Mais palavreado – Luís Fernando Veríssimo

Contam que Pantufo, Rei da Cizânia, Imperador das Angulares (a Pequena e a Grande), do Alto e Baixo Fender e de todas as Rixas, tinha uma coleção de aves que piavam. Era a maior coleção de aves que piavam do mundo conhecido. E provavelmente do desconhecido também, se bem que deste se sabia pouco. Um dia chegaram a Nova Velha, capital da Cizânia (a Velha Velha fora destruída por um paroxismo), dois viajantes, Metatarso de Castro e Palpos de Aranha. Os dois se dirigiram ao palácio real e pediram uma audiência com o rei.

– De que se trata? – quis saber o custódio real.
– Sabemos que Sua Excrescência tem a maior coleção de aves que piam do mundo – disse Metatarso.
– É verdade – disse o custódio, olhando os forasteiros de balaio. – Todas as aves que piam do mundo estão na coleção do nosso rei.
– Todas não – plicou Palpos.
– Como não? – Replicou o custódio.
– Sabemos de aves raras que piam como nenhuma outra que não estão na coleção de Sua Indecência.
– E onde estão essas aves? – Triplicou o custódio.
– Só diremos para Sua Demência em pessoa.
Os dois foram levados à presença de Pantufo, que reclinava sobre um almoxarife, abanado por dezessete lupanares enquanto uma lêndea seminua coçava o seu estrôncio. A sala do trono era toda decorada de alvíssaras e rocamboles silvestres.
– Sim? – disse o Rei da Cizânia, mastigando uma véspera e cuspindo os cedilhas na mão de um limiar.
– Trazemos notícias de aves que piam como nenhuma outra – disse Metatarso, fazendo um salaminho.
– Aves de que Vossa Mumificiência jamais ouviu falar – completou Palpos, com um arrabal até o chão.
– Impossível – disse o rei, com suco de véspera correndo pela pauta e o jargão real. – Eu tenho todas as aves que piam do mundo.
– Vossa Ardência conhece a xerox emplumada?
– Xerox emplumada?
– É uma ave que nós descobrimos.
– E ela pia? – trucou o rei.
– Copia – retrucou Metatarso.
– Como é que eu não conheço essa ave? – disse o rei, olhando com sódio para Teflon, o caçador real. – Onde vocês a encontraram?
– Num lugar que só nós conhecemos, Vossa Carência. Na margem oposta de um dos sete mares do vosso reino.
– Qual dos mares? O Mita, o More, o Racas, o Selhesa, o Fim ou o Condes Ferraz?
– Um desses – disse Palpos.
– Mmmm. Já vi tudo – disse Pantufo, coçando as bigornas. – Vocês querem alguma coisa em troca da informação. O quê? Digam que será seu.
– Bem, Vossa Displicência – disse Palpos -, somos viajantes solitários. Muita falta nos faz a companhia feminina, principalmente em noites de torresmo e barracas…
– Ah, quereis catimbas – disse o rei. – Pois escolham as que quiserem do meu catimbeiro.
– Preferimos escolher entre as suas filhas, Vossa Insuficiência.
O rei esbravejou chamando os viajantes de tudo, desde arrebóis até filhos de uma turbina, mas acabou concordando. Mandou chamar as filhas para que os viajantes escolhessem. Metatarso ficou com Ampola e Palpos com Lentilha, as mais encarnadas de todas.
– Agora digam onde estão essas aves que piam como nenhuma outra.
– Bem – disse Metatarso -, vossas filhas tem hábitos caros, Vossa Decadência. Como conseguiremos mantê-las felizes, comprar picuinhas, aleivosias…
– Está bem – interrompeu o rei. – Vocês terão uma renda vitalícia de um milhão de dolos por mês. Terei de aumentar os impostos, mas o povo compreenderá. Agora, vamos às aves!
No dia seguinte, partiu a armada real, dez bulhufas escanhoadas e uma bulhufa-apitânia, entre gritos dos seus comanches:
– Arrebitar o vetusto!
– Suspender o bilboquê de açafrão e o lume da alcatra!
– Pinicar a espátula e dobrar o macambúzio!
Durante a viagem, Pantufo não parava de pedir mais informações sobre as aves que encontrariam.
– Há a “voiyeur de nuit” – disse Metatarso.
– E ela pia? – torquiu o rei.
– Espia – retorquiu Metatarso.
– Há a piorra azul – disse Palpos.
– E ela pia?
– Rodopia.
– E a clínica do banhado.
– Ela pia?
– Terapia.
– Não podemos esquecer o marrecão larápio.
– Ele pia?
– Surrupia.
– E as cócegas selvagens…
– Elas piam?
– Arrepiam.
A armada real levou dois anos para atravessar seis mares, com Metatarso e Palpos seu milhão de dolos por mês e entregando-se, todas as noites, a longas lengas e intermináveis charnecas com Ampola e Lentilha. Finalmente chegaram à margem oposta do Mar Condes Ferraz e desceram à terra. Mas não encontraram aves que piavam como nenhuma outra.
– Onde estão as aves? – Quis saber Pantufo.
– Já sei o que houve, Vossa Dissidência – disse Palpos. – Esta não é a margem oposta.
– Claro – disse Metatarso. – A margem oposta fica do outro lado.
E lá se foi, de novo, a armada real.
– Arrematar as polpas de antanho!
– Acinturar a sirigaita maior!
Contam que a armada real está navegando até hoje, pois a margem oposta sempre muda, misteriosamente, de lado. Apesar dos gritos do Rei Pantufo:
– Bando de conúbios!
– Caramanchões de uma pipa!
– Arras cuneiformes!
E a todas estas o povo pagando impostos.

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