David Bowie – 1.Outside

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Após os álbuns com o Tin Machine, a ótima volta solo com Black Tie White Noise e o experimental Buddha of Suburbia, David Bowie começou a entrar realmente na década de 90 com um disco bem experimental, uma obra conceitual que contava a história de um assassinato, através dos diários de um detetive, Nathan Adler: 1.Outside. A grande novidade do disco era a volta de uma antiga parceria com Brian Eno. 1.Outside não foi um sucesso de vendas, mas restabeleceu Bowie no mercado provando que ainda estava vivo e com idéias.

Por Rubens Leme da Costa


Após gravar os dois últimos álbuns, Bowie reencontrou Brian Eno. Após os álbuns no final dos anos 70, os dois poucos se encontraram, embora sempre ficasse a possibilidade de voltarem um dia, a trabalharem juntos. Enquanto a parceria não acontecia novamente, Eno produziu alguns dos discípulos do cantor, sendo os mais famosos o Talking Heads e o U2.

Juntos, agora, e com a companhia de Reeves Gabrels, Mike Garson, Erdal Kizilcay e Sterling Campbell começaram a gravar em Montreux (Suíça), no dia 12 de março de 1994.

Após gravarem mais de três horas e meia de música, no Mountain Studios, começaram a decupar a obra.

Bowie conta que as sessões ocorreram de forma intensa e de maneira frenética.

Finalizado, levaram as faixas para serem mixadas no Westside Studiosm, em Londres.

O disco, no entanto, não tinha certeza alguma de ser lançado, já que Bowie estava sem gravadora e as faixas eram extremamente anti-comerciais. “Talvez ele irrite os fãs mais do que o Tin Machine”, disse Reeves Gabrels.

Bowie acabou salvando o projeto ao assinar um novo contrato com a Virgin, na América, e ainda conseguiu manter a integridade do projeto. No Reino Unido, seria editado pela BMG.

Bowie descreveu a obra como “um drama gótico não-linear”, onde vários personagens eram apresentados nas músicas.

Na verdade, não havia muito o conceito de canções, já que as músicas não apresentavam uma estrutura com refrões e versos. Bowie tinha optado por contar uma história, com mudanças constantes de tempo e estrutura.

A narrativa é centrada no detetive Nathan Adler, que investiga, no ano de 1999, um fenômeno conhecido como Art Crime, onde corpos de vítimas são mutilados para a criação de uma arte bizarra e as músicas são feitas em cima de um diário mantido pelo investigador.

O disco trazia uma forte influência de um fenômeno literário chamado cyberpunk, onde os personagens principais vivem à margem de uma sociedade futurista, solitário que são obrigados a viver em um futuro despótico, onde a tecnologia comanda as ações em mundo dominado pela tecnologia e degradação radical na ordem social.

Entre os escritores, destaca-se William Gibson. E vários filmes abordam o tema, como o revolucionário Blade Runner e Matrix.

Bowie era obcecado pela entrada em um novo século e, por isso, a história começa no dia 31 de dezembro de 1999.

Adler trabalha para o governo inglês e a história é ambientada em Londres, Oxford, além de New Jersey (EUA) e Ontario (Canadá). Adler começa pelo assassinato da jovem Baby Grace Blue, de apenas 14 anos.

O som era radicalmente diferente dos últimos álbuns, seguindo uma linha mais pesada, industrial, muito influenciado pelo Nine Inch Nails.

O disco mais parecia um pesadelo e confundiu fãs e críticas. Alguns elogiaram a volta de um Bowie criativo, ousado e cantando bem. E alguns reclamaram exatamente da ausência de melodias e canções mais acessíveis.

1.Outside foi editado em setembro de 1995 e trazia as seguintes faixas:

1. “Leon Takes Us Outside” Leon Blank – 1:25 (Bowie, Eno, Gabrels, Garson, Kizilcay, Campbell)
2. “Outside” Prologue – 4:04 (Armstrong, Bowie)
3. “The Hearts Filthy Lesson” Detective Nathan Adler – 4:57 (Bowie, Eno, Gabrels, Garson, Kizilcay, Campbell)
4. “A Small Plot of Land” The residents of Oxford Town, New Jersey – 6:34 (Bowie, Eno, Gabrels, Garson, Kizilcay)
5. “(Segue) – Baby Grace (A Horrid Cassette)” Baby Grace Blue – 1:39 (Bowie, Eno, Gabrels, Garson, Kizilcay, Campbell)
6. “Hallo Spaceboy” Paddy – 5:14
7. “The Motel” Leon Blank – 6:49
8. “I Have Not Been to Oxford Town” Leon Blank – 3:47
9. “No Control” Detective Nathan Adler – 4:33
10. “(Segue) – Algeria Touchschriek” Algeria Touchshriek – 2:03 (Bowie, Eno, Gabrels, Garson, Kizilcay, Campbell)
11. “The Voyeur of Utter Destruction (as Beauty)” The Artist/Minotaur – 4:21 (Bowie, Eno, Gabrels)
12. “(Segue) – Ramona A. Stone/I Am With Name” Ramona A. Stone and her acolytes – 4:01 (Bowie, Eno, Gabrels, Garson, Kizilcay, Campbell)
13. “Wishful Beginnings” The Artist/Minotaur – 5:08
14. “We Prick You” Members of the Court of Justice – 4:33
15. “(Segue) – Nathan Adler” Detective Nathan Adler – 1:00 (Bowie, Eno, Gabrels, Garson, Kizilcay, Campbell)
16. “I’m Deranged” The Artist/Minotaur – 4:31
17. “Thru’ These Architects Eyes” Leon Blank – 4:22 (Bowie, Gabrels)
18. “(Segue) – Nathan Adler” Detective Nathan Adler – 0:28 (Bowie, Eno, Gabrels, Garson, Kizilcay, Campbell)
19. “Strangers When We Meet” Leon Blank – 5:07 (Bowie)

Apesar de tanta reclamação, o disco rendeu algumas canções bem interessantes, como os singles Stranger When We Meet, Hallo Spaceboy e The Hearts Filthy Lesson.

Bowie também ousou na sonoridade. Ora eletrônico, ora com elementos de jazz, especialmente no piano de Mike Garson, colaborador de longa data, mostrando que buscava algo mais do que o rock.

Suas experimentações com a eletrônica lembravam os melhores momentos do álbuns Low e “Heroes”.

Bowie ficou tão animado com o resultado que, mesmo apesar das vendagens modestas – o disco chegou ao 8º lugar, no Reino Unido e 21º, nos EUA, que resolveu sair em uma longa excursão.

Os singles também tiveram vendas modestas: “The Hearts Filthy Lesson” ficou, em 35º e 92º nas paradas inglesa e norte-americana, respectivamente, enquanto “Strangers When We Meet”, ficou apenas em 39º no Reino Unido.

Com a vida mais calma, graças ao casamento com Iman, menos tenso e em ótima forma, aos 48 anos, Bowie montou uma banda com os seguintes músicos: Peter Schwartz (teclados), Reeves Gabrels (guitarra solo), Gail Ann Dorsey (baixo e vocal), Carlos Alomar (guitarra), Zachary Alford (bateria), Mike Garson (piano) e George Simms (backing vocals e teclados).

Batizada de The Outside Tour, começou em setembro, na América e se estendeu até fevereiro de 1996, pela Europa. A banda voltaria a se reunir em junho para shows no Japão, Rússia, Islândia, Dinamarca, Bélgica, França, Itália, Suíça, etc.

Alguns shows tiveram o show de abertura por um antigo ídolo de Bowie, Morrissey, que se mostrou encantado com a gentileza e simpatia de seu mentor.

Infelizmente, alguns apresentações foram canceladas por alguns problemas de saúde do ex-líder dos Smiths.

Outra banda usada nos shows de abertura foi o Nine Inch Nails e as apresentações mostravam um David excitado, com muita disposição e uma banda afiada, bem longe do cantor entediado no final dos anos 90.

Bowie havia feito um pacto consigo mesmo de que daria a volta por cima em sua carreira-solo, após discos constrangedores nos anos 80. E começava a pagar a promessa. Em alta, algumas canções ganharam remixes especiais, como é o caso de Pet Shop Boys com “Hallo Spaceboy”.

A turnê deu ao cantor nova visibilidade e ele não se incomodou em fazer um longo trabalho de entrevistas, aparições em programas de rádios e foi capa de várias revistas. Bowie estava, novamente, na moda.

E havia a música. Vários bootlegs foram editados dos shows e um deles tem minha predileção até hoje: Stage 1.Hurling Disdain, um cd duplo gravado na Philadelphia, Wembley Stadium e Earls Court.

Uma qualidade sonora impressionante, performances arrasadoras, ainda que uma faixa ou outra se repita e um curioso dueto com a baixista Gail Ann Dorsey, em “Under Pressure”, relembrando o que havia feito com Annie Lennox no tributo a Freddie Mercury. Sem contar a releitura de “The Man Who Sold the World”, apresentada à nova geração pelo Nirvana.

Bowie estava de volta e com novos e ousados projetos. Mas isso é papo para outro dia. Um abraço e até a próxima coluna.

VÍDEO – DAVID BOWIE – THE HEART’S FILTHY LESSON

VÍDEO – David Bowie – Ramona A. Stone (I am with Name)

httv://www.youtube.com/watch?v=i4zNIafhQcM

Discografia

David Bowie (1967)
Space Oddity (também conhecido como Man of Words/Man of Music, 1969)
The Man Who Sold The World (1971)
Hunky Dory (1971)
The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars (1972)
Aladdin Sane (1973)
Pin Ups (1973)
Diamond Dogs (1974)
David Live (1974)
Young Americans (1975)
Station to Station (1976)
ChangesOneBowie (1976)
Low (1977)
“Heroes” (1977)
Stage (1978)
Prokofiev’s Peter and the Wolf (1978)
Lodger (1979)
Scary Monsters (And Super Creeps) (1980)
ChangesTwoBowie (1981)
Christiane F. Win Kinder (trilha sonora, 1982)
David Bowie in Betrtort Brecht’s Baal (1982)
“Peace on Earth” /“Little Drummer Boy” (com Bing Crosby, 1982)
Ziggy Stardust: The Motion Picture (1983)
Let’s Dance (1983)
Golden Years (1983)
Love You Till Tuesday (1984, gravado em 1969)
Tonight (1984)
Never Let Me Down (1987)
Tin Machine (1989)
Sound and Vision (1989)
ChangesBowie (1990)
Tin Machine II (1991)
Oy Vey, Baby (1992)
Black Tie White Noise (1993)
Singles: 1969-1993 (1993)
Buddha of Suburbia (1994)
1.Outside (1995)
Earthling (1997)
The Best of David Bowie 1969/1974 (1997)
The Best of David Bowie 1974/1979 (1998)
“hours…” (1999)
Singles Collection (1999)
Bowie at the Beeb: The Best of the BBC Radio Sessions (2000)
London Boy (2001)
Heathen (2002)
Reality (2003)

História janeiro 30th 2010