Filigree & Shadow – This Mortal Coil

A obra maior do This Mortal Coil seria concebida em 1986, sob o título Filigree & Shadow. O projeto visual do álbum – seguindo o impecável padrão gráfico da companhia 23 Envelope, responsável pelas belas capas dos álbuns produzidos na 4AD – já espelhava a natureza inspiradora do trabalho. Na capa, um rosto semi-escondido por uma penumbra. Noite. Na contra-capa, um olho cerrado a verter uma lágrima. Uma das músicas é “Tears”. O encarte traz várias fotos de uma mulher deitada, em expressões que sugerem um estado de torpor absoluto. Sonhos. E lençóis totalmente revolvidos o que evidencia a inspiração onírica do álbum. O This Mortal Coil explorou exaustivamente essa idéia na música “Acid, Bitter & Sad”, da coletânea Lonely Is An Eyesore, lançado em CD e VHS, em 1987. O sublime vídeo dessa música é a expressão visual de todo o conceito imaginado pela 4AD para um tema recorrente no This Mortal Coil.

Poster do disco Filigree & ShadowVoltando à Filigree. O disco abre com “Velvet Belly”, um breve crescendo de cordas que dá a tônica do clima de encantamento que permeia a quase totalidade das músicas seguintes. Os cellos e violinos são tocados com maestria por Martin Maccarrick, músico e arranjador que trabalharia posteriormente com Siouxsie & The Banshees (em Through The Looking Glass) e Gini Ball, que também participou do álbum de Siouxsie e guardava experiências anteriores com Vini Reilly no Durutti Column. Adiante, a bela “The Jeweller”, canção original do grupo Pearls Before Swine, de 1970, seguida da tristíssima “Ivy & Neet”, intervenção de Simon Raymonde, baixista do Cocteau Twins. Uma melodia arrebatadora de 4 minutos e 48 segundos com piano, coro e violinos. “Meniscus” traz Alan e David Curtis, guitarristas do Dif Juz e “Tarântula” revela as maravilhosas vozes de Dominic Aplleton, do grupo Brethless e de Deirdre e Louise Rutkowsky, primores de afinação e harmonia.
Os intervalos entre as músicas não são mais que breves suspiros, e elas continuam a serem derramadas, entremeadas por atmosferas que evocam sons, provavelmente presentes nos mais delirantes sonhos. Como saber? É o que parece. As recriações de músicas de autores obscuros – obsessão de Ivo Watts-Russel – são diversas. “My Father”, de Judy Collins, surge em interpretação comovente de Alison Limerick. “Come Here My Love”, de Van Morrison e uma versão celestial de “Morning Glory”, de Tim Buckley, o autor mais gravado pelo TMC: “Eu acendo a mais pura vela perto de minha janela, esperando capturar o olho de algum vagabundo que passe por ali …”. “I Want To Live” é de um certo Gary Ogan e “Alone”, outra regravação de Colin Newman (a versão original dessa música foi usada na inesquecível seqüência onde o serial killer Buffalo Bill se maquia para arrancar a pele da gordinha no filme Silêncio dos Inocentes, de Jonathan Demme). Do Talking Heads, existe a releitura de “Drugs”, escondida faixa do álbum Fear of Music, de 1979.
Um disco arrebatador de um grupo que nasceu de um sonho, e que se apropriou magistralmente da linguagem dos sons para recriar canções que traduzem emoções de nossos sentimentos mais íntimos.

Por Leonardo Saraiva