Infelizmente só tenho em casa quatro livros da Clarice Lispector: “A hora da Estrela “, “A paixão segundo G. H.”, “Laços de Família” e “A Via Crucis do Corpo”. Pode parecer muito, mas queria na verdade ter todos. Ela é sem dúvida a escritora que eu mais admiro. Podem afirmar o contrário, mas na minha modesta opinião prefiro mil vezes ela à Virginia Woolf . Clarice não tem medo nem pudor de levar seus personagens até as últimas consequências, enquanto a Virginia Woolf tem medo, ou melhor seus personagens tem medo e desistem mesmo antes de tentar. Os personagens da Clarice mesmo tendo medo vão em frente e seguem até o fim, e ela vai até o fim com eles. Não que Clarice seja cruel, mas é a própria humanidade que traz em si essa característica. Ninguém é inocente, nos textos da Clarice tudo é nú e cru, ou nem tanto, pois o mal habita as entrelinhas…E é nas entrelinhas onde na verdade ela mais se revela.
Há uma frase da Clarice Lispector que exprime bem o que ando sentindo ultimamente:
Às vezes me dá enjôo de gente. Depois passa e fico de novo toda curiosa e atenta. E é só.







19:11
A ética resume-se a três virtudes: “coragem para viver, generosidade para conviver e prudencia para sobreviver.” – Fernando Savater
O enjoo de gente, é doentio. Não é que certas pessoas, em particular, não constituam uma fortíssima causa para a nausea; mas é, todavia, nelas que reside a nossa humanidade. Para a não perder, porque esta nos convém na medida em que nos serve se nos propomos a almejar uma boa vida, convém, para isso, perceber como e porque são como são, de modo a poder pensá-las como nos são favoráveis. Pondo-se no lugar dos outros compreende-se a sua ralidade. Ao que resta ponderar, dentre todas as hipóteses de acção que se nos apresentam, a que mais nos convém, no que respeita à transformação desta realidade no nosso plano geral. Posto isto, está feita a escolha, e definido o objecto do nosso querer, resta cumprir a nossa vontade, através usando o poder que possuímos, ou investindo-o, para que cresça, e nos permitao cumprimento da nossa vontade que, além de autónoma, representa aquilo que nos convém.
Se agirmos sempre de acordo com o que mais nos convém, aumentando a nossa liberdade, através da procura do saber e do poder, o resultado é uma vida que se aproxima da alegria na medida da qualidade das nossas avaliações estratégicas, ou seja, na vida mais feliz que nos é possível conseguir.
Credo.. parece que estou a vender algum tipo de salvação, de maneira nenhuma – antes, sugiro o egoísmo, como descrevi nesta apliacação. Pois que, é egoísta respeitar, dignificar e humanizar a “gente”, que como nós, compartilha a razão como única condição para um conhecimento seguro do real, que só pode ser um conhecimento relativo e paradigmático.
Venho sugerir que não despreze a “gente”, porque isso não é mais que desprezar-se. Venho lembrar-lhe que os outros são o nosso espelho, na medida em que toda a nossa acção visa uma vida com eles partilhada, e que, ainda que seja sempre nossa a responsabilidade pelas nossas escolhas, deles depende, essa nossa vida, para que boa seja.
Com amor, Gaspar