É o PRIMEIRO ANO da minha vó morta e estou na quadra 349 do Cemitério de Vila Formosa. ‘O maior da América Latina’ – minha me diz no ônibus. Próximo do lugar, numa região de covas bem arrumadas com
flores e lápides de cimento, o que me chama a atenção é uma tumba revolvida – acintosamente revolvida pelo contorno organizado da vizinhança. Me aproximo desse monte de terra onde as formigas fazem a festa. A cruz de madeira que caíra tem a metade de um dos braços enterrada. Tento ler: gella, quella, ghella… Penso berinjela com molho. É uma época em que me surpreende o desenho das letras, o som, e o significado das palavras. Sorrio. Apoeira faz redemoinho. Sinto uma mão mão me puxando violentamente para trás. É meu pai. Ele continua me arrastando enquanto olha amedrontado para os lados das colinas e das gavetas da ossadas que cercam tudo. Ordena que eu nunca mais me aproxime daquele túmulo. Diz que é o túmulo de um terrorista; que a polícia podia estar vigiando. Demorei a entender o interesse da polícia em vigiar os mortos naqueles tempos. Para mim, daquele dia em diante, ‘terrorista’ vinha da ‘terra’, a terra fofa e varada de formigas do maior Cemitério da América Latina.

Autor: Fernando Bonassi – do livro 100 Histórias Colhidas
na Rua – Editora Scritta. 1996