Fields of The Nephlim

O que faz afinal uma banda, ainda que a revelia, ser considerada “gótica”? Tentarei aqui explicar um pouco disso e principalmente como teve início esse história cheia de mal entendidos que teve seu clímax nos anos 80. Contudo por mais que se rejeitem rótulos e modismos uma coisa é certa, as bandas apreciadas pela horda dark quase sempre o são pelos temas que abordam… podem conferir, lá estão todas as obsessões e paixões humanas, o medo do desconhecido, a morte (para muitos o pior medo de todos), a loucura, a depressão e o desespero… enfim o lado menos agradável e brilhante da nossa psique.

“There were giants in the earth in those days, and afterward, when the sons of God went into the daughters of men, and they bore children to them. They were the heroes that were of old, men of renown.”

Para quem ache um pouco de masoquismo ficar lidando com esse tipo de assunto, ou simplesmente considere isso um tédio e uma coisa “bodeante” vai outra pergunta, o que afinal faz com que gostemos tanto de filmes de terror, por que sentir medo e tensão produz às vezes uma espécie de prazer?… Poderia me perder em teorias de catarse pela arte, mas vou pelo caminho mais simples… usando as palavras de Stephen King: “Como é impossível estar sempre lutando contra nossos próprios demônios e males, de vez em quando sentimos necessidade de levá-los para passear”. E levar os demônios para passear parece ser uma tarefa que a banda Fields of The Nephilim faz com o maior prazer e a desenvoltura de quem vai a praia num domingo de sol… 🙂

Isso mesmo, esse intróito todo é para anunciar que dessa feita a banda escolhida para a coluna é Fields of the Nephilim… os “cowboys do gótico”. 🙂

Então como de praxe voltemos ao início dos anos 80 época da adolescência de muitos leitores (e da infância de tantos outros, inclusive minha)… Em um lugar chamado Hertfordshire (Inglaterra) surge uma banda como tantas outras na época com uma proposta criativa e disposta a inovar com seu som… Os anos 80 foram prolixos em bandas assim, algumas excelentes, algumas muito boas, muitas regulares e várias ruins… até aí nenhuma novidade… outras décadas também foram assim, mas acredito que nenhuma foi tão pouco homogênea… com tantos estilos convivendo juntos ao mesmo tempo… Mas voltemos aos nephilins…

No princípio Nod Wright, à época com 17 anos, convidou Tony Pettitt que junto com o irmão de Nod, Paul fundam uma banda chamada ‘Perfect Disaster’, e em pouco tempo mudam o nome pra “The Mission”, entretanto como descobriram já existir uma banda com esse nome desistem da idéia. 🙂

Em 1984 o saxofonista Gary Whisker junta-se a banda e traz com ele Carl MacCoy, compondo assim a formação inicial da banda que contava então com cinco integrantes: Carl McCoy (vocais), Tony Pettit (baixo), Paul Wright (guitarra), Gary Whisker (sax) e Nod Wright (bateria). Como não poderiam se chamar “The Mission”, então escolhem outro nome. A inspiração para a escolha do nome da banda partiu de uma lenda bíblica relatada no livro de Gênesis (Zohar para os judeus) que conta a história de anjos caídos, que vieram a terra ensinar aos homens os segredos da magia arcana, da guerra e da medicina (vista também como uma forma de mágica). Segundo a lenda esses anjos desceram a terra seduzidos pelas filhas dos homens e deitando-se com elas produziram uma raça de gigantes chamada enaquins… Os nephilins anjos caídos foram amaldiçoados por deus por divulgar as artes mágicas aos homens e não puderam mais voltar aos céus. Em outra lenda, dessa vez suméria, os nephilins seriam os descendentes de Tiamat a grande serpente de fogo (e deusa do caos) e seriam também gigantes, estranhos com olhos de homens. O nome agradou aos membros da banda que se interessavam por tudo que fosse relativo a ocultismo, isso ,aliás, era uma característica muito forte na banda que usava esse tema não só nas letras mas também no visual, sendo um verdadeiro tema-chave.

No mesmo ano produzem em um esquema independente aquele que seria seu primeiro LP, o raríssimo Burning the Fields. Na época saíram apenas 500 cópias do disco que trazia na capa uma pintura de Carl. A recepção foi excelente, graças a qualidade do material gravado, o que exigiu que novas cópias fossem providenciadas. Com essa iniciativa e graças a uma série de excelentes apresentações ao vivo, cheias de vigor e talento, o grupo começa a chamar a atenção do público e das gravadoras. Nessa época Gary Whisker deixa a banda por motivos profissionais e Peter Yates se junta ao Nephilim como segundo guitarrista. Já conhecidos do seu público devido às várias apresentações em Londres recebem um convite da gravadora Beggar’s Banquet onde gravam em 1986 o seu primeiro single “Power”, que serviria de trilha sonora para o filme de terror italiano ‘Demons 2’. Aliás, os filmes de terror, eram uma inspiração constante nas músicas da banda a exemplo dos trabalhos de Clive Barker como Hellraiser. Outra inspiração cinematográfica eram os filmes de Western, como Once Upon a Time in the West (Era uma vez no Oeste) The Dead Man e The Unforgiven (Um homem sem nome), isso explica porque curiosamente os membros da banda adotavam um visual bem diferente, que lhes rendeu inclusive o apelido de “The Bonanzas”, por se vestirem a moda dos cowboys da série, com direito aos indefectíveis chapéus e botas no melhor estilo country.

Entretanto o som da banda em nada lembrava os sucessos de Roy Rogers (risos). A começar pelas letras de conteúdo extremamente mórbido, falando de misticismo, rituais sombrios e o desconhecido, expondo todas as obsessões e temores humanos. No palco a voz de Carl soava sepulcral e desesperada entoando odes aterrorizantes, encarnando o papel dos nephilins os anjos malditos condenados a perecer nesta terra. Se algo de western pode ser evocado enquanto imagem, seguramente seriam as cidades fantasmas… campos estéreis em que nada cresce, onde apenas montes secos de feno giram ao léu carregados por um vento malévolo e ruidoso. Aliás, é esse tipo de visão que os “fields” do nome da banda evocam e não aqueles campos verdejantes e plácidos conforme citou Carl em uma entrevista.
Logo após “Power” gravam também pela Beggar´s o single “Preacher Man” que graças ao sucesso do trabalho anterior e as ótimas e numerosas apresentações ao vivo da banda fazem de “Preacher Man” um grande sucesso alcançando o segundo lugar da parada independente, acompanhando o single lançam o primeiro vídeo da banda, com imagens de alguns shows, reforçando ainda mais o impacto do inusitado visual do grupo. Apesar de contar com um orçamento apertado o vídeo reproduzia bem o efeito da banda no palco com a excelente interpretação dos músicos aliado ao efeito de luzes, fumaça e gelo seco, e acima de tudo o som… poderoso como o fogo de Tiamat. Tudo isso produzia na platéia uma espécie de transe hipnótico, não parecia só um show de músicos, era um ritual de mesmerização…
Em 1987, ao lançarem seu primeiro álbum pela Beggar´s “Dawnrazor” (produzido em apenas 10 dias), os Nephilins já haviam conquistado uma reputação junto ao público, além de uma identidade marcante quanto ao som e visual ,tudo isso resultou em uma excelente recepção do álbum por parte de público e crítica. Na capa do disco uma alusão ao clássico “Once Upon a Time in the West” e nas letras aquele tom amargo de “terra do fim do mundo”. O álbum ficou meses como número um nos indie charts. Aliado a distorção das duas guitarras a presença de uma providencial cama de sintetizadores dava ao disco um clima de “terra do sem fim” com vastos horizontes e muita solidão, uma sensação de agorafobia (medo de lugares abertos) que domina todo o álbum, como se a qualquer momento o céu fosse nos esmagar. Traz as como destaque as faixas “The Preacher Man”, “Volcane” (Mr. Jealosy Has Returned), que fala de ciúme e possessão, ” Reanimator”, “Power” e “The Tower” (fala de uma mulher desesperada, talvez insana, que está aprisionada, claramente influenciado pela obra “Call of Cthulhu” de Lovecraft). Logo após o lançamento do álbum a banda faz a sua primeira turnê européia, e ainda durante a turnê lançam os singles “Returning To Gehenna” trazendo mais um tema ligado à bíblia e ao ocultismo (Gehenna é o inferno hebraico, o lugar de suplícios e tormentos) e “Blue Water” em 1987 (que aparece como trilha em um episódio da série Miami Vice) seguido de “Moonchild” lançado em 1988 que teve grande receptividade alcançando o 40º lugar na parada principal e os primeiros lugares nos indie charts. A música fala basicamente sobre o “dia do juízo”, reencarnação e punição eterna, mas um tema bíblico e místico tão ao gosto dos nephilins. Durante a turnê européia gravam uma apresentação na Sheffield University que além do vídeo daria origem ao primeiro álbum ao vivo da banda lançado posteriormente como “Live in Concert” . Realizam também sua primeira (e última) turnê aos Estados Unidos que apesar de não ter sido um sucesso foi uma experiência digamos interessante…
Ainda em 1988 lançam seu segundo álbum “The Nephilim” que representa um retorno às canções arquetipais dos nephilins e traz uma certa influência ethereal no som da banda. O disco é lançado ao mesmo tempo que o vídeo ao vivo da banda. O álbum é considerado um sucesso alcançando o 12º lugar nas paradas. Trazia as músicas “The Watchman” (inspirada na mitologia suméria e falando mais uma vez sobre nephilins e anjos caídos), “Shiva” (o deus da destruição e do tempo cíclico), “Chord of Souls” (que traz um coro de vozes que se alternam entre a calma e a violência), “Celebrate” (que fala sobre Summerland, a terra onde as almas esperam) além de “Love Under Will” (inspirada em Aleister Crowley) e “Last Exit for the Lost” (que fala sobre suicídio). Evidente que mesmo sendo muito apreciada por crítica e público, devido aos temas difíceis ligados a morte e ocultismo a banda encontrava certa resistência sendo às vezes mal interpretada, o que explicaria o fracasso da turnê nos Estados Unidos pelo fato dos americanos levarem muito a sério as alusões da banda a “anjos caídos”, “demônios bíblicos” e ocultismo. Entretanto mesmo repudiada na “terra da torta de maçã”, na Europa e outras regiões a banda continuava sendo um grande sucesso dentro do circuito alternativo.

Em 1989 lançam o single “Psychonaut”, um trabalho épico e artisticamente experimental baseada em princípios numerológicos e matemáticos antigos, a chamada divisão de ouro, ou número de ouro, um princípio estético que segundo os gregos estaria presente na natureza produzindo harmonia e beleza (e no qual eles baseavam suas obras e arquitetura). Os Nephilins transportam esse princípio para a música produzindo uma combinação perfeita de melodia, letras e imagens que juntas produziam um verdadeiro efeito hipnótico na platéia Outra influência nas músicas do single é o Necronomicon (Schlangekraft) e a obra de Willian Blake.
Em 1990 surgem rumores sobre desentendimentos internos na banda e a possibilidade de um rompimento, entretanto contrariando os rumores lançam seu terceiro álbum “Elyzium” que acompanhando seus antecessores torna-se um sucesso principalmente na Inglaterra e completa o triunvirato imagético da banda. Aqui se encontram ainda as influências do “golden section” e o álbum climático reproduz o efeito de um ritual. Realizam uma turnê pela Europa que resultou em um álbum ao vivo duplo que se chamou adequadamente “Earth Inferno” como se à moda de Dante o grupo tivesse concluído uma jornada, o lançamento foi também acompanhado do vídeo ao vivo “Visionary Heads”.

Segue-se o lançamento de mais um álbum ao vivo “Live in Concert” (na verdade o primeiro da banda se considerarmos tratar-se de um registro anterior).

Entretanto o sucesso de Elyzium não consegue impedir que os rumores da separação do grupo se tornem verdadeiros e Carl McCoy anuncie a sua saída do grupo. Uma nova turnê aos Estados Unidos que estava sendo planejada é cancelada. A banda anuncia em 1991 o termino das suas atividades e a realização de suas últimas apresentações acontecem no the Fire Festivals no London’s Town and Country Club nos dias 29 e 30 de abril.

Ainda em 1991 é lançado o álbum “Laura” reunindo singles e regravações.

Com o fim da banda cada um resolve seguir o seu rumo. Tony Pettit, Peter Yates, Nod e Paul Wright convidam Andy Delaney para se tornar o vocalista de um novo projeto a banda Rubicon. Em 1992 com essa formação lançam seu primeiro álbum “What Starts, Ends” e fazem uma turnê aclamada pela a Europa (entretanto sem o sucesso anterior). Quanto a Carl McCoy anuncia uma nova reencarnação do Nephilin, usando por motivos judiciais uma alternativa pronúncia hebraica do antigo nome da banda que agora era chamada “The Nefilim”. O primeiro “sinal de vida” de Carl aparece em uma coletânea da Beggar´s chamada “Deafening Divinities with Aural Affinities” na música “Chaocracy”, que apesar de conservar alguns aspectos do antigo Nephilin soava um tanto Death Metal. O Nefilim fez algumas apresentações, entretanto mostrando mais releituras de velhos sucessos do que canções novas… o que deixou os fãs preocupados.

Em 1995 o Rubicon lança seu segundo (e último) álbum “Room 101” que ofuscou totalmente as iniciativas de Carl em lançar um novo trabalho (a exigência seria massacrante). Depois de anos da separação da banda apenas em 1996 The Nefilin lança o single “Penetration” mostrando ainda um pouco do poder do Nephilin original, entretanto, a demora em relação ao lançamento de um álbum deixou muitos fãs irritados e provocou sérios problemas entre Carl e a gravadora Beggar´s Banquet.

Em 1996 Carl lança o álbum “Zoom”, que traz um retorno ao estilo habitual, sendo uma continuação das imagens presentes em “Penetration”. Carl faz algumas apresentações com as novas músicas, entretanto, acaba abortando o projeto de uma turnê. Em 1997 segue-se o lançamento de “Revelations”. Começam rumores sobre uma possível volta do “Fields of the Nephilim” que é confirmada em uma entrevista cedida pela banda a revista alemã Zillo. Após a tão alardeada volta, contudo, os nephilins ficam praticamente três anos em silêncio absoluto, provocando todo tipo de especulações a respeito além de muita ansiedade em seus fãs.

Apenas em 2000 lançam o esperado single “Nephilim A.D” que trazia regravações de canções da banda. Entre as quais “Trees come down” e “Darkcell”. Voltam a fazer apresentações ao vivo e prometem o lançamento de um álbum com canções inéditas que, porém, demora a sair. Em 2002 lançam o single “From The Fire” e o tão ansiosamente aguardado álbum “Fallen”, na verdade sobras de estúdio dos tempos do velho Nephilim. Ainda em 2002 a Beggar’s Banquet lança o primeiro DVD do Fields of the Nephilim DVD com clipes e apresentações ao vivo.

Em outras palavras os nephilins estão de volta, mas ainda esperamos o tão aguardado álbum de retorno da banda… e quem sabe talvez estes “estranhos com olhos de homens” voltem a provocar êxtase, paixão e terror nos mortais.

Então até a próxima. Me despeço com a letra de Moonchild, que me dei o prazer de não traduzir. :- )

Moonchild
Well, it’s a righteous flame, burn all of my young
A righteous flame burn all of my young
Take the horses – let them crawl, put them in their cages
(That’s righteous for the soul…)
Open your eyes, despite what’s deemed
A long journey – that’s righteous for the weak
Moonchild
Lower me down, lower me down
Well, it’s a righteous day for all of my young
(I’ll give your life some pain)
It’s a righteous day
Never return, no I’ll wait no more
Take no prisoners in the promised war
You’ll die for this, die for this… take them!
Moonchild
Lower me down, lower me down
Here count your silver pieces
Can’t you see, you’re losing me
Moonchild
Lower me down, lower me down
Revisit to an empty hall – you can’t seal being burned before
Will they tear you down, can I bear your shame?
A long journey, do you hear my fame?
Moonchild
Lower me down
And I’m waiting
And a white moon falls… a black moon calls
Waiting to divide the world
Moonchild
Lower me down
A long journey – I knelt down where I burnt before
And I don’t regret
Down! Down! Down!


Por Beatrix Algrave