Em sonhos ouço sempre passos na escada – Alberto Morávia

Como tanta gente, tenho o costume de dormir depois do almoço. Já que como e bebo muito, adormeço facilmente. Durmo no meu estúdio, uma magnífica mansarda através de cujas vidraças se rasga uma vista de conjunto sobre a cidade. Mal desperto, salto do divã e faço um café muito forte; depois, sem perder um minuto, ponho‑me à mesa de trabalho, diante da máquina de escrever. Profissionalmente, sou argumentista de cinema; precisamente neste momento, estou a escrever os diálogos de um filme cujo tema é difícil: o terrorismo. Que relação existe entre o tema do filme e um sonho que me acontece sonhar desde há algum tempo a esta parte?


Não sei, mas talvez, contando o sonho, chegue a compreendê‑lo. Portanto, o sonho é o seguinte: parece‑me que alguém sobe lentamente as escadas de madeira, de degraus muito barulhentos, que conduz à mansarda. É um passo meditativo, hesitante, como que tornado mais pesado por uma intenção ameaçadora. O passo detém‑se, recomeça, detém‑se de novo, recomeça uma vez mais, detém‑se por fim diante da porta. Depois, após uma longa pausa silenciosa, eis o bater de uma mão. Neste ponto, desperto, vou à porta, abro‑a e não encontro ninguém.

Ora, enquanto sonho, tenho a certeza de que essa pessoa que sobe as minhas escadas é o diabo. O sei enquanto o sonho dura, naturalmente. Sei, todavia, com uma certeza absoluta o que o diabo vem fazer junto de mim: vem propor‑me o habitual pacto assinado com sangue: dar‑te‑ei o êxito, mas em troca tu me darás a tua alma. A tal proposta, decido do fundo do coração opor uma recusa firme. Talvez seja graças a essa decisão que, justamente, desperto neste ponto.

Que quer dizer este sonho? Claro: o diabo quer a minha alma e, em troca, oferece‑me o êxito. Mas eu não quero êxito. Sou um homem de pouca ambição, desejo apenas viver o ritmo habitual da vida quotidiana com um certo à vontade, coisa que, por outro lado, os argumentos que escrevo me permitem plenamente. Um destes dias, voltei a ter o sonho. Eis o passo hesitante nos degraus barulhentos; eis a pausa de retomada de fôlego; eis a mão que bate à porta. Desta vez, porém, não desperto como nos sonhos anteriores; em vez disso, grito “entre!”. Sucede, então, algo singular. Vejo a maçaneta da porta mover‑se com uma lentidão extraordinária, milímetro a milímetro. Uma lentidão angustiante que não sei explicar a não ser pela intenção, por parte do visitante desconhecido, de me meter medo. Porque não abre ele francamente a porta? Que significa aquela lentidão? Com esta última pergunta, desperto e dou‑me conta de que tudo foi um sonho. Tudo exceto o fato de que alguém está efetivamente batendo à porta. Grito: “entre!” Então, com um sentimento de horror, vejo que a maçaneta começa a mover‑se com extrema lentidão, tal como no sonho. Não posso impedir‑me de pensar: “Cá estamos, desta vez é mesmo ele, é mesmo o diabo.” Não é tão estranho, em contrapartida, que, como sou um homem de poucas e tradicionais leituras, tente, enquanto a maçaneta se move, imaginar que cara será a do diabo. Desgraçadamente, não consigo evocar senão a habitual máscara de Mefistófeles, com as sobrancelhas carregadas, o nariz encurvado, a barbicha em ponta. Finalmente, a porta abre‑se e, na sua moldura, assoma uma cabeça de homem novo, com uns bigodes pendentes e cabelos compridos. Diabólico não parece, mas hierático sim, embora à maneira de tantos rapazes de hoje, que, sob aparências ascéticas, escondem a sabida fúria de viver. Ele diz, com um vozeirão de baixo: “Posso?” Respondo‑lhe que entre, subjugado e fascinado pela sua segurança. Ele entra, ei‑lo no meio do estúdio com os jeans estreitos e o blusão de couro. É o tipo de jovem que se vê às centenas em certos bairros da cidade. Duas coisas, todavia, me impressionam de chofre como incongruentes: uma grande bolsa de couro negro, de vários compartimentos, que ele traz a tiracolo; e uma das mãos enfaixada apressadamente num pano ensanguentado. A bolsa parece cheia a transbordar não sei de quê; a ligadura explica‑me, por outro lado, a lentidão com que abriu a porta. Diz‑me, depois, olhando à volta, desconfiado: “não tem mais ninguém aqui?”

“não, só eu”

Dirige‑se à mesa e desembaraça‑se da bolsa. Explica: “tenho aqui dentro uma coisa que é preciso esconder, você precisa me dizer onde. Estás esperando alguém?”

“não estou esperando ninguém. Na verdade, também não estava esperando você.”

Digo‑lhe para fazê-lo notar que a sua presença me parece inexplicável. Mas ele toma as minhas palavras a sério: “Sim, eu sei, mas estive em Milão; e depois em Nápoles. De qualquer modo, você está pronto, não”

Digo, sentindo‑me embaraçado. “pronto? Sim, estou pronto.”Ainda bem, porque tínhamos agora justamente necessidade de você.” A frase intriga‑me. “Quem são esse nós”? E porque precisam de mim? Pergunto para ganhar tempo: “O que você fez na mão”

Ele indica o jornal que li esta manhã e que deixei desdobrado em cima da poltrona, com um grande título negro na primeira página. Ele continua:

“Sim, aconteceu ontem à noite, feriram‑me naquele tiroteio. Mas o que me feriu, eu derrubei logo, o despachei.

Não sei o que dizer. Evidentemente, penso, este homem que nunca vi, que não sei se é um terrorista de direita ou de esquerda ou antes um ladrão surpreendido em flagrande delito, enganou‑se na porta, uma vez que neste palácio habita muita gente e, quem sabe, também o terrorista ou ladrão seu cúmplice. Mas como convencê‑lo de que se enganou? Aquela frase sinistra: Despachei‑o logo”, não me permite explicar‑lhe. Ele era bem capaz, ao saber que se enganara na porta, de me despachar também, com o objetivo simples de se desembaraçar de uma testemunha. Pergunto cautelosamente: “Como me encontrou? Disse ao porteiro que estava à procura do senhor Proietti?

Ele não pestaneja ao ouvir o meu nome. Diz: “Vim para cá diretamente. Que necessidade tinha de perguntar? Já tinha estado aqui e sabia muito bem onde você morava. Mas ainda estava dormindo?”

Sem saber por que, respondo: “Sim, dormindo e sonhando um sonho que se repete; ainda o tenho na cabeça.”

Ele, inesperadamente, interroga‑me: “Que sonho era?”

Conto‑lhe e ele solta uma risada breve, que lhe descobre os dentes brancos, de lobo: “Diga-me uma coisa, por acaso está com a intenção de nos trair?

Caio sinceramente das nuvens: “O que é que está dizendo?, “O diabo poderia ser um da polícia a quem já vendeu ou está para vender a alma. Mas atenção: tenho aqui dentro uma arma com três balas: uma para ele, uma para você e uma para mim.”

Esta banalidade de romance de cordel assusta‑me. Protesto: “Mas você está doido?”

Ele continua, imperturbável: “de qualquer maneira, contigo o diabo não acertou, porque a tua alma você já a vendeu a nós e não pode vendê‑la duas vezes.” Sinto gelar-me o sangue. Portanto, já vendi a minha alma; ou seja, em linguagem corrente, não sei onde nem como, mas comecei a fazer parte de um grupo terrorista ou de bandidos. Exatamente um desses grupos fora da lei nos quais é fácil entrar, mas dos quais é certamente impossível sair. Digo, entretanto, com uma falsa desenvoltura: “Posso perguntar uma coisa?”

Ele responde, truculentamente: “que importa? A mim não se fazem perguntas.

“Não se zangue”. Só queria saber como nos conhecemos, quem nos apresentou.”

Quem nos apresentou? Mas foi o Casimiro, com os diabos?”

Casimiro, quem saberá quem ele é? Nunca ouvi falar nele! Definitivamente convencido de que sou vítima, ou de um engano ou de uma conjura, digo em tom de conciliação: “Ah, Casimiro! Claro, o Casimiro, quem havia de ser mais? Mas quando foi?

“Não está lá muito seguro, hein? Pois bem, aí vai: Nos encontramos justamente aqui no seu estúdio. Eu vinha fugido e o Casimiro, te pediu para me dar abrigo por uma noite. Dormi aqui, me deu até esta chave, com a qual há pouco abri a porta.” E mostra‑me a chave.

Sinto que tomei uma decisão. Digo, cordialmente: “Muito bem, esconda o saco onde quiser. Entretanto, eu vou lá abaixo comprar qualquer coisa para a refeição da noite.”

Que se passa com ele? De repente, saca de uma enorme pistola do blusão e aponta‑me no peito. Diz: “Não, não vai chamar a polícia.” No mesmo momento, graças a Deus, batem à porta. As pancadas são cada vez mais fortes e insistentes e eu… acordo.

Deste modo, tudo foi um sonho, digamos assim, dentro do sonho! Mas as pancadas na porta continuam, corro a abrir e eis Casimiro, justamente ele, o meu querido amigo. Caio‑lhe nos braços e depois digo: “Imagina que sonhei contigo e que no sonho dizia que não te conhecia e realmente não sabia quem você era.”

Casimiro diz: “Bravo, tal é a sua amizade!”

Então lhe conto o sonho. Ele fica sério, reflete e diz por fim: “Mas sabe que realmente aconteceu uma história semelhante? Em 1968, vim aqui te encontrar, com um certo Enrico, que veio comigo e andava metido na contestação. Vinha fugido de não sei que reencontro com a polícia. A meu pedido, você o deixou dormir aqui. Mas lembro‑me de que, nessa noite, estávamos muito alegres, tínhamos comido e sobretudo bebido muito, demais. Pergunto surpreendido: “Por acaso, esse Enrico não é um dos envolvidos naquele tiroteio de ontem? E indico‑lhe o jornal, que traz junto ao título uma série de fotografias.

Ele olha e sacode a cabeça: “Não, não é nenhum destes.” Fica um momento como que hesitante e depois acrescenta: Mas você não lhe deu nesse dia a chave de casa. Você a deu pra mim. Tinha uma garota e não sabia para onde havia de levá-la, porque, nessa altura, eu ainda vivia com a minha família. Então, pedi que você me emprestasse o estúdio e você me deu a chave. Me lembro até de você ter me falado na brincadeira, ao entregá-la: “Aqui está o penhor do meu empenhamento”.