As mãos no pescoço – Alberto Morávia

A sua mulher lhe diz: Segura‑me no pescoço com as duas mãos. Não é estranho? Um homem grande e atlético como você, com umas mãos tão pequenas? Vai aperta, até me dares a volta ao pescoço com os dedos. Não tenhas medo de me machucar, quero ver se consegues dar‑me a volta ao pescoço com as tuas mãos.

Timoteo saiu da sala e foi apoiar‑se na balaustrada do terraço, frente ao mar. O alpendre, coberto de palha, erguia‑se sobre duas estacas de pinho mal descascadas, com alguns pedaços de casca presos ainda aqui e ali. Os troncos tinham aproximadamente o diâmetro do pescoço da mulher dele. Mecanicamente, Timoteo põe as duas mãos à volta de um deles, tenta juntar os dedos e não consegue. Então, descansa as mãos na balaustrada e olha o mar.

Um véu escuro e oblíquo, semelhante a um pano de cena levantado apenas de um dos lados, suspendia‑se por cima da superfície marinha, que parecia quase negra, com reflexos verdes e violetas rasgados intermitentemente por precárias cristas de espuma branca. A espuma aparecia em linhas que corriam rapidamente à tona, impelidas pelo vento, desaparecendo logo a seguir, reabsorvidas pela água. Timoteo pensou que dentro em breve haveria um temporal; tinha que se desembaraçar do corpo antes da chuva começar. Mas como faria?

Levar o corpo pelo mar adentro e deixá‑lo ao largo, com um volume pesado preso aos pés, era impossível, dada a proximidade do temporal; restava a cova. Mas tinha que se apressar, porque cavar uma cova debaixo de chuva não seria nem fácil nem agradável. A cova se encheria de água; as paredes de areia molhada desmoronariam. E a chuva lhe fustigaria, furiosamente, o rosto.

Ficou ainda a olhar por um momento o mar, cada vez mais taciturno; depois, voltou a tentar circundar a estaca com as duas mãos, esperando conseguir juntar os dedos à volta dela. Mas os dedos continuavam separados, numa e noutra mão, por um espaço de pelo menos um centímetro. Timoteo entrou de novo na sala e, de lá, dirigiu‑se à cozinha.

A mulher estava de pé diante do fogão, alta e indolente, com o seu pescoço em cone, mais largo em baixo do que em cima, claramente visível sob a massa ociosa e compacta dos cabelos densos. Timoteo olhou‑lhe o pescoço: era forte, cheio, nervoso, quase com um movimento a salientá‑lo para adiante; e, apesar disso, parecia‑lhe belo, justamente por ser tão expressivo. Mas expressivo de quê? De uma vontade de vida, cega, instintiva, obstinada e soberba.

A camisola da mulher, rasgada, estava levantada atrás, entre as nádegas redundantes: ela viera diretamente da cama para a cozinha; ainda ensonada, não se dera conta de que tinha levantado a camisola. Timoteo estendeu o polegar e o indicador em pinça e soltou as pregas da camisola com um gesto ligeiro e respeitador, procurando não tocar no corpo. Depois disse: “Agora, ele pedia para fazerem amor em cima da mesa e você cedia, hein? Mostre‑me como era.”

A mulher protestou: “Foi há tantos anos, muito antes de te conhecer. E agora ficou com essa idéia fixa.”

Timoteo insistiu: “Vai, me mostre como era.”

A vê encolher os ombros, como se dissesse: “Já que faz tanta questão!” Afastou‑se do fogão, dirigiu‑se à mesa, debruçou‑se em ângulo reto, até deitar no tampo de mármore o ventre, o peito e a face esquerda do rosto. Depois, levou as mãos atrás, levantando a camisola, descobrindo as nádegas brancas e oblongas, de forma oval. Nesta posição, surgia a fenda entre as coxas, sombreada pelos cabelos escuros. As pernas eram compridas, lisas magras como as de um rapaz. Ela continuava dobrada sobre a mesa, com as duas mãos abertas junto aos ouvidos, os olhos também abertos, como que à espera. Timoteo disse: “Você parece uma rã. E agora ele punha as mãos no seu pescoço enquanto você ficava assim deitada por cima da mesa, deitava‑se por cima de você e faziam amor?”

A mulher responde: “Sim, queria que eu me pusesse assim, estava tão obcecado por isso como você” ‑ com uma voz fatigada; depois, acrescenta passado um momento: “Se não quer fazer amor, como este mármore me machuca a barriga, vou me levantar.” Timoteo responde, em tom enraivecido: “Levante-se”; e ela obedece, puxando em primeiro lugar cuidadosamente a camisola para baixo e depois sacudindo com um movimento de cabeça os cabelos desfeitos. Timoteo olhou‑a de novo, enquanto ela, de pé, diante do fogão, vigiava a cafeteira; e verificou uma vez mais que o seu pescoço tinha uma forma cónica, ligeiramente entumescido adiante. O pescoço de uma mulher jovem e bonita que qualquer homem seria capaz de rodear com as mãos. Mas ele não conseguia; tinha as mãos pequenas demais.

A mulher disse: “o café está pronto. Comemos os biscoitos ou quer que faça torradas?” Timoteo responde: “biscoitos. Mas poderei saber onde está a enxada, aquela que tem o cabo pintado de verde?” A mulher respondeu‑lhe que estava na caixa das ferramentas. Ele vai buscá‑la e sai para o jardim.

Diante da cozinha, havia um pequeno suporte de cimento, cheio de caixas velhas de garrafas vazias e embalagens inúteis. Depois, um grande canteiro onde Timoteo tinha a intenção de pôr algumas plantas. Mais longe, ficava o declive arenoso da duna. No canteiro, por força da estiagem, o terreno arenoso mostrava‑se cinzento e frio, quase como se fosse pó.

O corpo estava ali, onde ele o pusera, durante a noite: de costas, pernas e braços abertos, cabeça lançada para trás. A falta da enxada, que ele não conseguira descobrir, apanhara terra com as mãos e espalhara alguns punhados por cima do corpo, como se tivesse querido, mais do que tapá‑lo, vesti-lo de terra.

Na realidade, mal o cobrira e apenas muito desigualmente: o rosto estava coberto mas o pescoço emergia com aquela zona levemente túmida à volta da qual os dedos dele não conseguiam fechar‑se; os seios despontavam também, saindo da terra como de um estranho corpete; o umbigo estava cheio de terra, mas a barriga saía para fora, na sua curva convexa. Timoteo empunhou o cabo da enxada e, depois, desenhou com o ferro o contorno da cova. Agora tinha que cavar dentro daquele contorno até uma profundidade de pelo menos meio metro. Começou a fazê‑lo lentamente.

A mulher apareceu à porta da cozinha e disse: “Algumas vezes, você parece mesmo louco. Esta noite, por exemplo, me fez um interrogatório do terceiro grau para saber como Girolamo e eu fazíamos amor em cima da mesa: e como ele me punha, como me dobrava e como ele me agarrava, e como me apertava o pescoço. Depois, como um louco, pega na pistola, vem aqui embaixo e mata aquele pobre cão vadio que andava farejando o lixo. Está bem porque estamos numa villa isolada; mas pensa o que seria se tivesses matado um homem! Agora pára com isso, enterre o cão mais tarde, entra e vem beber o café.” Timoteo respondeu: “quero acabar a cova antes que venha a tempestade.”

Estava escuro na cozinha; a mulher estava sentada com um olhar distraído, à mesa, pensativa. Timoteo perguntou irritado: “Poderei saber em que estava pensando?” “estou pensando naquilo que estávamos fazendo no momento em que você ouviu o cão, saiu da cama e foi buscar a pistola, exatamente como um louco.” “E o que estávamos fazendo?” “Eu tinha dito para você pôr as mãos no meu pescoço, como Girolamo fazia. Me impressionou de repente a pequenez das suas mãos. Ele era capaz de rodear‑me o pescoço com os dedos; queria ver se você também era capaz. Mas era tudo uma brincadeira. E você…” “Eu?” “Você fiz uma cara terrível… Agora me faça a vontade: levante-se e ponha as mãos à volta do meu pescoço. Mas de maneira que eu possa olhar nos seus olhos. Quero ver se você tem o mesmo olhar desta noite.”

Timoteo obedeceu, embora dizendo: “Você e essa sua obsessão de te porem as mãos à volta do pescoço.” Mas levantou‑se e pôs‑se de pé junto da mulher, rodeando‑lhe o pescoço com as duas mãos. Ela atirou a cabeça para trás e olhou‑o nos olhos: “Não, não você não tem aquele olhar terrível…”, interrompeu‑se, tirou uma das mãos de Timoteo do pescoço e beijou‑a com fervor, acrescentando por fim: “…terrível e tão lindo!”

Ele agarrou a mão esquerda e o pé esquerdo e puxou o corpo para si. Era muito pesado, mas cedeu; com o movimento, a terra que o cobria sofreu como que um terramoto: as partes mais salientes já semi‑destapadas emergiram por completo; a terra caiu do corpo em muitos grãos minúsculos. Timoteo puxou uma vez mais; o corpo rolou para a cova e, lá dentro, de lado, com a cabeça inclinada, o rosto meio escondido pelos cabelos, braços e pernas dobradas: parecia estar dormindo.

Timoteo volta a pegar na enxada e começou a atirar terra para dentro da cova, primeiro cobrindo as pernas e depois o resto até a cabeça. Queria deixar descoberto, até o fim, o pescoço que se podia agora ver de lado, do ouvido até ao peito: era a parte do corpo dela que mais o atraía, pela sua força e vivacidade soberbas, animais.

A mulher disse: “vem, não fique aí sonhando de olhos abertos. Em que está pensando? No cão? Pobrezinho, não devíamos pôr o caixote do lixo lá fora durante a noite. Sabe que esta praia está cheia de cães vadios, abandonados pelos donos quando, ao fim das férias, voltam para Roma. Anda, vem beber o café e depois vamos dar um passeio pela beira do mar, antes que venha o temporal. É tão bonito andar pela beira do mar, na areia, quando chove!”

A cova estava agora cheia de terra; mas era uma terra mole e escura e formava uma mancha visível ou porque se erguia um pouco acima do terreno plano, ou porque mostrava uma cor distinta. Timoteo hesitou, depois pisou cuidadosamente a superfície exterior da cova, até a terra ficar nivelada. A seguir, apanhou com a enxada alguma terra cinzenta e distribuiu‑a escrupulosamente por cima da cova de maneira a esconder a cor mais escura da terra há pouco removida.

A mulher disse‑lhe: “vamos.” Timoteo perguntou: “mas você não vai mudar de roupa? Ainda estás de camisola.” Ela encolheu os ombros: “E então? A camisola é uma roupa como outra qualquer”. Timoteo não disse nada e seguiu‑a fora de casa, pelas escadinhas que, entre a vegetação, levavam da duna à praia.

A cova, depois de alisada e recoberta de terra velha, deixara de ser visível. Um grande cão vadio, amarelo e castanho, apareceu vindo da duna e foi direito à cova. Farejou‑a e, depois, com alívio de Timoteo, foi alçar a perna já muito depois dela. Portanto, podia considerar‑se doravante em segurança: a cova não só não se via, mas também não “cheirava”.

A mulher caminhava à sua frente, ao longo do mar, pela areia ainda cinzenta e seca. As primeiras gotas de chuva começaram a cair na areia, cada vez mais densas. Depois, um trovão ribombou como uma enorme bala de canhão por cima da superfície vítrea e ressoante do mar. Agora a chuva, como que sacudida pelo vento frio e violento, abatia‑se em cheio sobre a mulher. Caía e fazia aderir o tecido que molhava ao corpo dela, fazendo com que a roupa deixasse transparecer a cor pálida da pele. A mulher tinha a cabeça inclinada para o ombro; um dos lados do pescoço era totalmente visível a partir do ouvido.

Ela disse‑lhe, então: “Dá‑me a volta ao pescoço, com as duas mãos. Não é estranho? Um homem grande e atlético como você, com as mãos tão pequenas? Vai, aperta, até me rodeares o pescoço com os dedos. Não tenhas medo de me machucar, quero ver se consegues dar‑me a volta ao pescoço com as suas mãos.