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	<title>Página da Beatrix &#187; Literatura</title>
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	<description>Página da Beatrix</description>
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		<title>O verdadeiro George Clooney &#8211; Luis Fernando Veríssimo</title>
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		<pubDate>Thu, 28 Jan 2010 23:02:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Beatrix</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[George Clooney]]></category>
		<category><![CDATA[Luís Fernando Veríssimo]]></category>

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		<description><![CDATA[O verdadeiro George Clooney -  por Luis Fernando Veríssimo]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Por Luis Fernando Verissimo.</p>
<p>Longe  de mim querer difamar alguém, mas acho que no caso do George Clooney o  que está em jogo é a autoestima da nossa espécie, os homens que não são  George Clooney. Todas as nossas qualidades e todos os nossos atributos,  físicos e intelectuais, desaparecem na comparação com o George Clooney.  As mulheres não escondem sua adoração pelo George Clooney. O próprio  George Clooney nada faz para diminuir a idolatria e nos dar uma chance.  Fica cada vez mais adorável, cada vez mais George Clooney. E se aproxima  da perfeição. É bonito. É charmoso. É rico. É bom ator. Faz bons  filmes. Está envolvido com as melhores causas. E que dentes! Não temos  defesa contra esse massacre. Só nos resta a calúnia.</p>
<p>Os dentes são falsos. Ali onde elas veem pomos da face irresistíveis  e um queixo decidido, há, obviamente, botox. Ele tem pernas finas e  desvio no septo. É solteiro, portanto, claro, gay. Tem casa num dos  lagos italianos, o que já é suspeito, e dizem que anda pelos seus chãos  de mármore depois do banho de espuma vestindo um longo caftan bordado e  sendo borrifado com perfumes florais pelo seu amante filipino Tongo,  enquanto seu amante italiano, Rocco, prepara a salada de rúcula  completamente nu. George Clooney bate na mãe todas as quintas-feiras. É  extremamente burro. Só leu um livro até hoje e não lembra se foi “O  Pequeno Príncipe” ou “O Grande Gatsby”. Nos filmes em que faz  personagens mais reflexivos, contratam um dublê para as cenas dele  pensando. Foi ele que propôs a demolição da Torre Eiffel porque já era  mais que evidente que não encontrariam petróleo no local. E sua sovinice  é lendária. Levou nadadeiras quando visitou Veneza, para não gastar com  táxi.</p>
<p>É notório, em Hollywood, o mau hálito do George Clooney. Quando ele  fala em algum evento público, as primeiras três fileiras do auditório  sempre ficam vazias. Atrizes obrigadas a trabalhar com ele têm direito a  um adicional por insalubridade, em dobro se houver cenas de beijo.  Outra coisa: a asa. Não adiantam as imersões em espuma na sua banheira  em forma de cisne, nem os perfumes florais borrifados, o cheiro  persiste. Sabem que George Clooney e suas axilas se aproximam a metros  de distância, e muita gente aproveita o aviso para fugir.</p>
<p>Além de tudo, tem seborreia e é republicano.</p>
<p style="text-align: justify;">
<hr />
Não sei se é mesmo do Veríssimo mas ri muito</p>
<div id="pfButton"><a href="http://www.beatrix.pro.br/index.php/o-verdadeiro-george-clooney-luis-fernando-verissimo/?pfstyle=wp" title="Print an optimized version of this web page" style="text-decoration: none;"><img id="printfriendly" style="border:none; padding:0;" src="http://cdn.printfriendly.com/pf-print-icon.gif" alt="Print"/><span style="font-size: 12px; color: #55750c;"> Print <img src="http://cdn.printfriendly.com/pf-pdf-icon.gif" alt="Get a PDF version of this webpage" /> PDF </span></a></div>]]></content:encoded>
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		<title>Abelardo e Heloísa</title>
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		<pubDate>Tue, 17 Nov 2009 17:33:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Beatrix</dc:creator>
				<category><![CDATA[Curiosidades]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[Pierre Abelard]]></category>

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		<description><![CDATA[Um pouco da história de Abelardo e Heloísa]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>&#8220;Fujo para longe de ti,<br />
evitando-te como a um inimigo,<br />
mas incessantemente<br />
te procuro em meu pensamento.<br />
Trago tua imagem em minha memória<br />
e assim me traio e contradigo,<br />
eu te odeio, eu te amo.&#8221;<br />
Carta de Abelardo a Heloísa.</em></p>
<p><em>&#8220;É certo que quanto maior é a<br />
causa da dor, maior se faz<br />
a necessidade de para ela<br />
encontrar consolo, e este<br />
ninguém pode me dar, além de ti.<br />
Tu és a causa de minha pena,<br />
e só tu podes me proporcionar conforto.<br />
Só tu tens o poder de me entristecer,<br />
de me fazer feliz ou trazer consolo.&#8221;<br />
Carta de Heloísa a Abelardo </em></p>
<div>
<div class="wp-caption alignleft" style="width: 361px"><img title="Túmulo de Abelardo e Heloisa" src="http://www.beatrix.pro.br/imagens/heloise_and_abelard.jpg" alt="Túmulo de Abelardo e Heloisa" width="351" height="447" /><p class="wp-caption-text">Túmulo de Abelardo e Heloisa</p></div>
<p>Um dos túmulos mais belos que se encontram no Pére Lachaise é o de Pierre Abélard e Héloïse, protagonistas de um trágico romance interrompido na Paris medieval do século XII. Pedro Abelardo era um filósofo que se apaixonou por Heloísa, de quem era tutor e que era 20 anos mais nova. Os dois tiveram um filho, Astrolábio, e casaram-se às escondidas. Quando o tio de Heloísa, um clérigo de Notre-Dame, soube, mandou castrar Abelardo que foi viver na abadia de St. Denis, onde continuou seus estudos. Heloise retirou-se para um convento. Mesmo distantes, os dois se corresponderam em longas e amorosas cartas, mas nunca mais se falaram pessoalmente. Hoje quase 700 anos depois, estão para sempre juntos numa tumba em estilo neogótico. Os corpos dos amantes, assim como de muitos  outros mortos célebres, foram trazidos ao Pére Lachaise para incentivar as pessoas a enterrarem seus mortos lá, pois a princípio os parisienses não aceitavam de bom grado a necrópole, localizada distante do centro numa zona de difícil acesso.</p>
<p><strong>Pierre Abélard </strong>(1079-1142) foi teólogo e filósofo francês, nascido em Le Pallet, perto de Nantes, considerado um dos maiores intelectuais do século XII com especial importância no campo da lógica, e precursor do racionalismo francês. Filho de um militar, foi discípulo de Roscelino de Copiègne e de Guilherme de Champeaux em Paris e de Anselmo de Laon (c.1070-1171). De vida atormentada e irrequieta, depois de algumas tentativas de ter sua própria escola a partir dos 22 anos, foi professor na Escola de Notre-Dame (1114-1118), primeira universidade livre da França, onde combateu as idéias de Guilherme, obrigando-o a modificá-las. No Concílio de Soisons (1121), algumas de suas teses foram condenadas e no Concílio de Sens (1140), outras foram rejeitadas e foi acusado de heresia. Foi nessa época que começou sua ligação amorosa com sua aluna de nome Héloise (1100-1164), sobrinha do cônego Fulbert, de desastrosas conseqüências . Após se apaixonar e casar secretamente, foi atacado e castrado por ordem do irado tio. Depois disto ele se tornou monge no mosteiro de Saint-Denise, onde continuou lecionando, e ela freira em um convento de Argenteuil, onde se tornou uma das mulheres mais famosas de sua época. Após o infeliz castigo, mesmo como monge, ele não deixou de ser polêmico e colecionou atritos com outros religiosos como bispos e até mesmo com seus colegas monges, criando muitos inimigos. Morreu na prelazia de Saint-Marcel, perto de Châlons-sur-Saône, onde viveu seus últimos dias de vida sob a proteção de Pedro o venerável de Cluny. Suas obras abrangiam três áreas: lógica, teologia e ética. Em seu primeiro e mais famoso livro Sic et non (1121-1122) já demonstrava sua polêmia personalidade: nele descreveu sobre 158 questões filosóficas e teológicas que dividiram opiniões. Também merecem destaque Glosas literais, Lógica nostrorum, Logica ingredientibus, Dialectica (a mais polêmica), Theologia summi boni, Commentaria in epistulam Pauli ad romanos, Expositio in hexaemeron e Ethica seu scito te ipsum e uma autobiografia <strong><a class="link1" href="http://www.fordham.edu/halsall/basis/abelard-histcal.html" target="_blank">Historia calamitatum</a></strong> ou História de minhas desventuras<a class="link1" href="http://www.fordham.edu/halsall/basis/abelard-histcal.html" target="_blank"> (clique aqui para ler a obra em inglês)</a>.<br />
Pedro Abelardo ao lado de Hugo de San-Victor delinearão um novo quadro inovador dos processos educativos. Abelardo em sua obra autobiográfica, em que narra o atormentado amor por Heloísa, põe em destaque uma nova identidade humana, mais individual, mais racional, mais livre, que se propõe também como um modelo formativo. Assim no <em>Epistolário</em> retornam o Abelardo-professor e o Abelardo-homem, carregado de dúvidas, de paixões, estimulado por um desejo de busca que põe a razão (a dialética) como instrumento chave de uma formação propriamente humana. Com o já lembrado <em>Sic et Non</em>, Abelardo, porém, consigna à Escolástica o método de estudo e de estudo racional &#8211; articulado sobre a dialética &#8211; dos vários assuntos. Com sua tomada de posição em torno da questão dos universais (os universais são conceitos de gênero &#8211; ex., humanidade &#8211; : eles existem <em>in re</em>, <em>in mente</em> ou são puros <em>nomina</em>?), que interpreta estes como conceitos (seguindo Aristóteles), tendo estatuto lógico e lingüístico, ele delineia uma concepção crítica do pensamento e da pesquisa filosófica que diz respeito à formação de um sujeito como intelectual autônomo e, justamente, crítico, já muito próximo do sujeito moderno.</div>
<div>
<p><strong>Abelardo e Heloísa &#8211; Uma História de Amor. (este trecho trata-se de um resumo romanceado sobre a história dos dois)<br />
</strong><br />
Conhecidos como os amantes imortais, ambos viveram em Paris no século XII. O romance entre Heloísa e o filósofo Pedro Abelardo iniciou-se em Paris, no período entre o final da Idade Média e o início da Renascença.</p>
<p>Abelardo havia sido transferido recentemente e nomeado professor pela Escola Catedral de Notre Dame, tornando-se, em pouco tempo, muito conhecido por admirar os filósofos não-cristãos, numa época de forte poder da Igreja Católica.</p>
<p>Heloísa, que já ouvira falar sobre Abelardo e se interessava por suas teorias polêmicas, tentou aproximar-se dele através de seus professores, mas suas tentativas foram em vão.</p>
<p>Numa tarde Heloísa saiu para passear com sua criada Sibyle, e aproximou-se de um grupo de estudantes reunidos em torno de alguém. Seu chapéu foi levado pelo vento, indo parar justamente nos pés do jovem que era o centro da atenções, o mestre Abelardo. Ao escutar seu nome, o coração de Heloísa disparou. Ele apanhou o chapéu, e quando Heloísa aproximou-se para pegá-lo, ele logo a reconheceu como Heloísa de Notre Dame, convidando-a para juntar-se ao grupo. Risos jocosos foram ouvidos, mas cessaram imediatamente quando o olhar dos dois posaram um sobre o outro. Heloísa recolocou seu chapéu, fez uma reverência a Abelardo e se retirou.</p>
<p>Desde esse encontro, porém, Heloísa não consegui mais esquecer Abelardo. Fingiu estar doente, dispensou seus antigos professores e passou a interessar-se pelas obras de Platão e Ovídio, pelo Cântico dos Cânticos, pela alquimia e pelo estudo dos filtros, essências e ervas. Ela sabia que Abelardo seria atraído por suas atividades e viria até elas. Quando ficou sabendo dos estudos de Heloísa, conforme previsto por ela Abelardo imediatamente a procurou.</p>
<p>Abelardo tornou-se amigo de Fulbert de Notre Dame, tio e tutor de Heloísa que logo o aceitou como o mais novo professor de sua sobrinha, hospedando-o em sua casa, em troca das aulas noturnas que ele lhe daria. Em pouco tempo essas aulas passaram a ser ansiosamente aguardadas e, sem demora, contando com a confiança de Fulbert, passaram a ficar a sós. Fulbert ia dormir, e a criada retirava-se discretamente para o quarto ao lado.</p>
<p>Em alguns meses, conheciam-se muito bem, e só tinham paz quando estavam juntos. Um dia Abelardo tirou o cinto que prendi a túnica de Heloísa e os dois se amaram apaixonadamente. A partir desse momento Abelardo passou a se desinteressar-se de tudo, só pensando em Heloísa, descuidando-se de suas obrigações como professor.</p>
<p>Os problemas começaram a surgir. Primeiro, esse amor começou a esbarrar nos conceitos da época, quando os intelectuais, como Heloísa e Abelardo, racionalizavam o amor, acreditando que os impulsos sensuais deveriam ser reprimidos pelo intelecto. Não havia lugar para o desejo, que era um componente muito forte no relacionamento dos dois, originando um intenso conflitos para ambos. Ao mesmo tempo Sibyle, a criada, adoecera, e uma outra serva que a substituíra encontrou uma carta de Abelardo dirigida a Heloísa, e a entregou a Fulbert, que imediatamente o expulsou. No entanto isso não foi suficiente para separá-lo.</p>
<p>Heloísa preparou poções para seu tio dormir e, com a ajuda da criada Sibyle, Abelardo foi conduzido ao porão, local que passou a ser o ponto de encontro dos dois.</p>
<p>Uma noite, porém, alertado por outra criada, Fulbert acabou por descobri-los. Heloísa foi espancada, e a casa passou a ser cuidadosamente vigiada. Mesmo assim o amor de Abelardo e Heloísa não diminuiu, e eles passaram a se encontrar onde pudessem, em sacristias, confessionários e catedrais, os únicos lugares que Heloísa podia freqüentar sem acompanhantes a seu lado.</p>
<p>Heloísa acabou engravidando, e para evitar aquele escândalo, Abelardo levou-a à aldeia de Pallet, situada no interior da França. Ali, Abelardo deixou Heloísa aos cuidados de sua irmã e voltou a Paris, mas não agüentou a solidão que sentia, longe de sua amada, e resolveu falar com Fulbert, para pedir seu perdão e a mão de Heloísa em casamento.</p>
<p>Surpreendentemente, Fulbert o perdoou e concordou com o casamento.</p>
<p>Ao receber as boas novas, Heloísa, deixando a criança com a irmã de Abelardo, voltou a Paris, sentindo, no entanto, um prenúncio de tragédia. Casaram-se no meio da noite, às pressas, numa pequena ala da Catedral de Notre Dame, sem nem trocar alianças ou um beijo diante do sacerdote.</p>
<p>O sigilo do casamento não durou muito, e logo começaram a zombar de Heloísa e da educação que Fulbert dera a ela. Ofendido, Fulbert resolveu dar um fim àquilo tudo. Contratou dois carrascos e pagou-os para invadirem o quarto de Abelardo durante a noite e arrancar-lhe o membro viril.</p>
<p>Após essa tragédia, Abelardo e Heloísa jamais voltaram a se falar.</p>
<p>Ela ingressou no convento de Santa Maria de Argenteul, em profundo estado de depressão, só retornando à vida aos poucos, conforme as notícias de melhora de seu amado iam surgindo. Para tentar amenizar a dor que sentiam pela falta um do outro, ambos passaram a dedicar-se exclusivamente ao trabalho.</p>
<p>Abelardo construiu uma escola-mosteiro ao lado da escola-convento de Heloísa. Viam-se diariamente, mas não se falavam nunca. Apenas trocavam cartas apaixonadas.</p>
<p>Abelardo morreu em 142, com 63 anos, Heloísa ergueu um grande sepulcro em sua homenagem, e faleceu algum tempo depois, sendo, por iniciativa de suas alunas, sepultada ao lado de Abelardo.</p>
<p>Conta-se que, ao abrirem a sepultura de Abelardo, para ali depositarem Heloísa, encontraram seu corpo ainda intacto e de braços abertos, como se estivesse aguardando a chegada de Heloísa.</p>
<p>Leia mais esse texto sobre um interessante livro que trata da correspondência trocada entre os dois:</p>
<p><strong>Uma história de amor: Abelardo e Heloísa </strong><br />
por Alexandre Piccolo</p>
<p><img src="http://www.beatrix.pro.br/imagens/abelardoeheloisacartas.jpg" alt="Correspondência de Abelardo e Heloisa  - Martins Fontes" width="130" height="228" align="left" />O caso de Abelardo e Heloísa é uma história de Amor das antigas, anterior a Romeu e Julieta, do século XII para ser mais preciso. Pouco sabemos de verdade sobre este amor entre professor e aluna, sequer se existiu. O livro em si, Correspondência de Abelardo e Heloísa *, além de um breve estudo inicial, nos apresenta cinco epístolas &#8211; gênero muito difundido na antiguidade latina &#8211; trocadas entre os famosos &#8220;amantes&#8221;, as quais juntas costuram um tecido de uma apaixonante colcha de casal medieval, sem rasgá-lo ou remendá-lo por completo. Ao contrário, deixam dúvidas descobertas tão atrozes que inúmeros estudos e hipóteses são bordados há quase 1000 anos. Enfim, um belíssimo texto no sentido pleno.</p>
<p>A primeira das cartas é, na verdade, uma confissão de Abelardo a um amigo. Toda a história dos infortúnios é contada longa e complacentemente: das aulas (e confusões) de filosofia que o professor ministrava nas incipientes escolas medievais, dos primeiros encontros furtivos com a bela e jovem Heloísa ao trágico episódio da castração do protagonista (sim, castração!) e o longo e conseqüente arrefecimento de uma &#8220;concupisciência literária&#8221; amaldiçoada na obra. O gênero epistolar e a tragédia da emasculação podem parecer desestimulantes ou desagradáveis (principalmente aos homens&#8230;) mas, ao contrário, a prosa é por demais envolvente e impetuosa. O tom íntimo e confessional da carta, bem como a retórica e erudição do autor &#8211; exageros de linguagem característicos destes tempos &#8220;barrocos&#8221; &#8211; cativam e inebriam, ainda que desconfiemos da soberba do protagonista em suas confissões, ora puramente arrogante, ora calorosa: &#8220;Sob o pretexto de estudar, entregávamos inteiramente ao amor. As lições nos propiciavam esses tête-à-tête secretos que o amor anseia. Os livros permaneciam abertos, mas o amor mais do que nossa leitura era o objeto dos nossos diálogos; trocávamos mais beijos do que proposições sábias. Minhas mãos voltavam com mais freqüência a seus seios do que a nossos livros. O amor mais freqüentemente se buscava nos olhos de um e outro do que a atenção os dirigia sobre o texto&#8221; [1].</p>
<p>Heloísa coloca sua colher na obra quando recebe e lê por acaso a carta endereçada ao amigo de Abelardo. Responde-lhe então com o fervor e a paixão do amor feminino, mas um amor já contido e amargurado pela desgraça dos infortúnios que lhes afligira (certamente, muito mais a ele!), um amor já em princípio de revolta, tamanha submissão religiosa por ela aceita &#8211; ambos dedicam-se à vida monástica após o fracasso amoroso. Abelardo recebe e responde a epístola de sua amada, porém ensaia uma resposta com ensinamentos de uma frieza tão grande que chega a parecer desdém aos pedidos de boa notícia que Heloísa tanto lhe rogava. Aí ela &#8220;roda a baiana&#8221; na quarta carta &#8211; um reconhecido ponto alto da obra.</p>
<p>Ela confessa-lhe um amor inimaginável, supremo e irrestrito, acima do Deus a quem ela serve por obrigação do pedido de Abelardo, unicamente como prova de amor incondicional a seu amado terreno. Assim, Heloísa profere vitupérios ao destino (a deusa Fortuna, para a cultura latina), à sabedoria, à prudentia, à temperança, à castidade e a todos os valores que lhe parecem falsos por terem lhes conduzido à infeliz ruína amorosa &#8211; resumo de sua vida conjugal. E o aparato filosófico e bíblico esquenta o conflito entre intelecto monástico e mente pecaminosa, caliente em diversas passagens: &#8220;Os prazeres amorosos que juntos experimentamos têm para mim tanta doçura que não consigo detestá-los, nem mesmo expulsá-los de minha memória. Para onde quer que eu me volte, eles se apresentam a em meus olhos e despertam meus desejos. Sua ilusão não poupa meu sono. Até durante as solenidades da missa, em que a prece deveria ser mais pura ainda, imagens obscenas assaltam minha pobre alma e a ocupam bem mais do que o ofício. Longe de gemer as faltas que cometi, penso suspirando naquelas que não pude cometer&#8221; [2]. Nem os homens nem mesmo as mulheres escapam a suas vociferações (&#8220;As mulheres não poderão então jamais conduzir os grandes homens senão à ruína&#8221; [3]) &#8211; argumento a favor da manipulação e falsidade da própria obra.</p>
<p><img src="http://www.beatrix.pro.br/imagens/stealing_heaven.jpg" alt="Capa do filme Em Nome de Deus  - título original Stealing Heaven  , do diretor Cllive Donner" width="115" height="185" align="left" />Abelardo encerra neste livro o conjunto das correspondências com uma carta consoladora. Uma espécie de tratado que defende os valores sacrossantos do matrimônio (pois resignou-se a acreditar que seu casamento fora um atentado ao pudor &#8211; ah, se eles imaginassem a lascívia do mundo de hoje&#8230;), uma contra-argumentação sólida dos pontos fortes expostos por Heloísa que se assemelha a um primeiro tratado de pura retórica. E digo &#8220;neste livro&#8221; e &#8220;primeiro tratado&#8221; pois parece haver continuação desta seqüência de epístolas, de essência puramente filosófica, diferente destas apaixonantes cartas &#8211; tema de novos tratados para um outro livro. Para os mais eufóricos com o cinema, há uma adaptação de 1988 deste caso de amor para as telas, o filme Stealing Heaven (traduzido no Brasil como Em nome de Deus), que, além das cores reluzentes, não guarda a mágica das palavras, ainda que conte quase a mesma história&#8230;</p>
<p>Há um encaixe perfeito entre as epístolas (ou coesão do conjunto, um discurso compacto e persuasivo, segundo Duby [4]) que nos faz questionar não só a autenticidade da correspondência mas também o propósito monástico de tais escritos. Há um ambiente cristão misturado a valores pagãos, o que tempera a imaginação com muito misticismo medieval. Uns se questionam: houve mesmo tamanho desencontro e sofrimento nesta tragédia, no sentido medieval do termo (ação com final infeliz), como nos lembra Zumthor no prefácio do livro. Há a valorização da tradição latina em confronto com o ideal cavaleiresco que surge no período e inúmeros outros apontamentos. Enfim, muito já se falou e ainda é possível falar sobre esta facinante história de amor de tão longes tempos. E uma infinidade de leituras permite também uma inesgotável gama de análises &#8211; proposta que foge do objetivo deste curto ensaio. Como este amor fracassou ou por quê Abelardo foi castrado? &#8211; estas ciladas da curiosidade ficam ao leitor e leitora que desejam saber mais de uma história de Amor que vale a pena ser conhecida.</p>
<p>_____<br />
* Correspondência de Abelardo e Heloísa, tradução do francês de Lúcia Santana Martins, prefácio de Paul Zumthor, ed. Martins Fontes, SP &#8211; 2000, p. 41<br />
[1] Op. cit. , p. 41<br />
[2] Op. cit., p. 119<br />
[3] Op. cit., p. 116<br />
[4] Duby, G., Heloísa, in Heloísa, Isolda e outras damas no século XII, Companhia das Letras, SP &#8211; 1995, p.68</p>
<hr /><strong>Fontes:</strong></p>
<p><strong>Na internet:</strong></p>
<p><strong><a class="link1" href="http://www.fordham.edu/halsall/source/heloise1.html" target="_blank">Medieval Sourcebook</a> <a class="link1" href="http://abelard.chez.tiscali.fr/index.html" target="_blank"></a></strong>(em inglês)<strong><br />
<a class="link1" href="http://www.aug.edu/langlitcom/humanitiesHBK/handbook_htm/heloise&amp;abelard.htm" target="_blank">The Humanities Handbook</a> <a class="link1" href="http://abelard.chez.tiscali.fr/index.html" target="_blank"></a></strong>(em inglês)<strong><br />
<a class="link1" href="http://www.humnet.ucla.edu/humnet/anthropoetics/views/view13.htm" target="_blank">Chronicles of Love and Resentment</a> <a class="link1" href="http://abelard.chez.tiscali.fr/index.html" target="_blank"></a></strong>(em inglês)<strong><br />
<a class="link1" href="http://agora.qc.ca/mot.nsf/Dossiers/Pierre_Abelard" target="_blank">L&#8217;Encyclopédie de L&#8217;Agora &#8211; Pierre Abélard</a></strong> (em francês)<br />
<strong><a class="link1" href="http://abelard.chez.tiscali.fr/index.html" target="_blank">Abelard &#8211; Filósofo e Teólogo</a></strong> (em inglês)<br />
<strong><a class="link1" href="http://www.fact-index.com/p/pi/pierre_abelard_1.html" target="_blank">Pierre Abelard &#8211; vida e obra </a></strong><a class="link1" href="http://www.fact-index.com/p/pi/pierre_abelard_1.html" target="_blank">(dicionário filosófico em inglês)</a><br />
<strong><a class="link1" href="http://historymedren.about.com/library/weekly/aa020500a.htm" target="_blank">A Medieval Love Story</a></strong></p>
<p><strong>Bibliografia:</strong></p>
<p>DUBY, George .<strong>Heloísa, Isolda e outras damas no século XII</strong>. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.<br />
CAMPI, Franco. <strong>História da Pedagogia</strong>. São Paulo: UNESP, 1999.</div>
<div id="pfButton"><a href="http://www.beatrix.pro.br/index.php/abelardo-e-heloisa/?pfstyle=wp" title="Print an optimized version of this web page" style="text-decoration: none;"><img id="printfriendly" style="border:none; padding:0;" src="http://cdn.printfriendly.com/pf-print-icon.gif" alt="Print"/><span style="font-size: 12px; color: #55750c;"> Print <img src="http://cdn.printfriendly.com/pf-pdf-icon.gif" alt="Get a PDF version of this webpage" /> PDF </span></a></div>]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>Em que crêem os que não crêem</title>
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		<pubDate>Mon, 16 Nov 2009 16:47:55 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Alguns comentários sobre o livro Em que crêem os que não crêem, que traz a correspondência trocada entre Umberto Eco e Carlo Maria Martini para a revista liberal.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="size-medium wp-image-815 alignleft" title="Em que crêem os que não crêem" src="http://www.beatrix.pro.br/imagens/emquecreem-188x300.jpg" alt="emquecreem" width="188" height="300" />Em tempos de tanta intransigência e falta de diálogo, em que tanto se fala de tolerância e respeito mas que tão pouco se pratica tais princípios,  é realmente um prazer poder ler uma obra como &#8220;<strong>Em que crêem os que não crêem&#8221;</strong>. O livro, lançado aqui no Brasil pela editora Record, trata do diálogo epistolar entre o Cardial Dom Carlo Maria Martini e o escritor  e professor Umberto Eco. A correspondência é fruto de uma iniciativa da revista liberal. Entre 1995 e 1996, as cartas foram publicadas trimestralmente em um total de oito cartas (quatro de Eco e quatro de Martini). A proposta da revista seria confrontar a visão laica e a religiosa  em temas que resultam em uma profunda reflexão sobre a ética e os valores do homem contemporâneo. Às vozes de Umberto Eco e do Cardeal Martini somam-se ainda as reflexões dos filósofos Emanuele Severino e Manlio Sgalambro, dos jornalistas Eugenio Scalfari e Indro Montanelli, além do teórico de extrema esquerda Vittorio Foa, fundador do jornal Il Manifesto, e do ex-ministro e ex-secretário do Partido Socialista Italiano Claudio Martelli. Todas estas contribuições trazem evidentemente uma riqueza ímpar ao debate. Mas para mim o grande destaque ainda são as vozes de Umberto Eco e  do Cardeal Martini, que são os solistas desse formidável dueto, aos demais cabe o papel de &#8220;coro&#8221;, mas um &#8220;coro&#8221; muito expressivo diga-se de passagem.</p>
<p>A estrutura do debate parte do principio de que não haveria um tema previamente estabelecido e que os dois teriam liberdade para tratar dos assuntos que achassem relevantes, cabendo de início sempre a Umberto Eco sugerir os temas em questão. Tal abrangência e liberdade tem muitos pontos positivos, mas negativos também. Basicamente há uma carta sugerindo e abordando um tema para debate e a essa segue-se uma réplica do outro debatedor, sem direito a tréplica. Pela abrangência dos próprios temas e o espaço cedido na revista, fica-se no mínimo com um &#8220;gostinho de quero-mais&#8221; ao final das missivas. O pouco espaço torna-se o principal ponto negativo da proposta. Entretanto, apesar disso o resultado final é muito bom.</p>
<p>Entre temas variados como &#8220;Onde têm início a vida humana&#8221;, &#8220;A obsessão laica pelo novo Apocalípse&#8221;, &#8220;Os homens e as mulheres segundo a igreja&#8221; e &#8220;Onde o leigo encontra a luz do bem&#8221;, os debatedores  tentam colocar no papel as principais dúvidas e pontos de acordo entre os leigos e os católicos.</p>
<p>O último tema relacionado aos princípios que norteam a ética laica e que é a primeira e única sugestão de tema feita pelo Cardial Martini constitui na minha opinião o ponto de destaque do livro. Confrontando a ética religiosa que busca em Deus e no absoluto a inspiração para a prática do bem e a ética laica e que busca no respeito e na relação com o outro os seus parâmetros.</p>
<p>O que mais chamou minha atenção nas cartas é o tom cordial e amigável dos missivistas, que mesmo ao tratar de temas polêmicos e em que adotam pontos de vista discordantes souberam fazê-lo de maneira admiravelmente respeitosa. Evidente que em relação a qualidade dos textos o nível é o que se esperava de dois pensadores eminentes como  professor Umberto Eco e o cardial e arcebispo emérito de Milão Dom Carlo Maria Martini, mas o exercício da dialética e da tolerância de ambos fica como um belo exemplo.</p>
<p><strong>Umberto Eco </strong>é, também, titular da cadeira de Semiótica e diretor da Escola Superior de Ciências Humanas na Universidade de Bolonha, além de colaborador em diversos periódicos acadêmicos, colunista da revista semanal italiana L&#8217;Espresso e professor honoris causa em diversas universidades ao redor do mundo. Eco é, ainda, notório escritor de romances, entre os quais O nome da rosa e O pêndulo de Foucault.</p>
<p><img class="alignnone size-medium wp-image-816" title="Umberto Eco" src="http://www.beatrix.pro.br/imagens/umbertoeco-300x196.jpg" alt="umbertoeco" width="300" height="196" /></p>
<p><strong>Dom Carlo Maria Martini</strong>, nasceu em Torino em 1927. Em 1944, entrou para a Companhia de Jesus e ordenou-se sacerdote em 1952. Em 1958, formou-se em Teologia  Fundamental pela Universidade Gregoriana de Roma. É cardeal italiano e arcebispo emérito de Milão. Foi membro da faculdade, decano e reitor do Pontifício Instituto Bíblico, nomeado em 29 de setembro de 1969. Nomeado reitor da Pontifícia Universidade Gregoriana, Roma, em 18 de julho de 1978. Único membro católico do Comitê Ecumênico para a preparação da edição grega do Novo Testamento. Em novembro de 2007 lançou junto com o Pe. Georg Sporschill o livro &#8220;Diálogos Noturnos em Jerusalem&#8221; onde em forma de entrevista discute os temas mais relevantes da atualidade da fé e os desafios de chegar aos jovens e as suas questões tão conturbadas nos dias de hoje. Atualmente é considerado uma das figuras mais liberais no topo da hierarquia católica,  e já defendeu publicamente o uso do preservativo, o aborto legal e a doação de óvulos.</p>
<p><img class="alignnone size-medium wp-image-817" title="Dom Carlo Maria Martini" src="http://www.beatrix.pro.br/imagens/cardeal_carlo_maria_martini-271x300.gif" alt="cardeal_carlo_maria_martini" width="271" height="300" /></p>
<div id="pfButton"><a href="http://www.beatrix.pro.br/index.php/em-que-creem-os-que-nao-creem/?pfstyle=wp" title="Print an optimized version of this web page" style="text-decoration: none;"><img id="printfriendly" style="border:none; padding:0;" src="http://cdn.printfriendly.com/pf-print-icon.gif" alt="Print"/><span style="font-size: 12px; color: #55750c;"> Print <img src="http://cdn.printfriendly.com/pf-pdf-icon.gif" alt="Get a PDF version of this webpage" /> PDF </span></a></div>]]></content:encoded>
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		<title>Os desastres de Sofia &#8211; Clarice Lispector</title>
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		<pubDate>Sun, 08 Nov 2009 16:41:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Beatrix</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
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		<description><![CDATA[Os desastres de Sofia - Conto de Clarice Lispector]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Qualquer que tivesse sido o seu trabalho anterior, ele o abandonara, mudara de pro­fissão, e passara pesadamente a ensinar no curso primário: era tudo o que sabíamos dele. O professor era gordo, grande e silencioso, de ombros contraídos. Em vez de nó na garganta, tinha ombros contraídos. Usava paletó curto demais, óculos sem aro, com um fio de ouro encimando o nariz grosso e romano. E eu era atraída por ele. Não amor, mas atraída pelo seu silêncio e pela controlada impaciência que ele tinha em nos ensinar e que, ofendida, eu adivinhara. Passei a me comportar mal na sala. Falava muito alto, mexia com os colegas, inter­rompia a lição com piadinhas, até que ele dizia, vermelho:<br />
— Cale-se ou expulso a senhora da sala.</p>
<p style="text-align: justify;">
Ferida, triunfante, eu respondia em desafio: pode me mandar! Ele não mandava, senão estaria me obedecendo. Mas eu o exasperava tanto que se tornara doloroso para mim ser o objeto do ódio daquele homem que de certo modo eu amava. Não o amava como a mulher que eu seria um dia, amava-o como uma criança que tenta desastradamente proteger um adulto, com a cólera de quem ainda não foi covarde e vê um homem forte de ombros tão curvos. Ele me irritava. De noite, antes de dormir, ele me irritava.</p>
<p style="text-align: justify;">
Eu tinha nove anos e pouco, dura idade como o talo não quebrado de uma begônia. Eu o espicaçava, e ao conseguir exacerbá-lo sentia na boca, em glória de martírio, a acidez insuportá­vel da begônia quando ê esmagada entre os dentes; e roia as unhas, exultante. De manhã, ao atravessar os portões da escola, pura como ia com meu café com leite e a cara lavada, era um choque deparar em carne e osso com o homem que me fizera devanear por um abismal minuto antes de dormir. Em superfície de tempo fora um minuto apenas, mas em profundidade eram velhos séculos de escuríssima doçura. De manhã — como se eu não tivesse contado com a exis­tência real daquele que desencadeara meus negros sonhos de amor — de manhã, diante do homem grande com seu paletó curto, em choque eu era jogada na vergonha, na perplexidade e na assustadora esperança. A esperança era o meu pecado maior.</p>
<p style="text-align: justify;">
Cada dia renovava-se a mesquinha luta que eu encetara pela salvação daquele homem. Eu queria o seu bem, e em resposta ele me odiava. Contundida, eu me tornara o seu demônio e tormento, símbolo do inferno que devia ser para ele ensinar aquela turma risonha de desin­te­ressa­­dos. Tornara-se um prazer já terrível o de não deixá-lo em paz. O jogo, como sem­pre, me fascinava. Sem saber que eu obedecia a velhas tradições, mas com uma sabedoria com que os ruins já nascem — aqueles ruins que roem as unhas de espanto —, sem saber que obede­cia a uma das coisas que mais acontecem no mundo, eu estava sendo a prostituta e ele o santo. Não, talvez não seja isso. As palavras me antecedem e ultrapassam, elas me tentam e me modi­ficam, e se não tomo cuidado será tarde demais: as coisas serão ditas sem eu as ter dito. Ou, pelo menos, não era apenas isso. Meu enleio vem de que um tapete é feito de tantos fios que não posso me resignar a seguir um fio só; meu enredamento vem de que uma história é feita de muitas histórias. E nem todas posso contar — uma palavra mais verdadeira poderia de eco em eco fazer desabar pelo despenhadeiro as minhas altas geleiras.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, pois, não falarei mais no sorvedouro que havia em mim enquanto eu devaneava antes de adormecer. Senão eu mesma terminarei pensando que era apenas essa macia voragem o que me impelia para ele, esquecendo minha desesperada abnegação. Eu me tornara a sua sedutora, dever que ninguém me impusera. Era de se lamentar que tivesse caído em minhas mãos erradas a tarefa de salvá-lo pela tentação, pois de todos os adultos e crianças daquele tempo eu era provavelmente a menos indicada. “Essa não é flor que se cheire”, como dizia nossa empregada. Mas era como se, sozinha com um alpinista paralisado pelo terror do precipício, eu, por mais inábil que fosse, não pudesse senão tentar ajudá-lo a descer.</p>
<p style="text-align: justify;">O professor tivera a falta de sorte de ter sido logo a mais imprudente quem ficara sozinha com ele nos seus ermos. Por mais arriscado que fosse o meu lado, eu era obrigada a arrastá-lo para o meu lado, pois o dele era mortal. Era o que eu fazia, como uma criança importuna puxa um grande pela aba do paletó. Ele não olhava para trás, não perguntava o que eu queria, e livrava-se de mim com um safanão. Eu continuava a puxá-lo pelo paletó, meu único instrumento era a insistência. E disso tudo ele só percebia que eu lhe rasgava os bolsos. É verdade que nem eu mesma sabia ao certo o que fazia, minha vida com o professor era invisível. Mas eu sentia que meu papel era ruim e perigoso: impelia-me a voracidade por uma vida, vida real que tardava, e pior que inábil, eu também tinha gosto em lhe rasgar os bolsos. Só Deus perdoaria o que eu era porque só Ele sabia do que me fizera e para o quê. Eu me deixava, pois, ser matéria d&#8217;Ele. Ser matéria de Deus era a minha única bondade. E a fonte de um nascente misticismo. Não misticismo por Ele, mas pela matéria d&#8217;Ele, mas pela vida crua e cheia de prazeres: eu era uma adoradora. Aceitava a vastidão do que eu não conhecia e a ela me confiava toda, com segredos de confessionário. Seria para as escuridões da ignorância que eu seduzia o professor? e com o ardor de uma freira na cela. Freira alegre e monstruosa, ai de mim. E nem disso eu poderia me vangloriar: na classe todos nós éramos igualmente monstruosos e suaves, ávida matéria de Deus.</p>
<p style="text-align: justify;">
Mas se me comoviam seus gordos ombros contraídos e seu paletozinho apertado, minhas gargalhadas só conseguiam fazer com que ele, fingindo a que custo me esquecer, mais contraído ficasse de tanto autocontrole. A antipatia que esse homem sentia por mim era tão forte que eu me detestava. Até que meus risos foram definitivamente substituindo minha delicadeza impossível.</p>
<p style="text-align: justify;">
Aprender eu não aprendia naquelas aulas. O jogo de torná-lo infeliz já me tomara demais. Suportando com desenvolta amargura as minhas pernas compridas e os sapatos sempre cambaios, humilhada por não ser uma flor, e sobretudo torturada por uma infância enorme que eu temia nunca chegar a um fim — mais infeliz eu o tornava e sacudia com altivez a minha única riqueza: os cabelos escorridos que eu planejava ficarem um dia bonitos com permanente e que por conta do futuro eu já exercitava sacudindo-os. Estudar eu não estudava, confiava na minha vadiação sempre bem sucedida e que também ela o professor tomava como mais uma provocação da menina odiosa. Nisso ele não tinha razão. A verdade é que não me sobrava tempo para estudar. As alegrias me ocupavam, ficar atenta me tomava dias e dias; havia os livros de história que eu lia roendo de paixão as unhas até o sabugo, nos meus primeiros êxtases de tristeza, refinamento que eu já descobrira; havia meninos que eu escolhera e que não me haviam escolhido, eu perdia horas de sofrimento porque eles eram inatingíveis, e mais outras horas de sofrimento aceitando-os com ternura, pois o homem era o meu rei da Criação; havia a esperançosa ameaça do pecado, eu me ocupava com medo em esperar; sem falar que estava permanentemente ocupada em querer e não querer ser o que eu era, não me decidia por qual de mim, toda eu é que não podia; ter nascido era cheio de erros a corrigir.</p>
<p style="text-align: justify;">Não, não era para irritar o professor que eu não estudava; só tinha tempo de crescer. O que eu fazia para todos os lados, com uma falta de graça que mais parecia o resultado de um erro de cálculo: as pernas não combinavam com os olhos, e a boca era emocionada enquanto as mãos se esgalhavam sujas — na minha pressa eu crescia sem saber para onde. O fato de um retrato da época me revelar, ao contrário, uma menina bem plantada, selvagem e suave, com olhos pensativos embaixo da franja pesada, esse retrato real não me desmente, só faz é revelar uma fantasmagórica estranha que eu não compreenderia se fosse a sua mãe. Só muito depois, tendo finalmente me organizado em corpo e sentindo-me fundamentalmente mais garantida, pude me aventurar e estudar um pouco; antes, porém, eu não podia me arriscar a aprender, não queria me disturbar — tomava intuitivo cuidado com o que eu era, já que eu não sabia o que era, e com vaidade cultivava a integridade da ignorância.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi pena o professor não ter chegado a ver aquilo em que quatro anos depois inesperadamente eu me tornaria: aos treze anos, de mãos limpas, banho tomado, toda composta e bonitinha, ele me teria visto como um cromo de Natal à varanda de um sobrado. Mas, em vez dele, passara embaixo um ex-amiguinho meu, gritara alto o meu nome, sem perce­ber que eu já não era mais um moleque e sim uma jovem digna cujo nome não pode mais ser berrado pelas calçadas de uma cidade. “Que é?”, indaguei do intruso com a maior frieza. Recebi então como resposta gritada a notícia de que o professor morrera naquela madrugada. E branca, de olhos muito abertos, eu olhara a rua vertiginosa a meus pés. Minha compostura quebrada como a de uma boneca partida.</p>
<p style="text-align: justify;">
Voltando a quatro anos atrás. Foi talvez por tudo o que contei, misturado e em conjunto, que escrevi a composição que o professor mandara, ponto de desenlace dessa história e começo de outras. Ou foi apenas por pressa de acabar de qualquer modo o dever para poder brincar no parque.<br />
— Vou contar uma história, disse ele, e vocês façam a composição. Mas usando as pala­vras de vocês. Quem for acabando não precisa esperar pela sineta, já pode ir para o recreio.<br />
O que ele contou: um homem muito pobre sonhara que descobrira um tesouro e ficara muito rico; acordando, arrumara sua trouxa, saíra em busca do tesouro; andara o mundo inteiro e continuava sem achar o tesouro; cansado, voltara para a sua pobre, pobre casinha; e como não tinha o que comer, começara a plantar no seu pobre quintal; tanto plantara, tanto colhera, tanto começara a vender que terminara ficando muito rico.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">Ouvi com ar de desprezo, ostensivamente brincando com o lápis, como se quisesse deixar claro que suas histórias não me ludibriavam e que eu bem sabia quem ele era. Ele contara sem olhar uma só vez para mim. É que na falta de jeito de amá-lo e no gosto de persegui-lo, eu também o acossava com o olhar: a tudo o que ele dizia eu respondia com um simples olhar direto, do qual ninguém em sã consciência poderia me acusar. Era um olhar que eu tornava bem límpido e angélico, muito aberto, como o da candidez olhando o crime. E conseguia sempre o mesmo resultado: com perturbação ele evitava meus olhos, começando a gaguejar. O que me enchia de um poder que me amaldiçoava. E de piedade. O que por sua vez me irritava. Irritava-me que ele obrigasse uma porcaria de criança a compreender um homem.</p>
<p style="text-align: justify;">
Eram quase dez horas da manhã, em breve soaria a sineta do recreio. Aquele meu colégio, alugado dentro de um dos parques da cidade, tinha o maior campo de recreio que já vi. Era tão bonito para mim como seria para um esquilo ou um cavalo. Tinha árvores espalhadas, longas descidas e subidas e estendida relva. Não acabava nunca. Tudo ali era longe e grande, feito para pernas compridas de menina, com lugar para montes de tijolo e madeira de origem ignorada, para moitas de azedas begônias que nós comíamos, para sol e sombras onde as abe­lhas faziam mel. Lá cabia um ar livre imenso. E tudo fora vivido por nós: já tínhamos rolado de cada declive, intensamente cochichado atrás de cada monte de tijolo, comido de várias flores e em todos os troncos havíamos a canivete gravado datas, doces nomes feios e corações transpassados por flechas; meninos e meninas ali faziam o seu mel.<br />
Eu estava no fim da composição e o cheiro das sombras escondidas já me chamava. Apressei-me. Como eu só sabia “usar minhas próprias palavras”, escrever era simples. Apres­sava-me também o desejo de ser a primeira a atravessar a sala — o professor terminara por me isolar em quarentena na última carteira — e entregar-lhe insolente a composição, demonstran­do-lhe assim minha rapidez, qualidade que me parecia essencial para se viver e que, eu tinha certeza, o professor só podia admirar.</p>
<p style="text-align: justify;">
Entreguei-lhe o caderno e ele o recebeu sem ao menos me olhar. Melindrada, sem um elogio pela minha velocidade, saí pulando para o grande parque.</p>
<p style="text-align: justify;">
A história que eu transcrevera em minhas próprias palavras era igual à que ele contara. Só que naquela época eu estava começando a “tirar a moral das histórias”, o que, se me santifi­cava, mais tarde ameaçaria sufocar-me em rigidez. Com alguma faceirice, pois, havia acrescen­tado as frases finais. Frases que horas depois eu lia e relia para ver o que nelas haveria de tão poderoso a ponto de enfim ter provocado o homem de um modo como eu própria não conse­guira até então. Provavelmente o que o professor quisera deixar implícito na sua história triste é que o trabalho árduo era o único modo de se chegar a ter fortuna. Mas levianamente eu concluíra pela moral oposta: alguma coisa sobre o tesouro que se disfarça, que está onde menos se espera, que é só descobrir, acho que falei em sujos quintais com tesouros. Já não me lembro, não sei se foi exatamente isso. Não consigo imaginar com que palavras de criança teria eu exposto um sentimento simples mas que se torna pensamento complicado.</p>
<p style="text-align: justify;">Suponho que, arbi­trariamente contrariando o sentido real da história, eu de algum modo já me prometia por escrito que o ócio, mais que o trabalho, me daria as grandes recompensas gratuitas, as únicas a que eu aspirava. É possível também que já então meu tema de vida fosse a irrazoável esperança, e que eu já tivesse iniciado a minha grande obstinação: eu daria tudo o que era meu por nada, mas queria que tudo me fosse dado por nada. Ao contrário do trabalhador da história, na composição eu sacudia dos ombros todos os deveres e dela saía livre e pobre, e com um tesouro na mão.</p>
<p style="text-align: justify;">
Fui para o recreio, onde fiquei sozinha com o prêmio inútil de ter sido a primeira, cis­cando a terra, esperando impaciente pelos meninos que pouco a pouco começaram a surgir da sala.</p>
<p style="text-align: justify;">
No meio das violentas brincadeiras resolvi buscar na minha carteira não me lembro o quê, para mostrar ao caseiro do parque, meu amigo e protetor. Toda molhada de suor, vermelha de uma felicidade irrepresável que se fosse em casa me valeria uns tapas — voei em direção à sala de aula, atravessei-a correndo, e tão estabanada que não vi o professor a folhear os cadernos empilhados sobre a mesa. Já tendo na mão a coisa que eu fora buscar, e iniciando outra corrida de volta — só então meu olhar tropeçou no homem.<br />
Sozinho à cátedra: ele me olhava.</p>
<p style="text-align: justify;">
Era a primeira vez que estávamos frente a frente, por nossa conta. Ele me olhava. Meus passos, de vagarosos, quase cessaram.</p>
<p style="text-align: justify;">
Pela primeira vez eu estava só com ele, sem o apoio cochichado da classe, sem a admiração que minha afoiteza provocava. Tentei sorrir, sentindo que o sangue me sumia do rosto. Uma gota de suor correu-me pela testa. Ele me olhava. O olhar era uma pata macia e pesada sobre mim. Mas se a pata era suave, tolhia-me toda como a de um gato que sem pressa prende o rabo do rato. A gota de suor foi descendo pelo nariz e pela boca, dividindo ao meio o meu sorriso. Apenas isso: sem uma expressão no olhar, ele me olhava. Comecei a costear a parede de olhos baixos, prendendo-me toda a meu sorriso, único traço de um rosto que já perdera os contornos.</p>
<p style="text-align: justify;">Nunca havia percebido como era comprida a sala de aula; só agora, ao lento passo do medo, eu via o seu tamanho real. Nem a minha falta de tempo me deixara perceber até então como eram austeras e altas as paredes; e duras, eu sentia a parede dura na palma da mão. Num pesadelo, do qual sorrir fazia parte, eu mal acreditava poder alcançar o âmbito da porta — de onde eu correria, ah como correria! a me refugiar no meio de meus iguais, as crianças. Além de me concentrar no sorriso, meu zelo minucioso era o de não fazer barulho com os pés, e assim eu aderia à natureza íntima de um perigo do qual tudo o mais eu desco­nhecia. Foi num arrepio que me adivinhei de repente como num espelho: uma coisa úmida se encostando à parede, avançando devagar na ponta dos pés, e com um sorriso cada vez mais intenso. Meu sorriso cristalizara a sala em silêncio, e mesmo os ruídos que vinham do parque escorriam pelo lado de fora do silêncio. Cheguei finalmente à porta, e o coração imprudente pôs-se a bater alto demais sob o risco de acordar o gigantesco mundo que dormia.<br />
Foi quando ouvi meu nome.</p>
<p style="text-align: justify;">
De súbito pregada ao chão, com a boca seca, ali fiquei de costas para ele sem coragem de me voltar. A brisa que vinha pela porta acabou de secar o suor do corpo. Virei-me devagar, contendo dentro dos punhos cerrados o impulso de correr.</p>
<p style="text-align: justify;">
Ao som de meu nome a sala se desipnotizara.</p>
<p style="text-align: justify;">
E bem devagar vi o professor todo inteiro. Bem devagar vi que o professor era muito grande e muito feio, e que ele era o homem de minha vida. O novo e grande medo. Pequena, sonâmbula, sozinha, diante daquilo a que a minha fatal liberdade finalmente me levara. Meu sorriso, tudo o que sobrara de um rosto, também se apagara. Eu era dois pés endurecidos no chão e um coração que de tão vazio parecia morrer de sede. Ali fiquei, fora do alcance do homem. Meu coração morria de sede, sim: Meu coração morria de sede.<br />
Calmo como antes de friamente matar ele disse:<br />
— Chegue mais perto . . .</p>
<p style="text-align: justify;">
Como é que um homem se vingava?<br />
Eu ia receber de volta em pleno rosto a bola de mundo que eu mesma lhe jogara e que nem por isso me era conhecida. Ia receber de volta uma realidade que não teria existido se eu não a tivesse temerariamente adivinhado e assim lhe dado vida. Até que ponto aquele homem, monte de compacta tristeza, era também monte de fúria? Mas meu passado era agora tarde demais. Um arrependimento estóico manteve erecta a minha cabeça. Pela primeira vez a ignorância, que até então fora o meu grande guia, desamparava-me. Meu pai estava no trabalho, minha mãe morrera há meses. Eu era o único eu.</p>
<p style="text-align: justify;">
— &#8230; Pegue o seu caderno &#8230;, acrescentou ele.</p>
<p style="text-align: justify;">
A surpresa me fez subitamente olhá-lo. Era só isso, então!? O alívio inesperado foi quase mais chocante que o meu susto anterior. Avancei um passo, estendi a mão gaguejante.<br />
Mas o professor ficou imóvel e não entregou o caderno.</p>
<p style="text-align: justify;">
Para a minha súbita tortura, sem me desfitar, foi tirando lentamente os óculos. E olhou-me com olhos nus que tinham muitos cílios. Eu nunca tinha visto seus olhos que, com as inúme­ras pestanas, pareciam duas baratas doces. Ele me olhava. E eu não soube como existir na frente de um homem. Disfarcei olhando o teto, o chão, as paredes, e mantinha a mão ainda estendida porque não sabia como recolhê-la. Ele me olhava manso, curioso, com os olhos despenteados como se tivesse acordado. Iria ele me amassar com mão inesperada? Ou exigir que eu me ajoelhasse e pedisse perdão. Meu fio de esperança era que ele não soubesse o que eu lhe tinha feito, assim como eu mesma já não sabia, na verdade eu nunca soubera.</p>
<p style="text-align: justify;">
— Como é que lhe veio a idéia do tesouro que se disfarça?<br />
— Que tesouro? — murmurei atoleimada.</p>
<p style="text-align: justify;">Ficamos nos fitando em silêncio.</p>
<p style="text-align: justify;">— Ah, o tesouro!, precipitei-me de repente mesmo sem entender, ansiosa por admitir qualquer falta, implorando-lhe que meu castigo consistisse apenas em sofrer para sempre de culpa, que a tortura eterna fosse a minha punição, mas nunca essa vida desconhecida.</p>
<p style="text-align: justify;">
— O tesouro que está escondido onde menos se espera. Que é só descobrir. Quem lhe disse isso?</p>
<p style="text-align: justify;">
O homem enlouqueceu, pensei, pois que tinha a ver o tesouro com aquilo tudo? Atônita, sem compreender, e caminhando de inesperado a inesperado, pressenti no entanto um terreno menos perigoso. Nas minhas corridas eu aprendera a me levantar das quedas mesmo quando mancava, e me refiz logo: “foi a composição do tesouro! esse então deve ter sido o meu erro!” Fraca, e embora pisando cuidadosa na nova e escorregadia segurança, eu no entanto já me levantara o bastante da minha queda para poder sacudir, numa imitação da antiga arrogância, a futura cabeleira ondulada:</p>
<p style="text-align: justify;">
— Ninguém, ora &#8230;, respondi mancando. Eu mesma inventei, disse trêmula, mas já recomeçando a cintilar.</p>
<p style="text-align: justify;">
Se eu ficara aliviada por ter alguma coisa enfim concreta com que lidar, começava no entanto a me dar conta de algo muito pior. A súbita falta de raiva nele. Olhei-o intrigada, de viés. E aos poucos desconfiadíssima. Sua falta de raiva começara a me amedrontar, tinha ameaças novas que eu não compreendia. Aquele olhar que não me desfitava — e sem cólera &#8230; Perplexa, e a troco de nada, eu perdia o meu inimigo e sustento. Olhei-o surpreendida. Que é que ele queria de mim? Ele me constrangia. E seu olhar sem raiva passara a me importunar mais do que a brutalidade que eu temera. Um medo pequeno, todo frio e suado, foi me tomando. Devagar, para ele não perceber, recuei as costas até encontrar atrás delas a parede, e depois a cabeça recuou até não ter mais para onde ir. Daquela parede onde eu me engastara toda, furtivamente olhei-o.</p>
<p style="text-align: justify;">
E meu estômago se encheu de uma água de náusea. Não sei contar.</p>
<p style="text-align: justify;">
Eu era uma menina muito curiosa e, para a minha palidez, eu vi. Eriçada, prestes a vomitar, embora até hoje não saiba ao certo o que vi. Mas sei que vi. Vi tão fundo quanto numa boca, de chofre eu via o abismo do mundo. Aquilo que eu via era anônimo como uma barriga aberta para uma operação de intestinos.</p>
<p style="text-align: justify;">Vi uma coisa se fazendo na sua cara — o mal-estar já petrificado subia com esforço até a sua pele, vi a careta vagarosamente hesitando e quebrando uma crosta — mas essa coisa que em muda catástrofe se desenraizava, essa coisa ainda se parecia tão pouco com um sorriso como se um fígado ou um pé tentassem sorrir, não sei. O que vi, vi tão de perto que não sei o que vi. Como se meu olho curioso se tivesse colado ao buraco da fechadura e em choque deparasse do outro lado com outro olho colado me olhando. Eu vi dentro de um olho. O que era tão incompreensível como um olho. Um olho aberto com sua gelatina móvel.</p>
<p style="text-align: justify;">Com suas lágrimas orgânicas. Por si mesmo o olho chora, por si mesmo o olho ri. Até que o esforço do homem foi se completando todo atento, e em vitória infantil ele mostrou, pérola arrancada da barriga aberta — que estava sorrindo. Eu vi um homem com entranhas sorrindo. Via sua apreensão extrema em não errar, sua aplicação de aluno lento, a falta de jeito como se de súbito ele se tivesse tornado canhoto. Sem entender, eu sabia que pediam de mim que eu recebesse a entrega dele e de sua barriga aberta, e que eu recebesse o seu peso de homem.</p>
<p style="text-align: justify;">Minhas costas forçaram desesperadamente a parede, recuei — era cedo demais para eu ver tanto. Era cedo demais para eu ver como nasce a vida. Vida nascendo era tão mais sangrento do que morrer. Morrer é ininterrupto. Mas ver matéria inerte lentamente tentar se erguer como um grande morto-vivo &#8230; Ver a esperança me aterrorizava, ver a vida me embrulhava o estôma­go. Estavam pedindo demais de minha coragem só porque eu era corajosa, pediam minha força só porque eu era forte. “Mas e eu?”, gritei dez anos depois por motivos de amor perdido, “quem virá jamais à minha fraqueza!” Eu o olhava surpreendida, e para sempre não soube o que vi, o que eu vira poderia cegar os curiosos.<br />
Então ele disse, usando pela primeira vez o sorriso que aprendera:<br />
— Sua composição do tesouro está tão bonita. O tesouro que é só descobrir. Você &#8230; — ele nada acrescentou por um momento. Perscrutou-me suave, indiscreto, tão meu íntimo como se ele fosse o meu coração. — Você é uma menina muito engraçada, disse afinal.</p>
<p style="text-align: justify;">
Foi a primeira vergonha real de minha vida. Abaixei os olhos, sem poder sustentar o olhar indefeso daquele homem a quem eu enganara.</p>
<p style="text-align: justify;">
Sim, minha impressão era a de que, apesar de sua raiva, ele de algum modo havia con­fiado em mim, e que então eu o enganara com a lorota do tesouro. Naquele tempo eu pensava que tudo o que se inventa é mentira, e somente a consciência atormentada do pecado me redimia do vício.</p>
<p style="text-align: justify;">Abaixei os olhos com vergonha. Preferia sua cólera antiga, que me ajudara na minha luta contra mim mesma, pois coroava de insucesso os meus métodos e talvez terminasse um dia me corrigindo: eu não queria era esse agradecimento que não só era a minha pior punição, por eu não merecê-lo, como vinha encorajar minha vida errada que eu tanto temia, viver errado me atraía. Eu bem quis lhe avisar que não se acha tesouro à toa.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, olhando-o, desanimei: faltava-me a coragem de desiludi-lo. Eu já me habituara a proteger a alegria dos outros, as de meu pai, por exemplo, que era mais desprevenido que eu. Mas como me foi difícil engolir a seco essa alegria que tão irresponsavelmente eu causara! Ele parecia um mendigo que agradecesse o prato de comida sem perceber que lhe haviam dado carne estragada. O sangue me subira ao rosto, agora tão quente que pensei estar com os olhos injetados, enquanto ele, provavelmente em novo engano, devia pensar que eu corara de prazer ao elogio. Naquela mesma noite aquilo tudo se transformaria em incoercível crise de vômitos que manteria acesas todas as luzes de minha casa.</p>
<p style="text-align: justify;">
— Você — repetiu então ele lentamente como se aos poucos estivesse admitindo com encantamento o que lhe viera por acaso à boca —, você é uma menina muito engraçada, sabe? Você é uma doidinha &#8230;, disse usando outra vez o sorriso como um menino que dorme com os sapatos novos. Ele nem ao menos sabia que ficava feio quando sorria. Confiante, deixava-me ver a sua feiúra, que era a sua parte mais inocente.</p>
<p style="text-align: justify;">
Tive que engolir como pude a ofensa que ele me fazia ao acreditar em mim, tive que engolir a piedade por ele, a vergonha por mim, “tolo!”, pudesse eu lhe gritar, “essa história de tesouro disfarçado foi inventada, é coisa só para menina!” Eu tinha muita consciência de ser uma criança, o que explicava todos os meus graves defeitos, e pusera tanta fé em um dia crescer — e aquele homem grande se deixara enganar por uma menina safadinha. Ele matava em mim pela primeira vez a minha fé nos adultos: também ele, um homem, acreditava como eu nas grandes mentiras &#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">
&#8230; E de repente, com o coração batendo de desilusão, não suportei um instante mais — sem ter pegado o caderno corri para o parque, a mão na boca como se me tivessem quebrado os dentes. Com a mão na boca, horrorizada, eu corria, corria para nunca parar, a prece profunda não é aquela que pede, a prece mais profunda é a que não pede mais — eu corria, eu corria muito espantada.</p>
<p style="text-align: justify;">
Na minha impureza eu havia depositado a esperança de redenção nos adultos. A necessidade de acreditar na minha bondade futura fazia com que eu venerasse os grandes, que eu fizera à minha imagem, mas a uma imagem de mim enfim purificada pela penitência do crescimento, enfim liberta da alma suja de menina. E tudo isso o professor agora destruía, e destruía meu amor por ele e por mim. Minha salvação seria impossível: aquele homem também era eu. Meu amargo ídolo que caíra ingenuamente nas artimanhas de uma criança confusa e sem candura, e que se deixara docilmente guiar pela minha diabólica inocência &#8230; Com a mão apertando a boca, eu corria pela poeira do parque.</p>
<p style="text-align: justify;">
Quando enfim me dei conta de estar bem longe da órbita do professor, sofreei exausta a corrida, e quase a cair encostei-me em todo o meu peso no tronco de uma árvore, respirando alto, respirando. Ali fiquei ofegante e de olhos fechados, sentindo na boca o amargo empoeirado do tronco, os dedos mecanicamente passando e repassando pelo duro entalhe de um coração com flecha. E de repente, apertando os olhos fechados, gemi entendendo um pouco mais: estaria ele querendo dizer que &#8230; que eu era um tesouro disfarçado? O tesouro onde menos se espera&#8230; Oh não, não, coitadinho dele, coitado daquele rei da Criação, de tal modo precisara &#8230; de quê? de que precisara ele? &#8230; que até eu me transformara em tesouro.<br />
Eu ainda tinha muito mais corrida dentro de mim, forcei a garganta seca a recuperar o fôlego, e empurrando com raiva o tronco da árvore recomecei a correr em direção ao fim do mundo.</p>
<p style="text-align: justify;">
Mas ainda não divisara o fim sombreado do parque, e meus passos foram se tornando mais vagarosos, excessivamente cansados. Eu não podia mais. Talvez por cansaço, mas eu su­cumbia. Eram passos cada vez mais lentos e a folhagem das árvores se balançava lenta. Eram passos um pouco deslumbrados. Em hesitação fui parando, as árvores rodavam altas. É que uma doçura toda estranha fatigava meu coração. Intimidada, eu hesitava. Estava sozinha na relva, mal em pé, sem nenhum apoio, a mão no peito cansado como a de uma virgem anunciada. E de cansaço abaixando àquela suavidade primeira uma cabeça finalmente humilde que de muito longe talvez lembrasse a de uma mulher. A copa das árvores se balançava para a frente, para trás. “Você é uma menina muito engraçada, você é uma doidinha”, dissera ele. Era como um amor.</p>
<p style="text-align: justify;">
Não, eu não era engraçada. Sem nem ao menos saber, eu era muito séria. Não, eu não era doidinha, a realidade era o meu destino, e era o que em mim doía nos outros. E, por Deus, eu não era um tesouro. Mas se eu antes já havia descoberto em mim todo o ávido veneno com que se nasce e com que se rói a vida — só naquele instante de mel e flores descobria de que modo eu curava: quem me amasse, assim eu teria curado quem sofresse de mim. Eu era a escura ignorância com suas fomes e risos, com as pequenas mortes alimentando a minha vida inevitá­vel — que podia eu fazer? eu já sabia que eu era inevitável.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas se eu não prestava, eu fora tudo o que aquele homem tivera naquele momento. Pelo menos uma vez ele teria que amar, e sem ser a ninguém — através de alguém. E só eu estivera ali. Se bem que esta fosse a sua única vantagem: tendo apenas a mim, e obrigado a iniciar-se amando o ruim, ele começara pelo que poucos chegavam a alcançar. Seria fácil demais querer o limpo; inalcançável pelo amor era o feio, amar o impuro era a nossa mais profunda nostalgia.</p>
<p style="text-align: justify;">Através de mim, a difícil de se amar, ele recebera, com grande caridade por si mesmo, aquilo de que somos feitos. Entendi eu tudo isso? Não. E não sei o que na hora entendi. Mas assim como por um instante no professor eu vira com aterrorizado fascínio o mundo — e mesmo agora ainda não sei o que vi, só que para sempre e em um segundo eu vi — assim eu nos entendi, e nunca saberei o que entendi. Nunca saberei o que eu entendo. O que quer que eu tenha entendido no parque foi, com um choque de doçura, entendido pela minha ignorância. Ignorância que ali em pé — numa solidão sem dor, não menor que a das árvores — eu recuperava inteira, a ignorância e a sua verdade incom­preensível. Ali estava eu, a menina esperta demais, e eis que tudo o que em mim não prestava servia a Deus e aos homens. Tudo o que em mim não prestava era o meu tesouro.<br />
Como uma virgem anunciada, sim.</p>
<p style="text-align: justify;">Por ele me ter permitido que eu o fizesse enfim sorrir, por isso ele me anunciara. Ele acabara de me transformar em mais do que o rei da Criação: fizera de mim a mulher do rei da Criação. Pois logo a mim, tão cheia de garras e sonhos, coubera arrancar de seu coração a flecha farpada. De chofre explicava-se para que eu nascera com mão dura, e para que eu nascera sem nojo da dor.</p>
<p style="text-align: justify;">Para que te servem essas unhas longas? Para te arranhar de morte e para arrancar os teus espinhos mortais, responde o lobo do homem. Para que te serve essa cruel boca de fome? Para te morder e para soprar a fim de que eu não te doa demais, meu amor, já que tenho que te doer, eu sou o lobo inevitável pois a vida me foi dada. Para que te servem essas mãos que ardem e prendem? Para ficarmos de mãos dadas, pois preciso tanto, tanto, tanto — uivaram os lobos, e olharam intimidados as próprias garras antes de se aconchegarem um no outro para amar e dormir.</p>
<p style="text-align: justify;">
&#8230; E foi assim que no grande parque do colégio lentamente comecei a aprender a ser amada, suportando o sacrifício de não merecer, apenas para suavizar a dor de quem não ama. Não, esse foi somente um dos motivos. É que os outros fazem outras histórias. Em algumas foi de meu coração que outras garras cheias de duro amor arrancaram a flecha farpada, e sem nojo de meu grito.</p>
<hr />
<p style="text-align: justify;">Lispector, Clarice. Os desastres de Sofia. In A Legião Estrangeira.<br />
São Paulo, Ática, 1977, p. 11-25</p>
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		<title>Mais palavreado &#8211; Luís Fernando Veríssimo</title>
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		<pubDate>Sat, 20 Jun 2009 00:12:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Beatrix</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Conto]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura Brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Luís Fernando Veríssimo]]></category>

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		<description><![CDATA[Mais palavreado, conto de Luís Fernando Veríssimo, escritor brasileiro]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Contam que Pantufo, Rei da Ciz&acirc;nia, Imperador das Angulares (a Pequena e a Grande), do Alto e Baixo Fender e de todas as Rixas, tinha uma cole&ccedil;&atilde;o de aves que piavam. Era a maior cole&ccedil;&atilde;o de aves que piavam do mundo conhecido. E provavelmente do desconhecido tamb&eacute;m, se bem que deste se sabia pouco. Um dia chegaram a Nova Velha, capital da Ciz&acirc;nia (a Velha Velha fora destru&iacute;da por um paroxismo), dois viajantes, Metatarso de Castro e Palpos de Aranha. Os dois se dirigiram ao pal&aacute;cio real e pediram uma audi&ecirc;ncia com o rei.</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-208"></span>- De que se trata? &ndash; quis saber o cust&oacute;dio real.<br />
- Sabemos que Sua Excresc&ecirc;ncia tem a maior cole&ccedil;&atilde;o de aves que piam do mundo &ndash; disse Metatarso.<br />
- &Eacute; verdade &ndash; disse o cust&oacute;dio, olhando os forasteiros de balaio. &ndash; Todas as aves que piam do mundo est&atilde;o na cole&ccedil;&atilde;o do nosso rei.<br />
- Todas n&atilde;o &ndash; plicou Palpos.<br />
- Como n&atilde;o? &ndash; Replicou o cust&oacute;dio.<br />
- Sabemos de aves raras que piam como nenhuma outra que n&atilde;o est&atilde;o na cole&ccedil;&atilde;o de Sua Indec&ecirc;ncia.<br />
- E onde est&atilde;o essas aves? &ndash; Triplicou o cust&oacute;dio.<br />
- S&oacute; diremos para Sua Dem&ecirc;ncia em pessoa.<br />
Os dois foram levados &agrave; presen&ccedil;a de Pantufo, que reclinava sobre um almoxarife, abanado por dezessete lupanares enquanto uma l&ecirc;ndea seminua co&ccedil;ava o seu estr&ocirc;ncio. A sala do trono era toda decorada de alv&iacute;ssaras e rocamboles silvestres.<br />
- Sim? &ndash; disse o Rei da Ciz&acirc;nia, mastigando uma v&eacute;spera e cuspindo os cedilhas na m&atilde;o de um limiar.<br />
- Trazemos not&iacute;cias de aves que piam como nenhuma outra &ndash; disse Metatarso, fazendo um salaminho.<br />
- Aves de que Vossa Mumifici&ecirc;ncia jamais ouviu falar &ndash; completou Palpos, com um arrabal at&eacute; o ch&atilde;o.<br />
- Imposs&iacute;vel &ndash; disse o rei, com suco de v&eacute;spera correndo pela pauta e o jarg&atilde;o real. &ndash; Eu tenho todas as aves que piam do mundo.<br />
- Vossa Ard&ecirc;ncia conhece a xerox emplumada?<br />
- Xerox emplumada?<br />
- &Eacute; uma ave que n&oacute;s descobrimos.<br />
- E ela pia? &ndash; trucou o rei.<br />
- Copia &ndash; retrucou Metatarso.<br />
- Como &eacute; que eu n&atilde;o conhe&ccedil;o essa ave? &ndash; disse o rei, olhando com s&oacute;dio para Teflon, o ca&ccedil;ador real. &ndash; Onde voc&ecirc;s a encontraram?<br />
- Num lugar que s&oacute; n&oacute;s conhecemos, Vossa Car&ecirc;ncia. Na margem oposta de um dos sete mares do vosso reino.<br />
- Qual dos mares? O Mita, o More, o Racas, o Selhesa, o Fim ou o Condes Ferraz?<br />
- Um desses &ndash; disse Palpos.<br />
- Mmmm. J&aacute; vi tudo &ndash; disse Pantufo, co&ccedil;ando as bigornas. &ndash; Voc&ecirc;s querem alguma coisa em troca da informa&ccedil;&atilde;o. O qu&ecirc;? Digam que ser&aacute; seu.<br />
- Bem, Vossa Displic&ecirc;ncia &ndash; disse Palpos -, somos viajantes solit&aacute;rios. Muita falta nos faz a companhia feminina, principalmente em noites de torresmo e barracas&hellip;<br />
- Ah, quereis catimbas &ndash; disse o rei. &ndash; Pois escolham as que quiserem do meu catimbeiro.<br />
- Preferimos escolher entre as suas filhas, Vossa Insufici&ecirc;ncia.<br />
O rei esbravejou chamando os viajantes de tudo, desde arreb&oacute;is at&eacute; filhos de uma turbina, mas acabou concordando. Mandou chamar as filhas para que os viajantes escolhessem. Metatarso ficou com Ampola e Palpos com Lentilha, as mais encarnadas de todas.<br />
- Agora digam onde est&atilde;o essas aves que piam como nenhuma outra.<br />
- Bem &ndash; disse Metatarso -, vossas filhas tem h&aacute;bitos caros, Vossa Decad&ecirc;ncia. Como conseguiremos mant&ecirc;-las felizes, comprar picuinhas, aleivosias&hellip;<br />
- Est&aacute; bem &ndash; interrompeu o rei. &ndash; Voc&ecirc;s ter&atilde;o uma renda vital&iacute;cia de um milh&atilde;o de dolos por m&ecirc;s. Terei de aumentar os impostos, mas o povo compreender&aacute;. Agora, vamos &agrave;s aves!<br />
No dia seguinte, partiu a armada real, dez bulhufas escanhoadas e uma bulhufa-apit&acirc;nia, entre gritos dos seus comanches:<br />
- Arrebitar o vetusto!<br />
- Suspender o bilboqu&ecirc; de a&ccedil;afr&atilde;o e o lume da alcatra!<br />
- Pinicar a esp&aacute;tula e dobrar o macamb&uacute;zio!<br />
Durante a viagem, Pantufo n&atilde;o parava de pedir mais informa&ccedil;&otilde;es sobre as aves que encontrariam.<br />
- H&aacute; a &ldquo;voiyeur de nuit&rdquo; &ndash; disse Metatarso.<br />
- E ela pia? &ndash; torquiu o rei.<br />
- Espia &ndash; retorquiu Metatarso.<br />
- H&aacute; a piorra azul &ndash; disse Palpos.<br />
- E ela pia?<br />
- Rodopia.<br />
- E a cl&iacute;nica do banhado.<br />
- Ela pia?<br />
- Terapia.<br />
- N&atilde;o podemos esquecer o marrec&atilde;o lar&aacute;pio.<br />
- Ele pia?<br />
- Surrupia.<br />
- E as c&oacute;cegas selvagens&hellip;<br />
- Elas piam?<br />
- Arrepiam.<br />
A armada real levou dois anos para atravessar seis mares, com Metatarso e Palpos seu milh&atilde;o de dolos por m&ecirc;s e entregando-se, todas as noites, a longas lengas e intermin&aacute;veis charnecas com Ampola e Lentilha. Finalmente chegaram &agrave; margem oposta do Mar Condes Ferraz e desceram &agrave; terra. Mas n&atilde;o encontraram aves que piavam como nenhuma outra.<br />
- Onde est&atilde;o as aves? &ndash; Quis saber Pantufo.<br />
- J&aacute; sei o que houve, Vossa Dissid&ecirc;ncia &ndash; disse Palpos. &ndash; Esta n&atilde;o &eacute; a margem oposta.<br />
- Claro &ndash; disse Metatarso. &ndash; A margem oposta fica do outro lado.<br />
E l&aacute; se foi, de novo, a armada real.<br />
- Arrematar as polpas de antanho!<br />
- Acinturar a sirigaita maior!<br />
Contam que a armada real est&aacute; navegando at&eacute; hoje, pois a margem oposta sempre muda, misteriosamente, de lado. Apesar dos gritos do Rei Pantufo:<br />
- Bando de con&uacute;bios!<br />
- Caramanch&otilde;es de uma pipa!<br />
- Arras cuneiformes!<br />
E a todas estas o povo pagando impostos.</p>
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		<title>Palavreado &#8211; Luís Fernando Veríssimo</title>
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		<pubDate>Sat, 20 Jun 2009 00:05:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Beatrix</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Conto]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura Brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Luís Fernando Veríssimo]]></category>

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		<description><![CDATA[Palavreado, conto do escritor brasileiro, Luís Fernando Veríssimo]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="post-body entry-content">
<p style="text-align: justify;">Gosto da palavra &ldquo;fornida&rdquo;. &Eacute; uma palavra que diz tudo o que quer dizer. Se voc&ecirc; l&ecirc; que uma mulher &eacute; &ldquo;bem fornida&rdquo;, sabe exatamente como ela &eacute;. N&atilde;o gorda mas cheia, roli&ccedil;a, carnuda. E quente. Talvez seja a semelhan&ccedil;a com &ldquo;forno&rdquo;. Talvez seja apenas o tipo de mente que eu tenho.</p>
<p><span id="more-207"></span></p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">N&atilde;o posso ver a palavra &ldquo;lasc&iacute;via&rdquo; sem pensar numa mulher, n&atilde;o fornida mas magra e comprida. Lasc&iacute;via, imperatriz de C&acirc;ntaro, filha de Pundonor. Imagino-a atraindo todos os jovens do reino para a cama real, decapitando os incapazes pelo fracasso e os capazes pela ousadia.</p>
<p style="text-align: justify;">Um dia chega a C&acirc;ntaro um jovem trovador, Lip&iacute;dio de Albornoz. Ele cruza a Ponte de Safena e entra na cidade montado no seu cavalo Escarc&eacute;u. Avista uma mulher vestindo uma bandalheira preta que lhe lan&ccedil;a um olhar cheio de betume e cabriol&eacute;. Segue-a atrav&eacute;s dos becos de C&acirc;ntaro at&eacute; um sum&aacute;rio &#8211; uma esp&eacute;cie de jardim enclausurado -, onde ela deixa cair a bandalheira. &Eacute; Lasc&iacute;via. Ela sobe por um escrut&iacute;nio, pequena escada estreita, e desaparece por uma porci&uacute;ncula. Lip&iacute;dio a segue. V&ecirc;-se num longo conluio que leva a uma pr&oacute;tese entreaberta. Ele entra. Lasc&iacute;via est&aacute; sentada num trunfo em frente ao seu pinochet, penteando-se. Lip&iacute;dio, que sempre carrega consigo um fanfarr&atilde;o (instrumento primitivo de sete cordas), come&ccedil;a a cantar uma balada. Lasc&iacute;via bate palmas e chama:</p>
<p style="text-align: justify;">- Cisterna! Vangl&oacute;ria!</p>
<p style="text-align: justify;">S&atilde;o suas escravas que v&ecirc;m prepar&aacute;-la para os ritos do amor. Lip&iacute;dio desfaz-se de suas roupas &#8211; o s&aacute;trapa, o l&uacute;mpen, os dois f&aacute;tuos &#8211; at&eacute; ficar s&oacute; de reles. Dirige-se para a cama cantando uma antiga minarete. Lasc&iacute;via diz:</p>
<p style="text-align: justify;">- Cala-te, s&acirc;ndalo. Quero sentir o seu vesp&uacute;cio junto ao meu passe-partout.</p>
<p style="text-align: justify;">Atr&aacute;s de uma cortina, Muxoxo, o algoz, prepara seu longo cadastro para cortar a cabe&ccedil;a do trovador.</p>
<p style="text-align: justify;">A hist&oacute;ria s&oacute; n&atilde;o acaba mal porque o cavalo de Lip&iacute;dio, Escarc&eacute;u, espia pela janela na hora em que Muxoxo vai decapitar seu dono, no momento entregue aos sassafr&aacute;s, e d&aacute; o alarme. Lip&iacute;dio pula da cama, veste seu reles rapidamente e sai pela janela, onde Escarc&eacute;u o espera.</p>
<p style="text-align: justify;">Lasc&iacute;via manda levantarem a Ponte de Safena, mas tarde demais. Lip&iacute;dio e Escarc&eacute;u j&aacute; galopam por motins e valiums, longe da vingan&ccedil;a de Lasc&iacute;via.</p>
<p style="text-align: center;">*</p>
<p style="text-align: justify;">&ldquo;Fal&aacute;cia&rdquo; &eacute; um animal multiforme que nunca est&aacute; onde parece estar. Um dia um viajante chamado Pseud&ocirc;nimo (n&atilde;o &eacute; o seu verdadeiro nome) chega &agrave; casa de um criador de fal&aacute;cias, Otorrino. Comenta que os neg&oacute;cios de Otorrino devem estar indo muito bem, pois seus campos est&atilde;o cheios de fal&aacute;cias. Mas Otorrino n&atilde;o parece muito contente. Lamenta-se:</p>
<p style="text-align: justify;">- As fal&aacute;cias nunca est&atilde;o onde parecem estar. Se elas parecem estar no meu campo &eacute; porque est&atilde;o em outro lugar.</p>
<p style="text-align: justify;">E chora:</p>
<p style="text-align: justify;">- Todos os dias, de manh&atilde;, eu e minha mulher, Baz&oacute;fia, sa&iacute;mos pelos campos a contar fal&aacute;cias. E cada dia h&aacute; mais fal&aacute;cias no meu campo. Quer dizer, cada dia eu acordo mais pobre, pois s&atilde;o mais fal&aacute;cias que eu n&atilde;o tenho.</p>
<p style="text-align: justify;">- Lhe fa&ccedil;o uma proposta &#8211; disse Pseud&ocirc;nimo. &#8211; Compro todas as fal&aacute;cias do seu campo e pago um pinote por cada uma.</p>
<p style="text-align: justify;">- Um pinote por cada uma? &#8211; disse Otorrino, mal conseguindo disfar&ccedil;ar o seu entusiasmo. &#8211; Eu devo n&atilde;o ter umas cinco mil fal&aacute;cias.</p>
<p style="text-align: justify;">- Pois pago cinco mil pinotes e levo todas as fal&aacute;cias que voc&ecirc; n&atilde;o tem.</p>
<p style="text-align: justify;">- Feito.</p>
<p style="text-align: justify;">Otorrino e Baz&oacute;fia arrebanharam as cinco mil fal&aacute;cias para Pseud&ocirc;nimo. Este abre o seu comich&atilde;o e come&ccedil;a a tirar pinotes invis&iacute;veis e coloc&aacute;-los na palma da m&atilde;o estendida de Otorrino.</p>
<p style="text-align: justify;">- N&atilde;o estou entendendo &#8211; diz Otorrino. &#8211; Onde est&atilde;o os pinotes?</p>
<p style="text-align: justify;">- Os pinotes s&atilde;o como as fal&aacute;cias &#8211; explica Pseud&ocirc;nimo. &#8211; Nunca est&atilde;o onde parecem estar. Voc&ecirc; est&aacute; vendo algum pinote na sua m&atilde;o?</p>
<p style="text-align: justify;">- Nenhum.</p>
<p style="text-align: justify;">- &Eacute; sinal de que eles est&atilde;o a&iacute;. N&atilde;o deixe cair.</p>
<p style="text-align: justify;">E Pseud&ocirc;nimo seguiu viagem com cinco mil fal&aacute;cias, que vendeu para um frigor&iacute;fico ingl&ecirc;s, o Filho and Sons. Otorrino acordou no outro dia e olhou com satisfa&ccedil;&atilde;o para o seu campo vazio. Abriu o besunto, uma esp&eacute;cie de cofre, e olhou os pinotes que pareciam n&atilde;o estar ali!</p>
<p style="text-align: justify;">Na cozinha, Baz&oacute;fia botava veneno no seu pir&atilde;o.</p>
<p style="text-align: center;">*</p>
<p style="text-align: justify;">&ldquo;Lorota&rdquo;, para mim, &eacute; uma manicura gorda. &Eacute; explorada pelo namorado, Falcatrua. Vivem juntos num pit&eacute;u, um apartamento pequeno. Um dia batem na porta. &Eacute; Martelo, o inspetor italiano.</p>
<p style="text-align: justify;">- Dove est&aacute; il tuo megano?</p>
<p style="text-align: justify;">- Meu qu&ecirc;?</p>
<p style="text-align: justify;">- Il fistulado del tuo matagoso umbr&aacute;culo.</p>
<p style="text-align: justify;">- O Falcatrua? Est&aacute; trabalhando.</p>
<p style="text-align: justify;">- Sei. Com sua tragada de per&ocirc;nios. Magarefe, Barroco, Cantoch&atilde;o e Acepipe. Conhe&ccedil;o bem o quintal. S&atilde;o uns melindres de marca maior.</p>
<p style="text-align: justify;">- Que foi que o Falcatrua fez?</p>
<p style="text-align: justify;">- Est&aacute; vendendo fal&aacute;cia inglesa enlatada.</p>
<p style="text-align: justify;">- E da&iacute;?</p>
<p style="text-align: justify;">- Da&iacute; que dentro da lata n&atilde;o tem nada. Parco manolo!</p>
</div>
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		<title>Natal na Barca &#8211; Lygia Fagundes Telles</title>
		<link>http://www.beatrix.pro.br/index.php/natal-na-barca-lygia-fagundes-telles/</link>
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		<pubDate>Fri, 19 Jun 2009 23:57:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Beatrix</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Conto]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura Brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Lygia Fagundes Telles]]></category>

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		<description><![CDATA[Natal na barca - conto de Lygia Fagundes Telles]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana;">N&atilde;o quero nem devo lembrar aqui por que me encontrava naquela barca. S&oacute; sei que em redor tudo era sil&ecirc;ncio e treva. E que me sentia bem naquela solid&atilde;o. Na embarca&ccedil;&atilde;o desconfort&aacute;vel, tosca, apenas quatro passageiros. Uma lanterna nos iluminava com sua luz vacilante: um velho, uma mulher com uma crian&ccedil;a e eu.</p>
<p>O velho, um b&ecirc;bado esfarrapado, deitara-se de comprido no banco, dirigira palavras amenas a um vizinho invis&iacute;vel e agora dormia. A mulher estava sentada entre n&oacute;s, apertando nos bra&ccedil;os a crian&ccedil;a enrolada em panos. Era uma mulher jovem e p&aacute;lida. O longo manto escuro que lhe cobria a cabe&ccedil;a dava-lhe o aspecto de uma figura antiga.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana;"> <br />
<span id="more-160"></span></p>
<p>
Pensei em falar-lhe assim que entrei na barca. Mas j&aacute; dev&iacute;amos estar quase no fim da viagem e at&eacute; aquele instante n&atilde;o me ocorrera dizer-lhe qualquer palavra. Nem combinava mesmo com uma barca t&atilde;o despojada, t&atilde;o sem artif&iacute;cios, a ociosidade de um di&aacute;logo. Est&aacute;vamos s&oacute;s. E o melhor ainda era n&atilde;o fazer nada, n&atilde;o dizer nada, apenas olhar o sulco negro que a embarca&ccedil;&atilde;o ia fazendo no rio.</p>
<p>Debrucei-me na grade de madeira carcomida. Acendi um cigarro. Ali est&aacute;vamos os quatro, silenciosos como mortos num antigo barco de mortos deslizando na escurid&atilde;o. Contudo, est&aacute;vamos vivos. E era Natal.</p>
<p>A caixa de f&oacute;sforos escapou-me das m&atilde;os e quase resvalou para o. rio. Agachei-me para apanh&aacute;-la. Sentindo ent&atilde;o alguns respingos no rosto, inclinei-me mais at&eacute; mergulhar as pontas dos dedos na &aacute;gua.</p>
<p>&mdash; T&atilde;o gelada &mdash; estranhei, enxugando a m&atilde;o. </p>
<p>&mdash; Mas de manh&atilde; &eacute; quente.</p>
<p>Voltei-me para a mulher que embalava a crian&ccedil;a e me observava com um meio sorriso. Sentei-me no banco ao seu lado. Tinha belos olhos claros, extraordinariamente brilhantes. Reparei que suas roupas (pobres roupas pu&iacute;das) tinham muito car&aacute;ter, revestidas de uma certa dignidade.</p>
<p>&mdash; De manh&atilde; esse rio &eacute; quente &mdash; insistiu ela, me encarando.</p>
<p>&mdash; Quente?</p>
<p>&mdash; Quente e verde, t&atilde;o verde que a primeira vez que lavei nele uma pe&ccedil;a de roupa pensei que a roupa fosse sair esverdeada. &Eacute; a primeira vez que vem por estas bandas?</p>
<p>Desviei o olhar para o ch&atilde;o de largas t&aacute;buas gastas. E respondi com uma outra pergunta: </p>
<p>&mdash; Mas a senhora mora aqui perto?</p>
<p>&mdash; Em Lucena. J&aacute; tomei esta barca n&atilde;o sei quantas vezes, mas n&atilde;o esperava que justamente hoje&#8230;</p>
<p>A crian&ccedil;a agitou-se, choramingando. A mulher apertou-a mais contra o peito. Cobriu-lhe a cabe&ccedil;a com o xale e p&ocirc;s-se a nin&aacute;-la com um brando movimento de cadeira de balan&ccedil;o. Suas m&atilde;os destacavam-se exaltadas sobre o xale preto, mas o rosto era sereno.</p>
<p>&mdash; Seu filho?</p>
<p>&mdash; &Eacute;. Est&aacute; doente, vou ao especialista, o farmac&ecirc;utico de Lucena achou que eu devia ver um m&eacute;dico hoje mesmo. Ainda ontem ele estava bem mas piorou de repente. Uma febre, s&oacute; febre&#8230; Mas Deus n&atilde;o vai me abandonar.</p>
<p>&mdash; &Eacute; o ca&ccedil;ula?</p>
<p>Levantou a cabe&ccedil;a com energia. O queixo agudo era altivo mas o olhar tinha a express&atilde;o doce.</p>
<p>&mdash; &Eacute; o &uacute;nico. O meu primeiro morreu o ano passado. Subiu no muro, estava brincando de m&aacute;gico quando de repente avisou, vou voar! E atirou-se. A queda n&atilde;o foi grande, o muro n&atilde;o era alto, mas caiu de tal jeito&#8230; Tinha pouco mais de quatro anos.</p>
<p>Joguei o cigarro na dire&ccedil;&atilde;o do rio e o toco bateu na grade, voltou e veio rolando aceso pelo ch&atilde;o. Alcancei-o com a ponta do sapato e fiquei a esfreg&aacute;-lo devagar. Era preciso desviar o assunto para aquele filho que estava ali, doente, embora. Mas vivo.</p>
<p>&mdash; E esse? Que idade tem?</p>
<p>&mdash; Vai completar um ano. &mdash; E, noutro tom, inclinando a cabe&ccedil;a para o ombro: &mdash; Era um menino t&atilde;o alegre. Tinha verdadeira mania com m&aacute;gicas. Claro que n&atilde;o sa&iacute;a nada, mas era muito engra&ccedil;ado&#8230; A &uacute;ltima m&aacute;gica que fez foi perfeita, vou voar! disse abrindo os bra&ccedil;os. E voou.</p>
<p>Levantei-me. Eu queria ficar s&oacute; naquela noite, sem lembran&ccedil;as, sem piedade. Mas os la&ccedil;os (os tais la&ccedil;os humanos) j&aacute; amea&ccedil;avam me envolver. Conseguira evit&aacute;-los at&eacute; aquele instante. E agora n&atilde;o tinha for&ccedil;as para romp&ecirc;-los.</p>
<p>&mdash; Seu marido est&aacute; &agrave; sua espera? </p>
<p>&mdash; Meu marido me abandonou.</p>
<p>Sentei-me e tive vontade de rir. Incr&iacute;vel. Fora uma loucura fazer a primeira pergunta porque agora n&atilde;o podia mais parar, ah! aquele sistema dos vasos comunicantes.</p>
<p>&mdash; H&aacute; muito tempo? Que seu marido&#8230;</p>
<p>&mdash; Faz uns seis meses. Viv&iacute;amos t&atilde;o bem, mas t&atilde;o bem. Foi quando ele encontrou por acaso essa antiga namorada, me falou nela fazendo uma brincadeira, a Bila enfeiou, sabe que de n&oacute;s dois fui eu que acabei ficando mais bonito? N&atilde;o tocou mais no assunto. Uma manh&atilde; ele se levantou como todas as manh&atilde;s, tomou caf&eacute;, leu o jornal, brincou com o menino e foi trabalhar. Antes de sair ainda fez assim com a m&atilde;o, eu estava na cozinha lavando a lou&ccedil;a e ele me deu um adeus atrav&eacute;s da tela de arame da porta, me lembro at&eacute; que eu quis abrir a porta, n&atilde;o gosto de ver ningu&eacute;m falar comigo com aquela tela no meio&#8230; Mas eu estava com a m&atilde;o molhada. Recebi a carta de tardinha, ele mandou uma carta. Fui morar com minha m&atilde;e numa casa que alugamos perto da minha escolinha. Sou professora.</p>
<p>Olhei as nuvens tumultuadas que corriam na mesma dire&ccedil;&atilde;o do rio. Incr&iacute;vel. Ia contando as sucessivas desgra&ccedil;as com tamanha calma, num tom de quem relata fatos sem ter realmente participado deles. Como se n&atilde;o bastasse a pobreza que espiava pelos remendos da sua roupa, perdera o filhinho, o marido, via pairar uma sombra sobre o segundo filho que ninava nos bra&ccedil;os. E ali estava sem a menor revolta, confiante. Apatia? N&atilde;o, n&atilde;o podiam ser de uma ap&aacute;tica aqueles olhos viv&iacute;ssimos, aquelas m&atilde;os en&eacute;rgicas. Inconsci&ecirc;ncia? Uma certa irrita&ccedil;&atilde;o me fez andar.</p>
<p>&mdash; A senhora &eacute; conformada.</p>
<p>&mdash; Tenho f&eacute;, dona. Deus nunca me abandonou. </p>
<p>&mdash; Deus &mdash; repeti vagamente.</p>
<p>&mdash; A senhora n&atilde;o acredita em Deus?</p>
<p>&mdash; Acredito &mdash; murmurei. E ao ouvir o som d&eacute;bil da minha afirmativa, sem saber por qu&ecirc;, perturbei-me. Agora entendia. A&iacute; estava o segredo daquela seguran&ccedil;a, daquela calma. Era a tal f&eacute; que removia montanhas&#8230;</p>
<p>Ela mudou a posi&ccedil;&atilde;o da crian&ccedil;a, passando-a do ombro direito para o esquerdo. E come&ccedil;ou com voz quente de paix&atilde;o: </p>
<p>&mdash; Foi logo depois da morte do meu menino. Acordei uma noite t&atilde;o desesperada que sa&iacute; pela rua afora, enfiei um casaco e sa&iacute; descal&ccedil;a e chorando feito louca, chamando por ele! Sentei num banco do jardim onde toda tarde ele ia brincar. E fiquei pedindo, pedindo com tamanha for&ccedil;a, que ele, que gostava tanto de m&aacute;gica, fizesse essa m&aacute;gica de me aparecer s&oacute; mais uma vez, n&atilde;o precisava ficar, se mostrasse s&oacute; um instante, ao menos mais uma vez, s&oacute; mais uma! Quando fiquei sem l&aacute;grimas, encostei a cabe&ccedil;a no banco e n&atilde;o sei como dormi. Ent&atilde;o sonhei e no sonho Deus me apareceu, quer dizer, senti que ele pegava na minha m&atilde;o com sua m&atilde;o de luz. E vi o meu menino brincando com o Menino Jesus no jardim do Para&iacute;so. Assim que ele me viu, parou de brincar e veio rindo ao meu encontro e me beijou tanto, tanto&#8230; Era tamanha sua alegria que acordei rindo tamb&eacute;m, com o sol batendo em mim.</p>
<p>Fiquei sem saber o que dizer. Esbocei um gesto e em seguida, apenas para fazer alguma coisa, levantei a ponta do xale que cobria a cabe&ccedil;a da crian&ccedil;a. Deixei cair o xale novamente e voltei-me para o rio. O menino estava morto. Entrelacei as m&atilde;os para dominar o tremor que me sacudiu. Estava morto. A m&atilde;e continuava a nin&aacute;-lo, apertando-o contra o peito. Mas ele estava morto.</p>
<p>Debrucei-me na grade da barca e respirei penosamente: era como se estivesse mergulhada at&eacute; o pesco&ccedil;o naquela &aacute;gua. Senti que a mulher se agitou atr&aacute;s de mim </p>
<p>&mdash; Estamos chegando &mdash; anunciou.</p>
<p>Apanhei depressa minha pasta. O importante agora era sair, fugir antes que ela descobrisse, correr para longe daquele horror. Diminuindo a marcha, a barca fazia uma larga curva antes de atracar. O bilheteiro apareceu e p&ocirc;s-se a sacudir o velho que dormia: </p>
<p>- Chegamos!&#8230; Ei! chegamos! </p>
<p>Aproximei-me evitando encar&aacute;-la.</p>
<p>&mdash; Acho melhor nos despedirmos aqui &mdash; disse atropeladamente, estendendo a m&atilde;o.</p>
<p>Ela pareceu n&atilde;o notar meu gesto. Levantou-se e fez um movimento como se fosse apanhar a sacola. Ajudei-a, mas ao inv&eacute;s de apanhar a sacola que lhe estendi, antes mesmo que eu pudesse impedi-lo, afastou o xale que cobria a cabe&ccedil;a do filho.</p>
<p>&mdash; Acordou o dorminhoco! E olha a&iacute;, deve estar agora sem nenhuma febre.</p>
<p>&mdash; Acordou?! </p>
<p>Ela sorriu: </p>
<p>&mdash; Veja&#8230;</p>
<p>Inclinei-me. A crian&ccedil;a abrira os olhos &mdash; aqueles olhos que eu vira cerrados t&atilde;o definitivamente. E bocejava, esfregando a m&atilde;ozinha na face corada. Fiquei olhando sem conseguir falar.</p>
<p>&mdash; Ent&atilde;o, bom Natal! &mdash; disse ela, enfiando a sacola no bra&ccedil;o.</p>
<p>Sob o manto preto, de pontas cruzadas e atiradas para tr&aacute;s, seu rosto resplandecia. Apertei-lhe a m&atilde;o vigorosa e acompanhei-a com o olhar at&eacute; que ela desapareceu na noite.</p>
<p>Conduzido pelo bilheteiro, o velho passou por mim retomando seu afetuoso di&aacute;logo com o vizinho invis&iacute;vel. Sa&iacute; por &uacute;ltimo da barca. Duas vezes voltei-me ainda para ver o rio. E pude imagin&aacute;-lo como seria de manh&atilde; cedo: verde e quente. Verde e quente.</span></p>
<div style="text-align: justify;">
<hr />
</div>
<p style="text-align: justify;">
<em><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana;">Texto extra&iacute;do do livro &ldquo;Para gostar de ler &ndash; Volume 9 &ndash; Contos&rdquo;, Editora &Aacute;tica &ndash; S&atilde;o Paulo, 1984, p&aacute;g. 67.</span></em></p>
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		<title>Augustine de Villeblanche, ou O Estratagema do Amor &#8211; Marquês de Sade</title>
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		<pubDate>Fri, 12 Jun 2009 01:04:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Beatrix</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Conto]]></category>
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		<description><![CDATA[Augustine de Villeblanche, ou O Estratagema do Amor, conto do Marquês de Sade]]></description>
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<p><!--[if gte vml 1]> <![endif]--></p>
<div style="text-align: justify;">De todos os desvios da natureza, o que mais causou reflex&atilde;o, que pareceu mais estranho a esses pseudofil&oacute;sofos que tudo querem analisar sem nunca compreender algo -, dizia a uma de suas melhores amigas, certo dia, a Srta. Villeblanche, da qual falaremos oportunamente daqui a pouco -, &eacute; esse gosto bizarro que mulheres de certa complei&ccedil;&atilde;o, ou de certo temperamento, desenvolveram com respeito a pessoas do seu sexo. Embora bem anteriormente &agrave; imortal Safo, e depois dela, n&atilde;o tivesse existido uma &uacute;nica regi&atilde;o do universo, sequer uma cidade, que n&atilde;o nos tivesse dado mulheres nascidas desse tipo de capricho, e de acordo com provas t&atilde;o cabais, fosse mais razo&aacute;vel acusar a natureza de bizarria do que a essas mulheres de crime contra a natureza, jamais, entretanto, deixou-se de as censurar, e, sem a autoridade imperiosa que sempre teve o nosso sexo, quem sabe se algum Cujas, algum Bartole, algum Lu&iacute;s IX, teriam imaginado criar leis de <em>fagots</em><em>* </em><em>, </em>contra essas criaturas, do modo como ousaram promulgar contra os homens que, formando o mesmo g&ecirc;nero singular, e por t&atilde;o boas raz&otilde;es, sem d&uacute;vida, imaginaram, entre eles, poder se bastar a si pr&oacute;prios, e pensaram que a mistura dos sexos, muito &uacute;til &agrave; propaga&ccedil;&atilde;o, podia muito bem n&atilde;o ter essa mesma import&acirc;ncia para os prazeres.</div>
<div style="text-align: justify;">
<span id="more-175"></span></div>
<div style="text-align: justify;">- Queira Deus que n&atilde;o tomemos nenhum partido sobre isso&#8230; N&atilde;o &eacute;, minha cara? &#8211; continuava a bela Augustine de Villeblanche, lan&ccedil;ando a essa amiga beijos que pareciam, entretanto, no m&iacute;nimo, suspeitos, mas em vez de <em>fagots, </em>em vez de desprezo, em vez de sarcasmos &#8211; essas armas de todos e embotadas em nossos dias -, n&atilde;o seria infinitamente mais simples, num gesto totalmente indiferente &agrave; sociedade, t&atilde;o ao agrado de Deus, e, talvez mais &uacute;til &agrave; natureza do que se imagina, que se permitisse a cada qual agir segundo a pr&oacute;pria vontade &#8230; ? O que se pode temer dessa deprava&ccedil;&atilde;o? Aos olhos de todo ser verdadeiramente s&aacute;bio, parecer&aacute; que ela &eacute; capaz de exercer influ&ecirc;ncia sobre maiores deprava&ccedil;&otilde;es, mas nunca me convencer&atilde;o de que ela pode acarretar deprava&ccedil;&otilde;es perigosas&#8230; Pelos c&eacute;us! Receia-se que os caprichos dessas pessoas, de um ou de outro sexo, sejam a causa do fim do mundo; que ponham em risco a valiosa esp&eacute;cie humana, e que seu pretenso crime a aniquile, por n&atilde;o se entregarem &agrave; sua multiplica&ccedil;&atilde;o? Refleti bem sobre isso, e vereis que todas essas perdas quim&eacute;ricas s&atilde;o inteiramente indiferentes &agrave; natureza; que n&atilde;o apenas ela n&atilde;o as condena em absoluto, mas tamb&eacute;m prova a n&oacute;s, de mil maneiras, que as quer e deseja; e, contrariassem-na essas perdas, ela haveria de as tolerar em mil casos; permitiria ela, fosse-lhe a progenitura t&atilde;o essencial, que uma mulher a isso n&atilde;o pudesse servir sen&atilde;o durante um ter&ccedil;o de sua vida, e que, ao sair-lhe das m&atilde;os metade dos seres que ela gera, estes tivessem inclina&ccedil;&otilde;es contr&aacute;rias a essa prog&ecirc;nie, exigida, todavia, por ela? Sendo mais preciso: ela permite que as esp&eacute;cies se multipliquem, mas n&atilde;o exige isso de modo algum, e, bem segura de que haver&aacute; sempre mais indiv&iacute;duos do que lhe &eacute; necess&aacute;rio, longe est&aacute; de contrariar Os pendores de quantos n&atilde;o se entregam &agrave; reprodu&ccedil;&atilde;o, e que se recusam a conformar-se a isso. Ah! Deixemos que aja essa boa m&atilde;e; conven&ccedil;amo-nos de que imensos s&atilde;o os seus recursos, de que nada do que fazemos a ultraja e o crime que atentaria contra as suas leis jamais nos h&aacute; de sujar as m&atilde;os.</div>
<p style="text-align: justify;">A Srta. Augustine de Villeblanche, de cuja parte da l&oacute;gica acabamos de tomar conhecimento, tendo se tornado senhora de seus atos aos vinte anos de idade, podendo dispor de trinta mil libras de renda, decidira-se, por gosto, nunca se casar; de boa origem, sem ser ilustre, era ela filha de um homem que enriquecera nas &iacute;ndias, que a tivera como &uacute;nica filha, e morrera sem nunca a poder convencer de se casar. N&atilde;o devemos dissimul&aacute;-lo; essa repugn&acirc;ncia que Augustine manifestava pelo casamento em muito se devia a esse tipo de capricho do qual ela acabara de fazer apologia; seja por conselhos, por educa&ccedil;&atilde;o, seja por disposi&ccedil;&atilde;o de &oacute;rg&atilde;o ou pelo calor do seu sangue (nascera em Madras), seja por inspira&ccedil;&atilde;o da natureza, enfim, seja por tudo o que se quiser, a Srta. Villeblanche detestava os homens, e de todo se entregava &agrave;quilo que ouvidos castos entender&atilde;o com o termo safismo; n&atilde;o encontrava vol&uacute;pia sen&atilde;o nas pessoas de seu sexo, e s&oacute; com as Gra&ccedil;as se compensava do desprezo que votava ao Amor.</p>
<p style="text-align: justify;">Para os homens, Augustine era um verdadeiro desperd&iacute;cio; alta, podendo servir de modelo a um pintor, com cabelos castanhos os mais belos, nariz um pouco aquilino, dentes extraordin&aacute;rios, e olhos de uma express&atilde;o, de uma vivacidade! Pele t&atilde;o fina, t&atilde;o branca, o conjunto, numa palavra, evocando t&atilde;o ardente lasc&iacute;via&#8230; Que bem certo era que v&ecirc;-la assim, perfeita para dar amor e t&atilde;o determinada a n&atilde;o o receber de maneira alguma, poderia arrancar a muitos homens infinitas zombarias contra determinado gosto, por sinal, muito simples, mas privando, contudo, os altares de Pafo* de uma das criaturas do universo mais apropriadas a servi-los, &#8211; v&ecirc;-la assim por for&ccedil;a havia de animar os sect&aacute;rios dos templos de V&ecirc;nus. A srta. Villeblanche ria prazerosamente dessas censuras todas, dessas maledic&ecirc;ncias, e por isso n&atilde;o se dava menos a seus caprichos.</p>
<p style="text-align: justify;">- A maior de todas as loucuras &#8211; dizia ela &#8211; &eacute; enrubescer por causa de nossas inclina&ccedil;&otilde;es naturais; e zombar de qualquer indiv&iacute;duo que possua gostos singulares &eacute; absolutamente t&atilde;o desumano quanto escarnecer de um homem ou de uma mulher sa&iacute;da zarolha ou coxa do seio de sua m&atilde;e; mas convencer os tolos sobre esses princ&iacute;pios racionais &eacute; tentar impedir o movimento dos astros. Para o orgulho, h&aacute; uma esp&eacute;cie de prazer em zombar dos defeitos que se n&atilde;o tem, e essa satisfa&ccedil;&atilde;o &eacute; t&atilde;o doce ao homem e particularmente aos n&eacute;scios, que &eacute; muito raro v&ecirc;-los renunciar a tal comportamento, este, por sinal, fomenta a malvadez, as fr&iacute;volas palavras de esp&iacute;rito, os calembures vulgares, e, para a sociedade, isto &eacute;, para um grupo de seres que o t&eacute;dio re&uacute;ne e a estupidez modifica, &eacute; t&atilde;o doce falar duas ou tr&ecirc;s horas sem nada dizer! t&atilde;o delicioso brilhar &agrave;s custas dos outros, e proclamar, estigmatizando um v&iacute;cio, que se est&aacute; bem longe de o possuir&#8230; &eacute; uma esp&eacute;cie de elogio que se faz tacitamente a si mesmo; por esse pre&ccedil;o &eacute; l&iacute;cito inclusive associar-se aos outros, tracejar maquina&ccedil;&otilde;es secretas a fim de pisar no indiv&iacute;duo cujo grande erro &eacute; n&atilde;o pensar como a maioria dos mortais; e a pessoa volta para casa toda entufada devido &agrave; espirituosidade que n&atilde;o lhe faltou, embora com tal conduta s&oacute; se tenha demonstrado, essencialmente, pedantismo e estupidez.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim pensava a srta. Villeblanche; decidida de maneira muito segura a nunca se reprimir, desdenhando as maledic&ecirc;ncias e bastante rica para manter-se a si pr&oacute;pria acima de sua reputa&ccedil;&atilde;o, visava epicurianamente a uma vida voluptuosa, e de maneira nenhuma a beatices celestiais em que acreditava muito pouco, para n&atilde;o mencionar a id&eacute;ia de uma imortalidade, por demais quim&eacute;rica aos seus sentidos; no centro de um pequeno c&iacute;rculo de mulheres que pensavam como ela, a cara Augustine entregava-se inocentemente a todos os prazeres que a deleitavam. Tivera muitos pretendentes, mas todos haviam sido t&atilde;o maltratados, que quando j&aacute; se estava prestes a se renunciar a tal conquista, um jovem de nome Franville, de semelhante condi&ccedil;&atilde;o social, ao menos t&atilde;o rico quanto ela, tendo se apaixonado como louco, n&atilde;o apenas n&atilde;o se revoltou de maneira nenhuma com sua firmeza, como tamb&eacute;m decidiu com muita seriedade n&atilde;o abandonar o posto enquanto ela n&atilde;o fosse conquistada; comunicou o projeto a seus amigos, que dele zombaram; asseverou-lhes que obteria &ecirc;xito; eles o desafiaram a obt&ecirc;-lo, e ele se lan&ccedil;ou &agrave; empresa. Franville, com dois anos menos que a srta. Villeblanche, quase n&atilde;o tinha barba, mas boa estatura, e fei&ccedil;&otilde;es as mais delicadas, e os cabelos mais bonitos do mundo; quando o trajavam de mulher, ficava t&atilde;o bem que sempre enganava os dois sexos, e recebia ami&uacute;de, fugindo ao ass&eacute;dio de uns, dos que demonstravam seguran&ccedil;a em sua a&ccedil;&atilde;o, uma grande quantidade de declara&ccedil;&otilde;es t&atilde;o objetivas que no mesmo dia seria capaz de se tornar o Ant&iacute;noo de algum Adriano ou o Ad&ocirc;nis de alguma Psique. Foi com esse disfarce que Franville imaginou seduzir srta. Villeblanche; veremos como procedeu.</p>
<p style="text-align: justify;"><!--[if gte vml 1]><![endif]--></p>
<table cellspacing="0" cellpadding="0" border="0" style="text-align: justify;">
<tbody style="text-align: left;">
<tr style="text-align: left;">
<td width="400" height="52" bgcolor="white" style="text-align: left;">
<table width="100%" cellspacing="0" cellpadding="0" border="0">
<tbody style="text-align: left;">
<tr style="text-align: left;">
<td style="text-align: left;">
<p style="text-align: center;">*&nbsp;Antiga cidade da ilha de Chipre, c&eacute;lebre     por seu templo de Afrodite (N.dos T.)</p>
<p style="text-align: center;">&nbsp;</p>
</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p style="text-align: justify;">Um dos maiores prazeres de Augustine era, durante o carnaval, vestir-se de homem, e participar de todos os bailes com esse disfarce, t&atilde;o an&aacute;logo a suas inclina&ccedil;&otilde;es; Franville, que lhe mandava vigiar os passos, e que at&eacute; aquele momento tivera o cuidado de revelar-se-lhe bem pouco, soube, certa feita, que essa a quem adorava na mesma noite iria a um baile organizado por associados do &Oacute;pera, onde todos os mascarados poderiam entrar, e que, segundo costume dessa mo&ccedil;a encantadora, ela se apresentaria como capit&atilde; dos drag&otilde;es. Ele se disfar&ccedil;a de mulher, enfeita-se, veste-se com toda eleg&acirc;ncia e propriedade, carrega a maquiagem, prescindindo da m&aacute;scara, e, acompanhado por uma de suas irm&atilde;s, muito menos bonita do que ele pr&oacute;prio, apresenta-se assim no baile, para onde a am&aacute;vel Augustine se dirigia em busca de aventura.</p>
<p style="text-align: justify;">Menos de tr&ecirc;s voltas pelo sal&atilde;o bastaram para que Franville fosse distinguido pelos olhos experientes de Augustine.</p>
<p style="text-align: justify;">- Quem &eacute; aquela bela mo&ccedil;a? &#8211; diz a srta. Villeblanche a uma amiga que a acompanhava -&#8230; Creio nunca t&ecirc;-la visto; como &eacute; poss&iacute;vel que t&atilde;o deliciosa criatura tenha, pois, nos escapado?</p>
<p style="text-align: justify;">Mal haviam sido pronunciadas essas palavras, e Augustine faz quanto pode para encetar conversa com a falsa senhorita de Franville, que a princ&iacute;pio foge, inquieta-se, esquiva-se, escapa, e tudo isso a fim de fazer com que a desejem com mais ardor; por fim, ela o aborda, frases banais travam inicialmente a conversa a qual, a pouco e pouco, torna-se mais interessante.</p>
<p style="text-align: justify;">- Est&aacute; fazendo um calor insuport&aacute;vel no sal&atilde;o diz a srta. Villeblanche -, deixemos nossas companhias juntas, e tomemos um pouco de ar nesses aposentos onde nos divertimos e refrescamos.</p>
<p style="text-align: justify;">- Ah, senhor &#8211; diz Franville &agrave; srta. Villeblanche a qual ainda finge confundir com um homem&#8230; &#8211; na verdade, n&atilde;o ouso fazer isso: estou aqui apenas com minha irm&atilde;, mas sei que minha m&atilde;e dever&aacute; vir com o esposo que me foi destinado, e se ambos me vissem convosco, seria uma grande confus&atilde;o&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">- Bem, bem, &eacute; preciso p&ocirc;r-se ao abrigo de todo esse medo infantil&#8230; Qual a vossa idade, meu anjo?</p>
<p style="text-align: justify;">- Dezoito anos, senhor.</p>
<p style="text-align: justify;">- Ah! Digo-vos que aos dezoito j&aacute; se deve ter adquirido o direito de fazer tudo o que se quiser&#8230; Vamos, vamos, acompanhai-me, e n&atilde;o tenhais nenhum medo&#8230; &#8211; E Franville se deixa levar.</p>
<p style="text-align: justify;">- &Eacute; verdade, encantadora criatura &#8211; continua Augustine, conduzindo a pessoa a quem ainda toma aposentos cont&iacute;guos ao sal&atilde;o do baile&#8230; &#8211; &eacute; verdade, realmente v&oacute;s vos unireis em matrim&ocirc;nio&#8230; Como lamento por v&oacute;s! e quem &eacute; ele, essa pessoa a quem vos destinam? Um ma&ccedil;ador, decerto&#8230; Ah, como ser&aacute; feliz, esse homem, e como eu gostaria de estar no lugar dele! Consentir&iacute;eis desposar-me a mim, por exemplo? Dizei-me francamente, jovem celestial.</p>
<p style="text-align: justify;">- Ai de mim! Senhor, acaso n&atilde;o sabeis que, quando se &eacute; jovem, segue-se os impulsos do cora&ccedil;&atilde;o?</p>
<p style="text-align: justify;">- Pois bem; recusai-o, esse homem vil! tornar-nos-emos ambos mais &iacute;ntimos, e, se gostarmos&#8230; Por que n&atilde;o nos unir-nos? N&atilde;o preciso, gra&ccedil;as a Deus, de permiss&atilde;o nenhuma; embora tenha s&oacute; vinte anos, sou senhor de minha vida, e se pud&eacute;sseis persuadir vossos pais em meu favor, antes de oito dias talvez estiv&eacute;sseis, v&oacute;s e eu, ligados pelos la&ccedil;os eternos.</p>
<p style="text-align: justify;">Tagarelando, sa&iacute;ram do baile, e a astuta Augustine, que at&eacute; l&aacute; n&atilde;o conduzia sua presa para fugir ao perfeito amor, teve o cuidado de a conduzir a um aposento muito isolado, do qual, por meio de acordos acertados com os organizadores do baile, ela sempre tinha o cuidado de se fazer senhora.</p>
<p style="text-align: justify;">- Oh Deus! &#8211; diz Franville, t&atilde;o logo v&ecirc; Augustine fechar a porta desse quarto e envolv&ecirc;-lo nos seus bra&ccedil;os -, oh pelos c&eacute;us! Que desejais fazer?&#8230; O qu&ecirc;? Convosco, frente a frente, senhor, e num lugar t&atilde;o retirado&#8230; Deixai-me, deixai-me, rogo-vos! Ou chamo agora mesmo por socorro.</p>
<p style="text-align: justify;">- Impedir-te-ei de faz&ecirc;-lo, anjo divino &#8211; diz Augustine, apertando a bela boca contra os l&aacute;bios de Franville &#8211; grita agora, grita se podes, e o puro sopro de teu h&aacute;lito de rosas abrasar&aacute; ainda mais cedo o meu cora&ccedil;&atilde;o.</p>
<p style="text-align: justify;">Franville defendia-se com bastante tibieza: &eacute; dif&iacute;cil encolerizar-se muito quando se recebe de maneira t&atilde;o terna o primeiro beijo de quem se adora. Augustine, encorajada, investia com mais for&ccedil;a, nisso pondo essa veem&ecirc;ncia que s&oacute; com efeito conhecem as mulheres deliciosas, arrebatadas por essa fantasia. Em breve as m&atilde;os se desgarram; Franville faz o papel da mulher que cede, igualmente deixa que suas m&atilde;os explorem o corpo. Todas as vestes s&atilde;o retiradas, e os dedos se dirigem quase ao mesmo tempo para onde cada um cr&ecirc; encontrar o que lhe conv&eacute;m&#8230; Ent&atilde;o, Franville muda imediatamente de papel:</p>
<p style="text-align: justify;">- Oh! Pelos c&eacute;us &#8211; exclama ele -, o qu&ecirc;? Sois uma mulher&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">- Horr&iacute;vel criatura &#8211; diz Augustine, pondo a m&atilde;o em partes do corpo que n&atilde;o d&atilde;o margem &agrave; d&uacute;vida -, tanto trabalho para encontrar um m&iacute;sero homem&#8230; &eacute; preciso ter azar demais.</p>
<p style="text-align: justify;">- Na verdade, n&atilde;o mais do que eu &#8211; diz FranviIle, recompondo-se, e dando mostras do mais profundo desprezo -, uso esse disfarce para seduzir os homens; eu os amo, corro atr&aacute;s deles, e s&oacute; encontro uma p&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">- Oh, p&#8230;. N&atilde;o &#8211; diz Augustine, com rancor nunca o fui em minha vida; n&atilde;o &eacute; por se detestar os homens que se pode ser tratada dessa maneira&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">- Como, sois mulher, e detestais os homens?</p>
<p style="text-align: justify;">- Sim, e isso pela mesma raz&atilde;o de serdes homem e detestardes mulheres.</p>
<p style="text-align: justify;">- Um encontro singular &#8211; eis tudo o que se pode dizer.</p>
<p style="text-align: justify;">- E para mim muito triste &#8211; acrescenta Augustine, revelando todos os sintomas de descontentamento mais acentuado.</p>
<p style="text-align: justify;">- Em verdade, senhorita, tal encontro &eacute; ainda mais fastidioso para mim &#8211; diz asperamente Franville -, desonrado por tr&ecirc;s semanas: sabeis que em nossa ordem fazemos voto de nunca tocar em mulheres?</p>
<p style="text-align: justify;">- Parece-me que, sem se desonrar, &eacute; poss&iacute;vel tocar numa como eu.</p>
<p style="text-align: justify;">- Com efeito, minha bela &#8211; continua Franville n&atilde;o vejo grande motivo para a exce&ccedil;&atilde;o, e n&atilde;o compreendo que um v&iacute;cio para v&oacute;s valha um m&eacute;rito adicional.</p>
<p style="text-align: justify;">- Um v&iacute;cio? Mas caberia a v&oacute;s censurar-me pelos meus, quando partilhais da mesma inf&acirc;mia?</p>
<p style="text-align: justify;">- Escutai &#8211; diz Franville -, n&atilde;o continuemos discutindo; o melhor &eacute; nos separarmos e nunca mais nos vermos.</p>
<p style="text-align: justify;">E, dizendo isso, Franville prepara-se para abrir a porta.</p>
<p style="text-align: justify;">- Um momento, um momento &#8211; diz Augustine impedindo-o de fazer isso -, ides espalhar nossa aventura pelo mundo todo, aposto.</p>
<p style="text-align: justify;">- Talvez venha a me divertir com isso.</p>
<p style="text-align: justify;">- Que me importa, de resto, estou, gra&ccedil;as a Deus, acima da maledic&ecirc;ncia; retirai-vos, e dizei tudo o que vos aprouver&#8230; &#8211; e impedindo-o de sair mais uma vez &#8211; sabei &#8211; diz ela sorrindo &#8211; que essa hist&oacute;ria &eacute; extraordin&aacute;ria&#8230; N&oacute;s dois nos engan&aacute;vamos.</p>
<p style="text-align: justify;">- Ah! o erro &eacute; muito mais intoler&aacute;vel &#8211; diz Franville &#8211; a pessoas de meu gosto, do que a pessoas do vosso&#8230; E esse vazio nos repugna&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">- Por minha f&eacute;, meu caro! Sabei que o que nos ofereceis desagrada ao menos tanto quanto a v&oacute;s! Ora, o desencanto &eacute; igual em cada um, mas a aventura &eacute; muito engra&ccedil;ada; n&atilde;o deixemos de concordar com isso. Voltareis ao baile?</p>
<p style="text-align: justify;">- N&atilde;o sei.</p>
<p style="text-align: justify;">- No que me diz respeito, n&atilde;o volto mais l&aacute; &#8211; diz Augustine -&#8230; V&oacute;s me fizestes experimentar coisas&#8230; Contrariedade&#8230; Vou me deitar.</p>
<p style="text-align: justify;">- Perfeito.</p>
<p style="text-align: justify;">- Mas vejamos se sereis bastante cort&ecirc;s para dardes o bra&ccedil;o at&eacute; minha casa; minha resid&ecirc;ncia fica a dois passos daqui; n&atilde;o estou com minha carruagem; ireis me deixar aqui&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">- N&atilde;o, eu vos acompanharei de bom grado &#8211; diz Franville -, nossas inclina&ccedil;&otilde;es n&atilde;o nos impedem de sermos polidos&#8230; Quereis minha m&atilde;o?&#8230; Ei-la.</p>
<p style="text-align: justify;">- S&oacute; me sirvo dela porque n&atilde;o encontro coisa melhor, pelo menos.</p>
<p style="text-align: justify;">- Ficai tranq&uuml;ila; para mim, s&oacute; v&ocirc;-la ofere&ccedil;o por honestidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Chegam &agrave; porta da casa de Augustine, e Franville apresta-se a se despedir.</p>
<p style="text-align: justify;">- Em verdade, sois delicioso &#8211; diz a srta. Villeblanche -, o qu&ecirc;? Deixar-me-eis na rua?</p>
<p style="text-align: justify;">- Com mil desculpas &#8211; diz Franville -&#8230; Eu n&atilde;o pretendia&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">- Ah, como s&atilde;o rudes esses homens que n&atilde;o amam as mulheres!</p>
<p style="text-align: justify;">- &Eacute; que &#8211; diz Franville, dando, todavia, o bra&ccedil;o &agrave; srta. Villeblanche at&eacute; sua resid&ecirc;ncia -, vede, senhorita, eu gostaria de retornar bem r&aacute;pido ao baile e nele tentar reparar minha estupidez.</p>
<p style="text-align: justify;">- Vossa estupidez? Estais, pois, bem irritado por ter-me encontrado?</p>
<p style="text-align: justify;">- Eu n&atilde;o disse isso; mas n&atilde;o &eacute; verdade que pod&iacute;amos os dois ter um encontro infinitamente melhor?</p>
<p style="text-align: justify;">- Sim, tendes raz&atilde;o &#8211; diz Augustine, entrando enfim eu seu apartamento &#8211; tendes raz&atilde;o, senhor, eu, sobretudo&#8230; pois temo que esse funesto encontro n&atilde;o me custe a felicidade de minha vida.</p>
<p style="text-align: justify;">- De que modo? N&atilde;o estais, Portanto, bem segura de vossos sentimentos?</p>
<p style="text-align: justify;">- Ainda ontem estava.</p>
<p style="text-align: justify;">- Ah! N&atilde;o sustentais vossas t&aacute;citas afirma&ccedil;&otilde;es.</p>
<p style="text-align: justify;">- N&atilde;o sustento coisa alguma; v&oacute;s me impacientais.</p>
<p style="text-align: justify;">- Pois bem, eu me retiro, senhorita, me retiro&#8230; Deus me livre de vos incomodar por mais tempo.</p>
<p style="text-align: justify;">- N&atilde;o! Permanecer, ordeno-vos! Ser&iacute;eis capaz de vos esfor&ccedil;ar a fim de obedecer a uma mulher pelo menos uma vez em vossa vida?</p>
<p style="text-align: justify;">- Nada h&aacute; que eu n&atilde;o fa&ccedil;a &#8211; diz Franville, sentando-se por complac&ecirc;ncia &#8211; j&aacute; vos disse; sou honesto.</p>
<p style="text-align: justify;">- Sabeis que, na vossa, &eacute; muito decente ter gostos t&atilde;o singulares?</p>
<p style="text-align: justify;">- Oh! isso &eacute; muito diferente! no nosso caso, trata-se de discri&ccedil;&atilde;o, pudor&#8230; at&eacute; mesmo orgulho, se quiserdes; medo de entregar-se a um sexo que nos seduz somente para subjugar-nos&#8230; Entretanto, os sentidos n&atilde;o mentem, e encontramos al&iacute;vio entre n&oacute;s; conseguimos</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">ocultar-nos muito bem, e disso resulta um verniz de sabedoria que freq&uuml;entes vezes engana; assim, a natureza se satisfaz, a dec&ecirc;ncia &eacute; observada e os costumes n&atilde;o s&atilde;o ultrajados.</p>
<p style="text-align: justify;">- Eis o que se costuma chamar um bom e belo sofisma; procedendo dessa maneira, justificar-se-ia tudo; e o que dizeis em tudo isso que tamb&eacute;m n&atilde;o possamos alegar em favor nosso?</p>
<p style="text-align: justify;">- De maneira alguma! Com preconceitos muito diferentes, n&atilde;o deveis ter medo que tais; vosso triunfo est&aacute; em nossa derrota&#8230; Mais multiplicais vossas conquistas, mais acrescentais &agrave; vossa gl&oacute;ria, e n&atilde;o vos podeis abster dos sentimentos que em v&oacute;s despertamos, sen&atilde;o pelo v&iacute;cio ou pela deprava&ccedil;&atilde;o.</p>
<p style="text-align: justify;">- Na verdade, creio que me h&aacute;s de converter.</p>
<p style="text-align: justify;">- Eu o desejaria.</p>
<p style="text-align: justify;">- O que ganhar&iacute;eis com isso, enquanto v&oacute;s mesma continuar&iacute;eis em erro?</p>
<p style="text-align: justify;">- &Eacute; uma necessidade imposta pelo meu sexo, e, tal como as mulheres, fico bem contente de trabalhar para elas.</p>
<p style="text-align: justify;">- Se o milagre se realizasse, seus efeitos n&atilde;o seriam t&atilde;o gerais quanto imaginais; eu s&oacute; desejaria me converter para uma &uacute;nica mulher para pelo menos&#8230; Tentar.</p>
<p style="text-align: justify;">- O que dizeis &eacute; justo.</p>
<p style="text-align: justify;">- O que &eacute; bem certo &eacute; que h&aacute; certo preconceito, acredito, a tomar partido antes de ter experimentado tudo.</p>
<p style="text-align: justify;">- Como? Nunca tivestes uma mulher?</p>
<p style="text-align: justify;">- Nunca; e v&oacute;s&#8230; Possuir&iacute;eis por acaso prim&iacute;cias t&atilde;o seguras?</p>
<p style="text-align: justify;">- Oh, prim&iacute;cias, n&atilde;o&#8230; as mulheres que n&oacute;s vemos s&atilde;o t&atilde;o h&aacute;beis e t&atilde;o ciumentas que nada nos permitem&#8230; Mas nunca conheci um homem em minha vida.</p>
<p style="text-align: justify;">- E fizestes um juramento?</p>
<p style="text-align: justify;">- Sim, jamais quero ver um, ou, pelo menos t&atilde;o singular quanto eu.</p>
<p style="text-align: justify;">- Lamento n&atilde;o ter feito o mesmo voto.</p>
<p style="text-align: justify;">- N&atilde;o creio que seja poss&iacute;vel ser mais impertinente&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">E dizendo essas palavras, a srta. Villeblanche levanta-se e diz a Franville que ele pode se retirar. Nosso jovem amante, sempre fr&iacute;volo, faz uma profunda rever&ecirc;ncia e se prepara para sair.</p>
<p style="text-align: justify;">- Retornais ao baile &#8211; diz-lhe secamente a srta. Villeblanche, observando-o com um despeito aliado ao mais ardente amor.</p>
<p style="text-align: justify;">- Mas sim, eu vos disse; &eacute; o que me parece.</p>
<p style="text-align: justify;">- Pelo visto, n&atilde;o sois capaz do sacrif&iacute;cio que vos fa&ccedil;o.</p>
<p style="text-align: justify;">- Que sacrif&iacute;cio me haveis feito?</p>
<p style="text-align: justify;">- S&oacute; voltei para casa a fim de nada mais ver depois de ter tido a infelicidade de vos conhecer.</p>
<p style="text-align: justify;">- Infelicidade?</p>
<p style="text-align: justify;">- Sois v&oacute;s que me for&ccedil;ais a empregar essa express&atilde;o; s&oacute; de v&oacute;s dependeria que eu lan&ccedil;asse m&atilde;o de uma bem diferente .</p>
<p style="text-align: justify;">- E como haver&iacute;eis de conciliar isso com vossos gostos?</p>
<p style="text-align: justify;">- O que n&atilde;o se abandona quando se ama!</p>
<p style="text-align: justify;">- &Eacute; verdade; mas ser-vos-ia imposs&iacute;vel amar-me.</p>
<p style="text-align: justify;">- Concordo com isso; se conserv&aacute;sseis h&aacute;bitos t&atilde;o detest&aacute;veis quanto esses que descobri em v&oacute;s.</p>
<p style="text-align: justify;">- E se eu renunciasse a eles?</p>
<p style="text-align: justify;">- No mesmo instante, havia de imolar os meus nos altares do amor&#8230; Ah! Criatura p&eacute;rfida!, Que essa confiss&atilde;o custe a minha gl&oacute;ria, a qual acabas de arrancar-me &#8211; diz Augustine em l&aacute;grimas -, deixando-se cair sobre uma poltrona.</p>
<p style="text-align: justify;">- Da mais bonita boca do universo obtive a confiss&atilde;o mais lisonjeira que me seria dado ouvir &#8211; diz Franville, lan&ccedil;ando-se aos joelhos de Augustine -&#8230; Ah! Caro objeto de meu mais terno amor! Reconhecer meu ardil e condescender em n&atilde;o puni-lo de modo algum; &eacute; aos vossos p&eacute;s que vos imploro gra&ccedil;a; permanecerei aqui at&eacute; obter meu perd&atilde;o. Vedes pr&oacute;ximo a v&oacute;s, senhorita, o amante mais constante e mais apaixonado; imaginei necess&aacute;rio esse estratagema para sobrepujar um cora&ccedil;&atilde;o cujos obst&aacute;culos eu conhecia. Obtive &ecirc;xito, bela Augustine? Recusareis, ao amor sem m&aacute;culas, o que haveis condescendido em dizer ao amante culpado&#8230; Culpado, eu&#8230; Culpado do que haveis acreditado&#8230; Ah! Pod&iacute;eis supor que uma paix&atilde;o impura pudesse existir na alma daquele que nunca ardeu de paix&atilde;o sen&atilde;o por v&oacute;s.</p>
<p style="text-align: justify;">- Traidor, tu me enganastes&#8230; Mas te perd&ocirc;o&#8230; Contudo, nada ter&aacute;s que me sacrificar, p&eacute;rfido; e meu orgulho sentir-se-&aacute; at&eacute; mesmo lisonjeado por isso; pois bem, n&atilde;o importa; quanto a mim, tudo te sacrifico&#8230; Est&aacute; certo, renuncio com alegria para te satisfazer as torpezas a que a vaidade nos arrasta quase t&atilde;o ami&uacute;de quanto nossos gostos. Sei que a natureza acaba por triunfar, eu sufocava por desvios que agora abomino de todo meu cora&ccedil;&atilde;o; n&atilde;o resistimos de modo nenhum a seu imp&eacute;rio; ela n&atilde;o nos criou sen&atilde;o para v&oacute;s; n&atilde;o vos formou sen&atilde;o para n&oacute;s; sigamos as leis dela, &eacute; pelo interm&eacute;dio do pr&oacute;prio amor que ela hoje mos inspira; elas se tornar&atilde;o para mim mais sagradas. Eis minha m&atilde;o, senhor; eu vos tenho por homem de palavra, e feito para aspirar a mim. Se eu por um instante fiz por merecer perder vossa estima, por for&ccedil;a de cuidados e ternura talvez venha a recuperar minhas faltas, e for&ccedil;ar-vos-ei a reconhecer que aquelas da imagina&ccedil;&atilde;o nem sempre degradam uma alma boa.</p>
<p style="text-align: justify;">Franville, no c&uacute;mulo de seus votos, inundando de l&aacute;grimas de sua alegria as belas m&atilde;os que as mant&eacute;m coladas &agrave; sua boca, levanta-se e precipitando-se nos bra&ccedil;os que se lhe abrem:</p>
<p style="text-align: justify;">- Oh, dia mais feliz de minha vida &#8211; ele exclama existe algo de compar&aacute;vel a meu triunfo? Trago de volta ao seio das virtudes o cora&ccedil;&atilde;o em que vou reinar para sempre.</p>
<p>Franville beija mil vezes o divino objeto de seu amor e dele se separa; comunica, no dia seguinte, sua felicidade a todos os seus amigos; a srta. Villeblanche era muito bom partido para que seus pais lho recusassem; ele a desposa na mesma semana. A ternura, a confian&ccedil;a, a discri&ccedil;&atilde;o mais estrita, a mod&eacute;stia mais severa, coroaram seu casamento, e se tornando o mais feliz dos homens, foi bastante h&aacute;bil para fazer da mais libertina das mo&ccedil;as a mais s&aacute;bia e a mais virtuosa das mulheres.</p>
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		<title>O corno de si próprio ou a reconciliação imprevista &#8211; Marquês de Sade</title>
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		<pubDate>Fri, 12 Jun 2009 00:59:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Beatrix</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Conto]]></category>
		<category><![CDATA[Erótico]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Marquês de Sade]]></category>

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		<description><![CDATA[O corno de si próprio ou a reconciliação imprevista, conto do Marquês de Sade]]></description>
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<p style="text-align: justify;">Um dos maiores defeitos das pessoas mal-educadas &eacute; expor uma por&ccedil;&atilde;o de indiscri&ccedil;&otilde;es, maledic&ecirc;ncias ou cal&uacute;nias sobre tudo o que respira, e isso diante das pessoas que n&atilde;o conhecem; n&atilde;o se poderia imaginar a quantidade de casos que se tornaram o fruto de semelhantes falat&oacute;rios: qual &eacute; o homem honesto, com efeito, que ouvir&aacute; falar mal do que o interessa sem dar reparo aos malef&iacute;cios a que o exp&otilde;e? N&atilde;o se faz com que esse princ&iacute;pio de s&aacute;bia modera&ccedil;&atilde;o penetre o bastante a educa&ccedil;&atilde;o dos jovens, n&atilde;o se lhes ensina o suficiente a conhecer o mundo, os nomes, as qualidades, as atin&ecirc;ncias das pessoas com as quais &eacute;-lhes dado conviver; coloca-se, no lugar desse princ&iacute;pio, mil asneiras que s&oacute; servem para a conspurca&ccedil;&atilde;o, no exato momento em que se alcan&ccedil;a a idade da raz&atilde;o.</p>
<p style="text-align: justify;">
<span id="more-174"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Sempre faz lembrar capuchinhos ensinando, a todo instante, beatices, hipocrisias ou inutilidades, e nunca uma boa m&aacute;xima de moral. Ide mais longe, interrogar um jovem sobre seus verdadeiros deveres para com a sociedade, perguntai-lhe o que deve a si mesmo e aos outros, de que modo &eacute; preciso conduzir-se a fim de ser feliz: ele vos responder&aacute; que se lhe ensinou a ir &agrave; missa e rezar litanias, mas que nada compreende do que quereis dizer-lhe; que se lhe ensinou a dan&ccedil;ar, a cantar, mas n&atilde;o a viver entre os homens. O caso que se tomou a conseq&uuml;&ecirc;ncia do inconveniente que descrevemos n&atilde;o foi s&eacute;rio a ponto de causar derramamento de sangue, disso n&atilde;o resultando sen&atilde;o um gracejo; e &eacute; para esmiu&ccedil;&aacute;-la que iremos abusar alguns minutos da paci&ecirc;ncia de nossos leitores.</p>
<p style="text-align: justify;">O Sr. Raneville, de cinq&uuml;enta anos aproximadamente, tinha um desses temperamentos fleum&aacute;ticos que n&atilde;o deixam de exercer, em absoluto, certo encanto no mundo: rindo pouco, mas fazendo os outros rirem muito; pelas tiradas de seu esp&iacute;rito mordaz e pela maneira fr&iacute;vola com que as proferia, ami&uacute;de encontrava, unicamente por seu sil&ecirc;ncio, ou pelas express&otilde;es burlescas de sua fisionomia taciturna, o segredo de divertir mil vezes mais os c&iacute;rculos em que era admitido do que esses tagarelas ma&ccedil;adores sem vivacidade, mon&oacute;tonos, tendo sempre um conto a vos narrar do qual riem uma hora antes, sem ser bastante felizes para alegrar sequer um minuto quantos o escutam. Tinha ele um importante emprego no departamento do fisco, e, para se consolar de um p&eacute;ssimo casamento outrora contra&iacute;do em Orl&eacute;ans, ap&oacute;s ter por l&aacute; deixado sua mulher desonesta, em Paris despendia sem preocupa&ccedil;&atilde;o vinte ou vinte e cinco mil libras de renda com uma mulher bel&iacute;ssima a quem sustentava, e com alguns amigos t&atilde;o am&aacute;veis quanto ele.</p>
<p style="text-align: justify;">A amante do Sr. Raneville n&atilde;o era propriamente uma mo&ccedil;a, mas uma mulher casada e, por conseq&uuml;&ecirc;ncia, mais ardente, pois, mesmo que se queira negar, essa pitada de sal do adult&eacute;rio acrescenta com freq&uuml;&ecirc;ncia grande sabor a um gozo; era ela muito bonita, com seus trinta anos, e tinha o mais belo corpo que &eacute; poss&iacute;vel achar; separada do marido, med&iacute;ocre e desagrad&aacute;vel, viera da prov&iacute;ncia em busca de fortuna em Paris, e n&atilde;o demorara muito para a encontrar. Raneville, naturalmente libertino, &agrave; espreita de todo bom peda&ccedil;o, n&atilde;o deixara escapar este e, havia tr&ecirc;s anos, por mui honesto tratamento, fineza e dinheiro, fazia com que essa jovem esquecesse todas as decep&ccedil;&otilde;es que outrora aprouve ao himeneu disseminar em seu caminho. Ambos, tendo aproximadamente o mesmo destino, consolavam-se de maneira m&uacute;tua, e se certificavam dessa grande verdade que, entretanto, n&atilde;o corrige ningu&eacute;m, segundo a qual s&oacute; h&aacute; tantos casamentos maus e, em conseq&uuml;&ecirc;ncia, tanta infelicidade no mundo, porque pais avaros ou imbecis unem mais as fortunas do que os temperamentos: pois &#8211; dizia ami&uacute;de Raneville &agrave; sua amante -, &eacute; bem certo que se o acaso nos tivesse unido, em vez de nos dar, a v&oacute;s, um marido tirano e rid&iacute;culo, e a mim, uma mulher prostituta, as rosas teriam nascido aos nossos p&eacute;s em vez dos espinhos que por tanto tempo colhemos.</p>
<p style="text-align: justify;">Um acontecimento corriqueiro, do qual &eacute; bastante desnecess&aacute;rio falar, levou certo dia o Sr. Raneville a essa aldeia lamacenta e insalubre denominada Versalhes, onde reis feitos para serem adorados em sua capital parecem fugir &agrave; presen&ccedil;a de s&uacute;ditos que os procuram, onde a ambi&ccedil;&atilde;o, a avareza, a vingan&ccedil;a, e o orgulho levam diariamente uma multid&atilde;o de infelizes nas asas do tormento a sacrificar ao &iacute;dolo do momento, onde a elite da nobreza da Fran&ccedil;a, que poderia desempenhar um papel importante em suas terras, consente vir se humilhar em antec&acirc;maras, adular de modo vil porteiros, ou mendigar humildemente uma refei&ccedil;&atilde;o pior do que a sua para alguns desses indiv&iacute;duos que a sorte arranca, por uns momentos, &agrave;s nuvens do esquecimento, a fim de os recolocar l&aacute; pouco depois.</p>
<p style="text-align: justify;">Tendo resolvido seus neg&oacute;cios, o Sr. Raneville monta num desses coches da corte denominados &quot;penicos&quot;, e, l&aacute; se encontra fortuitamente em companhia de um certo Dutour, muito tagarela, bem gordo e pesado, grande trocista, tamb&eacute;m empregado no departamento do fisco, s&oacute; que em Orl&eacute;ans, sua terra, a qual, conforme disse h&aacute; pouco, &eacute; igualmente a do Sr. Raneville. Trava-se a conversa, Raneville sempre lac&ocirc;nico e sem jamais se revelar, j&aacute; sabe o nome, o sobrenome, a cidade e a ocupa&ccedil;&atilde;o do seu companheiro de estrada, antes de dizer sequer uma palavra. Tendo informado esses detalhes, o Sr. Dutour adentra um pouco mais naqueles da sociedade.</p>
<p style="text-align: justify;">- V&oacute;s estivestes em Orl&eacute;ans, senhor &#8211; diz Dutour -, segundo me parece, acabais de afirmar isso.</p>
<p style="text-align: justify;">- Em tempos passados, l&aacute; residi alguns meses.</p>
<p style="text-align: justify;">- E conhecestes, dizei-me, certa Sra. Raneville, uma das maiores p. do mundo que j&aacute; moraram em Orl&eacute;ans?</p>
<p style="text-align: justify;">- Sra. Raneville, uma mulher bastante bonita.</p>
<p style="text-align: justify;">- Exato.</p>
<p style="text-align: justify;">- Sim, eu a conheci em certa ocasi&atilde;o.</p>
<p style="text-align: justify;">Pois bem, eu vos direi confidencialmente que a possu&iacute;, por tr&ecirc;s dias, como se faz com uma p. Com toda certeza, se h&aacute; um marido cornudo, pode-se dizer que ele &eacute; esse pobre Raneville.</p>
<p style="text-align: justify;">- E o conheceis?</p>
<p style="text-align: justify;">- N&atilde;o, s&oacute; de nome; trata-se de pessoa m&aacute;, que se arru&iacute;na em Paris, segundo dizem, com mo&ccedil;as e devassos como ele.</p>
<p style="text-align: justify;">- Nada vos direi sobre ele; n&atilde;o o conhe&ccedil;o, mas compade&ccedil;o-me dos maridos cornos; n&atilde;o o sois, por acaso, senhor?</p>
<p style="text-align: justify;">- A qual dos dois vos referis, ao marido ou ao corno?</p>
<p style="text-align: justify;">- A um e outro; essas coisas est&atilde;o de tal forma ligadas hoje em dia que na verdade &eacute; muito dif&iacute;cil diferenci&aacute;-las.</p>
<p style="text-align: justify;">- Sou casado, senhor; tive a infelicidade de desposar uma mulher que comigo n&atilde;o se satisfez; e como seu temperamento me conviesse muito pouco, n&oacute;s nos separamos amigavelmente, ela preferiu vir para Paris partilhar da solid&atilde;o de uma de suas parentas, religiosa do convento de Sainte-Aure, e reside nessa casa, de onde me envia not&iacute;cias suas de vez em quando, por&eacute;m de maneira nenhuma a vejo.</p>
<p style="text-align: justify;">- Ela &eacute; devota?</p>
<p style="text-align: justify;">- N&atilde;o; mas talvez eu tivesse preferido isso.</p>
<p style="text-align: justify;">- Ah! eu vos compreendo. E v&oacute;s n&atilde;o tivestes sequer a curiosidade de vos informar sobre sua sa&uacute;de, nesta vossa estada a que ora vos obrigam vossos neg&oacute;cios em Paris?</p>
<p style="text-align: justify;">- Em verdade, n&atilde;o, n&atilde;o gosto dos conventos: amigo dos prazeres, da alegria, criado para os entretenimentos, festejado nos c&iacute;rculos sociais, n&atilde;o ouso em absoluto ir me arriscar num locut&oacute;rio h&aacute; pelo menos seis meses de vapores.*</p>
<p style="text-align: justify;">- Mas uma mulher&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">-&#8230; &Eacute; um indiv&iacute;duo que pode interessar quando dela nos servimos, mas da qual devemos saber nos separar quando s&eacute;rias raz&otilde;es dela nos afastam.</p>
<p style="text-align: justify;">- H&aacute; severidade no que dizeis.</p>
<p style="text-align: justify;">- Absolutamente&#8230; Sabedoria&#8230; &Eacute; o tom do presente, &eacute; a linguagem da raz&atilde;o; devemos adot&aacute;-la, ou passar por idiotas.</p>
<p style="text-align: justify;">- Isso sup&otilde;e algum desvio em vossa mulher; explicai-me isso: desvio de natureza, de complac&ecirc;ncia ou de conduta.</p>
<p style="text-align: justify;">- Um pouco de tudo&#8230; Um pouco de tudo, senhor, mas deixemos isso, rogo-vos, e retornemos a essa cara Sra. Raneville: por Deus, n&atilde;o compreendo que, tendo estado em Orl&eacute;ans, v&oacute;s n&atilde;o tenhais vos divertido com essa criatura&#8230; Pois todos a possu&iacute;ram.</p>
<p style="text-align: justify;">- Todos, n&atilde;o, pois bem vedes que eu n&atilde;o a possu&iacute;: n&atilde;o gosto de mulheres casadas.</p>
<p style="text-align: justify;">- E sem querer ser por demais curioso: com quem passais vosso tempo, senhor, eu vos pergunto?</p>
<p style="text-align: justify;">- Primeiramente com meus neg&oacute;cios, e, em seguida, com uma criatura bastante bonita, com quem janto de vez em quando.</p>
<p style="text-align: justify;">- N&atilde;o sois casado, senhor?</p>
<p style="text-align: justify;">- Sou.</p>
<p style="text-align: justify;">- E vossa mulher?</p>
<p style="text-align: justify;">* Na medicina antiga (s&eacute;culos XVII e XVIII), suposto mal-estar provocado por emana&ccedil;&otilde;es de corpos de pessoas em determinado estado de esp&iacute;rito</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">- Ela se encontra na prov&iacute;ncia, e deixo-a l&aacute;, assim como deixais a vossa em Sainte-Aure.</p>
<p style="text-align: justify;">- Casado, senhor, casado, e ser&iacute;eis da confraria? Por favor, respondei-me.</p>
<p style="text-align: justify;">- N&atilde;o vos disse que esposo e corno s&atilde;o sin&ocirc;nimos? A deprava&ccedil;&atilde;o dos costumes, o luxo&#8230; Tantas coisas que fazem uma mulher decair.</p>
<p style="text-align: justify;">- Oh! &Eacute; bem verdade, senhor, &eacute; bem verdade.</p>
<p style="text-align: justify;">- Respondeis como homem s&aacute;bio.</p>
<p style="text-align: justify;">- N&atilde;o, absolutamente; se bem que, senhor, uma bel&iacute;ssima pessoa vos consola &agrave; aus&ecirc;ncia da esposa abandonada.</p>
<p style="text-align: justify;">- Sim, na verdade, uma bel&iacute;ssima pessoa; quero que a conheceis.</p>
<p style="text-align: justify;">- Senhor, eu ficaria muito honrado.</p>
<p style="text-align: justify;">- Oh! Nada de cerim&ocirc;nias, senhor; eis-nos ao nosso destino; deixo-vos livre esta noite, por causa de vossos neg&oacute;cios, mas amanh&atilde; sem falta espero-vos para jantar no endere&ccedil;o que vos entrego.</p>
<p style="text-align: justify;">E Raneville tem o cuidado de dar um endere&ccedil;o falso, no qual pronto adverte, a fim de que os que vierem perguntar por ele chamando-o por este nome o possam encontrar com facilidade.</p>
<p style="text-align: justify;">No dia seguinte, o senhor Dutour por raz&atilde;o nenhuma falta ao encontro, e, tendo sido tomadas as precau&ccedil;&otilde;es, de modo a fazer com que, com um nome fict&iacute;cio, a ele fosse dado encontrar Raneville na resid&ecirc;ncia, ele entra sem dificuldade. Aos primeiros cumprimentos, Dutour parece inquieto por n&atilde;o vislumbrar ainda a divindade que espera ver.</p>
<p style="text-align: justify;">- Homem impaciente &#8211; diz-lhe Raneville daqui vejo o que procuram vossos olhos&#8230; Prometi-vos uma bela mulher; j&aacute; desejar&iacute;eis voltear em sua presen&ccedil;a; acostumado a desonrar a fronte dos maridos de Orl&eacute;ans, desejar&iacute;eis, estou bem certo disso, tratar da mesma forma os amantes de Paris: aposto como estar&iacute;eis bem contente de me colocardes na mesma condi&ccedil;&atilde;o desse infeliz Raneville, de quem ontem me falastes de modo t&atilde;o divertido.</p>
<p style="text-align: justify;">Dutour responde como homem galante, como pretensioso e, conseq&uuml;entemente, como tolo, a conversa&ccedil;&atilde;o se torna divertida por uns instantes e Raneville, tomando o amigo pela m&atilde;o:</p>
<p style="text-align: justify;">- Vinde &#8211; diz-lhe -, homem cruel! Vinde ao pr&oacute;prio templo onde a divindade vos espera.</p>
<p style="text-align: justify;">Dizendo isso, ele faz com que Dutour entre num gabinete luxurioso, onde a amante de Raneville, preparada para o gracejo e, tendo a palavra, encontrava-se no mais elegante <em>d&eacute;shabill&eacute;, </em>sobre uma otomana de veludo, por&eacute;m velada: nada ocultava a eleg&acirc;ncia e a exuber&acirc;ncia de seu porte, apenas era imposs&iacute;vel ver-lhe o rosto.</p>
<p style="text-align: justify;">- Eis uma pessoa bel&iacute;ssima &#8211; exclama Dutour &#8211; mas por que me privar do prazer de admirar suas fei&ccedil;&otilde;es, estamos aqui, portanto, no har&eacute;m do grande Senhor?</p>
<p style="text-align: justify;">- N&atilde;o, n&atilde;o &eacute; preciso coment&aacute;rios; trata-se de pudor.</p>
<p style="text-align: justify;">- Como, de pudor?</p>
<p style="text-align: justify;">- Seguramente; acreditais que eu queira me limitar a vos mostrar somente o porte ou o <em>d&eacute;shabill&eacute; </em>de minha amante; meu triunfo seria completo se, ao retirar todos esses v&eacute;us, eu vos convencesse do quanto devo estar feliz pela posse de t&atilde;o fartos encantos. Como essa jovem fosse singularmente modesta, enrubesceria com tais detalhes; ela bem quis concordar com isso, mas sob a cl&aacute;usula expressa de estar coberta. Sabeis o que &eacute; o pudor e as delicadezas das mulheres, Sr. Dutour; n&atilde;o &eacute; a um homem elegante com trajes da moda como v&oacute;s que se prescreveria acerca de tais coisas!</p>
<p style="text-align: justify;">- Como, por Deus, ireis me mostrar?</p>
<p style="text-align: justify;">- Tudo, j&aacute; vos disse; ningu&eacute;m tem menos ci&uacute;me do que eu; a felicidade que se experimenta sozinho me parece ins&iacute;pida; s&oacute; encontro satisfa&ccedil;&atilde;o junto &agrave; outra pessoa com quem compartilho.</p>
<p style="text-align: justify;">E para constatar suas m&aacute;ximas, Raneville come&ccedil;a por retirar um len&ccedil;o de gaze que revela nesse instante o mais belo pesco&ccedil;o que &eacute; poss&iacute;vel deslumbrar&#8230; Dutour se inflama.</p>
<p style="text-align: justify;">- E ent&atilde;o &#8211; diz Raneville -, o que achais disso?</p>
<p style="text-align: justify;">- S&atilde;o os atributos da pr&oacute;pria V&ecirc;nus.</p>
<p style="text-align: justify;">- Acreditai: seios t&atilde;o alvos e firmes s&atilde;o feitos para incendiar&#8230; Tocai-os, meu camarada! Os olhos algumas vezes nos enganam; minha opini&atilde;o &eacute; a de que, em mat&eacute;ria de vol&uacute;pia, &eacute; preciso valer-se de todos os sentidos.</p>
<p style="text-align: justify;">Dutour estende a m&atilde;o tr&ecirc;mula, apalpa, com &ecirc;xtase, o mais belo seio do mundo, e n&atilde;o deixa de se surpreender com a incr&iacute;vel complac&ecirc;ncia de seu amigo.</p>
<p style="text-align: justify;">- Vamos, mais para baixo! &#8211; diz Raneville, levantando at&eacute; o ventre uma saia leve de tafet&aacute;, sem que nada se oponha a essa incurs&atilde;o &#8211; pois bem! O que dizeis dessas coxas? Acreditais que o templo do amor possa ser sustentado por colunas mais belas do que essas?</p>
<p style="text-align: justify;">E o caro Dutour, continuando a apalpar tudo o que Raneville lhe exibia:</p>
<p style="text-align: justify;">- Patife! Adivinho vossos pensamentos &#8211; continua o complacente amigo -, esse delicado templo, que as pr&oacute;prias Gra&ccedil;as cobriram de um musgo suave&#8230; Ardeis com desejos de entreabri-lo, n&atilde;o &eacute; verdade? O que digo; com vontade de l&aacute; colher um beijo, isso sim.</p>
<p style="text-align: justify;">E Dutour transtornado&#8230; Balbuciando&#8230; N&atilde;o respondia mais sen&atilde;o pela viol&ecirc;ncia das sensa&ccedil;&otilde;es das quais seus olhos eram os instrumentos; encorajam-no&#8230; Seus dedos libertinos acariciam os p&oacute;rticos do templo que a pr&oacute;pria vol&uacute;pia descerra a seus desejos: esse beijo divino permitido, ele o d&aacute;, e por uma hora o saboreia.</p>
<p style="text-align: justify;">- Amigo &#8211; diz ele -, n&atilde;o ag&uuml;ento mais! Expulsai-me de vossa casa, ou permiti que eu siga em frente.</p>
<p style="text-align: justify;">- Como? Em frente? E para que diabo de lugar desejas ir, respondei-me?</p>
<p style="text-align: justify;">- Pobre de mim; v&oacute;s n&atilde;o me compreendeis de modo algum; estou inebriado de amor, n&atilde;o posso mais me conter.</p>
<p style="text-align: justify;">- E se essa mulher &eacute; feia?</p>
<p style="text-align: justify;">- &Eacute; imposs&iacute;vel s&ecirc;-lo com encantos t&atilde;o divinos.</p>
<p style="text-align: justify;">- Se ela &eacute;&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">- Que ela seja tudo o que quiser, eu vos digo, meu caro; n&atilde;o posso mais resistir a isso.</p>
<p style="text-align: justify;">- Segui em frente, portanto, terr&iacute;vel amigo, segui; satisfazei-vos, pois que &eacute; preciso: sereis pelo menos grato por minha complac&ecirc;ncia?</p>
<p style="text-align: justify;">- Ah! Terei a maior gratid&atilde;o, sem d&uacute;vida. E Dutour com a m&atilde;o afastava delicadamente o amigo, como que para deix&aacute;-lo a s&oacute;s com essa mulher.</p>
<p style="text-align: justify;">- Oh! Para deixar-vos, n&atilde;o, n&atilde;o posso &#8211; diz Raneville -, mas sois, assim, t&atilde;o escrupuloso que n&atilde;o podeis vos contentar com minha presen&ccedil;a? Entre homens n&atilde;o se age absolutamente desse modo: de resto, s&atilde;o minhas condi&ccedil;&otilde;es; ou diante de mim, ou nada.</p>
<p style="text-align: justify;">- Fosse diante do diabo &#8211; diz Dutour, n&atilde;o se contendo mais e precipitando-se ao santu&aacute;rio onde seu incenso vai se queimar -, se assim quereis, concordo com tudo&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">- Pois bem &#8211; dizia de modo fleum&aacute;tico Raneville &#8211; as apar&ecirc;ncias vos enganaram, e as del&iacute;cias prometidas por t&atilde;o diversos encantos s&atilde;o ilus&oacute;rias ou reais&#8230; Ah! Nunca, nunca vi algo de t&atilde;o voluptuoso.</p>
<p style="text-align: justify;">- Mas esse maldito v&eacute;u, amigo, esse v&eacute;u p&eacute;rfido: n&atilde;o me ser&aacute; permitido retir&aacute;-lo?</p>
<p style="text-align: justify;">- Sim&#8230; No &uacute;ltimo momento, naquele momento t&atilde;o deleit&aacute;vel, em que todos os nossos sentidos, seduzidos pela embriaguez dos deuses, ela sabe nos tomar t&atilde;o afortunados quanto eles pr&oacute;prios, e ami&uacute;de bem superiores. Essa surpresa dobrar&aacute; vosso &ecirc;xtase: ao encanto de usufruir a pr&oacute;pria V&ecirc;nus, v&oacute;s acrescentareis as inexprim&iacute;veis del&iacute;cias de contemplar as fei&ccedil;&otilde;es de Flore, e tudo isso se unindo a fim de aumentar vossa felicidade; mergulhareis com bem mais facilidade nesse oceano de prazeres, onde o homem encontra com tanta satisfa&ccedil;&atilde;o o consolo de sua exist&ecirc;ncia&#8230; V&oacute;s me fareis um sinal&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">- Oh! Como podeis ver &#8211; diz Dutour -, sinto-me arrebatado neste momento.</p>
<p style="text-align: justify;">- Sim, estou vendo; sois fogoso.</p>
<p style="text-align: justify;">- Mas fogoso a um ponto&#8230; &Oacute; meu amigo! Atinjo este instante celeste! Arrancai, arrancai esses v&eacute;us, que eu contemple o pr&oacute;prio firmamento.</p>
<p style="text-align: justify;">- Ei-lo &#8211; diz Raneville fazendo desaparecer o v&eacute;u -, mas cuidado para n&atilde;o encontrardes talvez, um Pouco perto desse para&iacute;so o inferno!</p>
<p style="text-align: justify;">- <em>Oh! Pelos c&eacute;us </em>- exclama Dutour, ao reconhecer sua mulher -&#8230; <em>O qu&ecirc;? Sois v&oacute;s, senhora?</em>&#8230; Senhor, que estranho gracejo! V&oacute;s merecer&iacute;eis&#8230; Essa celerada&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">- Um momento, um momento, homem fogoso! Sois v&oacute;s que mereceis tudo; aprendei, meu amigo, que &eacute; preciso ser um pouco mais cauto com as pessoas que n&atilde;o se conhece do que o fostes comigo ontem. Esse infeliz Raneville que haveis tratado t&atilde;o mal em Orl&eacute;ans&#8230; Sou eu mesmo, senhor; como vedes, eu o retribuo a v&oacute;s em Paris; de resto, aqui estais, bem mais avan&ccedil;ado do que poder&iacute;eis crer; pens&aacute;veis ter feito corno de mim e acabais de faz&ecirc;-lo de v&oacute;s mesmo.</p>
<p style="text-align: justify;">Dutour aprendeu a li&ccedil;&atilde;o, estendeu a m&atilde;o ao amigo, e concordou que recebera o que havia merecido.</p>
<p style="text-align: justify;">- Mas essa p&eacute;rfida&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">- Pois bem, ela n&atilde;o vos imita? Qual &eacute; a lei b&aacute;rbara que faz acorrentar desumanamente esse sexo, concedendo-nos toda a liberdade? &Eacute; ela eq&uuml;itativa? E por que direito natural encerrais vossa mulher em Sainte-Aure, enquanto, em Paris e em Orl&eacute;ans, fazeis os maridos cornos? Meu amigo, isso n&atilde;o &eacute; justo, essa encantadora criatura, cujo valor n&atilde;o soubesses reconhecer, veio em busca de outras conquistas: ela teve raz&atilde;o; encontrou-me; fa&ccedil;o sua felicidade; fazei a da Sra. Raneville; concordo com isso, vivamos felizes os quatro, e que as v&iacute;timas do destino n&atilde;o se tornem as dos homens.</p>
<p style="text-align: justify;">Dutour achou que seu amigo tinha raz&atilde;o, mas por uma fatalidade inconceb&iacute;vel, tornou a se apaixonar com a m&atilde;o loucamente por sua mulher; Raneville, por mais c&aacute;ustico, tinha a alma bela demais para resistir aos pedidos de Dutour quanto a recuperar sua mulher, a jovem concordou com isso, e houve nesse acontecimento &uacute;nico, sem d&uacute;vida, um exemplo bem singular dos golpes do destino e dos caprichos do amor.</p>
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		<title>O Professor Filósofo &#8211; Marquês de Sade</title>
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		<pubDate>Fri, 12 Jun 2009 00:51:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Beatrix</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[Conto]]></category>
		<category><![CDATA[Erótico]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Marquês de Sade]]></category>

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		<description><![CDATA[O professor Filósofo - Conto do Marquês de Sade]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">De todas as ci&ecirc;ncias que se inculca na cabe&ccedil;a de uma crian&ccedil;a quando se trabalha em sua educa&ccedil;&atilde;o, os mist&eacute;rios do cristianismo, ainda que uma das mais sublimes mat&eacute;rias dessa educa&ccedil;&atilde;o, sem d&uacute;vida n&atilde;o s&atilde;o, entretanto, aquelas que se introjetam com mais facilidade no seu jovem esp&iacute;rito. Persuadir, por exemplo, um jovem de catorze ou quinze anos de que Deus pai e Deus filho s&atilde;o apenas um, de que o filho &eacute; consubstancial com respeito ao pai e que o pai o &eacute; com respeito ao filho, etc, tudo isso, por mais necess&aacute;rio &agrave; felicidade da vida, &eacute;, contudo, mais dif&iacute;cil de fazer entender do que a &aacute;lgebra, e quando queremos obter &ecirc;xito, somos obrigados a empregar certos procedimentos f&iacute;sicos, certas explica&ccedil;&otilde;es concretas que, por mais que desproporcionais, facultam, todavia, a um jovem, compreens&atilde;o do objeto misterioso.</p>
<p style="text-align: justify;">Ningu&eacute;m estava mais profundamente afeito a esse m&eacute;todo do que o abade Du Parquet, preceptor do jovem conde de Nerceuil, de mais ou menos quinze anos e com o mais belo rosto que &eacute; poss&iacute;vel ver.</p>
<p style="text-align: justify;">- Senhor abade, &#8211; dizia diariamente o pequeno conde a seu professor &#8211; na verdade, a consubstancia&ccedil;&atilde;o &eacute; algo que est&aacute; al&eacute;m das minhas for&ccedil;as; &eacute;-me absolutamente imposs&iacute;vel compreender que duas pessoas possam formar uma s&oacute;: explicai-me esse mist&eacute;rio, rogo-vos, ou pelo menos colocai-o a meu alcance.</p>
<p style="text-align: justify;">O honesto abade, orgulhoso de obter &ecirc;xito em sua educa&ccedil;&atilde;o, contente de poder proporcionar ao aluno tudo o que poderia fazer dele, um dia, uma pessoa de bem, imaginou um meio bastante agrad&aacute;vel de dirimir as dificuldades que embara&ccedil;avam o conde, e esse meio, tomado &agrave; natureza, devia necessariamente surtir efeito. Mandou que buscassem em sua casa uma jovem de treze a catorze anos, e, tendo instru&iacute;do bem a mimosa, fez com que se unisse a seu jovem aluno.</p>
<p style="text-align: justify;">- Pois bem, &#8211; disse-lhe o abade &#8211; agora, meu amigo, concebas o mist&eacute;rio da consubstancia&ccedil;&atilde;o: compreendes com menos dificuldade que &eacute; poss&iacute;vel que duas pessoas constituam uma s&oacute;?</p>
<p style="text-align: justify;">- Oh! meu Deus, sim, senhor abade, &#8211; diz o encantador energ&uacute;meno &#8211; agora compreendo tudo com uma facilidade surpreendente; n&atilde;o me admira esse mist&eacute;rio constituir, segundo se diz, toda a alegria das pessoas celestiais, pois &eacute; bem agrad&aacute;vel quando se &eacute; dois a divertir-se em fazer um s&oacute;.</p>
<p style="text-align: justify;">Dias depois, o pequeno conde pediu ao professor que lhe desse outra aula, porque, conforme afirmava, algo havia ainda &quot;no mist&eacute;rio&quot; que ele n&atilde;o compreendia muito bem, e que s&oacute; poderia ser explicado celebrando-o uma vez mais, assim como j&aacute; o fizera. O complacente abade, a quem tal cena diverte tanto quanto a seu aluno, manda trazer de volta a jovem, e a li&ccedil;&atilde;o recome&ccedil;a, mas desta vez, o abade particularmente emocionado com a deliciosa vis&atilde;o que lhe apresentava o belo pequeno de Nerceuil consubstanciando-se com sua companheira, n&atilde;o p&ocirc;de evitar colocar-se como o terceiro na explica&ccedil;&atilde;o da par&aacute;bola evang&eacute;lica, e as belezas por que suas m&atilde;os haviam de deslizar para tanto acabaram inflamando-o totalmente.</p>
<p style="text-align: justify;">- Parece-me que vai demasiado r&aacute;pido, &#8211; diz Du Parquet, agarrando os quadris do pequeno conde muita elasticidade nos movimentos, de onde resulta que a conjun&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o sendo mais t&atilde;o &iacute;ntima, apresenta bem menos a imagem do mist&eacute;rio que se procura aqui demonstrar&#8230; Se fix&aacute;ssemos, sim&#8230; dessa maneira, diz o velhaco, devolvendo a seu aluno o que este empresta &agrave; jovem.</p>
<p style="text-align: justify;">- Ah! Oh! meu Deus, o senhor me faz mal &#8211; diz o jovem &#8211; mas essa cerim&ocirc;nia parece-me in&uacute;til; o que ela me acrescenta com rela&ccedil;&atilde;o ao mist&eacute;rio?</p>
<p style="text-align: justify;">- Por Deus! &#8211; diz o abade, balbuciando de prazer &#8211; n&atilde;o v&ecirc;s, caro amigo, que te ensino tudo ao mesmo tempo? &Eacute; a trindade, meu filho&#8230; &Eacute; a trindade que hoje te explico; mais cinco ou seis li&ccedil;&otilde;es iguais a esta e ser&aacute;s doutor na Sorbornne.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span id="more-173"></span></p>
<p>&nbsp;</p>
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