Leonard Cohen

Biografia – 1969 a 1974

Leonard Cohen desfrutava um sucesso inesperado após o seu disco de estréia. E, pela primeira vez, o artista canadense se sentia aliviado em relação à dinheiro.

“A falta de dinheiro foi um grande, grande problema para mim até pouco tempo atrás, já que nunca tive nenhum. Eu fiz todos esses trabalhos comuns que as pessoas fazem para ganhar algum, com bicos aqui e acolá. Então comecei a vender meus escritos, mas eu jamais escrevi para vender, e sim porque era uma necessidade naquele período. Algumas vezes alguém comprava meus textos, mas eu jamais os enviei para revistas, jornais, porque nunca quis viver das palavras. Acho que desde sempre sonhei em ser um cantor, porque sempre quis escrever música e ver outras pessoas cantando-as.”

Quando Songs of Leonard Cohen recebeu boas críticas, finalmente o cantor pode começar a guardar algum para o futuro e até a comprar um apartamento em Montreal. “Essa é uma situação nova, porque eu já era escritor antes de ser cantor e tinha recebidos boas críticas, mas muitas vezes o dinheiro dos livros não era suficiente nem para pagar a conta da mercearia.”

Leonard se sentia ligado ao Canadá, mesmo desfrutando de sucesso nos Estados Unidos e uma das suas primeiras preocupações após conseguir algum dinheiro, foi se estabelecer na cidade que tanto o acolheu: “eu sempre quis ser um poeta em Montreal porque sempre quis ter esse tipo de conversa com as pessoas, desde meus 18 anos. Veja, eu tinha que tentar vender meu trabalho em alguma cidade e tive esse tipo de vida nessa cidade. Eu amo o Canadá por não ser a América, no sentindo em que posso ter sonhos tolos sobre o meu país e acredito que podemos evitar os erros dos Estados Unidos e fazer desse país um lugar mais nobre, mais digno, mas não necessariamente mais poderoso.”

Em 1969, Leonard foi até Nashville para gravar com o produtor da A&R, Bob Johnston (que havia trabalho com Bob Dylan em Blonde on Blonde), para as gravações do segundo disco. Leonard disse que ficou muito inseguro no início das gravações: “meu primeiro disco foi produzido por John Simon e me lembro dos grandes momentos de tensão entre nós, e isso ocorreu, em grande parte, por minha culpa, já que eu era absolutamente ignorante e inexperiente sobre como proceder em uma gravação. Eu demorei muito para descobrir a minha voz e o som para esse disco.”

capa do disco Songs From a RoomQuando Songs From a Room saiu, em abril de 1969, houve um certo desapontamento com o disco, embora ainda tenha recebido boas críticas.

Leonard confessa que não gosta muito do álbum, apesar de ter em “Bird On A Wire”, sua composição favorita: “o disco todo teve uma grande tensão e muitas pessoas criticaram a falta de paixão nele, mas ‘Bird On A Wire’ foi algo muito especial: eu tentei gravá-la várias vezes, sem sucesso e lá pelas quatro da manhã dispensei todos os músicos, com exceção de meu amigo Zev, Charlie McCoy (baixista) e Bob Johnston. Pedi a Bob então que sentasse no órgão de vez em quando até eu sentir que era o momento apropriado. Então eu a cantei de uma forma tão verdadeira como nunca tinha feito anteriormente, e quando ouvi pela primeira vez a minha voz cantando a frase inicial ‘Like a Bird On a Wire’ eu soube que era a canção mais forte que eu tinha colocado para fora. Ela conta não só a história do disco, mas também toda minha história pessoal. Nela, tento redimir tudo que está errado. Imagino que já fiz isso várias vezes em minha vida, mas sempre gosto de renovar esses votos.”

Uma curiosidade é uma foto de Marianne, no quarto de Leonard, em Hydra, na contra-capa do disco. Após o lançamento, o cantor realizou alguns shows apenas no ano seguinte: foram sete shows entre os dias 4 e 13 de maio de 1970, na Alemanha, Áustria, Inglaterra e França; aparições em quatro festivais – L’Enfant Plaza Theater, em Washington, em 11 de abril; o de Forest Hills, em Nova York, no dia 25 de julho; em Aix-en-Provence, na França, no dia 2 de agosto e no mais importante da época, o da Ilha de Wight, em 31 de agosto. Cohen fechou sua série de apresentações, em Berkeley, nos Estados Unidos.

Leonard sempre deixou claro que nunca gostou de tocar ao vivo, apesar de gostar do contato com as pessoas. “Eu sei que parece estranho, mas para mim, dar shows é como uma operação militar, pois sei exatamente o que preciso fazer e parte disso é me familiarizar com o que as pessoas gostam e pensam. É muito importante saber o que elas querem naquele momento, onde elas estão, porque assim posso me tornar mais relevante.”

Apesar das apresentações e dos discos, Leonard jamais se sentiu um cantor: “eu não sou um cantor, porque eu jamais canto sem estar com o meu violão e quando estou sem ele sofro uma espécie de amnésia e esqueço completamente esse meu lado.”

capa do disco Songs Of Love And HateEm 1971, ele lança seu terceiro, Songs Of Love And Hate, um disco que sedimenta ainda sua fama de pessoa introspectiva, miserável e sombria. A foto na capa trazia o cantor com uma barba por fazer e um olhar distante, aumentando ainda mais sua fama mórbida.

Assim como os dois discos anteriores, Leonard falava de dramas sentimentais, de misticismo e de Deus.

E Cohen jura que tem uma relação bem resolvida com Deus: “para mim, a religião é uma técnica que envolve poder e para tentar fazer o mundo mais confortável. Eu sei que há realmente um poder no qual você pode se conectar e chamo isso de Deus. Algumas pessoas acham difícil conseguir isso e basta você citar essa palavra para que eles caiam em um grande labirinto. É claro que fizeram um uso dela totalmente errado nos últimos tempos e ainda hoje, mas eu não a associo a essas coisas. É muito fácil dizer que para mim Deus é uma força misteriosa, indizível, que motiva todas as coisas vivas e a considero muito fácil de ser dita e usada. E usar pronome masculinos como “ELE” ou “DELE” não soa ofensivo à minha pessoa como soa para outros e por isso posso dizer tranqüilamente ‘chegue perto DELE e sinta a SUA graça’, porque eu realmente sinto isso.”

Foi nessa época que ele começou a tentar novos caminhos para sua vida e acabou conhecendo um monge zen-budista chamando Sasaki Roshi, do Japão. Cohen aos poucos iria abraçando o budismo até se tornar um monge, em 1996.

Mas antes de abraçar a religião, Cohen tentou de tudo um pouco: mulheres, drogas e qualquer coisa que pudesse diminuir sua dor. Em 1971, ele deu apenas um concerto, na sua querida Montreal, no dia 10 de dezembro. Em 1972, foram 21 shows entre março e abril pela Irlanda, Inglaterra, Dinamarca, Suécia, Bélgica, Alemanha, Áustria, Suíça, Holanda, França e Israel. Mas para Leonard se apresentar continuava a ser algo difícil, devido à sua timidez e por sua pouca vontade de se expor.

Ele também confessou que sentiu, após três discos e as pressões da profissão, sua inspiração sumir: “certamente há um enorme esforço para se trabalhar ou tudo se perderia. Boas canções nascem espontaneamente, então é preciso manter suas ferramentas afiadas e estar pronto para quando elas aparecerem. No entanto, às vezes me sinto vazio, pois só posso escrever a partir de minhas experiências pessoais e muitas vezes me sinto completamente sem saber o que falar. Não há muito o que se lamentar. Boas canções são um presente e tive a minha cota, e quando elas não aparecem mais, então elas simplesmente não aparecem. Se houver mais, eu serei grato, mas não há nada o que eu possa dizer sobre isso, pois esses eventos não são comandados por nós.”

Além disso, Leonard percebeu que era muito mais infeliz do que quando era apenas um homem pobre: “o dinheiro acabou sendo uma armadilha para mim, e minha vida se deteriorou imensamente depois que comecei a ganhá-lo. Caí numa cilada e percebi que eu era muito mais feliz quando eu não o tinha.”

capa do disco Live SongsTalvez sentindo a “fonte secar”, Leonard lançou em 1973, um disco ao vivo, Live Songs, no mês de abril. O álbum mostrava um artista lutando contra a depressão e as incertezas.

Em uma entrevista reveladora à Melody Maker, em março daquele ano, Leonard jurava que iria abandonar o mundo musical, principalmente por estar desgostoso com o mundo venal dos negócios. “Já não sou mais um homem livre, sou um homem explorado incessantemente. Quando suas canções param de vender, eles descobrem uma maneira de continuar fazendo dinheiro comigo. As pessoas falam em lucro; ora, o lucro também me interessa, mas eu tenho que lutar com várias pessoas em vários níveis para ter esse dinheiro. E agora a gravadora me pressiona por novas canções porque as lojas precisam vender algo. Isso é nojento e não forçarei minhas músicas a esse ponto.”

capa do disco New Skin For The Old CeremonyE Leonard realmente se aposentou em 1974, após mais um disco de estúdio, New Skin For The Old Ceremony. Lançado em agosto daquele ano, seria o seu último disco até a volta, em 1977.

Apesar do cansaço mental e físico, Leonard conseguiu produzir alguns dos mais belos temas de sua carreira, como “Lover Lover Lover”, “Who By Fire”, “Field Comand Cohen” e “There Is A War”, onde faz uma espécie de balanço e acerto com sua vida.

O artista que admitiu sentir saudade dos tempos em que passou na Grécia, escrevendo, com pouco dinheiro, mas com uma vida perfeitamente esquematizada e organizada, era agora mais um nome que sucumbia às pressões absurdas do meio musical.

Sua volta aconteceria lentamente e em pequenos passos… Mais isso é papo para outro dia. Um abraço e até a próxima coluna.


Após algum tempo de silêncio, Leonard Cohen voltou ao mundo da música com um disco que deu muita história e pouco sucesso: Death Of A Ladies’ Man marca para o cantor e compositor canadense um momento raro: uma parceria e com ninguém menos do que o legendário produtor Phil Spector. E a conjunção inusitada rendeu uma tremenda dor de cabeça para Cohen e um disco de péssimas vendagens. Mas ainda havia mais…