A CABEÇA MEXIA freneticamente, para frente e para trás. A boca besuntada de batom sugava com força o falo ereto hiper-exitado. Na estreita parte dianteira do automóvel, os dois corpos se aglutinavam em uma dança surreal. Ele, jovem e viril, retorcendo-se em espasmos. Ela, velha e decadente, estática em seu ofício. Minutos perdidos em um tempo suspenso no espaço, quando os dois seres, em uma animalidade erótica, conectavam-se sem interação.

Dorso e pernas estendidas. Respiração atonal ofegante. Um gemido prolongado, como um grito seco de terror, metamorfoseado no clímax final. Sêmen, suor, raiva e loucura ejaculados dentro da laringe. O rapaz, satisfeito e embriagado, em um êxtase primal. Lúcia, inexpressiva, mas feliz, pois era seu primeiro cliente da semana.
Lúcia tinha 50 anos. Morava em um pequeno apartamento, sem família, gatos ou amigos. Passava os dias solitária, deitada em seu sofá, assistindo televisão e se empanturrando com qualquer tipo de comida. Pesava 80 quilos mal distribuídos em uma baixa estatura. Sem traços definidos, não possuía nada de atraente ou de belo. Na verdade, seu físico era medonho, quase bizarro. Vivia na inércia, sem vícios, amante ou qualquer tipo de ambição. Seus sonhos se reduziam a uma rotina desleixada. Sua autoconsciência era incompreensível. A totalidade de sua realidade resumia-se a uma insistente indiferença, que sucumbia qualquer resquício de satisfação e prazer.
Para manter-se financeiramente, Lúcia se prostituía.
Toda a noite saía do subúrbio e direcionava-se para uma das ruas do centro da cidade, onde vendia seu corpo por qualquer trocado. Não possuía cafetão ou alguém que a auxiliasse em sua segurança. Há tempos, tinha sido banida de uma zona de prostituição por outras garotas de programa que não toleravam sua aparência e personalidade. Então, fazia ponto só, em uma rua escura, quase sem movimento, na triste esperança de que algum incauto lhe desse alguns minutos de trabalho.
Como uma estátua grega em decomposição, ficava parada em uma esquina, sorrindo e abanando para qualquer automóvel que passasse.
De vez em quando, alguns motoristas paravam inconseqüentemente. O corpo disforme, travestido em mini-saia, cinta-liga e banhas sobressaindo em uma blusa curta, não conseguia passar despercebido.
Por curiosidade mórbida lhe perguntavam o preço do programa, contemplando o aspecto surreal da obesa prostituta.
Lúcia, com olheiras profundas e olhar atônito, sem pudor passava a tabela de preços, condicionada a cada tipo de aventura que o pretendente se dispusesse.
Chupada, enrabada, metida ou punheta. Era o cardápio variado que apresentava uma infinidade de possibilidades.
Alguns apenas riam. Outros se assustavam. E uns poucos aceitavam a proposta, permitindo-se alguns minutos de selvageria sexual.
Normalmente, o programa era apenas uma chupada, pois Lúcia era a única prostituta da cidade que fazia sexo oral sem camisinha, e ainda prometia engolir a ejaculação.
Após a relação, com eflúvios de porra sendo emitidos de sua boca, agradecia os míseros trocados e continuava em sua eterna peregrinação.
Em certos dias, conseguia mais de um cliente. Mas, na maioria das vezes, apenas se mantinha plantada de pé sublimando o ato de ser comida.
Ficava, então, paralisada, perdida em devaneios fúteis, quase sem emoção.
Mastigava um pedaço de pão. Soltava alguns estribilhos de arrotos. Cantarolava algumas canções antigas. Sorria de forma patética para si mesma, olhando para os lados tentando avistar algum carro que pudesse atacar.
Para Lúcia, sua decadência nada representava, pois não possuía refinamento para expor qualquer tipo de sentimento mais complexo. Não tinha pena de si e muito menos ficava enraivecida com sua condição. De seu reflexo e imagem, absorvia apenas escárnio. De seu trabalho, expressava apenas desdém. Sua aspiração era, simplesmente, o próximo programa.
No ato de seu oficio, não imaginava um príncipe encantado. Muito menos erotizava o cliente. Estar de pernas abertas, de cu pra cima ou sugando um pau não significava nada para si. Era uma ação tão banal quanto urinar ou defecar.
Ao longo da semana não havia chupado ninguém. Apenas perambulava a esmo em um pequeno pedaço da avenida. A mínima luz que infiltrasse na rua lhe acendia uma chama de esperança. Qualquer movimento, um cão, um pedestre ou, simplesmente, o vento, lhe causava uma leve ansiedade.
Em um momento, enquanto retirava restos de corrimento de dentro da calcinha, um rapaz a abordou. Lúcia entrou no carro distribuindo sua falta de sociabilidade.O jovem infalível lhe impôs uma chupada.
Os dois corpos se aglutinaram na parte da frente do veículo. Alguns minutos. Ereção, êxtase, ejaculação cuspidos com fúria na boca da prostituta.
O rapaz, satisfeito e embriagado, em um êxtase primal. Lúcia, inexpressiva, mas feliz, pois era seu primeiro cliente da semana.
Quando Lúcia tentava sair do automóvel, o rapaz inadvertidamente a puxou com força. Com um pequeno bastão e extrema violência, começou a espancá-la, que, assustada, apenas conseguia expor sob tons de horror e angústia.
Inúmeros golpes na face em movimentos desconexos. Sangue espirrando em cacofonia. Tapas e pontapés, sem precisão, macerando o obeso corpo. Um gemido profundo para cada golpe. Interação total entre os dois seres que se digladiavam em um minúsculo espaço.
O rapaz, ensandecido, perdido em um ato de sadismo. Lúcia, aterrorizada, tentando interiorizar seus sentimentos. Satisfeito, o jovem chutou a velha para fora do automóvel, que se refugiou no chão, sem forças.
Era tarde da noite. Nenhum carro ou pedestre passavam na rua. Lúcia aos poucos se recompôs, sentindo o fluxo de dor percorrendo seus músculos.
A lua brilhava radiante, iluminando o corpo ainda possuído pela violência. Lúcia caminhou até a esquina com a roupa e seus membros des
troçados, postando-se em seu ponto. Cantarolou uma velha canção. Soltou estribilhos de arrotos. Retirou restos de corrimentos de sua calcinha. Um carro passou. Sorridente, fez um gesto. Esperançosa, sonhou com a possibilidade de alguém lhe permitir minutos de vácuo em sua existência inexistente.

Por Diego de Carvalho – diego_dcarv@yahoo.com.br – Publicado em 31/07/2005