tecelãs“A tecelã do Universo está entre o céu e a terra, o seu poder é infinito. Ela constrói, desfaz, fia, captura e renova a sua teia, por isso, ela é um símbolo das forças que mantém a estabilidade cósmica. Inspira a visão, a coragem para transformar os nossos sonhos em realidade, tecer os nossos desejos.”

Essa é uma pequena homenagem ao conto “A moça tecelã” de Marina Colasanti e também à heroína da Demanda do Santo Graal, que seria irmã ou prima de Persival e é aquela que auxilia Galaaz nas aventuras que o conduzirão ao Santo Cálice. Em alguns trechos ela é citada como a Donzela Tecelã, pois fez com seu próprio cabelo uma cinta extraordinária que poderia suportar uma espada encantada que levou seu nome. Ela é a primeira que chama Galaaz para a missão e o estimula com suas palavras de sabedoria. Sua terceira participação na missão se dá através de suas lágrimas de sangue que curam uma castelã de uma misteriosa doença e assim cumpre uma profecia.

Seus feitos representam sabedoria, habilidade e sacrifício e constitui o ideal feminino heroico da época. Sem grandes feitos em batalha ou demonstrações de força física, ela é uma heroína a sua maneira.

No domínio do fuso e da roca, a Moça do conto de Colasanti e a Donzela do Graal usam suas habilidades de forma diversa. Enquanto a Donzela representa o ideal de abnegação e dessa forma mostra sua força, a Moça Tecelã de Marina Colasanti representa um ideal feminino moderno, em que a mulher aprende a dizer não, e a tomar seu próprio destino em suas mãos.

Ainda que calcada em preceitos cristãos de abnegação, a donzela do graal também escolhe seu destino,  sua abnegação e sua força de vontade se constroem em torno de um ideal que é a sua vida e sua morte.

O ato de fiar, em si, é símbolo do destino, constitui uma alegoria da vida e da morte, como nas gregas parcas fiandeiras, que fiam, medem e cortam o fio da vida. O ato de fiar é associado ao ato da criação, de atar, de unir e integrar, mas também de romper. Por isso a Moça Tecelã toma o tear, inverte os pentes e desmancha o que teceu, para tomar novamente em suas mãos o seu destino que saiu de controle, enquanto ela dizia apenas sim às vontades de outros e negava as suas próprias vontades e desejos. Assim, há tempo de tecer e de atar, mas também há tempo de cortar e de romper. É isso que nos ensina a sabedoria das fiandeiras. É preciso saber a hora de renovar os fios e cortar os nós que nos tolhem a liberdade.