Aristóteles

Educação:

Para Aristóteles a educação parte da imitação e visa levar o educando a adquirir hábitos que formarão nele uma segunda natureza. Nesse processo o educador deve expor o assunto, fazer com que o educando retenha aquilo que foi exposto, e, enfim levá-lo a relacionar os diversos conhecimentos adquiridos à custa de exercícios. Trata-se de uma educação que leva em consideração todas as faculdades que integram a natureza humana, para que o educando alcance a finalidade específica de sua existência, a felicidade. Segundo Aristóteles a educação deve ser pública e comum, porque só o estado pode garantir a formação adequada.
Aristóteles defendia que a função principal da educação era conduzir o homem à felicidade. A sua filosofia da educação, apresentada na Política, constitui no entanto uma fraca evidência do que se passava a nível do Liceu. Em primeiro lugar, as perspectivas educacionais para que Aristóteles aponta são somente aplicáveis numa comunidade politicamente ideal, em que a educação seria apoiada e estritamente regulamentada pelo estado ao contrário do que se passava em Atenas, onde, como sabemos, as instituições escolares eram privadas. Em segundo lugar, na Política, Aristóteles refere essencialmente a estruturação da educação elementar e pré-elementar, níveis de ensino estes que não são contemplados pela sua escola.
Segundo Aristóteles, o ser humano ao nascer é como um rio sem leito, que não sabe para onde vai e que a educação, ao longo do seu amadurecimento, deve guiar. Aristóteles aceita a educação tradicional grega, considerando no entanto que esta deve ensinar conceitos úteis e necessários à vida prática. Por outro lado, Aristóteles defende que a virtude moral e o bom carácter também devem ser ensinados, considerando que tais atributos não eram inatos no ser humano.

O Liceu de Aristóteles

A escola de Aristóteles foi fundada cerca de cinquenta e dois anos depois da Academia (de Platão), no bosque consagrado a Apolo Lykeios num subúrbio a leste de Atenas. A escola foi instalada em várias casas, construídas num grande parque plantado de árvores que Aristóteles alugou para o efeito, já que, como estrangeiro, não lhe era permitida a compra de propriedades.

O local já constituía, desde os finais do século V a.C., um centro educacional de grande relevo, pois era aí que se encontrava um dos três gymnasia de Atenas, conhecido como Lyceum, onde os atenienses se deslocavam para exercitar as suas capacidades físicas e encontrar divertimento e instrução. Como tal, era um lugar de eleição para as prelecções dos sofistas e de Sócrates.

A designação Lyceum para a escola de Aristóteles está obviamente relacionada com a sua localização próxima do templo dedicado à Apolo Lykeios.Contudo, a escola recebeu ainda outra designação: a de escola peripatética ou simplesmente Peripatos. O nome Peripatos designava cada um dos caminhos cobertos que se encontravam nas imediações do Lyceum. Como Aristóteles tinha por hábito ensinar os seus discípulos enquanto todos andavam ao longo dos peripatos, poderá ter sido essa a razão que levou a designar os membros da escola de peripatetikoi e a escola como Peripatos

Quando Aristóteles fundou em 335 a.C. a sua escola, ao regressar a Atenas, já possuía uma experiência educacional considerável, pois já tinha ensinado na Academia, e provavelmente nalguns locais por onde passou anteriormente, como Assos e Mitilene.

Em 335 a.C., a Academia estava sob a liderança de Xenócrates. Tem sido colocada a hipótese de a fundação do Liceu por Aristóteles ter resultado de uma atitude de oposição face à Academia. No entanto, existe também a possibilidade de o Lyceum constituir uma ramificação da própria Academia, cooperando com esta com base em laços cordiais e de amizade. Dado que não existe uma base que permita enveredar em absoluto por um destes motivos, as razões que guiaram Aristóteles na fundação da sua escola e as relações existentes entre a Academia e o Lyceum permaneceram por esclarecer.

Contudo, é claro que o Lyceum de Aristóteles foi uma instituição muito diferente da Academia, nomeadamente porque os interesses filosóficos do seu fundador tinham mudado a ponto de deixarem de ser compatíveis com o tipo de comunidade que caracterizava a sua escola de origem.

Todas as manhãs, Aristóteles passeava com os seus alunos ao longo do peripatos, e com eles discutia as questões filosóficas mais profundas. À tarde, expunha assuntos de menor dificuldade para uma audiência mais vasta. Os cursos da manhã, ditos esotéricos ou acroamáticos, destinavam-se a um grupo menor e mais restrito de discípulos, mais adiantados, e incidiam sobre temas mais abstractos – lógica, física e metafísica – que requeriam um estudo mais intensivo. À tarde, decorriam os cursos exotéricos ou populares, destinados ao público em geral sendo eram expostos temas de maior acessibilidade, como a retórica, a política ou a literatura.

O Liceu compreendia uma biblioteca, laboratórios, salas de conferências e talvez algumas residências. A sua vasta biblioteca era a mais completa biblioteca particular, depois da de Eurípedes ( Bonnard, 1972). O grande número de obras que a compunham terá levado à criação de princípios de classificação bibliotecária o que, por si só, constitui um valioso contributo para a cultura.

Aristóteles era pródigo na compra de manuscritos. Parecedo ter sido o primeiro a reconhecer a importância de organizar uma biblioteca como apoio a uma escola. Como beneficiava do apoio financeiro de Alexandre Magno, tal permitiu-lhe adquirir importantes colecções, em particular de botânica e de zoologia, alguns mapas e uma quantidade de objectos utilizados na ilustração das suas lições, principalmente de História Natural.

A intenção de Aristóteles era agrupar os sábios e os alunos em volta de uma biblioteca e de importantes coleções cientificas, com o intuito de assim contribuir para o progresso da ciência. A sua biblioteca serviu de modelo para a mais rica e a mais célebre biblioteca da Antiguidade, a Biblioteca de Alexandria.

A necessidade de armazenar todo o material didáctico que Aristóteles foi juntando, assim como a sua crescente biblioteca, tornou em pouco tempo o espaço de que dispunha para a instalação e usos da escola demasiado exíguo. Este problema, difícil de superar pois Aristóteles não usufruía do direito à propriedade e não podia portanto comprar terras, só foi resolvido após a sua morte, pelo seu sucessor Teofrasto.

O Liceu atingiu uma posição invejável entre as instituições atenienses. A sua fama atraia um grande número de alunos que chegou a rondar os dois mil. Com a chegada de muitos alunos ao Liceu, foi necessário estabelecer normas, algo complexas, para a manutenção da ordem. Parece que os próprios estudantes fixavam as regras e elegiam, de dez em dez dias, um colega para dirigir a escola. Uma vez por mês, realizava-se um simpósio com regras estruturadas pelo próprio Aristóteles.

Contudo, não havia uma rígida imposição da disciplina, até pelo contrário: sabe-se que no Liceu tinham lugar refeições em comum com o mestre, e que os discípulos aprendiam enquanto o acompanhavam deambulando pelos caminhos entre as árvores do Lyceum.

O Liceu Depois de Aristóteles

Quando Aristóteles deixa a sua escola partindo para Cálcis, depois de nela ter ensinado durante cerca de doze anos, esta fica ao cuidado do seu discípulo Teofrasto, que toma a direcção da escola durante cerca de trinta e cinco anos, até 287 a.C., data da sua morte.

Sob a liderança de Teofrasto, o Liceu assumiu uma faceta pública. O estado macedónico havia nomeado Demétrio, membro da escola Peripatética, como ditador de Atenas. Das ações governativas levadas a cabo por Demétrio sabe-se que ” ele desempenhou muitos e esplêndidos serviços públicos pelo seu país e enriqueceu a cidade com avenidas e edifícios” (Diogenes Laertius). De entre os planos para favorecimento da cidade, Demétrio mostrou especial interesse pelo restabelecimento do Liceu. Diz-se que, numa atitude que denota uma certa rivalidade para com a escola de Platão, teria mesmo oferecido um jardim a Teofrasto.

A fortuna pessoal de Teofrasto, sem dúvida um pré-requisito necessário para a liderança de uma escola como o Peripatos, é também evidente no seu testamento. Teofrasto não só possuía terra e dinheiro, como também menciona ao longo do documento o fato de possuir escravos. Estava pois em condições para levar a cabo obras de reconstrução de edifícios e ampliação das instalações. Sabe-se que Teofrasto organizou no Liceu um Museu, com salas de aulas, alojamentos para os alunos e professores e dependências onde era conservada a famosa biblioteca de Aristóteles.

O sucesso e o progresso na escola de Aristóteles e Teofrasto dependia em grande parte da acumulação e classificação de livros e materiais de pesquisa. Situação que, por sua vez, dependia da existência de instalações de armazenamento amplas e seguras. Dadas estas necessidades, o Liceu foi crescendo em termos de ocupação de terrenos e edifícios. Mas, a partir do momento em que perdeu mobilidade, o sucesso do Liceu passou a estar dependente da paz. A última parte do século IV a.C. e os primeiros anos do século III a.C. foram pouco pacíficos em Atenas e, como tal, a história ateniense vai revelar-se adversa aos trabalhos que Aristóteles e Teofrasto desenvolveram no Liceu. Através do testamento de Teofrasto, é possível compreender os efeitos que os eventos que decorrem em Atenas tiveram sobre a escola. Este resultado pode ser deduzido de vários pedidos que Teofrasto faz no sentido de serem feitos reparos em algumas partes do complexo escolar que haviam sido destruídas.

Por outro lado, o Lyceum estava numa posição favorável para crescer e prosperar enquanto Demétrio detivesse o poder em Atenas. Contudo, em 307 a.C. o seu reinado teve um final abrupto quando Atenas foi tomada de assalto pelo exército de Demétrio Poliorcetes, tendo o ditador peripatético sido obrigado a exilar-se.

A vingança contra a comunidade peripatética fez sentir os seus efeitos de imediato, dadas as fortes ligações com a Macedónia. O novo líder anti-macedónico quis mesmo aprovar uma lei segundo a qual todos os filósofos estavam proibidos de dirigir ou liderar escolas. Apesar desta lei se dirigir a todas as instituições de ensino superior atenienses, não resta dúvida alguma de que a sua acção visava particularmente o Lyceum. Como resultado, Teofrasto e todos os outros filósofos foram forçados a abandonar Atenas.

Contudo, nesse mesmo ano (306 a.C.) deu-se o reverso desta situação. Um aluno de Aristóteles, Filon, conseguiu demonstrar a ilegitimidade da lei e levar os atenienses a invalidá-la e a votar o regresso dos filósofos para a cidade, “para que Teofrasto pudesse voltar e viver nas mesmas condições em que tinha vivido anteriormente”. A escola Peripatética conseguiu, deste modo, sobreviver à mudança de governo que se deu em 307 a.C…

O período de esplendor do Liceu não excede o da direcção de Teofrasto a quem sucedeu Estratão, que liderou a escola de 287 a 269 a.C. No entanto, Teofrasto parece ter protegido Neleu ao entregar-lhe a biblioteca de Aristóteles que Neleu, talvez desapontado com o facto de não ter sido escolhido para escolarca, levou para a sua cidade natal. Ora. a perda da biblioteca que continha os livros de Aristóteles e de Teofrasto deve ter representado seguramente um rude golpe para uma escola inteiramente orientada para a acumulação e classificação dos conhecimentos.

Resistindo a inúmeras pilhagens e a uma destruição parcial em 84 a.C., o Liceu manteve-se ativo, pelo menos, até ao sec. III d.C.. Consta que terá sido definitivamente encerrado no ano de 529 d.C., por ordem do imperador Justiniano I.

Principais Domínios de Investigação

Toda a sua filosofia assenta numa observação minuciosa da natureza, da sociedade e dos indivíduos, organizando de uma forma verdadeiramente enciclopédica. A sua ideia fundamental era a de tudo classificar, dividindo as coisas segundo a sua semelhança ou diferença, obedecendo a um conjunto de perguntas muito simples: Como é esta coisa ? (o género). O que é que a difere doutras que lhe são semelhantes? ( a diferença). A partir daqui começava a hierarquizar todas as coisas, de uma forma tão ordenada que até então nunca ninguém conseguira fazer.

Lógica: o primeiro sistema lógico, que permitiu estabelecer um conjunto de princípios e regras formais por meio das quais se tornou possível distinguir as conclusões falsas das exactas. Na Idade Média os seus escritos sobre lógica foram os manuais mais importantes usados nas universidades, sobretudo na forma que lhes deu o filósofo português Pedro Hispano ( Papa João XXI).

Física: a física era a chave da natureza das coisas, não apenas da forma como se comportavam no presente, mas também no que pontencialmente viriam a transformar-se. Quanto à constituição das coisas defendia a teoria dos quatro elementos: agua, terra, fogo e ar. Os corpos celestes, com excepção da terra, eram constituídos por um quinto elemento puro e incorruptível. O universo é concebido de forma hierarquizada, tendo no centro a terra, girando à sua volta todos os corpos celestes.

Biologia: recusando a separação das ideias da natureza, como fazia Platão, Aristóteles, apontou como tarefa para o investigador a de descobrir e classificar as formas do mundo material. Os últimos 12 anos da sua vida foram preenchidos com esta tarefa. Partindo de uma observação sistemática dos seres vivos, e não desdenhando estudar vermes ou insectos, registou perto de 500 classes diferentes de animais, dos quais dissecou aproximadamente 50 tipos. Foi o primeiro que dividiu o mundo animal entre vertebrados e invertebrados; sabia que a baleia não era um peixe e que o morcego não era um pássaro, mas que ambos eram mamíferos.

Política: a sua primeira preocupação foi a elaborar uma listagem tão completa quanto possível sobre os diferentes modelos políticos que existiam no seu tempo. Enumerou um total de 158 constituições de cidades ou países diferentes. Partindo da sua diversidade procurou depois as suas semelhanças e diferenças, pondo em evidência o que constituía a natureza de cada regime. Evitou, quanto pode, mostrar as suas preferências por um ou outro regime político.


Fontes:

Bibliografia:

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. Filosofia da Educação. São Paulo: Moderna, 1996.

ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. Filosofando: Introdução à Filosofia. São Paulo: Moderna, 2002.

CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 1995.

MARCONDES, Danilo. Iniciação à História da Filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.

ROSA, Maria da Gloria de. A história da educação através dos textos. São Paulo: Cultrix, 1999.

Na internet:

O mundo dos Filsósofos: http://www.mundodosfilosofos.com.br
Navegando na Filosofia: http://afilosofia.no.sapo.pt/referencias.htm

3 comments

  1. Quem sabe se o método de ensino de Aristóteles não é a saída para o desinteresse dos jovens em sala de aula.

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