrou depois teve a mesma dificuldade que eu tive com a garota.

História janeiro 29th 2010

Welcome to the Eighties

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A tecnologia já se faz cada vez mais próxima e presente na vida das pessoas, mas não tem ainda o caráter invasivo-onipresente que possui nos dias de hoje. O clima político reflete as tensões da guerra fria e as incertezas da economia mundial que começa a adotar os principios do neoliberalismo e inicia o processo que ficaria conhecido por nós como globalização.
A crise do petróleo provoca recessão e inflação no primeiro mundo, por outro lado o processo da automação, robotização e terceirização aumentam a produtividade da industria mas reduzem a necessidade de mão de obra, causando desemprego.

Essa postura “laissez-faire” do novo estado “liberal” em relação à economia vai cada vez mais afastando a visão do “welfare state” e dando asas a especuladores financeiros que lucraram até não poder mais, fazendo surgir os jovens yuppies, com seus ternos caros de grife, carros enormes e telefones sem-fio-tijolões, sonhando ganhar o primeiro milhão antes dos trinta anos. Essa também foi uma época de excessos…
Alguns conseguem seu primeiro milhão não com especulação financeira, mas com cocaína. Não falei que era uma década de excessos?
Pois bem, além da “Guerra Fria”, também havia essa outra guerra, bem quente, ela ainda não acabou, mas não preciso dizer quem anda perdendo as batalhas.

Na Inglaterra, Margareth Thatcher implantava sua política neoliberal a mão de ferro. Nos Estados Unidos o presidente Reagan segue com a política armamentista. O anúncio do projeto Guerra nas Estrelas e o aumento no contingente de armas nucleares, deixam o cenário político internacional cada vez mais tenso.

“Quem não é a nosso favor é contra nos”, diria Bush tempos depois, mas para muitos essa era há muito tempo, a visão dos Estados Unidos, que demonstrava conceber o mundo de maneira dualista e maniqueista. “Ou está com o bloco capitalista em defesa da democracia ou está contra nós, com os comunistas”.
Parecia mais fácil conceber um mundo assim, tudo preto-no-branco, até hoje as pessoas tem dificuldade com os tons de cinza.

No Brasil surge um clima de esperança pelo fim da ditadura militar, mas o que permanece ainda mais forte é a sensação de incerteza pelos diversos planos econômicos frustrados que se seguiriram e falhariam em conter o tal “dragão da inflação”. O tal dragão é que sempre acabava levando a melhor, e quem terminava a história sempre com a lança enfiada no, bem…é melhor esquecer…,era o povo.

O cenário para os jovens é de desesperança quanto ao futuro e de descrédito no presente.
Esse é o horizonte que vislumbra a chamada “geração perdida”. No cenário musical, a tal “geração perdida” mostrava contestação e desesperança, idealismo e mercantilização.

“Nos anos 60 acreditávamos que nossa música ía mudar o mundo, na década de 70 descobrimos que isso não era possível, e nos anos 80 aprendemos que poderíamos embalar isso e vender.”

Garotos espertos…

Essa não é uma aula de história, é só um exercício de reminescência…É sobre algo que aconteceu mas não comigo. Se foi tudo mesmo assim ou não, agora não sei mais.
História janeiro 29th 2010

The Art Crime

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Baby Grace BlueUm tipo de crime chamado Art Crime, começa a surgir chocando a opinião pública e mobilizando ações por parte da polícia e do governo. Os crimes tem acontecido basicamente em três cidades, New York, Londres e São Paulo. Esses crimes que envolvem assassinato e mutilação de corpos tem causado muita polêmica, a maioria considera que isso não passa de lixo e selvageria, mas alguns poucos vêem nisso realmente uma nova forma de expressão artística bizarra.
O detetive Nathan Adler estava a serviço do governo britânico, investigando o assassinato bárbaro de uma garota de 14 anos, em Londres, que aparentemente foi vítima de um Art Crime. Enquanto investigava o assassinato da jovem Baby Grace Blue, Nathan Adler desapareceu, deixando apenas um enigmático diário que foi encontrado por seu colega de trabalho Leon Blank. Infelizmente, Leon Blank foi assassinado e o diário sumiu, lançando ainda mais mistério sobre os assassinatos e seus reais responsáveis. Ao que tudo indica, Leon também teria sido vítima de um Art Crime. Seu corpo foi encontrado na parede do escritório de Adler formando um curioso e bizarro mosaico de pele, ossos, carne e sangue.
Nos bastidores do mundo das trevas o Art Crime também tem causado polêmicas. Não se sabe ainda se os responsáveis são humanos, alguma seita de vampiros ou mesmo alguma outra criatura sobrenatural. O certo é que muitos temem que ao investigar os crimes alguém acabe lançando luz sobre algo que deveria permanecer escondido. Os príncipes em Londres, New York e São Paulo tem organizado verdadeiras caçadas para descobrir os culpados, pois temem que tais crimes possam expor a máscara ou levantar suspeitas sobre os vampiros. Alguns acreditam que os responsáveis seriam membros de alguma seita desconhecida e que essa seita constituiria uma nova ameaça a segurança dos vampiros. De qualquer forma a noite nessas cidades tem se tornado cada vez mais dificil para as caçadas noturnas dos membros, pois os Art Crimes tem provocado intensa vigilância por parte da polícia e batidas constantes em clubes, boates, motéis e prostíbulos.
Infelizmente ninguém conseguiu descobrir nada a respeito, o que reforça as piores suspeitas de todos.
História janeiro 29th 2010

Resenha sobre Vampire The Requiem

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Vampire: The Requiem foi lançado logo depois da publicação do World of Darkness Rulebook (o novo Mundo das Trevas, já publicado pela Devir em português). No exterior, ele foi seguido de perto pelos suplementos Werewolf: The Forsaken(que no Brasil se chamará Lobisomem: Destituídos) e pelo Mage: The Awakening (Mago: o Despertar).

Vampiro: O Réquiem foi o primeiro suplemento que permitiu que os jogadores interpretassem criaturas sobrenaturais dentro do cenário da linha Mundo das Trevas. O livro conta com 304 páginas e uma belíssima arte interna em tons de vermelho e cinza. O livro foi estruturado da seguinte forma:

  • Prólogo: A Dança dos Mortos
  • Introdução
  • Capítulo 1: A sociedade dos amaldiçoados
  • Capítulo 2: Personagens
  • Capítulo 3: Regras especiais e sistemas
  • Capítulo 4: Narrativa e antagonistas
  • Apêndice 1: Linhagens e Disciplinas únicas
  • Apêndice 2: Nova Orleans
  • Epilogo: Notas e piano

”Um monstro eu devo me tornar para um monstro não ser”. A idéia central de Vampiro: o Réquiem é um resgate das origens do conceito original imaginado por Mark Hein Hagen, criador dos jogos da antiga linha do Mundo das Trevas. Um vampiro é uma criatura atormentada, nem viva nem morta, mas que ainda assim caminha noite após noite em sua busca incessante por sangue humano — um ser dividido entre uma humanidade degenerada e uma besta sedenta pela única coisa que lhe importa, sangue vivo. Essa dicotomia é a pedra fundamental de um jogo que envolve temas adultos como a uma ampla (e polêmica) discussão sobre moralidade e sociedade, afim de entendermos um pouco mais o mundo que nos cerca e a nós mesmos.

Nesse conceito proposto pelos autores, temos uma priorização para as temáticas mais profundas, como religião, transcêndencia e até mesmo posicionamentos políticos em consequência de intrigas focadas em clãs e coalizões, direcionando mais e mais o jogo para uma linha de horror pesssoal, ponto marcante de qualquer cenário voltado para o público adulto.

Com base nesse conceito, o clima oferecido pelos autores corresponde a esse sentimendo de perda. Horrores mais e mais terríveis se escondem nas sombras e bestas tão ou mais aterradoras que as dos amaldiçoados espreitam por toda parte. Um clima paranóico e cheio de negociações duvidosas e segredos compartilhados na escuridão é o alicerce de qualquer crônica envolvendo esses mortos-vivos. Existe uma grande ênfase no clima do jogo, ideal para se saborear todo o potencial do cenário, criando uma história complexa e única.

A sociedade dos amaldiçoados é o primeiro contato com o mundos dos mortos-vivos que nos é apresentado nos capítulos que compõe o livro. Explicações sobre o Réquiem e o seu significado, a Dança Macabra, suas melodias de intrigas eternas orquestradas pelos mais velhos e os motivos de se trazer alguém para a noite eterna são mostrados aqui.

No capítulo introdutório, as informações contidas nas primeiras páginas apresentam os territórios, cargos e coalizões explicadas em profundidade, situando os jogadores no mundo sombrio e sangrento dos ”Membros“ (Alcunha pelo qual os vampiros se chamam).

Os pontos mais interessantes de serem ressaltados no primeiro capítulo são as informações referentes à natureza da maldição vampirica. Um exemplo disso é a ”Pequena Morte“ chamada Torpor, onde o vampiro entra em um estado de hibernação similar a um coma induzido. Nele, o vampiro se esquece de muito do que lhe ocorreu quando estava desperto e sofre pesadelos horríveis enquanto permanecer nesse estado.

Outro item é o poder viciante que o Vitae (sangue vampirico) tem sobre todos aqueles que o bebem, sejam eles vampiros ou não. Trata-se de um vício tão grande quanto o do ópio, a mais viciante das drogas.

Ainda nesse contexto, é explicada a própria Mácula do Predador, um sentimento de ódio ou medo provocado pela presença de um vampiro desconhecido — similar ao de um predador invasor assaltando o território do membro — uma forma de identificação para aqueles ”do sangue“.

Mesmo sendo criaturas solitárias, os amaldiçoados sentem a necessidade de contato com seus pares já que a besta interior manterá todos eles distantes dos mortais para sempre. Com base nisso, os vampiros criaram (tanto por necessidade quanto comodidade) as chamadas ”Coalizões“. As coalizões são organizações sociais que funcionam como pequenas seitas ou sindicatos. Seus membros se juntam às suas fileiras baseados na convergência ideológica de filosofias semelhantes, normalmente trazidas de seus dias como mortais — quase como uma lembrança que nem tudo dos dias de luz foi perdido quando o monstro da noite que é o vampiro emergiu de dentro de cada um deles.

As cinco grandes coalizões (com informações sobre seus membros, filosofias e rituais) são as seguintes:

  • O Movimento Cartiano são membros que tentam reconciliar a sociedade dos amaldiçoados com modernos sistemas governamentais e sociais.
  • O Círculo da Anciã é composto por vampiros pagãos que reverenciam uma variedade de entidades femininas que representam ”a Anciã“, a mãe de todos os monstros.
  • O Invictus é a aristocracia da noite, neo-feudais tirânicos e corruptos;
  • A Lancea Sanctum são religiosos que procuram na história bíblica sua aceitação como monstros e buscam a evolução espiritual com base nesse conceito.
  • A Ordo Dracul é uma facção Neo-Vitoriana de místicos e estudiosos de segredos.

Além dessas grandes coalizões, existem ainda os marginalizados pela própria sociedade dos mortos vivos:

  • Os Apartidários são vampiros que não seguem nenhum dos dogmas das cinco grandes coalizões e conduzem seus Réquiens caprichosamente, segundo filosofias pessoais.
  • A Prole de Belial são membros que se dizem demônios saídos do próprio inferno, servidores de entidades do submundo.
  • VII é grupo de vampiros anarquistas que se regozijam com a destruição de outros membros.

Um ponto interessante a ser ressaltado é o fato dos vampiros nesse cenário não terem lembranças concretas de seu passado. Devido aos pesadelos e a perda de mémoria provocada pelo Torpor, a própria origem dos malditos é perdida, dando abertura para que as coalizões criem seus mitos sobre a origem dos amaldiçoados e tentem convencer os outros membros de que somente as suas lendas e mitos estão corretos.

Mesmo no mundo sombrio e caótico que é o Mundo das Trevas, tiveram de ser criadas regras para a preservação e convivência ente os vampiros. Apesar de cada senhor de domínio (chamado ”Príncipe“) ter permissão para emitir éditos livremente dentro dos seus próprios territórios, são as chamadas ”Tradições“ que representam o único ponto em comum que liga esses domínios entre si. Essas regras são as leis que compõem o alicerce da sociedade dos malditos. Sempre são reforçada e protegida pelos mais velhos e poderosos mortos-vivos de qualquer domínio:

  • A tradição da máscara defende que os vampiros não devem revelar sua verdadeira natureza àqueles que não pertencem ”ao sangue“.
  • A tradição da progênie rege que cada pessoa trazida ao Réquiem é responsabilidade de seu criador.
  • A tradição do Amaranto proíbe os vampiros de devorar o ”coração de sangue“ (como se fosse a própria alma) de outro amaldiçoado.

O segundo capítulo nos apresenta as regras de criação de personagens segundo o modelo já apresentado anteriormente no livro de regras básicas do Mundo das Trevas. Depois de criar o personagem, as informações contidas nesse capítulo devem ser trabalhadas, sendo que o clã e as linhagens de sangue com particuliaridades entre si são as mais relevantes dentre todas elas.

São os clãs que, fundamentalmente, formam as raças dos vampiros — com suas características marcantes, qualidades e defeitos. Nesse ponto, os jogadores podem adicionar seus toque pessoais e íntimos aos personagens criados. Os vampiros são divididos em cinco grandes clãs, e mesmo dentro deles, existem variações da maldição (chamadas de ”Linhagens“). Isso os torna parentes de sangue, mas ainda assim os diferencia como entidades únicas.

Os cinco grandes clãs são:

  • Deva: Emocionais, sensuais e passionais, os Daeva são os predadores hedonistas dos amaldiçoados;
  • Gangrel: Os selvagens, os inconquistados, são aqueles que tem o maior conhecimento do lado bestial da maldição dos vampiros, nunca se ligando a nada ou ninguém;
  • Mekhet: Sombrios, reservados, rápidos e sábios, são os traficantes de segredos e amantes da escuridão;
  • Nosferatu: Fortes e horripilantes, esses malditos carregam o fardo de refletir em seus corpos o horror que se esconde em suas almas;
  • Ventrue: Os lordes da noite, reis e senhores. Os Ventrue são os líderes da sociedade, quer ela aceite isso ou não.

Ainda na criação de personagens, um item que chama bastante a atenção é um dos novos méritos apresentados nesse suplemento, chamado ”Potência de Sangue“. Quanto mais velho é um vampiro, maior seu poder. Porém, todo esse poder tem seu preço — e nesse caso, ele é cobrado na habilidade de se alimentar, o item mais essencial a qualquer criatura.

Seguindo uma progressão de 1 a 10, quanto maior a potência de sangue de um membro, mais complicada se torna encontrar algo que o alimente, sendo que a partir de 7 pontos nesse mérito, uma ancião só poderá encontrar sustento se alimentando de outros vampiros.

Supondo que para cada 50 anos acordado um vampiro aumenta um ponto de potência de sangue, um vampiro com 7 pontos nesse mérito passou aproximadamente 350 anos acordado, sem nunca ter entrado em torpor durante seu Réquiem (o que, tecnicamente, reduz um ponto de potência a cada 25 anos nesse estado). Ele agora só se alimenta de vitae, no entanto, ao se alimentar desse líquido precioso, o mais velho praticamente se torna um viciado em sangue vampirico. A linha entre se tornar um assassino canibal entre os seus é muito fina e o perigo de quebrar uma tradição que seus pares se esforçam a manter (o Amaranth) também se torna muito eminente. Vale lembrar que, uma vez em torpor, as memórias são perdidas e os pesadelos serão seus únicos companheiros. Ao acordar tudo será diferente. A maldição sempre toma formas criativas de ser lembrada, afinal penitência nenhuma é sem razão.

Os poderes vampíricos (as vantagens que os amaldiçoados detém sobre os mortais e até mesmo sobre seus iguais) são reveladas ainda nessa parte do suplemento. Desde a força sobrenatural até a velocidade sobre humana, passando pelo poder de controlar massas e de se transformar em névoa. Um ponto muito interessante foi a inclusão das chamadas ”Devoções“ no final desse capítulo. Elas são combinações de determinadas ”Disciplinas“ (como são chamados os poderes vampíricos) para formarem outros poderes, aumentando ainda mais a gama de possibilidades disponíveis aos jogadores na customização dos seus personagens.

A terceira parte do livro, Regras Especiais e Sistemas, trata das possibilidades que o seu personagem pode ter para vivenciar na sua plenitude as melodias do Réquiem agora que ele já tem a sua coalizão, clã e poderes definidos.

As propriedades do sangue, como o aumento de atributos, vício de sangue e a consumação de alma de outro vampiro, assim como a possibilidade de aprisionar tanto mortais quanto imortais por meio do vitae também são mostradas em detalhes nesse capítulo.

Os estados mentais, provações e degenerações sofridas pelos amaldiçoados durante suas longas noites são um item á parte, dado o tamanho cuidado com que as explicações são passadas aos leitores — de uma forma tanto didática quando verossímil. Facilita muito aos jogadores entenderem o drama em que o jogo é baseado e o sabor que isso dá as tramas que devem ser contruídas ao redor dos personagens.

O capítulo voltado para os Narradores, Narrativa e Antagonistas, é o ápice do livro. Ele demonstra clamamente um amadurecimento tanto do jogo, quanto dos autores, que agora já estão claramente mais experientes e direcionados. É uma prova da evolução do jogo, obtido como fruto da antiga linha de jogos do Mundo das Trevas.

Recheado de informações úteis tanto a narradores novatos quanto experientes, esse capítulo pode (e deve!) ser usado até mesmo por jogadores, ávidos por ter uma compreensão maior sobre os temas adultos a serem exploraros nos jogos. Ele explica bem como fugir dos estereótipos já estabelecidos na forma de criar, interpretar e conduzir seus personagens no ambiente desse jogo nitidamente recheado de temas pesados, contraditórios, polêmicos e até mesmo imorais.

O primeiro apêndice (Linhagens e Disciplinas únicas) traz variações das maldições dos clãs apresentados no segundo capítulo. Ele demonstra como a maldição pode ser transformada para agradar tanto jogadores quanto narradores, afim de enriquecer as crônicas, sem perder de vista alguns parâmetros e a idéia central proposta pelos autores. Um jogo adulto, voltado ao horror pessoal.

O último item apresentado aos leitores é o cenário oficial do Vampiro o Réquiem, a cidade de Nova Orleans — um cenário vívido em constante alteração á despeito dos esforços dos imortais que chamam esse lugar de lar. O vai para forma como a cidade é regida por seu Princípe e Senhor Augusto Vidal, do Lancea Sanctum, e sua guerra religiosa contra todos aqueles não convertidos às suas crenças, em especial contra o Círculo da Anciã. Esse enredo foi a base da temática inicial promovida pela White Wolf durante o lançamento do livro em 2004, chamado de ”Danse de la Mort“.

Com base nisso, pode-se concluir que o livro Vampiro: o Réquiem é simplesmente uma obra de arte. Um livro indispensável para qualquer jogador da linha do novo Mundo das Trevas que aborda uma tématica extremamente adulta — algo que, pessoalmente, eu faço questão absoluta de grifar e destacar, assim como a editora que fez questão de criar uma solução belíssima para o selo de classificação na capa da versão nacional.

O livro conta com uma arte belíssima. Novamente o destaque vai para os desenhos de Brom (tambémcitado resenha do livro de coalizão Invictus), mas sem esquecer da arte incrível de Samuel Araya e Daren Bader, pelo bombardeio visual das imagens de início de capítulos.

Tecnicamente, o livro foi escrito de forma limpa, coesa e de fácil de compreender. Vampiro: o Réquiem marca uma nítida mudança de abordagem e apresentação nos livros que estão sendo lançados pela White-Wolf, mostrando um amadurecimento tanto nos temas propostos como na forma como eles serão explorados de agora em diante. Uma verdadeira prova de que jogos de temática adulta, uma vez explorados da forma correta — com moderação, engenhosidade e pensamento aberto — podem ser um passatempo tão gratificante quanto qualquer outro.


Resenha de autoria de Vasco Sagramor.

Publicado originalmente em Réquiem Brasil

Geral, Sistema janeiro 27th 2010