Tem um lugarejo entre as cidades de Quatro Barras e Morretes, cujo nome foge agora, onde a existência e o fim dela tem cores marcadas.

Local de parada para turistas pela estrada da Graciosa. É uma estrada onde o terreno é íngreme, pela Serra do Mar, levando nos bons tempos da década de 50 a riqueza paranaense para o porto de Antonina, buscando os dólares preciosos do exterior.


No cemitério do vilarejo, com pouco mais de uma centena de almas, há três setores distintos: o dos bons homens e mulheres brancas, com lugar para os pobres brancos, para os negros e índios.
Coisas do tempo em que a sociedade brasileira tinha um posicionamento racista mais evidente, em que não havia a preocupação com o bom relacionamento, com a inteligência também.
Culpa de cientistas europeus, que justificavam a inferioridade de outras raças, escrevendo livros, artigos idiotas, disseminando bobagens cujos frutos a humanidade ainda colhe.
No Brasil os resultados foram sentidos durante anos.
Mas o cemitério é anterior, tem quase duzentos anos. Havia um consenso da sociedade brasileira que os naturais da terra não serviam muito para o trabalho, e os negros(assim chamados os infelizes extraídos do continente africano), eram mais fortes e amansados na chibata.
Naturalmente o litoral paranaense não era o que se podia chamar de paraíso, mas tirando os mosquitos da serra as condições de adaptação eram duras para todos.
Os poucos senhores de terras do litoral possuíam escravos e decidiram que na morte os africanos e seus descendentes poderiam ser enterrados no cemitério da localidade, desde que não se perdesse tempo marcando os nomes.
Os nomes de brancos estão lá marcando as covas. Os negros e índios não. Talvez por acharem os senhores da época que não tinham alma, relegando a segundo plano a questão da identidade.
As almas dos esquecidos foram embora, junto com as almas brancas, mas a triste lembrança da segregação marca o pequeno cemitério, hoje atraindo turistas pelo detalhe da discriminação.

 

Por Hamilton Lima Souza