Cemitério da Consolação

Apesar de pouco procurados para a apreciação de suas obras, os cemitérios antigos têm um rico acervo escultural e arquitetônico. Obras que na verdade poderiam muito bem estar em museus, assinadas muitas vezes por artista de renome.
Não é segredo que alguns cemitérios constituem verdadeiras galerias de arte a céu aberto. A respeito disso já comentei muito em outros artigos nessa seção. Também não é segredo que em vários países como a França e Argentina alguns cemitérios são até mesmo pontos turísticos que atraem viajantes do mundo inteiro como por exemplo os Cemitérios de Pére Lachaise, Montmartre e Montparnasse (Paris), da Recoleta (Buenos Aires), e mesmo os bairros nas cercanias destes cemitérios são até mais valorizados (ao contrário do que às vezes acontece por aqui, onde algumas pessoas abominariam a idéia de morar próximo a um cemitério).

Enquanto verdadeiras romarias visitam o Père Lachaise, interessadas em conhecer os túmulos de personalidades ilustres como Victor Hugo, Voltaire e Chopin; outros tantos vão ao Ricoleta (considerado solo sagrado pelos argentinos) visitar os túmulos de Evita e Juan Domingo Perón, aqui no Brasil os cemitérios praticamente só são lembrados no Dia de Finados. Deixando o preconceito e a superstição de lado um passeio por um cemitério pode ser na verdade algo bastante agradável. E um fato mais interessante é que além do prazer artístico uma visita ao cemitério pode se tornar também uma rica aula de História.

Este é o caso sem dúvida do Cemitério da Consolação, o mais antigo de São Paulo. Onde é possível descobrir muito sobre a história de São Paulo e também do Brasil.

Escultura de autoria de Celso Antonio de Menezes de inspiração art noveau O Cemitério da Consolação denominado primeiramente Cemitério Municipal, foi edificado na segunda metade do século XIX.
A edificação de um cemitério público municipal ocorreu por iniciativa da Câmara Municipal devido às exigências de médicos sanitaristas, como Libero Badaró (1798-1830), que desejavam acabar com as práticas insalubres de sepultamento nas igrejas. Tais práticas, há muito tempo, eram contestadas por sanitaristas e médicos que a partir da década de 1820, influenciados pelas idéias positivistas e pelo Iluminismo iniciaram um debate acalorado, defendendo o fim dos sepultamentos nas igrejas, por considerarem tal prática nociva à saúde pública e ainda por cima arcaica, mirando-se no exemplo do que já acontecia em vários países da Europa que já haviam praticamente abolido este hábito, dando origem aos cemitérios públicos e laicos.

Dessa forma, em agosto de 1858, a cidade de São Paulo inaugurou seu primeiro Cemitério Municipal, localizado em área periférica, distante portanto, do centro urbano. Isso numa época em que São Paulo era uma cidade muito diferente daquela que conhecemos.

A localização distante da área urbana era condição essencial para a garantia de salubridade da área urbana então restrita à região que nos dias de hoje corresponde ao centro velho – ruas Quinze de Novembro, Direita e São Bento.
Atualmente o Cemitério da Consolação encontra-se em pleno centro da cidade, cercado por vários prédios e arranha-céus. Não que o cemitério tenha mudado de lugar, foi a cidade que mudou, e muito.

Nos primeiros anos de criação o Cemitério da Consolação recebia pessoas de várias origens e classes sociais, desde escravos, pobres, estrangeiros e agregados até senhores de escravos e homens livre abastados.
Entretanto, após a virada do século, com a modificação dos hábitos da população e o surgimento de uma elite afortunada, esse perfil começou a se alterar, não só no que diz respeito à origem dos sepultados, mas também e principalmente, no estilo das sepulturas, mausoléus e túmulos.

Com o desenvolvimento da cultura cafeeira, muitas famílias opulentas, graças ao então chamado “ouro-verde”, começaram a vir do interior do estado e se instalar na capital, residindo muitas vezes em grandiosos palacetes. Também nesse período, a cidade passou a receber um grande contingente de imigrantes vindo de outros países em busca de novas possibilidades de vida, procurando fazer fortuna.

Anjo de autoria de  Victor  Brecheret, inspirado no quattrocento italiano, o anjo sorri.Neste período que ficou conhecido como a “Belle Époque paulistana”, a elite, para firmar status, passou a imitar os hábitos parisienses ocasionando o afrancesamento e a europeização da arquitetura, moda, festas e convenções sociais, com o intuito de desenvolver na vida da cidade o ar cosmopolita, moderno e intelectual tão almejado.

O mesmo pode se dizer em relação aos sepultamentos e a ornamentação dos túmulos.

No pensamento da elite da época, aquele que realizou em vida atividades de relevância para a sociedade, deveria ter uma morada à altura de sua importância social. Assim como os palacetes expressavam a posição do indivíduo e o seu status social, da mesma maneira a última morada deveria servir de ápice desta ostentação, marcando na forma de um monumento a evidente superioridade social do proprietário.

Por este motivo as famílias e amigos, a partir da primeira década do século XX, contratavam construtores e escultores de renome, em sua maioria de origem italiana ou com formação na Europa, como Victor Brecheret, Luigi Brizzolara, Galileo Emendabili, entre outros para construírem e ornamentarem os túmulos das ilustres personalidades.

Esses túmulos ricamente ornamentados, verdadeiros monumentos de granito, mármore de Carrara e bronze; ou mesmo simples e despojados, testemunham importantes fatos da história social de São Paulo e do Brasil. Trazem a nosso conhecimento figuras de grande representação na vida política e cultural, cujos feitos trouxeram seus feitos grande repercussão na cidade e no país.

A réplica de catedral gótica é um dos mausoléus mais interessantes e  conhecidos do cemitério da ConsolaçãoNo Cemitério da Consolação está, por exemplo, o túmulo de Domitila de Castro Canto e Melo – Marquesa de Santos. Não há quem não se recorde dessa figura histórica, nada mais, nada menos que a famosa amante do Imperador D.Pedro I, a quem ele havia ido fazer uma visitinha antes de dar aquele famoso grito às margens do riacho do Ipiranga.

No túmulo de mármore branco onde se encontram os restos mortais da famosa marquesa estão duas plaquetas: uma atribui à ela a doação das terras do cemitério, o que até o momento não é comprovado documentalmente, e outra, que agradece à Domitila a graça recebida. Esta segunda pode parecer estranha, mas curiosamente conta-se que a amante de D. Pedro I é tratada como santa por alguns visitantes que nela procuram solução para uma série de problemas, desde financeiros até conjugais. Segundo o guia do cemitério, o túmulo de Domitila de Castro está sempre repleto de flores vermelhas em retribuição às graças recebidas no campo amoroso.

Entre outros túmulos de personalidades estão os de Dom José Gaspar, Marquês de Itú, Rangel Pestana, João Adolfo e outros que trazem à lembrança nomes de ruas, praças e locais bem conhecidos do cotidiano do paulistano. Lá está, inclusive, o túmulo do próprio Libero Badaró, que além de médico, jornalista e político defensor dos ideais liberais, é considerado um mártir da liberdade de imprensa, e foi assassinado a mando do Ouvidor Ladislau Japi-Assú durante a crise do Império. Badaró era também um dos defensores da criação de cemitérios públicos, e sua lápide ostenta a frase: “Morre um liberal mas não morre a liberdade”, que teria sido dita por ele antes de morrer.

Entre as muitas personalidades de renome ali sepultadas, podemos citar: a pianista Guiomar Novaes (1895-1979); os presidentes, Campos Sales (1841-1913) e Washington Luís (1869-1957); os governadores de São Paulo, Armando Salles (1887-1945) e Adhemar de Barros (1901-1969); o criador da TFP, Plínio Correa (1908-1995); a atriz, Itália Fausta; e o industrial, Conde Francisco Matarazzo (1854-1937).

O lugar é tão tranqüilo e sacro que chegou a ser usado para a celebração de um casamento. Se você pensa que a escolha partiu de góticos, ou algo do gênero, está muito enganado. Na verdade, o casal exótico fazia parte do movimento modernista. Eram Oswald de Andrade e a jovem escritora Patrícia Galvão, a Pagú, que se casaram em cerimônia simbólica no Cemitério da Consolação, no dia 5/1/1930.

Para quem gosta de literatura, aliás, é bom saber que lá estão os túmulos não só do próprio Oswald de Andrade (Rua 17 – terreno 17), mas também de Mário de Andrade (Rua 17 – terreno 01) e de Monteiro Lobato (quadra 25 – terreno 02). Sobre o túmulo de Lobato há também uma curiosidade: segundo o guia do cemitério todo o dia 18 de abril, dia de seu aniversário de nascimento, alguns admiradores das obras de Lobato lhe prestam uma estranha homenagem: passeiam pelas ruas do cemitério vestidos como personagens de seus livros. Assim se você for ao cemitério um dia desses e der de cara com o Saci ou a Cuca, não saia correndo, nem pense que é alucinação, é apenas uma divertida homenagem da comitiva de Taubaté, composta por apreciadores da obra do escritor.

Detalhes das estatuas de bronze monumentais de BrizzolaraNo Cemitério da Consolação também é possível encontrar o mais alto mausoléu da América do Sul, pertencente à família Matarazzo, situado na quadra 82. Em estilo pós-renascentista é um colosso que ocupa 16 terrenos, numa área com mais de 100 metros quadrados. Construído com blocos de granito, tem no topo cinco conjuntos estatuários de bronze, de autoria de Luigi Brizzolara, exibindo, uma pompa difícil de achar até em monumentos de praças públicas. O império Matarazzo entrou em decadência, sua fábrica de Água Branca virou ruína, a mansão na Avenida Paulista veio abaixo, mas o mausoléu da família está lá inteiro, como uma pirâmide de faraó, perpetuando um período de grandeza e poderio econômico que não existe mais.

Outro exemplo de suntuosidade presente no cemitério da Consolação pode ser visto no túmulo da família Nami Jafet (Rua 37 – terreno 11 e 12). A família de origem libanesa, pioneiros na indústria têxtil do estado, encomendaram ao artista italiano Materno Giribaldi, um ousado monumento de bronze e granito, onde se vêem várias figuras femininas em vestes finas e esvoaçantes, próprias do estilo art noveau.

No que se refere à arte presente no Cemitério da Consolação e outros que surgiram no fim do século XIX e início do século XX, suas principais referências estéticas são a art noveau e o modernismo, o que explica o aspecto suave de suas esculturas, diferentes do tom fortemente macabro presente nas esculturas de alguns cemitérios europeus, o que pode ser observado, mesmo nas dramáticas pietàs e figuras de mulheres que se debruçam lânguidas sobre os túmulos, como a belíssima mulher que chora com uma trança pendente sobre o túmulo do maestro Chiafarelli (Rua 11 – terreno 36), de autoria de Nicola Rollo.

Sepultamento - obra de autoria de Victor Brecheret

Entre as obras de arte mais importantes no Cemitério da Consolação está “Sepultamento” (Mise au tombeau) (Quadra 6A – terreno 09), de autoria do escultor paulista Victor Breccheret, que está sobre o jazigo de Olívia Guedes Penteado (patronesse do movimento modernista). A obra esculpida em granito, com 2,26 metros de altura e 3,65 de comprimento, é datada de 1923, e garantiu ao autor um prêmio no Salão de Outono de Paris, também em 1923. Na peça Brecheret esculpiu em granito uma Pietà, junto com as três Marias.

Outra famosa obra de Brecheret no Cemitério da Consolação é o anjo sorridente, inspirado no quattrocento italiano. A escultura, em bronze, possui dois metros de altura e se encontra no túmulo da família Botti (Quadra 44 – terreno 150).

Há também obras de inspirada sensualidade, como a estátua esculpida em mármore de Carrara pela artista Nicolina Vaz Muniz, datada de 1899 (quadra 36 – terrenos 1 e 2), em que as vestes finas da mulher, que está de braços abertos e levantados para o céu, realçam suas belas formas.

Outro exemplo é a escultura “Solitudo”, obra de Francisco Leopoldo e Silva, autor do primeiro nu feminino, datado de 1922, onde se encontra a provocante mulher em êxtase, envolta num véu translúcido que realça suas formas exuberantes, seminudez mais forte porque é sugerida e não mostrada.

Lenda Grega - Orfeu e Eurídice Um conjunto escultural muito tocante é, sem dúvida, a obra “Lenda Grega” de autoria do artista Nicolla Rollo, que representa a tragédia do casal Orfeu e Eurídice.

Orfeu era o músico lendário, filho da musa Calíope, que enternecia até as feras com a sua música, um cantor maravilhoso e que tocava divinamente a lira e a cítara, instrumento este cuja invenção lhe é atribuída. Ao ouví-lo cantar, as feras o seguiam, as árvores se inclinavam em sua direção e até os homens mais irascíveis se acalmavam.

Orfeu participou da famosa expedição dos Argonautas. Durante a viagem, apaziguava as ondas com sua música e, com ela, conseguiu até anular o efeito do hipnótico canto das sereias e salvar o navio.

A cena esculpida por Nicolla Rollo mostra Orfeu tangendo a sua lira, com a qual encantava os animais e as plantas, tentando trazer à vida a esposa, tudo isso em vão.

Anjo de Penacchi, vítima de vandalismo.São tantas obras, que poderia facilmente preencher páginas e páginas citando-as e à sua importância. Infelizmente, apesar de todo o rico patrimônio arquitetônico e histórico presentes neste, e em vários cemitérios brasileiros, as iniciativas de catalogação e conservação dessas obras ainda são tímidas diante da necessidade, e esbarra ainda na falta de informação, e porque não dizer, de educação, de muitas pessoas frente a esses espaços.

Não é de hoje que aparecem em jornais notícias de vândalos que atacam esculturas em sepulturas e túmulos pelos motivos mais variados e, na maioria das vezes, sem motivo algum.

No Cemitério da Consolação, um destes tristes exemplos é a bela escultura de um anjo em cerâmica e asas de alumínio, de autoria do artista plástico italiano Fulvio Pennacchi, datada da década de 1970, que estava no jazigo da família Pennacchi (Rua 25 – terreno 31), e que infelizmente, sofreu graves avarias devido ao vandalismo, em 2000.

Uma das maneiras mais coerentes de resolver o problema, entretanto, não é simplesmente o policiamento ostensivo, ou muito menos medidas absurdas como a proibição de visitação aos cemitérios por “góticos” como muitos tem erroneamente proposto. Trata-se antes de um trabalho de conscientização e mesmo de educação, que mostre às pessoas a beleza e a importância histórica que os cemitérios possuem escondidos entre seus muros e lápides.

Assim, espero que mais iniciativas sejam tomadas nesse sentido, e que dessa forma os apreciadores das artes plásticas, da história, da política, da música, da literatura e do turismo possam encontrar nos cemitérios antigos de nossas cidades muitas surpresas e motivos para exclamações. E, que assim, como ocorre em muitas cidades do mundo, os nossos cemitérios possam também se tornar em concorridos espaços turísticos, contribuindo para a compreensão de nossa cultura e de nossa história.

No caso do Cemitério da Consolação, uma das iniciativas digna de nota é o projeto Arte Tumular, idealizado pelo Serviço Funerário do Município de São Paulo, a partir de pesquisas realizadas pelo historiador Délio Freire dos Santos, falecido em 2001.

Atualmente visitas com guia podem ser agendadas na Assessoria de Imprensa e Comunicação do cemitério nos números: (11) 3247-7078/7006. A visita monitorada aos túmulos de personalidades ilustres e às obras de arte tumular do cemitério da Consolação é direcionada especialmente a estudantes, professores, pesquisadores, turistas, entre outros. O responsável pelo monitoramento é o ex-coveiro, Francivaldo Gomes, conhecido como Popó, que conhece uma série de informações e curiosidades sobre o cemitério. Fotografias dos túmulos somente são permitidas com autorização prévia. Entretanto, nas duas visitas que fiz ao cemitério, tirei fotos sem problemas, apesar de não recomendar que façam o mesmo, pois é melhor evitar transtornos e fazer a solicitação prévia.

O Cemitério da Consolação é aberto para a visitação todos os dias, das 7h às 18h, e as visitas monitoradas são feitas das 8h às 15h , com agendamento prévio pelos telefones (11) 3107-6449 e (11) 3247-7078. O cemitério fica na Rua da Consolação, 1660.

Fontes:

Partes Revista Virtual: matéria sobre arte tumular.
http://www.partes.com.br/especial_sp_450/artetumular.htm

Portal da Prefeitura de São Paulo: Projeto Arte Tumular
http://www6.prefeitura.sp.gov.br/empresas_autarquias/servico_funerario/arte_tumular/0001

São Paulo – Museu a céu aberto
http://www.paulistanea.hpg.ig.com.br/

Graffit Turismo – Roteiros Temáticos: agência de turismo que promove roteiros temáticos em São Paulo. Há inclusive um dedicado exclusivamente aos cemitérios da cidade, chamado “São Paulo do outro Mundo: Além dos túmulos”
http://www.graffit.com.br/graffit_viagens/tematicos/tumulos.htm


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