H.P. Lovecraft

Howard Phillips Lovecraft (1890-1937) é provavelmente um dos mais conhecidos e consagrados escritores do gênero terror e fantástico de todos os tempos, além de ser até hoje, uma grande inspiração para vários escritores do gênero. Muitos escritores incluindo Stephen King, Bentley Little, Joe R. Lansdale, Alan Moore e Neil Gaiman, tem citado Lovecraft como a influência mais significativa. Lovecraft foi capaz de desenvolver um mítica própria, extremamente original e convincente, ao ponto de confundir seus leitores que chegaram a achar que alguns dos mitos, deuses e criaturas citados por ele fossem reais. Um exemplo controverso disso é o livro Necronomicon, que muitos acreditam ser referência a um livro antigo que de fato existiu, quando na verdade era apenas uma obra de sua prodigiosa imaginação.


O Necronomicon

NecronomiconO Necronomicon é um livro fictício de invocação de demônios escrito pelo, também fictício, Abdul Alhazred, um poeta árabe louco.  O livro também seria conhecido como Al Azif (Uivo dos Demônios Noturnos). Segundo Lovecraft, azif é o nome usado pelos árabes para designar aquele barulho noturno, produzido pelos insetos, que supõem ser o uivo de demónios.  Necronomicon seria a tradução em grego do livro e significa algo como “Livro dos mortos” ou “Livro dos Nomes Mortos”.
O mito que se criou sobre a existência real deste livro, foi fomentado especialmente pela publicação de vários falsos Necronomicons e por um texto, da autoria do próprio Lovecraft, explicando a sua origem e percurso histórico.
Nesse ponto ele foi bastante detalhista, conferindo uma biografia para  Abdul Alhazred em que consta que ele teria nascido em nasceu em Sanna no Iêmen, e que teria scrito o livro por volta de 730 d.C, em Damasco. Ao contrário do que se pensa, não seria apenas uma lista de rituais e encantos, mas uma narrativa longa e complexa, sendo que alguns trechos isolados descreveriam rituais e fórmulas mágicas.  Nele são descritos numerosos rituais para ressuscitar os mortos, contactar com entidades sobrenaturais, viajar pelas dimensões aonde habitam estes seres, trazer de volta a Terra antigas divindades banidas e aprisionadas, etc. É mencionado ainda a sua simples leitura poderia para provocar a loucura e a morte.
Nesse ponto, Lovecraft inspirou-se em seus conhecimentos sobre mitologia antiga. Há referências à Biblia, aos mitos árabes e hebraicos como os Nephilins (seres gigantes, filhos anjos caídos que teriam descido à terra para possuir as mulheres humanas), e até mesmo referências à mitologia nórdica. Acompanhado da fictícia biografia de  Abdul Alhazred havia é claro uma teoria da conspiração envolvendo o Necronomicon através dos tempos. Nela, Lovecraft afirma que o livro teria sido banido pelo Papa Gregório IX em 1232, logo após a sua tradução para o latim, e que dos exemplares ainda existentes um está guardado no Museu Britânico em Londres e outro na Biblioteca Nacional em Paris.
Usando esta fórmula de atribuição a um autor antigo de um livro, cuja cópia em seu poder seria a última existente, o autor desenvolve a idéia de um livro mágico citado em suas obras, creditando possíveis excessos à alma de poeta do “autor” original do texto, que seria o tal poeta louco.
O recurso literário de se atribuir a um autor antigo a verdadeira autoria de sua obra já foi utilizada por escritores como Jorge Luís Borges e Umberto Eco.
Mesmo negando a existência real do livro, inúmeros fãs escreviam cartas a Lovecraft querendo informações sobre a autenticidade do mesmo. Um fenômeno parecido ao que aconteceu com o escritor Conan Doyle, que recebia cartas enviadas por pessoas que achavam que Sherlock Holmes existia de fato.
Entre os escritores que escreveram um Necronomicons falsos está o italiano Frank G. Ripel, fundador de uma Escola de Mistérios – a Ordem Rosa Mística. Em um de seus livros – La Magia Lunar – Ripel fornece uma tradução em castelhano do “verdadeiro Necronomicon” que, segundo Ripel, teria sido formulado há mais ou menos 4.000 anos a.C.
Entre as muitas lendas surgidas e teorias da conspiração surgidas em torno do Necronomicon há as que o ligam a figura controversa do polêmico ocultista britânico, Aleister Crowley e até mesmo aos nazistas.
Os mitos de Cthulhu
Lovecraft foi talvez o primeiro a associar divindades a seres extraterrestres. Seus mitos são atualmente, referência no cinema, na música, jogos, HQs e RPGs.
Outra curiosidade sobre os mitos criados por Lovecraft, é que alguns até tencionaram criar uma religião para as suas deidades míticas. O mais curioso é que Lovecraft era declaradamente ateu.

Embora não tenha feito tanto sucesso em vida, tendo um número restrito de leitores, sua fama posteriormente cresceu muito ao longo das décadas, e ele agora é comumente considerado como um dos mais influentes escritores de terror do século 20, exercendo influência generalizada e indireta, e com freqüência é comparado a Edgar Allan Poe, que aliás era uma das grandes influências de Lovecraft, ao lado de Lord Dunsany, cujas narrativas de fantasia inpiraram  muitas de suas histórias.

Suas constantes referências a horrores antigos e a monstros e divindades ancestrais acabaram por gerar algo análogo a uma mitologia, hoje vulgarmente chamada Cthulhu Mythos, contendo vários panteões de seres extradimensionais tão poderosos que eram ou podiam ser considerados deuses, e que reinaram sobre a Terra milhões de anos atrás. Entre outras coisas, alguns dos seres teriam sido os responsáveis pela criação da raça humana e que  teriam uma intervenção direta em toda a história do universo.

Entre os atuais admiradores de Lovecraft está Stephen King que o considera simplemente “o maior especialista do conto clássico de horror do século XX”. Há atualmente vários círculos de admiradores de Lovecraft espalhados pelo mundo e sua obra já foi traduzida em vários idiomas.

A expressão Cthulhu Mythos foi criada, após a morte de Lovecraft, pelo escritor August Derleth, um dos muitos escritores a basearem suas histórias nos mitos de Lovecraft.

Cthulhu é uma entidade, um ser fantástico, o mais poderoso dos Grandes Ancestrais (Great Old Ones). Neste conto, que o apresenta, Lovecraft deixa claras suas intenções no gênero de horror. A ameaça não vem de fora, mas de dentro. O horror não está no monstro, mas no medo que ele inspira aos personagens.

“Na minha opinião, a melhor coisa do mundo é a incapacidade da mente humana em correlacionar tudo o que há nela. Nós vivemos em uma plácida ilha de ignorância no meio de negro e infinito mar, e não fomos feitos para nele viajarmos. As ciências, cada uma perambulando em uma direção, até agora pouco nos afligiram. Porém, algum dia, o acumulo de tantas peças desconexas de conhecimento irá nos abrir horrendas visões da realidade, que nosso destino repousará entre a insanidade das revelações ou a fuga da luz mortal para a paz e a segurança de uma nova era de ignorância.” H.P. Lovecraft.

No cinema há vários filmes que se inspiram em contos de Lovecraft ou mesmo nos seus mitos, como exemplo temos Reanimator, The dreams in the witch house, The mouth of madness, Evil Dead 2 (cita o livro Necronomicon), The Call of Cthulhu (inspirado no mitos de Cthulhu),The Whisperer in Darkness (“Um sussurro nas trevas”. Inspirado no conto de mesmo nome)

Nos HQs há histórias totalmente baseadas nos mitos de Lovecraft como a série The Whisperer in Darkness e The Call of Cthulhu, além de referências mais vagas como por exemplo o “Arkhan Asylum” da HQ Batman.

No mundo do RPG Cthulhu é um personagem bem presente, inclusive em 1980, os criadores do jogo Dungeons & Dragons incluíram várias criaturas dos mitos de Cthulhu no guia de recursos chamado “Deities and Demigods”. Infelizmente, fizeram isso sem saber que a Arkham Press, que detinha os direitos de propriedade intelectual de Lovecraft, já tinha licenciado os direitos a Chaosium, Inc.

Suplemento Arkahn da Chaosin referente ao RPG CthulhuPublicações subseqüentes do livro de recursos excluíram as criaturas mitológicas de Cthulhu. Posteriormente a Chaosin lançaria o livro de RPG de terror O Chamado de Cthulhu” que se tornaria um dos mais famosos do gênero.

Além da obra de Lovecraft o RPG da Choasin também se inspira em escritores como Clark Ashton Smith, Frank Belknap Long, August Derleth e Robert W. Chambers que contribuíram com idéias assustadoras que rapidamente se tornaram parte do imaginário dos fãs de Lovecraft, como por exemplo, Ubbo-Sathla, os Cães de Tindalos, o Habitante da Escuridão, O Rei em Amarelo, etc. Essas obras fundamentais e que com justiça foram incorporadas ao jogo de Call of Cthulhu, acrescentaram novos horrores para desafiar a sanidade dos jogadores.

“O Chamado de Cthulhu” é um jogo totalmente baseado nos mitos de Cthulhu. Os jogadores assumem papéis de pessoas normais que caem no mundo aterrorizante da imaginação de Lovecraft. Assim como acontece com as personagens nas histórias de Lovecraft, o melhor que a maioria delas pode esperar é uma morte rápida antes de ficar completamente maluca. As personagens devem desvendar mistérios sabendo que, apenas adquirindo conhecimento, elas colocam sua sanidade em risco. Um jogo bem feito cria uma sensação de inquietação e paranóia entre os jogadores.

No mundo dos videogames também há outras referências a Cthullu. O mais conhecido é o game “O Chamado de Cthulhu: lugares sombrios da Terra”. Nesse jogo, se tem a visão em primeira pessoa à medida que explora o universo de Lovecraft, enfrentando pesadelos do outro mundo e lutas pela sobrevivência. Os mitos de Cthulhu são a principal influência de muitos outros jogos como The Lurking Horror e Discworld Noir.

Entre as bandas que já criaram músicas inspiradas na obra de Lovecraft estão Metallica (The Call Of Ktulu), Cradle Of Filth (Cthulhu Dawn), King Diamond (Curse of The Pharaohs), Black Sabbath (Behind the Wall of Sleep), Zombeast (Cthulhu), Blue Öyster Cult (O nome, algo como, “Culto da Ostra Azul”, foi retirado da obra de HP Lovecraft, assim como grande parte da temática da banda), Mercyful Fate (The Mad Arab e Kutulu, The Mad Arab Part Two). Não podemos esquecer também de uma banda de rock psicodélico dos anos 60-70 que traz o nome do escritor.

Uma das principais inspirações de Lovecraft é a idéia de “terror cósmico”. A idéia de que a vida é incompreensível à mente humana e que o universo é fundamentalmente extraterreno. Aqueles que possuem este conhecimento, são os seus protagonistas e jogam com a sanidade mental dos demais.

“Todos os meus sonhos, por heterogêneos que possam ser uns em relação aos outros, se baseiam sobre uma crença legendária fundamental de que nosso mundo foi, em um momento, habitado por outras raças que, porque praticavam a magia negra, foram destituídas de seu poder e expulsas, mas vivem sempre no espaço exterior… Sempre dispostas a retomar a posse desta terra…” H.P. Lovecraft.

Biografia

Lovecraft aos 9 anos de idadeLovecraft nasceu no dia 20 de agosto de 1890, em Providence, Rhode Island. (A casa foi demolida em 1961). Ele foi o único filho de Winfield Scott Lovecraft, um negociante de jóias e metais preciosos, e Sarah Susan Phillips Lovecraft. Uma família tão tradicional que poderiam traçar a sua árvore geneológica na América desde a chegada dos colonizadores em 1630.

Seus pais se casaram por volta dos trinta anos, o que era considerada uma idade avançada para um casamento na época. Em 1893, seu pai teve uma grave crise psicótica em um hotel de Chicago, durante uma viagem de negócios. Ele foi levado de volta para Providence e internado no Hospital Butler, uma casa de repouso. Desde esse incidente ele permaneceu constantemente internado até sua morte em 1898. A essa época, Lovecraft tinha apenas nove anos de idade.

Lovecraft acreditou ao longo de sua vida que seu pai havia morrido em um estado de paralisia imposta pelo “esgotamento nervoso”, devido ao excesso de trabalho. Não se sabe ao certo se Lovecraft era ciente da verdadeira natureza da doença de seu pai, ou a sua causa. O pai de Lovecraft teria morrido certamente em decorrência da sífilis, e provavelmente sua mãe sofria do mesmo mal, ainda que tenha recebido tintura de arsênico como “medicação preventiva”.

Após a morte do pai, Lovecraft passou a morar com a mãe Sarah, suas duas tias, Lillian Delora Phillips e Annie Emeline Phillips, e seu avô, Whipple Van Buren Phillips, na residência da família.

Lovecraft desde criança era considerado um verdadeiro prodígio. Com apenas dois anos já recitava poesias, com três já lia e com seis já começava a escrever seus primeiros poemas. O avô procurava estimular desde cedo seu interesse pela leitura, oferecendo-lhe livros como “As mil e uma noites”, “O Livro de Ouro da Mitologia” (Age of Fable) de Thomas Bulfinch e versões infantis da “Odisséia” e da “Ilíada” de Homero. O avô também despertou em Lovecraft o gosto pelos contos de horror gótico. Ao que parece o próprio avô criava alguns contos no estilo. A mãe de Lovecraft não aprovava esse tipo de leitura, pois ela temia que isso pudesse afetá-lo de forma negativa.

Apesar de haver especulações sobre o fato de Lovecraft ser ou não portador de sífilis, que ele poderia ter contraído congenitamente, o que se sabe é que Lovecraft era uma criança muito doente. Tais doenças eram atribuídas por ele a uma variadade de causas, algumas provavelmente psicossomáticas.

Devido a fragilidade de sua saúde, ele pouco frequêntou a escola antes dos 8 anos de idade, e depois de um ano de estudos na Slater Avenue School deixaria novamente a escola. Durante esse período ele leu vorazmente, interessando-se principalmente por química e astronomia. L. Sprague de Camp, biógrafo de Lovecraft, afirmou que ele sofria de poiquilotermia, uma raríssima doença que fazia com que sua pele fosse sempre gelada ao toque. Devido aos seus problemas de saúde, ele freqüentou a escola de maneira bastante irregular mas era um leitor contumaz e um magnífico autodidata.

Nesse período chegou a publicar amadoramente dois jornais sobre Ciências e Astronomia: “The Scientific Gazette” e “The Rhode Island Journal of Astronomy”, que eram distribuídos entre seus amigos.

Quando foi para a escola secundária, Hope Street High School, desenvolveu ainda mais seus gostos pelos estudos, encontrando incentivo tanto dos professores quanto dos novos colegas. Foi durante esse período, em 1906, que se deu sua estréia nas letras impresas, através de uma carta sobre astronomia para o Providence Sunday Journal. Logo a seguir ele passaria a contribuir mensalmente com uma coluna sobre astronomia para o Pawtuxet Valley Gleaner, um pequeno interiorano de pouca circulação. Nos anos que se seguiram ele colaboraria com vários periódicos como Providence Tribune (entre 1906-1908) e o Providence Evening News (entre 1914-1918), bem como para o Asheville e o Gazette-News (1915).

Em 1986, o Necronomicon Press, boletim de admiradores de H.P. Lovecraft publicaria em suas páginas as seleções dos primeiros artigos de Lovecraft na imprensa, incluíndo a carta sobre astronomia que foi publicada no Providence Sunday Journal e as colunas do Pawtuxet Valley Gleaner. Atualmente isso se tornou um item de colecionador.

Em 1904, o avô de Lovecraft veio a falecer, o que afetou enormemente sua vida. A má gestão da herança de seu avô deixou a sua família, em difícil situação financeira. Isso obrigou a família a mudar-se da ampla e bela casa em estilo vitoriano para acomodações muito menores na Angell Street. Lovecraft era tão profundamente afetado pela perda de sua casa onde nasceu e ele chegou até mesmo a pensar em suicidar-se por um tempo, talvez essas idéias lhe viessem a mente enquanto ele passeava de bicicleta e contemplava as profundas e escuras águas do Rio Barrington. Felizmente o interesse pela leitura e pelos estudos fizeram com que ele desistisse de tais pensamentos mórbidos.

Em 1908, antes da sua graduação na escola secundária, ele afirmou ter sofrido o que mais tarde ele mesmo descreveria como um “colapso nervoso”, e, conseqüentemente, nunca recebeu seu diploma colegial (embora ele tenha dito durante a maior parte de sua vida que concluiu a graduação no colegial). ST Joshi sugere, em sua biografia sobre Lovecraft que uma causa primária para este fracasso foi a sua dificuldade em matemática, uma área que ele precisava dominar para se tornar um astrônomo profissional. Este fracasso para completar sua educação (ele pretendia estudar na Brown University), foi uma grande fonte de decepção e vergonha durante toda a sua vida.

De início Lovecraft chegou a escrever alguma ficção, trabalhos juvenis, aos quais não atribuiu muita importância. Entre 1908 até 1913, sua produção foi principalmente poesia. Durante esse tempo, ele viveu um período de profundo isolamento, com quase nenhum contato com ninguém, exceto sua mãe.

UAPAEsse estado de isolamento mudaria um pouco depois que ele escreveu uma carta para a revista The Argosy (estilo pulp fiction), criticando as histórias de amor insípidas de um dos escritores mais populares da publicação, chamado Fred Jackson. Iniciou-se à partir daí um debate através de cartas publicadas na revista Argosy e também em outros periódicos do tipo. Tal debate chamou a atenção de Edward F. Daas, presidente da United Amateur Press Association (UAPA), que convidou Lovecraft para participar da UAPA em 1914.
A participação na UAPA ajudou a revigorar Lovecraft incitando-o a contribuir com muitos poemas e ensaios não só para a UAPA mas para vários outras revistas e jornais.

Em 1917, estimulado por cartas, ele retornou à ficção, com histórias muito bem estruturadas como “O Túmulo” e “Dagon”. Este último foi o seu primeiro trabalho publicado profissionalmente, aparecendo em W. Paul Cook’s O mendigo (novembro, 1919) e Weird Tales em 1923. A esse tempo ele começou a se corresponder com vários leitores e escritores. Suas cartas longas e frequentes fariam dele um dos maiores e mais prolíficos escritores do século XX nessa modalidade. Graças ao estimulo dos missivistas e dos associados da UAPA ele se tornou cada vez mais prolífico e produtivo quanto à ficção, gênero que o consagrou.

Em referência à UAPA ele chegou a afirmar várias vezes a importância da associação para a sua carreira e mesmo para a sua vida, até pela forma como isso contribui para tirá-lo do isolamento e principalmente pelo estimula para retornar a ficção.

“Em 1914, quando a mão amigável do amadorismo se estendeu para mim, eu estava tão próximo do estado de vegetação quanto qualquer animal… Com o advento da [Associação] Unida, ganhei uma renovação de vida, um senso renovado da existência como sendo algo mais que um peso supérfluo, e encontrei uma esfera na qual podia sentir que meus esforços não eram totalmente fúteis. Pela primeira vez, pude imaginar que minhas investidas desajeitadas no campo da arte eram um pouco mais do que gritos débeis perdidos no mundo indiferente.” H.P. Lovecraft

Entre seus correspondentes estavam Robert Bloch (Psycho), Clark Ashton Smith e Robert E. Howard, criador de Conan o bárbaro e que também escreveu diversos contos onde elementos do imaginário Lovecraftiano faziam participações especiais. Lovecraft junto de Clifford Martin Eddy, Jr., trabalhou como ghostwriter da revista Weird Tales, para artigos do famoso mágico Harry Houdini.

Além de escritores mais conhecidos e que mantinham correspondência com Lovecraft, havia outros menos conhecidos do público em geral, mas que também foram muito importantes para consolidar o universo imaginário de Lovecraft.

Em 1919, após sofrer de histeria e depressão durante um longo período de tempo, a mãe de Lovecraft teve um colapso nervoso e foi internada no Hospital Butler, a mesma casa de repouso em que seu marido havia sido internado anteriormente.

Durante esse período ela manteve contato com o filho através de cartas freqüentes. Lovecraft a visitava também e eles continuaram muito próximos até à sua morte em 21 de maio de 1921, provocada por complicações de uma cirurgia na vesícula. Lovecraft ficou arrasado pela perda. A mãe de Lovecraft nunca chegou a ver nenhum dos trabalhos de seu filho publicados.

Após a morte de sua mãe, Lovecraft foi a uma convenção de jornalistas amadores, em Boston, onde conheceu Sonia Greene. Nascida em 1883, ela era judia de origem ucraniana e sete anos mais velha do que Lovecraft.
Eles se casaram em 1924, e logo depois, o casal se mudou para o bairro do Brooklin na cidade de Nova York. As tias de Lovecraft não ficaram felizes com essa união, primeiro pela diferença de idade e depois, ao que parece, pelo fato de Sonia ser uma comerciante (ela era proprietária de uma loja de chapéus).

Inicialmente Lovecraft ficou fascinado por New York, mas logo a seguir vieram os problemas. As dificuldades financeiras atingiram o casal, e Sonia perdeu a sua loja de chapéus. Sonia começou a ter problemas de saúde, e como Lovecraft não conseguia emprego, Sonia acabou se mudando para Cleveland para conseguir um emprego e Lovecraft ficou morando sozinho em Brooklin Red Hook. Todas as dificuldades que passou nesse período ficaram de certa maneira registradas no conto “O Horror em Red Hook.” Durante este período Lovecraft escreveu “A Cidade Sem Nome” e o conto “O” Cão de Caça”.

Alguns anos mais tarde, ele e Greene, continuam a viver separadamente, e acabaram concordando em uma separação amigável, que nunca foi totalmente concluída. Ele retornou à Providence para morar com sua tias. Devido à infelicidade do seu casamento, alguns biógrafos têm especulado que Lovecraft poderia ser assexuado, apesar de que Greene costumava referir-se a ele como “um amante adequadamente excelente”.

De volta à Providence, Lovecraft viveria em uma “espaçosa casa de madeira escura, estilo vitoriano”, no nº 10 da Barnes Street. O endereço curiosamente é indicado como a casa do Dr. Willett, em “O Caso de Charles Dexter Ward”. Lovecraft viveu nessa casa até 1933.

Após o seu retorno à Providence – a última década da sua vida – foi o mais prolífico de Lovecraft. Durante esse período ele produziu a quase totalidade das suas mais conhecidos contos para as principais publicações da época (principalmente Weird Tales).

É desse período também “The Case of Charles Dexter Ward” “The Mound,” “Winged Death,” “Imprisoned with the Pharaohs”, “The Diary of Alonzo Typer” e “At the Mountains of Madness”. Com um número cada vez menor de leitores, para sobreviver ele freqüentemente revisava trabalhos para outros autores e também atuava como ghost-writter de textos assinados por outros, inclusive poemas e não-ficção.

Apesar de seus grandes esforços como escritor, no entanto, ele a cada dia ficava mais pobre. Em 1932, sua tia Lillian faleceu e no ano seguinte ele se mudou com sua tia Annie para uma casa menor e alugada, situada bem atrás da biblioteca John Hay.

Em 1936, o suicídio de seu amigo, Robert E. Howard, o deixaria bastante abalado. Nesse mesmo ano, Lovecraft foi diagnosticado com câncer de intestino já em estado bastante avançado, além disso ele também passou a sofrer de desnutrição. A doença o debilitava cada vez mais e o fazia sentir intensas dores. Em 10 de março de 1937 ele foi internado no no Hospital Memorial Jane Brown, em Providence. Dali a cinco dias, em 15 de março de 1937 ele veio a falecer, estando então com 46 anos de idade.

Howard Phillips Lovecraft foi enterrado no dia 18 de março de 1937, no cemitério Swan Point, em Providence, no jazigo da família Phillips. Seu túmulo é até hoje o mais visitado do local, mas passaram-se décadas sem que seu túmulo fosse demarcado de forma exclusiva, constando seu nome apenas na lápide familiar.

No centenário de seu nascimento, fãs norte-americanos se cotizaram para inaugurar uma lápide definitiva, que exibe a frase “Eu sou Providence”, extraída de uma de suas cartas.