BIOGRAFIA

Nascida em 1920, na Ucrânia e falecida em 1977, no Rio de Janeiro. Ela veio para o Brasil aos dois meses de idade, criou-se no Recife e mudou-se para o Rio de Janeiro aos doze anos. Formou-se em Direito e, aos dezessete anos, escreveu seu primeiro livro, o romance “Perto do Coração Selvagem”.
Na obra de Clarice Lispector, a caracterização das personagens e as ações são elementos secundários. Importa-lhe captar a vivência interior das personagens e a complexidade de seus aspectos psicológicos.

Daí resultam uma narrativa introspectiva e o monólogo interior, em que muitas vezes percebe-se o envolvimento do narrador, ficando difícil estabelecer as fronteiras entre narrador e personagens. Essa centralização na consciência contribui para a digressão, a fragmentação dos episódios e o desencadeamento do “fluxo de consciência”, isto é, a expressão direta dos estados mentais, nos quais parece manifestar-se diretamente o inconsciente, do que resulta certa perda da seqüência lógica.

“Escrever é procurar entender,
é procurar reproduzir o irreproduzível,
é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador. Escrever é também abençoar uma vida que não foi abençoada.”

Na trilha filosófica do existencialismo, Clarice enfatiza a angústia do homem diante de sua liberdade para escolher o curso que deseja dar à sua vida. Essa escolha é necessária, já que sua existência não está predeterminada, e a maneira de cada indivíduo ser e estar no mundo e entendê-lo resulta de sua própria opção. Assim, ele tem a liberdade de optar por uma vida autêntica e questionadora, mas isso provavelmente o levará a enxergar um mundo absurdo em que nada faz sentido e, conseqüentemente, a afundar-se num abismo de perplexidades. Por outro lado, pode refugiar-se na banalidade do cotidiano e nos ;interesses imediatos, limitados e efêmeros, os quais certamente nunca o deixarão plenamente satisfeito.

As narrativas de Clarice Lispector quase sempre focalizam a epifania, um momento de revelação, um momento especial em que a personagem defronta-se subitamente com a verdade.


Cronologia:

  • 1920. Nasce Clarice Lispector em Tchechelnik, uma pequena aldeia na Ucrânia(Rússia), a 10 de dezembro de 1920. É filha de Pedro e Marieta Lispector, que já tinham duas filhas: Elisa e Tânia. A família de migrantes estava já em viagem, a caminho das Américas. Da Rússia passam, provavelmente, pela Romênia e pela Hungria, até a Alemanha. Em Hamburgo tomam o navio que os levaria ao Brasil.
  • 1921. Chegam à Maceió( Estado de Alagoas) onde permanecem por dois anos e meio.
  • 1924. A família muda-se para Recife( Estado de Pernambuco). O pai é pequeno comerciante. A doença da mãe, que sofre de paralisia progressiva, agrava-se.
  • 1928. Com sete anos aprende a ler.
  • 1930. Morre a mãe, Marieta Lispector. Com nove anos, assiste a uma peça de teatro no Teatro Santa Isabel, no Recife e, inspirada, escreve “Pobre menina rica”, peça em três atos cujos originais acaba perdendo. Nessa época, envia contos para o Diário de Pernambuco, mas nenhum deles é publicado.
  • 1932. Clarice que estudara no Grupo Escolar João Barbalho e no Colégio Hebreu-Idiche-Brasileiro, ingressa no Ginásio Pernambucano, após exame de admissão prestado em final do ano anterior. Lê muitos livros, entre eles Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.
  • 1934. A família, composta pelo pai e três filhas, muda-se para o Rio de Janeiro. A adolescente Clarice cursava, nessa época, a treceira série do curso fundamental (ou ginasial).
  • 1936. Final do ano, completa o Curso Fundamental, no Colégio Sílvio Leite, que funcionava na rua Mariz e Barros, na Tijuca.
  • 1938. Cursa o segundo ano do Curso Complementar, já no Colégio Andrews.
  • 1939. Inicia o Curso de Direito na Universidade do Brasil.
  • 1940. Morre o pai. Publica o seu primeiro conto na imprensa, intitulado “Triunfo”, na revista Pan, no dia 25 de maio. Inicia sua carreira de jornalista, trabalhando na Agência Nacional e na empresa A Noite. Data desse período sua grande amizade por Lúcio Cardoso. Conhece também, entre outros jornalistas, Antonio Callado e Francisco de Assis Barbosa.
  • 1943. Casa-se a 23 de janeiro, com Maury Gugel Valente, seu colega na Faculdade de Direito. Ambos formam-se na Faculdade no final deste ano, quando Clarice lança seu primeiro romance: Perto do Coração Selvagem.
  • 1944. Muda-se para Belém(Estado do Pará) com seu marido, que segue a carreira diplomática, onde permanecem por seis meses. Em seguida, viaja para Nápoles(Itália), onde o marido assume a função de vice-cônsul do Brasil. De Belém e de Nápoles Clarice recebe as críticas que são feitas ao seu primeiro romance Perto do Coração Selvagem, que, aliás, ganha o Prêmio Graça Aranha. E mantém correspondência com seus parentes e amigos que ficaram no Brasil.
  • 1946. Muda-se para Berna(Suíça). Publica seu segundo romance, O Lustre. E escreve o terceiro romance.
  • 1949. Publica A Cidade Sitiada, seu terceiro romance.
  • 1950. A família permanece algum tempo no Rio de Janeiro, antes de embarcar para nova estada no exterior, agora na Inglaterra. E escreve contos, como “Amor”, “Começos de uma fortuna”, “Uma galinha” e que, com outros, anteriormente escritos, serão publicados no seu primeiro volume de contos, dois anos mais tarde. A família muda-se para Torquay, na Inglaterra, onde permanece por seis meses.
  • 1952. Passa algum tempo no Brasil, antes de partir novamente para o exterior. Colabora no “Comício”, dirigido entre outros, por Rubem Braga, assinando página feminina com o título “Entre mulheres”, que escreve com pseudônimo de Tereza Quadros, de maio a setembro deste ano. É publicado seu primeiro livro de contos, Alguns Contos. No dia 3 de setembro embarca para os Estados Unidos, onde permanece até o final da década.
  • 1953. Nasce o seu segundo filho. Paulo, em Washington. Continua a escrever, com dificuldades, A Maçã no Escuro. E escreve outros contos.
  • 1954. Clarice vem ao Rio de Janeiro, em viagem rápida. É publicado seu primeiro romance, Perto do Coração Selvagem, em francês.
  • 1956. Finalmente termina seu romance A Maçã no Escuro, que já iniciara há pelo menos três anos atrás, quando tinha por título ainda “A Vela no Pulso”. Escreve mais contos como “O búfalo”. E os amigos do Brasil, como Fernando Sabino e Rubem Braga, tentam publicar tanto o seu novo romance como o volume de contos.
  • 1959. A revista Senhor, dirigida entre outros, por Paulo Francis, publica contos de Clarice Lispector, divulgando assim, a escritora para um público maior. Separa-se do marido, depois de um casamento que durou 15 anos, e volta para o Brasil, com os dois filhos.Colabora, até 1961, em página feminina do “Correio da Manhã”, em coluna intitulada “Correio feminino- Feira de utilidades”, sob o pseudônimo de Helen Palmer.
  • 1960. Publica Laços de família, pela Livraria Francisco Alves. Colabora no “Diário da Noite”, como “ghost writter” da atriz Ilka Soares, em sua coluna intitulada ”Só para mulheres”, até março do ano seguinte.
  • 1961. Publica A Maçã no Escuro, para o qual tomara notas ainda na Inglaterra e o qual começara a escrever nos Estados Unidos e que já havia terminado a cinco anos.
  • 1962. Viaja para a Polônia, com os filhos, em visita ao ex-marido,que, na época, ainda era embaixador. Recebe o Prêmio Carmen Dolores, em São Paulo, pelo seu quarto romance.
  • 1964. Publica a novela A Paixão Segundo G.H., um dos seus textos mais densos. É publicado também o volume A Legião Estrangeira, que reúne, numa primeira parte, contos maiores e, numa segunda parte, intitulada “Fundo de gaveta”, fragmentos de tamanho variado, incluindo aí alguns sob a forma de crônicas.
  • 1967. Na madrugada de 14 de setembro, Clarice sofre acidente que quase lhe causa a morte: trata-se de um incêndio que lhe deixa marcas na mão direita e que exige algumas cirurgias. Publica O Mistério do Coelho Pensante, história que contara, em inglês para o filhos Paulo, quando ainda estava nos Estados Unidos.Escreve crônicas no “Jornal do Brasil”, aos sábados, em colaboração que irá prolongar até 1973.
  • 1968. Publica na revista Manchete, em seção intitulada “Diálogos possíveis”, entrevistas que faz com personalidades sobretudo do mundo político e artístico. Participa de manifestação política contra a ditadura militar, em caminhada pelas ruas do Rio de Janeiro, ao lado de artistas e intelectuais brasileiros. Ganha o Prêmio Calunga, no Paraná, com o livro de literatura infantil publicado no ano anterior.
  • 1969. Publica A Mulher que Matou os Peixes, segundo livro de literatura infantil e o romance Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres, com o qual ganhara o Prêmio Golfinho de Ouro.
  • 1971.Publica Felicidade Clandestina, volume que traz os contos de memória de infância do Recife, além de outros.
  • 1973. Publica Água Viva,em texto reduzido de versões anteriores: uma primeira tinha por título “Atrás do pensamento: Monólogo com a Vida”; e uma outra, “Objeto Gritante”. Neste ano sai publicada também uma antologia de contos, com seleção que não inclui nenhum conto inédito, no volume “A Imitação da Rosa”.
  • 1974. Publica dois volumes de contos: um, por encomenda, sobre o tema do sexo, intitulado A Via Crucis do Corpo; outro Onde estivestes de noite. Neste ano publica ainda seu terceiro livro de literatura infantil : A vida Íntima de Laura.
  • 1975.Participa do congresso de Bruxaria, na Colômbia, ocasião em que lê o seu conto “O Ovo e a galinha”. Publica Visão do esplendor ou, segundo a autora “Impressões leves”. E De Corpo Inteiro, com algumas das entrevistas publicadas anteriormente na imprensa carioca.
  • 1976. Ganha o Prêmio da Fundação Cultural do Distrito Federal pelo conjunto da obra.
  • 1977. Em fevereiro concede entrevista para a TV2-Cultura, em São Paulo em programa que pede para ir ao ar apenas após a sua morte. Em início de novembro é hospitalizada, por causa da doença: cáncer no útero, que se generalizou. Publica A Hora da Estrela, reunindo, com dificuldade, os fragmentos que compõem o livro. Falece no dia 9 de dezembro, às vésperas de completar 57 anos. Foi enterrada no Cemitério do Caju, no Rio de Janeiro.
  • 1978. É publicado Um sopro de vida, que ela considera “pulsações”, fragmentos que foram reunidos por sua amiga Olga Borelli. Também sai publicado seu quarto livro de literatura infantil.Quase de verdade. A segunda parte do volume A Legião Estrangeira é publicado em volume autônomo, com o título Para não esquecer.
  • 1979. É publicado o volume A Bela e a Fera, com alguns dos seus primeiros e últimos contos ainda inéditos.
  • 1984. É publicado o volumeA Descoberta do mundo, que reúne parte das crônicas anteriormente publicadas no JB.
  • 1987. É publicado o livroComo nasceram as estrelas.12 Lendas brasileiras,com as histórias que serviram de ilustração para o caledário encomendado a Clarice pela fábrica de brinquedos Estrela.


    Cronologia estabelecida por Nádia Battella Gotlib, extraída do livro “A paixão segundo G.H.- Edição crítica, coordenada por Benedito Nunes.Coleção Archivos.vol. 13, 2@ edição,1996. OBS:Constam algumas alterações e inclusões feitas por mim.

OBRAS
  • Perto do coração selvagem, romance, 1944.
  • O lustre, romance, 1946.
  • A cidade sitiada, romance, 1949.
  • A maçã no escoro, romance, 1961.
  • A paixão segundo G.H., romance, 1964.
  • Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, romance, 1969.
  • Água viva, romance, 1973.
  • Visão do esplendor,romance, 1975.
  • Um sopro de vida, romance, 1978.
  • A hora da estrela, romance, 1977.
  • Alguns contos, contos, 1952
  • A bela e a fera, contos, 1979.
  • Laços de família, contos, 1960.
  • A legião estrangeira, contos,1964.
  • Felicidade clandestina, contos, 1971.
  • Onde estivestes de noite? , contos,1974.
  • A via crucis do corpo, contos, 1974.
  • De corpo inteiro, entrevistas, 1975.
  • Para não esquecer, crônicas, 1978.
  • A descoberta do mundo, crônicas,1984.
  • O mistério do coelho pensante, infantil, 1967.
  • A mulher que matou os peixes, infantil, 1968.
  • A vida íntima de Laura, infantil, 1974.
  • Quase de verdade, infantil, 1978.
  • Como nasceram as estrelas, infantil, 1987.

BIBLIOGRAFIA SOBRE O AUTOR

  • BORELLI, Olga. Clarice Lispector: Esboço para um possível retrato. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.
  • BOSI, Alfredo. Clarice Lispector. In: História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1989.
  • GOTLIB, Nádia B. Clarice – uma vida que se conta. São Paulo: Ática, 1995.
  • GUIDIN, Márcia Lígia. A hora da estrela de Clarice Lispector. São Paulo: Ática, 1996. (Roteiro de Leitura).
  • LEITE, Ligia Chiappini Moraes. O foco narrativo. São Paulo: Ática, 1985. (Série Princípios).
  • NOVELLO, Nicolino.O ato criador de Clarice Lispector. Rio de Janeiro: Presença/MinC/Pró-Memória/INL, 1987.
  • PÉCAUT, Daniel.Os intelectuais e a política no Brasil. São Paulo: Ática, 1990.
  • WALDMAN, Berta.Clarice Lispector – A paixão segundo C. L. São Paulo: Escuta, 1992.
FILMOGRAFIA
A Hora da Estrela (BRA, 1986, 96min). Direção: Suzana Amaral. Elenco: Marcélia Cartaxo, José Dumont, Tamara Taxman.

TEXTOS
Em breve

Clarice Lispector: por Ana-Christina. Excelente site com textos,entrevistas e pinturas da autora. Um dos mais completos do Brasil.
Clarice Lispector: um enigma: página da TV cultura, com muitas fotos e informações sobre a autora.

Releituras
- Clarice Lispector: biografia e textos