“A alma do filósofo habita na sua mente, a alma do poeta habita no seu coração, a alma do cantor habita na sua garganta, mas a alma da dançarina habita em todo o seu corpo.”¹

Provérbio das Dançarinas da Deusa Lua

“A deusa não está mais entre nós. Onde está à senhora da roda de prata?”²

Prece lamento das Dançarinas da Deusa Lua

“Tu, cuja luz suave clareia o caminho dos viajantes e nutre as sementes escondidas sob a terra;

Eu Te invoco

Com todas as cerimônias que Te foram dedicadas,

Por ti Mãe, este universo é gerado e nosso mundo criado

Pois tu és a força criadora, o escudo protetor e o poder destruidor

Venha a mim e me traga repouso e paz.”3

Prece sagrada das Dançarinas da Deusa Lua

Todas as dakinis, dançarinas da Deusa Lua, do templo da cidade de Aliora, proclamam a prece sagrada antes de iniciaram o ritual, que é feito todas as noites de lua cheia, no templo dedicado à deusa. Nossa cerimônia é feita em memória da Deusa e representa nosso anseio de que ela retorne. Até o momento, infelizmente, nossas súplicas têm sido em vão. Todos, é claro, ansiamos pelo retorno de nossa Mãe que mesmo ausente é sempre lembrada e reverenciada.

Nossa arte é um convite a cortar as amarras, ilusões e limitações. Quando dançamos em êxtase com a beleza da verdade divina, honramos a sabedoria feminina com paixão e desejo. Nossa dança evoca o movimento da energia no espaço e no céu, que tanto representa o potencial de todas as manifestações, quanto à impermanência e o vazio de todos os fenômenos.

Assim, mais uma noite a lua desponta no céu de Aliora. Reunimo-nos no pátio, e reverenciamos a deusa diante dos sacerdotes e sacerdotisas. Minha mãe e meu pai estão entre eles. Meus irmãos e minha irmã estão entre os guardas do templo. Meus pais escolheram o que cada um de nós seria, e que função desempenharia quer no templo ou na cidade. Minha irmã gêmea Arthedain, foi escolhida para ser guerreira e guardiã do templo, eu para ser uma dakini, dançarina ritualística. Eu amava muito a Arthedain e ela também a mim. Quando crianças, brincávamos juntas e partilhávamos nossos gostos. Estávamos sempre próximas, mais do que de qualquer de nossos outros irmãos. Assim, eu sabia muito bem que Arthedain desejava dançar e eu desejava ser guerreira. Mas como nenhum de nossos irmãos teve direito a escolha, não julgamos propício impor nossa vontade. Na verdade, quando não estávamos treinando continuávamos juntas, e eu ensinava a Arthedain a arte da dança e ela me ensinava a arte da guerra.

Um dia pensei na possibilidade de unir as duas e criar uma arte única. Seria meu oferecimento a deusa Mãe Lua, pois ao lado da mãe suave e dadivosa que nos oferta a vida, também existe a sombra da mãe terrível, aquela que pune o mal e afasta a injustiça.

Tanto a espada da destruição como o lótus da compaixão, fazem parte do caminho da busca de nossa Mãe. Foi isso que eu ouvi de uma sacerdotisa que visitou nosso templo durante a Lua Crescente. Pela primeira vez tomei consciência de que aquilo que eu buscava não era estranho, nem mesmo algo novo. Havia a Dança da Lua como eu a conhecia, mas existia outra dança onde eu poderia invocar a natureza feminina guerreira, encontrada nos campos de batalha. A impiedosa fúria feminina que sempre deixa um rastro de destruição por onde passa, castigando os maus e trazendo a justiça.  Às vezes essa natureza servia a uma divindade, ajudando os seus discípulos a superar obstáculos na sua evolução espiritual.

Perguntei a ela como poderia dominar essa arte. Ela me respondeu que em primeiro lugar eu precisava libertar-me da opressão que se assenhoreava de minha alma, pois eu não estava sendo sincera nem comigo nem com aqueles que estavam ao meu redor. Havia sujeitado minha vontade ao desejo de outros, e com isso não estava honrado a arte com minha paixão e desejo. Eu precisava junto com minha irmã, contar a nossos pais o que realmente desejávamos fazer. Ela aconselhou-me a meditar e pensar no que eu realmente desejava.

Assim, passei a noite meditando no templo e adormeci. À noite, sonhei com a resposta às minhas preces. Uma longa estrada se estendia a minha frente, em suas laterais a princípio, eu nada via. Parecia tudo vazio e silencioso. Tive um sentimento de ausência muito forte, quase como uma saudade, mas eu não sabia de que. Estava frio e o vento me enregelava os ossos, me envolvendo em um abraço não desejado.

A estrada à minha frente agora se assemelhava à lâmina afiada de uma espada. Era difícil, na verdade quase impossível de atravessar. Mas ao final da lâmina, eu divisei o brilho da esfera de prata, e ao olhar para ela, o vento gélido que soprava, tornou-se morno e cálido. Após esse sonho eu despertei.

Quando amanheceu procurei a sábia sacerdotisa que nos visitava, mas ela havia partido, então procurei minha irmã. Ela ainda almejava dançar no templo, e assim ela o fez, depois de conversar com nossos pais, mas minha vontade já mudara. Meu pedido a meus pais era ainda mais difícil, pois eu almejava agora realizar uma peregrinação em busca da Deusa Lua. Teria que deixar minha cidade e partir em uma busca que muitos já haviam tentado.

Antes eu precisava preparar-me e tornei-me uma guerreira como inicialmente pretendia. Entretanto, eu buscava agora fundir as duas artes que eu passara a amar: a dança e a espada.

Assim que eu julguei estar mais preparada, eu parti, despedi-me daqueles que eu amava e iniciei minha busca, minha jornada.

O motivo do desaparecimento da deusa é um mistério conhecido por poucos, infelizmente os meios de trazê-la de volta não parecem ser conhecidos por ninguém.

Minha busca é claro iniciou-se em Dawntair, a capital, onde está o castelo que o Sol e a Lua fizeram quando se uniram. O Deus Sol ainda governa no castelo, procurando reinar da mesma forma como era na presença de sua amada Lua.


Prelúdio de Aistana, Guerreira Dervixe (Para D&D 3.5) – Um prelúdio é basicamente a história do personagem que se vai interpretar em um jogo. Suas motivações, anseios e sua história de vida. Ter um bom prelúdio é essencial para uma boa interpretação de personagem no RPG, além de ser uma excelente motivação para se jogar.

1- Kalil Gibran, conto do livro “O Viajante”.

2- Adaptação de Apuleio, “O asno de Ouro” e Hino a Deusa Kali

3- Idem.