A sombra – Hans Christian Andersen

  Nos países quentes, o sol possui um outro ardor que o nosso não tem. As pessoas tornam-se acajus. Nas regiões mais quentes ainda, chegam a ser negras. Mas foi justamente para um desses países cálidos que um sábio de nossos países frios resolveu ir. Imaginava que poderia circular por ali como em nossa pátria; mas logo se desiludiu.

O rouxinol e o Imperador – Hans Christian Andersen

SOBRE O CONTO A inspiração para o conto “O rouxinol do imperador” surgiu de um fato real. Conta-se que um homem muito importante na Suécia estava muito doente e pediu como ultima vontade que a cantora Jenny Lind fosse cantar para ele. Ela era uma cantora sueca muito famosa na época e era conhecida como “O rouxinol”. Dizem que era tão belo o seu canto que o homem depois de…

Chuva de Maio – Alberto Morávia

Um dia desses voltarei a Monte Mario, na Taverna dos Caçadores, mas irei com amigos, aqueles do domingo, que tocam acordeão e, na falta de moças, dançam entre si. Sozinho, nunca teria coragem. De noite, às vezes, sonho com as mesas da taverna, com a chuva quente de maio caindo em cima da gente, as árvores encrespadas que gotejam sobre as mesas, e entre as árvores, no fundo, as nuvens…

O diabo não pode salvar o mundo – Alberto Morávia

Sou um velho diabo, sim, muito velho, mas nem um bom diabo nem, menos ainda, um pobre diabo. Se se pensar que, nos últimos cem anos, me dediquei sobretudo ao progresso científico e que, os conhecimentos que resultaram da bomba de Hiroshima, fui eu a sugeri‑los, um a um e rapidamente, aos maiores cientistas do século, em troca das suas almas, a começar pela de Albert Einstein ‑ terá que…

Batracomiomáquia – Homero

Ao  iniciar,  rogo  ao  coro  de Helicon  que  assista  a minha  alma  para  entoar  o canto  que  recém  registrei  nas  tábuas  sobre meu  joelho  –  uma  luta  imensa,  obra marcial   plena  de  bélico  tumulto  -,  desejando  que  chegue  aos  ouvidos  de  todos  os  mortais como os  ratos se distinguiram ao atacar as  rãs,  imitando as proezas  dos gigantes  filhos da terra. Tal como entre os homens se conta, seu princípio…

A mulher da capa preta – Alberto Morávia

Na mesa, tudo está exatamente como há quatro anos, na época do seu casamento: o serviço de porcelana inglesa azul e branca, os copos de cristal da Boêmia, os talheres com os cabos de marfim, os saleiros de prata, o galheteiro de estanho, tudo está como naqueles dias já distantes. Há até as mesmas rosas na jarra de vidro verde; a mesma toalha e os mesmos guardanapos vermelhos bordados em…

Crueldade Fraternal – Marquês de Sade

Nada é mais sagrado numa família do que a honra dos seus membros, mas este tesouro chega a desbotar-se, por precioso que possa ser, e os que estão interessados em preservá-lo deverão fazê-lo encarregando-se eles próprios do papel humilhante de perseguidores das infelizes criaturas que os ofendem? Não seria razoável pôr em equação os horrores com que atormentam a sua vítima e esta lesão tantas vezes quimérica que se queixam…

Ao Deus Desconhecido – Alberto Morávia

Durante aquele inverno, encontrava‑me muitas vezes com Marta, uma enfermeira que conhecera alguns meses antes, no hospital onde estivera internado por causa de certas febres misteriosas, contraídas provavelmente na África, durante uma viagem, na qualidade de convidado especial. Pequena, baixinha, com uma cabeça encimada por densos cabelos castanho‑avermelhados encrespados e finos, apartados por uma risca no meio, Marta tinha um rosto redondo de menina. Mas uma menina, digamos, empalidecida e…

A Coisa – Alberto Morávia

Minha querida Nora, Sabe quem encontrei há pouco tempo? A Diana, você se lembra dela? Diana, a que viveu conosco no colégio das freiras francesas. Diana, a filha única daquele homenzarrão rústico, proprietário de terras em Maremma. Diana que nunca chegou a conhecer a mãe, morta ao dar à luz. Diana de quem dizíamos que, tão fria, branca, educada, saudável, com os cabelos louros e os olhos azuis e o…

O homem nu – Fernando Sabino

Ao acordar, disse para a mulher: — Escuta, minha filha: hoje é dia de pagar a prestação da televisão, vem aí o sujeito com a conta, na certa.  Mas acontece que ontem eu não trouxe dinheiro da cidade, estou a nenhum. — Explique isso ao homem — ponderou a mulher.