emquecreemEm tempos de tanta intransigência e falta de diálogo, em que tanto se fala de tolerância e respeito mas que tão pouco se pratica tais princípios,  é realmente um prazer poder ler uma obra como “Em que crêem os que não crêem”. O livro, lançado aqui no Brasil pela editora Record, trata do diálogo epistolar entre o Cardial Dom Carlo Maria Martini e o escritor  e professor Umberto Eco. A correspondência é fruto de uma iniciativa da revista liberal. Entre 1995 e 1996, as cartas foram publicadas trimestralmente em um total de oito cartas (quatro de Eco e quatro de Martini). A proposta da revista seria confrontar a visão laica e a religiosa  em temas que resultam em uma profunda reflexão sobre a ética e os valores do homem contemporâneo. Às vozes de Umberto Eco e do Cardeal Martini somam-se ainda as reflexões dos filósofos Emanuele Severino e Manlio Sgalambro, dos jornalistas Eugenio Scalfari e Indro Montanelli, além do teórico de extrema esquerda Vittorio Foa, fundador do jornal Il Manifesto, e do ex-ministro e ex-secretário do Partido Socialista Italiano Claudio Martelli. Todas estas contribuições trazem evidentemente uma riqueza ímpar ao debate. Mas para mim o grande destaque ainda são as vozes de Umberto Eco e  do Cardeal Martini, que são os solistas desse formidável dueto, aos demais cabe o papel de “coro”, mas um “coro” muito expressivo diga-se de passagem.

A estrutura do debate parte do principio de que não haveria um tema previamente estabelecido e que os dois teriam liberdade para tratar dos assuntos que achassem relevantes, cabendo de início sempre a Umberto Eco sugerir os temas em questão. Tal abrangência e liberdade tem muitos pontos positivos, mas negativos também. Basicamente há uma carta sugerindo e abordando um tema para debate e a essa segue-se uma réplica do outro debatedor, sem direito a tréplica. Pela abrangência dos próprios temas e o espaço cedido na revista, fica-se no mínimo com um “gostinho de quero-mais” ao final das missivas. O pouco espaço torna-se o principal ponto negativo da proposta. Entretanto, apesar disso o resultado final é muito bom.

Entre temas variados como “Onde têm início a vida humana”, “A obsessão laica pelo novo Apocalípse”, “Os homens e as mulheres segundo a igreja” e “Onde o leigo encontra a luz do bem”, os debatedores  tentam colocar no papel as principais dúvidas e pontos de acordo entre os leigos e os católicos.

O último tema relacionado aos princípios que norteam a ética laica e que é a primeira e única sugestão de tema feita pelo Cardial Martini constitui na minha opinião o ponto de destaque do livro. Confrontando a ética religiosa que busca em Deus e no absoluto a inspiração para a prática do bem e a ética laica e que busca no respeito e na relação com o outro os seus parâmetros.

O que mais chamou minha atenção nas cartas é o tom cordial e amigável dos missivistas, que mesmo ao tratar de temas polêmicos e em que adotam pontos de vista discordantes souberam fazê-lo de maneira admiravelmente respeitosa. Evidente que em relação a qualidade dos textos o nível é o que se esperava de dois pensadores eminentes como  professor Umberto Eco e o cardial e arcebispo emérito de Milão Dom Carlo Maria Martini, mas o exercício da dialética e da tolerância de ambos fica como um belo exemplo.

Umberto Eco é, também, titular da cadeira de Semiótica e diretor da Escola Superior de Ciências Humanas na Universidade de Bolonha, além de colaborador em diversos periódicos acadêmicos, colunista da revista semanal italiana L’Espresso e professor honoris causa em diversas universidades ao redor do mundo. Eco é, ainda, notório escritor de romances, entre os quais O nome da rosa e O pêndulo de Foucault.

umbertoeco

Dom Carlo Maria Martini, nasceu em Torino em 1927. Em 1944, entrou para a Companhia de Jesus e ordenou-se sacerdote em 1952. Em 1958, formou-se em Teologia  Fundamental pela Universidade Gregoriana de Roma. É cardeal italiano e arcebispo emérito de Milão. Foi membro da faculdade, decano e reitor do Pontifício Instituto Bíblico, nomeado em 29 de setembro de 1969. Nomeado reitor da Pontifícia Universidade Gregoriana, Roma, em 18 de julho de 1978. Único membro católico do Comitê Ecumênico para a preparação da edição grega do Novo Testamento. Em novembro de 2007 lançou junto com o Pe. Georg Sporschill o livro “Diálogos Noturnos em Jerusalem” onde em forma de entrevista discute os temas mais relevantes da atualidade da fé e os desafios de chegar aos jovens e as suas questões tão conturbadas nos dias de hoje. Atualmente é considerado uma das figuras mais liberais no topo da hierarquia católica,  e já defendeu publicamente o uso do preservativo, o aborto legal e a doação de óvulos.

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