Higo, a esposa salgueiro

Em certa aldeia japonesa, existia um grande salgueiro. Era amado por gerações sucessivas. No verão era um lugar de descanso, onde, após o trabalho e o calor do dia, as pessoas se reuniam para conversar até que a luza da lua se infiltrasse entre seus galhos. Nos dias de inverno lembrava um enorme guarda-chuva coberto de neve. Heitaro, um jovem lavrador, morava muito perto dessa árvore e, mais que qualquer…

Dama Branca e Dama Amarela

Há muito tempo atrás, cresciam lado a lado, em uma campina, um crisântemo branco e um crisântemo amarelo. Certo dia, um velho jardineiro os viu e se apaixonou pela dama Amarela. Ele lhe disse que se ela quisesse acompanhá-lo, ele faria ainda mais bela e lhe daria comida delicada e lindas roupas para usar. A dama Amarela sentiu-se tão atraída pelo que o velho jardineiro japonês dizia, que esqueceu-se de…

O homem nu – Fernando Sabino

Ao acordar, disse para a mulher: — Escuta, minha filha: hoje é dia de pagar a prestação da televisão, vem aí o sujeito com a conta, na certa.  Mas acontece que ontem eu não trouxe dinheiro da cidade, estou a nenhum. — Explique isso ao homem — ponderou a mulher.

A Ultima Crônica – Fernando Sabino

A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz…

Homem que é homem – Luís Fernando Veríssimo

Homem que é Homem não usa camiseta sem manga, a não ser para jogar basquete. Homem que é Homem não gosta de canapés, de cebolinhas em conserva ou de qualquer outra coisa que leve menos de 30 segundos para mastigar e engolir. Homem que é Homem não come suflê. Homem que é Homem — de agora em diante chamado HQEH — não deixa sua mulher mostrar a bunda para ninguém,…

Os moralistas – Luís Fernando Veríssimo

— Você pensou bem no que vai fazer, Paulo? — Pensei. Já estou decidido. Agora não volto atrás. — Olhe lá, hein, rapaz… Paulo está ao mesmo tempo comovido e surpreso com os três amigos. Assim que souberam do seu divórcio iminente, correram para visitá-lo no hotel. A solidariedade lhe faz bem. Mas não entende aquela insistência deles em dissuadi-lo. Afinal, todos sabiam que ele não se acertava com a…

A aliança – Luís Fernando Veríssimo

Esta é uma história exemplar, só não está muito claro qual é o exemplo. De qualquer jeito, mantenha-a longe das crianças. Também não tem nada a ver com a crise brasileira, o apartheid, a situação na América Central ou no Oriente Médio ou a grande aventura do homem sobre a Terra. Situa-se no terreno mais baixo das pequenas aflições da classe média. Enfim. Aconteceu com um amigo meu. Fictício, claro.

O recital – Luís Fernando Veríssimo

Uma boa maneira de começar um conto é imaginar uma situação rigidamente formal — digamos, um recital de quarteto de cordas — e depois começar a desfiá-la, como um pulôver velho. Então vejamos. Um recital de quarteto de cordas.