Álvares de Azevedo

Alvares de Azevedo

Álvares de Azevedo (1831 – 1852) é um dos vultos exponenciais do Romantismo brasileiro. Embora tenha morrido aos vinte anos, produziu uma obra poética de alto nível, deixando registrada a sua incapacidade de adaptação ao mundo real e sua capacidade de elevar-se a outras esferas através do sonho e da fantasia para, por fim, refugiar-se na morte, certo de aí encontrar a paz tão almejada. Grande leitor, Álvares de Azevedo parace ter “devorado” tantos os clássicos como os românticos, por quem se viu irremediavelmente influenciado. Embebedando-se na dúvida dos poetas da geração do mal du siècle, herdou deles o pendor do desregramento, para a vida boêmia e para o tédio. Contrabalança a influência de Byron com os devaneios de Musset, Hoffman e outros.

Ô Byron – que ourives desta terra de formigas e caipiras poderia transformar crânios humanos em taças?…

Lira dos Vinte Anos, única obra preparada pelo autor, é composta de três partes. Na primeira, através de poesias como “Sonhando”, “O poeta”, “A T…” surge o poeta sonhador em busca do amor e prenunciando a morte. Nas poesias citadas, desfila uma série de virgens sonhadoras que ajudam a criar um clima fantástico e suavemente sensual. Por outro lado, em poemas como “Lembranças de morrer”, ou “Saudades” surge o poeta que percebe estar próximo da morte, confessa-se deslocado e errante, deixando “a vida como deixa o tédio/ Do deserto, o poento caminheiro”. A terceira parte de A Lira, praticamente é uma extensão da primeira e, portanto, segue a mesma linha poética. É na segunda parte que se encontra a outra face do poeta, o poeta revoltado, irônico, realista, concreto que soube utilizar o humor estudantil e descompromissado. Esta segunda parte abre-se com um prefácio de Álvares de Azevedo que adverte “Cuidado leitor, ao voltar esta página!”, pois o poeta já não é o mesmo: “Aqui dissipa-se o mundo visionário e platônico.” Algumas produções maiores do poeta aí estão como “Idéias íntimas” e “Spleen e charutos”, poesias que perfeitamente bom-humor, graciosidade e uma certa alegria. Deixa-se levar pelo deboche em “É ela!, É ela!, É ela!, É ela!” , em que revela sua paixão pela lavadeira; em “Namoro a cavalo”, registrando as intempéries por que passa o namorado para encontrar sua amada que mora distante.
Resta lembrar que a obra de Álvares de Azevedo apresenta linguagem inconfundível, em cujo vocabulário são constantes as palavras que expressam seus estados de espírito, a fuga do poeta da realidade, sua busca incessante pelo amor, a procura pela vida boêmia, o vício, a morte, a palidez, a noite, a mulher… Em “Lembrança de morrer”, está o melhor retrato dos sentimentos que envolvem sua vida, tão próxima de sua obra poética: “Descansem o meu leito solitário/ Na floresta dos homens esquecida,/ À sombra de uma cruz e escrevam nela:/ – Foi poeta, sonhou e amou na vida.”

Manuel Antônio Álvares de Azevedo nasceu a 12 de setembro de 1831 em São Paulo, onde seu pai estudava, transferiu-se cedo para o Rio de Janeiro. Sensível e adoentado, estudou, sempre com brilho, nos Colégios Stoll e Dom Pedro II, onde foi aluno de Gonçalves de Magalhães, introdutor do Romantismo no Brasil. Aos 16 anos, ávido leitor de poesia, muda-se para São Paulo para cursar a Faculdade de Direito. Torna-se amigo íntimo de Aureliano Lessa e Bernardo Guimarães, também poetas e célebres boêmios, prováveis membros da Sociedade Epicuréia. Sua participação nessa sociedade secreta, que promovia orgias famosas, tanto pela devassidão escandalosa, quanto por seus aspectos mórbidos e satânicos, é negada por seus biógrafos mais respeitáveis. Mas a lenda em muito contribuiu para que se difundisse a sua imagem de “Byron brasileiro”. Sofrendo de tuberculose, conclui o quarto ano de seu curso de Direito e vai passar as férias no Rio de Janeiro. No entanto, ao passear a cavalo pelas ruas do Rio, sofre uma queda, que traz à tona um tumor na fossa ilíaca. Sofrendo dores terríveis, é operado – sem anestesia, atestam seus familiares – e, após 46 dias de padecimento, vem a falecer no Domingo de Páscoa, 25 de abril de 1852.
Depois da sua morte surgiram as Poesias (1853 e 1855), a cujas edições sucessivas se foram juntando outros escritos, alguns dos quais publicados antes em separado. As obras completas, como as conhecemos hoje, compreendem: Lira dos vinte anos; Poesias diversas, O poema do frade e O conde Lopo, poemas narrativos; Macário, “tentativa dramática”; A noite na taverna, contos fantásticos; a terceira parte do romance O livro de Fra Gondicário; os estudos críticos sobre Literatura e civilização em Portugal, Lucano, George Sand, Jacques Rolla, além de artigos, discursos e 69 cartas. Preparada para integrar As três liras, projeto de livro conjunto de Álvares de Azevedo, Aureliano Lessa e Bernardo Guimarães, a Lira dos vinte anos é a única obra de Álvares de Azevedo cuja edição foi preparada pelo poeta. Vários poemas foram acrescentados depois da primeira edição (póstuma), à medida que iam sendo descobertos.


OBRAS

Poesia

Lira dos Vinte Anos (1853); Conde Lopo (1866); Poema do Frade; Pedro Ivo.

Conto

A noite na Taverna (1855).

Teatro

Macário (1855).


FONTES

Bibliografia sobre o autor

ASSIS, Machado de. Lira dos Vinte Anos, poesias de Álvares de Azevedo. In: ___ Crítica literária. Rio de Janeiro: W. M. Jackson, 1957. p.108-113. (Obras completas de Machado de Assis, 29).

AZEVEDO, Álvares de. Álvares de Azevedo. Sel. notas, est. biogr. hist. e crít. Bárbara Heller, Luís Percival Leme de Brito e Marisa Lajolo. São Paulo: Abril Educação, 1982. (Literatura comentada).

___. Os melhores poemas. Org. Antonio Candido. São Paulo: Global, 1985. (Os Melhores poemas, 13).

___. Poemas malditos. Apres. Hilton Rocha. 3.ed. Rio de Janeiro: F. Alves, 1988. (Clássicos Francisco Alves).

___. Poesia. Org. Maria José da Trindade Negrão. 6.ed. Rio de Janeiro: Agir, 1984. (Nossos clássicos, 7).

CANDIDO, Antonio. Álvares de Azevedo, ou Ariel e Caliban. In: ___. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. 6.ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 1981. v.2, p.178-193.

___. Cavalgada ambígua. In: ___. Na sala de aula: caderno de análise literária. 3.ed. São Paulo: Ática, 1989. p.38-53.

CAVALHEIRO, Edgard. Álvares de Azevedo. São Paulo: Melhoramentos, s.d. (Grandes vultos das letras, 7).

CESAR, Ana Cristina. “Guia Semanal de Idéias.” In: ___. Cenas de abril. In: ___. A teus pés. 7.ed. São Paulo: Brasiliense, 1992. p.78-79.

FARIA, Maria Alice de Oliveira. Astarte e a aspiral: um confronto entre Álvares de Azevedo e Alfred de Musset. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1973.

Links

Panorama da Poesia: Álvares de Azevedo
Academia Brasileira de Letras: Álvares de Azevedo