Arquitetura e Escultura Tumular

Túmulo de Oscar WildeApesar da aparência muitas vezes triste, os cemitérios, principalmente os mais antigos, podem guardar ricas surpresas para quem se dispõe a procurar. Alguns constituem verdadeiras galerias de arte a céu aberto sendo até mesmo possível encontrarmos peças e esculturas de artistas famosos. Em países como a França e Argentina alguns cemitérios são até mesmo pontos turísticos que atraem viajantes do mundo inteiro como, por exemplo, os Cemitérios de Père Lachaise (Paris) e da Recoleta (Buenos Aires).

Eles são concorridos pontos turísticos por terem, entre seus “moradores eternos”, figuras famosas que fizeram história nas artes ou na política. Mas, com certeza, a beleza da arte tumulária presente nestes cemitérios contribuiu, e muito, para a sua fama.

No Brasil, também encontramos exemplo magníficos de arte tumulária, principalmente nos cemitérios de São Paulo, como Consolação, Araçá, Paulista e Morumbi. Também existem importantes acervos no Rio de Janeiro, na Bahia e em Pernambuco.

Entretanto, ao contrario do que ocorre em outros países, são poucos os que percorrem os cemitérios brasileiros para visitação de túmulos ilustres (com exceção do dia de finados) ou que saibam apreciar as obras de arte que estes cemitérios muitas vezes escondem.
Muitos dos jazigos presentes nestes cemitérios foram feitos por artistas europeus e com materiais muitas vezes importados, tudo com o objetivo de enaltecer o nome das famílias abastadas. Em cemitérios, como o da Consolação em São Paulo, é possível encontrar obras de artistas consagrados como Brecheret e Luigi Brizzolara, ao lado de outros não tão conhecidos, como Eugênio Pratti e Armando Zago. Muitos artistas italianos de renome deixaram um enorme acervo de peças espalhadas pelos cemitérios brasileiros, principalmente em São Paulo, e muitas destas peças só agora estão sendo identificadas.

Para se ter uma idéia, somente no cemitério do Araçá existem cerca de 80 peças catalogadas, de notório valor artístico.

O caráter individualizador do nome da família é uma das preocupações do imigrante europeu no Brasil, a partir da segunda metade do século XIX. Os cemitérios de Vila-Verde, Municipal de Curitiba, do Araçá e do Braz de São Paulo formam conjuntos de capelas e jazigos familiares, recriando aquela atmosfera doméstica dos bairros tradicionais dos imigrantes.

A comunidade representa-se, então, no todo, do divisionismo e nos hábitos das famílias usuárias, que tratam de suas capelas como se fossem prolongamentos de suas próprias casas, levando para os jazigos os mesmos arranjos decorativos que o seu nível cultural lhes permite refletir.

A preocupação do colono europeu na área de enriquecimento imediato era individualizar seu nome, através da exibição de sinais de abastança. O caráter monumental da “última morada” era, para muitos, fruto de uma ansiedade de se auto-afirmar socialmente.

No estudo dos cemitérios brasileiros, os estilos se sucedem como nas necrópoles européias, porém, com datas defasadas e submetidos às razões da disponibilidade dos materiais locais.

Há uma certa diferença entre os objetos produzidos no percurso da belle époque e os que surgiram logo após, de um estilo diferenciado, denominado art noveau. Nas principais metrópoles européias o início da art noveau tem data certa em 1890. O seu surgimento elege a máquina como instrumento de pluralização, de produção artística, capacitada para atender o consumo da decoração doméstica, trajes, e objetos de uso cotidiano até o nível da pequena burguesia urbana.

Os meios de lavor artístico adquirem soluções mecânicas, com instrumental elétrico de muito maior rentabilidade de tempo e produção. Brocas, serras e polidores elétricos, novos métodos de fundição e metalurgia possibilitam a reprodução de protótipos de objetos de criação artística, ao nível industrial.

Em relação à arte cemiterial, tais possibilidades determinam, em todos os centros urbanos de expressão e riqueza, novas e reconhecíveis características. Até então, as construções cemiteriais se valiam do trabalho artesanal e da eventualidade artística.

Com o trabalho industrial mecanizado, as fundições passaram a fornecer gradis e portões, cercaduras de ornatos, frisos, cruzes e alegorias pré-moldadas, vigas metálicas, colunatas de estruturas , etc. A estatuária não era mais trabalho do escultor, neste caso entendido como o artista criador do objeto modelado. Estatuário na linguagem do século passado, corresponde ao artesão habilitado a reproduzir em pedra os protótipos encomendados, mediante pantógrafo, brocas elétricas e produção em série.

O traço que distingüe a passagem da arte tumulária neoclássica para a da belle époque, corresponde, em primeiro lugar, à diminuição e mesmo esvaziamento da simbologia escatológica tradicional. Estas eram freqüentes, quase obrigatórias na fabricação dos marmoristas de Lisboa, tanto na representação do objeto principal, como na distribuição dos elementos alegóricos. A belle époque se despe da excessiva carga escatológica e se realiza como uma nova espiritualidade lírica, procurando impregnar, até as próprias alegorias, com uma aparência de profundo realismo, de verismo.

Por isso, logo transforma a figura alada e assexuada dos anjos da estatuária classista, em novos personagens: em anjos de procissão que parecem existir em nosso cotidiano.
Os anjos da belle époque ganham sexo, expressam a idade, brincam como crianças, refletem juventude, mas também sabem assumir, quando querem, traduzir desolação, as atitudes mais teatrais e melodramáticas.

Cemitério do AraçáO romantismo das figuras da belle époque, embora tenha uma apresentação realística, não pode ser identificado com os sinais eróticos que se manifestariam depois na arte tumulária.

São igualmente freqüentes na arte tumulária da belle époque sinais de referência e de simbolização de fortuna, do prestígio e da propriedade. A presença de alegorias pagãs, como o símbolo do deus Mércurio (ou Hermes, do Comércio), além de outras figuras mitológicas, como ninfas, também é constante.

A belle époque também não foi insensível ao enaltecimento dos produtos industrializados, substituindo o bronze pelo ferro, em muitas das esculturas.

O final do século XIX e princípio do século XX foi extremamente rico para a arte cemiterial brasileira, por reunir ao mesmo tempo, famílias com recursos financeiros e disposição para construir túmulos suntuosos, e artistas de grande talento que aqui aportaram, principalmente italianos.

São desse período, muitas das peças produzidas por Brecheret, de caráter modernista, além de outras peças que denotam sensualidade e monumentalidade, como a dos artistas Emendabili, Oliani e Nicola Muniz, todos apresentando uma riqueza de detalhes e leveza surpreendentes. A presença de nus na arte cemiterial é uma grande inovação deste período.

Nos cemitérios brasileiros não é tão fácil distinguir-se essa sucessão cronológica dos estilos, comparecendo a belle époque e art noveau, muitas vezes como mercadorias importadas, imitadas, dispostas e acumuladas ao longo das quadras. Devido à disposição, muitas vezes atrofiada de alguns cemitérios, até mesmo observar as peças torna-se um grande sacrifício. Outro fator de prejuízo é, sem dúvida, a má conservação de muitas das necrópoles brasileiras, algumas centenárias, e em estado de total abandono, numa perda irreparável de um belo patrimônio artístico nacional.

Hoje em dia, com o surgimento dos chamados “cemitérios-jardim”, a arte da escultura cemiterial praticamente está extinta. Outro fator que leva a presença cada vez mais escassa de túmulos monumentais, é o alto custo dos materiais como o mármore, ferro e bronze, além da quase inexistência de artistas que se dediquem a este tipo de trabalho.

Resta-nos portanto lutar para preservar esta verdadeiras obras de arte que ainda subsistem espalhadas pelos cemitérios brasileiros, começando por reconhecer o seu inestimável valor estético.

por Beatrix Algrave


GALERIA

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Bibliografia Consultada:

FORGANES, Rosely. Os mortos que nunca descansam. In: Caminhos da Terra, Azul, Março de 1998, Ano 07 nº3 Edição 71, p.66-71.

LANGALDE, Vincent de. Ésoterisme, Médiuns, Spirites du Père Lachaise. Paris: Vermet, Collection Cemetières de Paris et d’ailleurs, 1990.

SCAVONE, Míriam. Surpresas de bronze e mármore. In: Veja SP, : Abril, 30 de out., 1996. p. 12-19.

VALLADARES, Clarival do Prado. Arte e Sociedade nos Cemitérios Brasileiros. Brasília: MEC-RJ, 1972.