Considerações sobre Tomé

 Jerusalém, século I. Perturbações políticas estão em curso, decorrentes de um certo homem que acredita ser Filho de Deus,  o Messias, que veio libertar o povo judeu dos séculos de servilidade aos quais foram submetidos. Sua influência política é desconhecida; sabe-se que ele, quando criança, aqui mesmo nesta cidade, interpelava doutores da Lei com autoridade. Fala das coisas do alto, como ele mesmo diz… não se sabe se ele partilha de visões filosóficas ou de outras formas de conhecimento mais elevado  , pois ele fala em linguagem imprópria ao povo, quase em versos líricos. Percorre várias cidades colocando suas idéias a todos, e neste intervalo, produz eventos fantásticos e muitos o seguem, sedentos, angustiados pela realidade terrível da submissão romana em curso. O povo… o povo…

 

Há dias estamos andando pelas cidades que ficam entre Belém e Samaria, passando pelo Jordão até Jerusalém. Muitas são as pessoas que vêm até nós, muitas mesmo. Tanta euforia, tanto espanto, tantos olhares abismados… ele traz consigo o mistério, e nós, que estamos a segui-lo há meses, também não estamos perplexos? Também não temos nossas dúvidas em relação  a estes prodígios, a estes milagres? Sou um destes que está confuso, atordoado com tantas informações. Tento não transparecer tais inquietações, mas… mas às vezes não posso simplesmente fingir que não estou vendo, vivenciando aquilo. Tu me entendes? Quando o mestre está entre nós, em alguns momentos em que o povo não tem acesso, tenho a curiosidade de saber mais sobre ele, esboço mentalmente questionamentos com base naquilo que li , ouvi e vivi, porém acabo por desistir e não concluo o que iniciei. Sinto-me tão desfalecido, tão acovardado, tenho esta grande oportunidade de retirar esta dúvida, mas temo não ser compreendido… por que ele me chamou? Por que fui escolhido? Antes tinha uma vida pacata, reclusa, procurava respostas em documentos trazidos pelos romanos a Jerusalém, nas bibliotecas da cidade, nas sinagogas, com os viajantes que sempre traziam pergaminhos da Grécia, do Egito. Sou versado nas línguas latina e grega, tenho visto filósofos e pensadores, humanistas, e o que estes dizem é que a dúvida é preciosa, não podemos viver na certeza absoluta, pois esta não existe, é quimérica, irracional. E agora tudo se modifica. O reino de Deus está próximo, e o seu profeta está entre nós pregando que não devemos ter dúvidas em relação à sua existência, à vontade do Pai, ao céu, ao inferno. Devemos fazer nossas escolhas, mas não somos livres para determinar o que vai nos acontecer caso nos recusemos a  seguir o que está determinado. Devemos padecer caso isso ocorra. As outras culturas, mais antigas que a nossa, são tão mais tolerantes com os erros humanos… preparam o homem de maneira mais salutar para o prazer, para a dor, para a morte. Enfim, o que virá agora? Espera…

– Tomé, vamos, o mestre nos chama, devemos entrar com ele em Jerusalém de maneira triunfal… está escrito assim. – disse Pedro.

– Vou num instante, irmão.  Preciso ir agora… acompanhas-me? Se quiseres, vem…

Peguei meus escritos e rapidamente me juntei aos que estavam lá fora. Eram centenas de pessoas com galhos de ramos nas mãos aguardando aquilo que parecia um cortejo. Sei que estamos perto da páscoa, e que vi o mestre dando algumas ordens a alguns discípulos, para que fossem em tal lugar buscar aquele jumentinho… De repente vi o mestre montado no animal, seguido por João, Tiago e Pedro, os outros iam logo em seguida, e a multidão, aos gritos de “Hosana nas alturas! Bendito o que vem em nome do Senhor!” não paravam de cantar, indo em direção ao portão central de Jerusalém.

            – Vamos, é necessário que assim seja feito, o filho do Homem deve entrar em Jerusalém com gloria, para depois ser morto e ressuscitar ao terceiro dia. – disse o mestre.

            Morrer e ressuscitar? Voltar a viver? Como isso era possível? Tenho visto que ninguém, que eu conheço que um dia cruzou as portas da morte, voltou, ressurreto. A morte é infalível! Não tem piedade dos que ficam a lamentar os que partem, não escolhe vitimas; romanos, turcos, judeus, reis, imperadores, ratos, cães, todos a provam, mas ninguém jamais voltou. Impossível! Onde está mesmo aquele pergaminho grego que fala da imortalidade da alma… deve estar em minha bolsa… são tantas pessoas amontoadas que não consigo me mexer… nestas ruas estreitas fica quase impossível qualquer movimento… devo tê-lo por aqui… não o encontro… devo ver isto depois. Olhe… os romanos… eles estão nos fitando de longe… certamente nos ridicularizam por este ato, achando graça um homem se dizer rei dos reis… quem é hoje maior que Cesar? Nenhum reino deste mundo pode ir de encontro à força de Roma, esta, que subjuga a todos, impondo suas regras, seus costumes… por um lado, eles nos trouxeram lições  que nos são válidas. Possuem hábitos estranhos com as mulheres e seus deuses são extremamente humanos… o aspecto divino destes deuses é intrigante… há uma certa permissividade entre homem e deus, diria uma certa convivência. Eles estão presentes na vida dos homens quase que ininterruptamente, não apenas em seus rituais solenes, e quase tudo é permitido, quase todos os comportamentos são tolerados. Há ate festas licenciosas em homenagem à alguns deuses específicos, como Dioniso. Lembro-me de ter ido a Roma certa vez com um grupo de rabinos e ter presenciado tais festas… eram realmente chocantes para nós, recatados religiosos orientais, mas para eles… era uma celebração em honra a um deus querido, que os cortejava com bênçãos e os observava . Havia alegria, olhares flamejantes de felicidade espontânea. Os nossos cultos? Cheios de rituais incompreensíveis e caducos. Aliás, nossos ritos são o exemplo mais claro de intolerância, de mesmice e de tédio. Parece que chegamos…

            – Tiago…  estou confuso… gostaria de conversar com você sobre algumas coisas…

            – Irmão… ainda preocupado? Já vieste com teus questionamentos uma vez… recordo-me bem daquela noite em que passamos em claro, onde querias esclarecer questionamentos que nem mesmo ao mais sábio dos rabinos é permitido. Tens o messias diante de ti, e ainda tens dúvidas? Acalma-te!

            – Isto não me impede de ter coisas a resolver em relação ao mestre… sua origem… seus planos…

            – Ora, Tomé , acaso estás dizendo que o mestre nos engana? Nos trapaceia com seus milagres, tão visíveis quanto nós mesmos? Vem, vamos jantar… tens fome apenas…

Obedeci Tiago e fui ao encontro dos outros e do mestre para o jantar. As reuniões entre nós  estavam ficando cada vez mais freqüentes, e o mestre, com uma fisionomia abatida, nos ensinava como se não nos visse mais dali a algum tempo. Ele sempre disse que ia sair de nosso convívio, que iria nos deixar…  será que faltava muito? Era a hora de interpelá-lo mais profundamente… falar de forma mais aberta sobre estes meus pensamentos… ele sempre me olhava com um ar de candura, de compreensão… agora mesmo aconteceu novamente… acontece aquilo mesmo que penso, que Ele pode ler nossos pensamentos, antes mesmo que nós possamos pensar neles? Se assim for… ele entenderia que sou humano… que estou confuso, não posso viver nesta dúvida. Eles estão se retirando, e o mestre está ficando sozinho… vou ao seu encontro.

            – Aonde vais, Tomé? Não incomodes o mestre… ele precisa descansar… hoje foi um dia difícil… disse João.

            – Gostaria apenas de conversar com ele. Vocês passam a maior parte do tempo ao seu redor, não permitem que Ele chegue  perto de ninguém. Por quê?

            – Não me questiones, rapaz! Sabemos muito bem de tuas intenções com o mestre. Vens com aquelas bobagens estrangeiras de filosofia e razão para perturbar sua serenidade, o seu descanso. Não poderias deixar estas coisas de lado? Deveríamos nos unir e falar a esta gente daquilo que estamos presenciando, daquilo que o senhor nos coloca diariamente. Tens por obrigação falar destas coisas, e não distorcê-las com palavrório inútil.

            – O que sabes de filosofia grega, João? Acaso já estiveste em algum encontro com pensadores e pessoas experimentadas nestes assuntos? Quem és tu para rejeitar assunto tão complexo?

            – És insolente, Tomé ! chamas-me de idiota?

            – Você não sabe do que está falando… mas devo considerar isto como ignorância de tua parte… és um pescador inculto, não entenderias nem uma linha dos pergaminhos que levo comigo.

            – Só não te farei engolir estas palavras porque não quero perturbar o mestre com idiotices. Mas ainda nos veremos cara a cara, rapaz… verás.

João irritou-se muito com o que eu havia dito. Não agüentava mais tanta indiferença comigo, não deixavam que eu me aproximasse do mestre. Naquele momento, apenas três faziam parte do séquito dele: João, Tiago e Pedro. Devo achar uma forma de chegar perto dele sem ser visto pelos demais. Mas como? Vou encontrar tal maneira. Devo dormir.

Outros dias se seguiram àqueles, e Tomé, com seus pergaminhos e leituras diárias, às escondidas do resto, aumentava suas dúvidas, seus questionamentos. Os propósitos de Deus para o homem, a liberdade , o reino celeste, o fim dos tempos tão anunciado e nunca chegado. Muitas vezes perguntou-se qual era seu real propósito ali, deveria ir embora? Faria falta se assim procedesse? Tinha em sua mente que não era necessário naquele grupo, que o tempo era chegado, e que se o mestre estivesse correto, coisas aconteceriam naqueles dias seguintes. Andando sozinho pelas ruas, ouvia os comentários do povo sobre Jesus, e as mesmas questões se levantavam. Parecia que as coisas que se viam acontecer, os grandes feitos daquele homem, não eram suficientes para explicar sua origem, seus ensinamentos. Os sacerdotes e fariseus, ávidos por confundir ainda mais as mentes da população, diziam que tudo aquilo era burla, farsa ilusória; só Deus poderia curar os enfermos e retirar os demônios, ninguém mais, se aquele homem estava ali, em carne e osso, jamais poderia ser Deus, uma vez que Deus é espírito, não matéria. Nem profeta deveria ser, uma vez que falava coisas que não eram condizentes com o que os sacerdotes e os senhores da lei ensinavam, e que era  a verdadeira doutrina acerca de Deus. Tomé não acreditava nos fariseus, já estava totalmente envolvido pela corrente de pensamento greco-romana. Aquilo parecia mais conveniente aos pensadores, aos que buscavam uma maior solidez de princípios… a teoria de Demócrito era a mais entusiasmaste para ele, uma vez que tratava os assuntos da natureza de maneira totalmente isenta de manifestações divinizadas;  o atomicismo, concepção na qual tudo no universo era constituído por minúsculas partículas unidas e de espaço vazio, “Nada é feito do nada”, “não há nem interrupção brusca nem intervenção estranha no curso natural das coisas”, disse seu querido filósofo. A alma, esta também constituída de átomos, era apenas uma reunião destas quando se nascia, e uma desunião destas quando se morria. Apenas isto, apenas esta definição, e tudo o mais, pura especulação tola. E os espíritos que ele vira por mais de dez vezes o seu mestre expulsar de alguns? Particularmente, também se utilizava de pensamentos gregos para decifrá-los; achava que eram manifestações do cérebro, causadas por conseqüências físicas tais como febres constantes, ou algo que não se tinham ainda explicação. Cegos, aleijados, também se enquadravam neste quadro de perturbações mentais, uma espécie de travamento dos nervos óticos e motores por influencia do cérebro. Os mortos que se levantavam, e outras manifestações, cria que eram causadas por explicações físicas, naturais, passiveis de acontecer com os seres vivos, mas que ainda eram muito para ele, mas certamente alguém já estava pensando nisso…

A páscoa é chegada. Milhares de pessoas vêm à Jerusalém para participar da festa. Inclusive muitos viajantes que eu tenho contato, e que me trazem os mais diversos pergaminhos daquilo que se está fazendo em termos de pensamento no mundo antigo. Eles sempre trazem coisas novas e excitantes… agora mesmo estou com um compêndio sobre a Índia… Os discípulos estavam agitados, para dizer a verdade perdidos, pois o mestre estava estranho. Olhava fixamente para a cidade repleta, as pessoas indo ao templo para as oblações diárias, os mercadores tentando sobreviver nas ruas cheias de gente, os guardas romanos observando a multidão de maneira passiva, mas atenta, uma vez que estas reuniões gigantescas sempre geravam especulações sobre possíveis tentativas de golpe contra a representação de César  em Jerusalém; ele estava cabisbaixo, mesmo aflito. Não dizia palavra há alguns dias, prodígios não eram mais vistos, reuniões não eram mais feitas. Espere, Pedro vem em minha direção.

            – Tomé… vamos para um local reservado hoje a noite, a ceia deve estar pronta antes da hora sexta.

            – Sim, irmão. Para onde iremos?

            – Ainda não sei, devemos guardar o mestre… ele quer nos falar alguma coisa neste jantar…

            – Quando poderei falar com ele em particular? Por que vocês não me deixam falar com ele?

              Nós percebemos que você esta distante, Tomé. Vive em discussões com estrangeiros sobre assuntos estranhos, diversos daquele que estamos ouvindo e aprendendo. Pensamos mesmo que você esta se desviando dos propósitos aos quais fomos chamados, com estas heresias gregas que você mantêm em sua bolsa e leva para todos os lugares. O que pensas, Tomé? Queres acreditar em tais contradições? Preferes colocar duvidas em nós? Por isso não permitimos que chegues ao mestre.

            – O que vocês temem? Que ele seja corrompido por mim? Ora, ele não é o senhor enviado? Isso é risível!!!

            – Não é risível, irmão. Os outros temem você. Tens papiros antigos em tua bolsa, conheces muitos estrangeiros, e isto os intimida. O poder é algo que não se pode perder quando se tem.

            – Tolos! Todos vocês! Não pretendo ameaçar o poder de vocês. Sei que milhares de pessoas os seguem por todos os lugares, mesmo não sabendo o que estão fazendo. São desesperados, não tem tempo para refletirem sobre o que esta acontecendo aqui. Não pretendo ser mais um entre vocês.

            – O que você está dizendo? Você foi escolhido pelo mestre… não pode abandoná-lo agora que…

            – Agora que o que, Pedro?

            – Agora que tudo está perto de ser consumado… o mestre deve padecer por nós, por estes dias.

            – Qual a finalidade disto? Por que ele deve fazer isto? Quem o ordenou?

            – Ora, Tomé! O que você está dizendo? Você sabe muito bem que ele é o messias enviado, e o que ele diz é verdade.

            – Prova-me, Pedro! Prova-me algo que tu mesmo consideras verdadeiro nele? Não tens dúvidas nesta tua cabeça? Realmente crês em tudo o que viste e ouviste? Ou estás sendo levado pelos ventos de confusão em que todos estão inseridos? Vamos, Pedro, dize-me…

            – Não pretendo falar sobre minha fé contigo, Tomé. Vejo que estás definitivamente inoculado pelas vãs filosofias dos áticos. Se queres ir embora, faze-o.

            – Não sem antes falar com o mestre…

            – Se fores até lá, eu juro que morrerás primeiro…

            – Então vocês querem mesmo que ele morra? Pretendem mesmo que ele seja aviltado e morto por vocês?

            – Éramos homens simples, vivíamos às margens do mar para retirarmos aquilo que comíamos. Nossas mulheres eram o retrato do sofrimento, nossos filhos o abandono encarnados. Tínhamos muito poucas chances de viver com dignidade, ate que veio este homem… ele nos trouxe notoriedade, todos nos conhecem por conta dele, e assim será, caso ele seja conhecido fora destes muros. Nós também, irmão, seremos conhecidos pelos séculos como os discípulos de Jesus de Nazaré, os baluartes do salvador do mundo. Não achas isto interessante?

            – Também não acreditas nele, não é?

            – Já te disse que não vou falar sobre isso…

            – E os outros?

            – Não sei quanto aos outros. Não posso responder por eles. Penso de maneira diversa, mas nem por isso vou revelar o que sinto.

            – O homem é mesmo um ser muito cruel. Quando envolvido em questões de poder, logo se torna o mais sujo dos animais para conseguir o que deseja. Todos acham que aqui há santos, mas não passam de víboras rastejantes em busca de melhores ares… Pedro… eu…

            – Chega… vamos… A ceia deve estar pronta em breve, devemos sair…  

Saí daquela conversa enojado com o que Pedro havia me dito. Como ele disse, não poderia responder pelos outros sobre aquilo, mas ate quando eles também não faziam parte disso? A comodidade é senhora dos maiores impropérios. As pessoas traem pela comodidade, cospem no irmão pela isenção da culpa. Mesmo assim fui com eles ate o local marcado para a realização da ceia. Vejo quase todos reunidos em volta de uma grande mesa, bem servida e farta de todos os aperitivos que a maioria dos que estão lá fora não possuem em suas casas. O mestre esta novamente olhando para mim… desta vez com um ar sóbrio, não consigo identificar o seu gesto. Espere, chegou Judas…  ele é o irmão que mais poderia estar próximo com aquilo que acredito… sempre recluso, quase sempre ausente… experimentado nas letras, conhecedor dos assuntos filosóficos, varias vezes conversamos, e ele manifestava uma certa apreensão, um nervosismo incomum. O que eles estão falando com Judas? O mestre diz que ele o irá trair!! Como? Ele retirou-se… para onde estão indo todos? Devo ir e ver o que acontecerá.

            Foram todos ao Monte das Oliveiras. Lá, Jesus ordena que alguns fiquem ao pé do monte, enquanto os seus escolhidos iam com ele para um recanto orar. Tomé fica com os demais, mas não está feliz com isso. Os segue por um outro caminho em segredo. O mestre se retira e os outros, em pouco tempo, dormem. Judas aparece e vai ter com Jesus. Tomé fica e vê o que acontece.

            Há horas que eles conversam… o que será que está sendo revelado ali? O que é isso? Guardas romanos? Sacerdotes? Que estardalhaço é este? Preciso esconder-me! Aqui está bem… posso visualizar tudo. Levam o mestre preso… há uma confusão e alguém é ferido. Pedro é o algoz do centurião. O mestre manda-o guardar o gládio. Não estou conseguindo ver muita coisa… onde está Judas? Vejo alguém evadir-se rapidamente… só a sombra humana… todos correram… preciso sair daqui.

 

            Para onde levaram o mestre? Preciso perguntar aos populares…

            – Levaram-no para a prisão romana. Amanha vão apresentá-lo a Herodes Antipas.   

            – O que está acontecendo? Isto estava realmente previsto? Coincidências provavelmente. Obvio que Roma não permitiria tal afronta aos seus domínios, apesar de não haver, em minha opinião, nenhum interesse de revolta por parte do mestre… mas esperem… Pedro! Tudo se encaixa agora… ele e os outros armaram tudo! Sempre os via próximos demais ao povo, ensinando em separado… eles colocaram este sentimento de revolta em alguns do povo… por isto as manifestações agressivas quando os carros romanos passavam… por isso a procissão, com os tapetes ao chão, aclamando o mestre como rei, com hosanas…  isso é explicado por aquilo que ele falou… queria poder… ser ovacionado como o seguidor do mestre… nada mais interessante do que matar o mestre, para que tudo aquilo que foi dito tenha maior veracidade… canalhas!  O mestre é inocente… preciso me adiantar… o sol já está surgindo… mas tenho muito sono. Estou próximo do palácio de Herodes… vou descansar um pouco…

            As pessoas estavam já ao lado de fora do palácio quando Jesus saiu… ele foi mandado a presença do representante de Roma, Pôncio Pilatos. A turba que acompanhava os guardas e seu preso despertaram Tomé; este logo correu para não ser visto, e acompanhou de longe o cortejo.

            Vamos, estamos ficando para trás. Eles devem agora estar esperando o provável, aquilo que eles planejaram para o mestre…  o que devo fazer? Esperar? Mas como farei para passar pelo corredor de soldados que o guardam?

            Veio a tarde. Enormes turbas que estavam na festa desviaram suas atenções do sagrado para aquele espetáculo de horror que estava sendo encenado no palácio de Pilatos. O mestre está sendo açoitado cruelmente… não posso ver isto por muito tempo… olhe.. é Pedro… ele esta escondido por trás daqueles comerciantes de animais… maldito! Deve estar adorando a cena… mas o que é aquilo? Consegues ver? Alguns o estão questionando… parece que ele se recusa a concordar com os seus interlocutores…  até parece que ele está negando algo… bom, o deixemos .

Jesus, depois de ter sido interrogado pelo governador Pilatos, foi entregue novamente aos soldados e conduzido à lateral do palácio. Lá ele foi torturado mais uma vez e recebeu uma coroa de espinhos silvestres que o lancinaram a cabeça fortemente. Ele estava sangrando muito, mas mesmo assim foi-lhe dado um madeiro pesadíssimo, e ele teve que o levar às costas por todo o caminho que levava ao seu destino final…

            – Mestre, mestre… ouves-me?

            – Sim, Tomé, ouço-te… aaargh…

            – Não entendo, mestre… por que eles foram tão cruéis…?

            – Não te compete saber destas coisas… agora vai… só eu devo sofrer neste momento…

            – Sempre quis estar contigo… sempre quis conversar sobre o reino… sobre o que tinhas a dizer… sei que tinhas algo a me dizer… não, saiam… não me afastem, saiam… não, nãaao…

            O vejo no madeiro pendurado… já há algum tempo ele resiste… balbuciou algumas palavras… estou distante agora… não escuto mais nada a não ser gritos de mulheres e zombaria de alguns… vês algum dos traidores? Todos estão escondidos… todos se foram… a mãe do mestre esta desolada… entendo-a.. nestas horas de dor, esquecem-se as promessas de ressurreição dos filhos, ele pede que se afaste… João, João está lá, ele a acolhe… a afasta a pedido do mestre… quanta aflição… quanta dor… o que é aquilo? Ele expirou… tudo fica escuro… vamos… algo está acontecendo…

Alguns dias se passaram, e os discípulos se reuniram na casa de um deles para chorar a partida de Jesus. Tomé foi ate lá, e de maneira muito discreta, ouviu os comentários dos seus irmãos.

            – Foi cumprido o propósito de salvação da humanidade… se o mestre estiver correto, dentro em breve ele estará de volta, entre nós. – disse João

            – Todos ficaram em silêncio… Pedro olhava fixamente para Tomé  com ares de ódio… este não sabia ao certo o que fazer… se fosse embora, as mulheres o repreenderiam dizendo que aquela hora era necessário ficar e aguardar o mestre vir… se permanecesse, iria agüentar o desprezo dos outros irmãos, e ele não sabia lidar com isso muito bem.

              Vamos até o tumulo levar algumas especiarias para o corpo… – disse Maria Madalena. Vens comigo, Tomé?

            – Sim, vou contigo.

No caminho…

            – O que achas, Tomé? O messias… há três dias não acontece nada…

            – Não sei, Maria… estou tão atônito quanto você…

            – Tenho medo de perder a fé, de não ter entendido o mestre…

            – Ora, Maria, és humana. Nenhum humano pode se dar ao luxo de não duvidar, não temos certeza de nada, a não ser que vamos morrer um dia. É preciso duvidar.

            – Estás louco, Tomé? Duvidar do mestre? Ele nos prometeu e…

            – Chega, vou retornar…

            – Volta, Tomé! Não me deixe sozinha nesta estrada.

            – Não estás sozinha, ali vem um homem, ele pode te acompanhar…

Tomé seguiu em direção não à casa onde estavam os demais discípulos, mas para a cidade, descansar um pouco. Algum tempo depois, voltou para a residência e viu um burburinho estranho. Ele, ao chegar, teve uma visão pavorosa. Jesus estava lá, ao centro da casa, conversando com os demais apóstolos e com as mulheres. Sentiu algo diferente no peito, um palpitar incomum, um leve resfriar de suas mãos e uma tontura. Mesmo assim, aproximou-se do mestre, e perguntou-lhe:

            – És mesmo tu, rabi?

            – Se quiseres Tomé, toca-me com tuas mãos, sente-me… sou eu mesmo.

            – Não é possível, como pode ser…

            – Eu sempre disse que isso ia acontecer… não poderia revelar de maneira explicita, pois as pessoas comuns não entenderiam… mas para vós isto é possível de constatar agora… tens fé?

            – Eu… eu…

            – Toca-me.

            – Não.

            – Tomé… tu sabes que entendo tua dúvida. Sempre disseste a todos que eras humano, que isto era inconcebível para ti, e tens razão ao dizeres tal coisa. Não te culpo, apenas as coisas devem ser assim, não procures entender… aceita.

            – Isto vai de encontro ao que acredito realmente… não tenho culpa, é verdade, e não vou me redimir agora que te vejo. Permaneço no meu tranqüilo estado de pensamento. Não aceito que os deuses brinquem conosco como se fossemos apenas receptáculos vazios… temos razão em nós! Pensamos! Somos dignos de consideração por parte de quem nos criou… não deveria ser desta forma…

            – Ora, cala-te, Tomé. Vou retirar-te daqui se continuares a agredir o mestre, disse Pedro.

            – Tu és o pior de todos, Pedro… e terás o que queres, se assim os séculos não continuarem a entender o que se passou aqui e receberem a noticia de bom grado, sem especulações… vou embora sim, mas disse o que sempre quis… adeus.

Tomé deixou a casa ainda sob a agitação dos discípulos. Trouxe consigo a bolsa com os pergaminhos e seguiu em direção ao porto de damasco… lá, sabe-se que entrou em um navio de cargas com destino à Grécia…

            E assim tudo foi dito.


Por Julio Silva