Morphine

Essa é uma banda totalmente sui generis. Primeiro pela formação: baixo, bateria e saxofone. Depois, pelo líder, Mark Sandman, tê-la formado com quase 40 anos, após outros projetos e até ter morado alguns anos no Rio de Janeiro. E ainda mais por tocar um baixo de apenas duas cordas construído por ele mesmo e de sua morte ter acontecido em meio a uma apresentação, em 1999, na Itália, vitimado por um fulminante ataque cardíaco. Um fim trágico para um dos artistas do meio alternativo e de vanguarda mais bacanas surgidos nos últimos 15 anos e, que apesar do nome tétrico do grupo, fazia um som, que senão era particularmente dançável e cheio de refrões, era extremamente interessante e nem por isso, mórbido. Um homem que deixou como herança uma fundação para estimular e ensinar crianças a adentrar no mundo da música e que era uma das poucas almas reconhecidamente belas nesse meio lotado de egoísmo, ganância e idolatria. Com vocês, Mark Sandman e sua grande banda, Morphine.

 

“From Boston, Massachusetts; we are MORPHINE, at your service”. Era assim que Mark sempre abria os show de sua banda, que de convencional tinha muito pouco, quase nada mesmo.

Mark SandmanNascido em 1952, na pequena Newton, Mark sempre foi uma pessoa extremamente discreta, apesar de várias experiências inusitadas. Após estudar na prestigiosa Universidade de Boston, foi trabalhar em barcos pesqueiros em Washington. Cansado desta vida, voltou para Boston no meio da década de 80 e formou uma banda especializada em blues, o Treat Her Right. Era então o guitarrista e vocalista, ao lado de David Champagne (que tinha as mesmas funções de Mark), o baterista Billy Conway (que se encontrariam no Morphine mais tarde) e Jim Fitting, na harmônica. Lançaram três bons discos: Treat Her Right (1986), Tied to the Tracks (1989) e What’s Good for You (1991) e acabaram.

Paralelo ao grupo, envolveu-se em outras bandas e projetos como um chamado pomposamente de Supergroup, incluindo Chris Ballew (que depois faria parte do Presidents of United States), Treat Her Orange (ao lado de Jimmy Ryan, do Blood Oranges) e um grupo de metais mais voltando ao funk, Hypnosonics. E, entre tudo isso, ainda arranjou um tempinho para morar no Brasil, país que amou e prometeu voltar.

Depois de tantas aventuras, Mark resolveu montar uma banda totalmente diferente e na qual marcaria a cena independente: o Morphine. Com o baterista Jerome Deupree e o saxofonista Dana Colley, Mark assumiu o baixo, além de vários outros instrumentos ocasionais. Seu baixo, aliás, merece um destaque, por ser um slide de apenas duas cordas, feito por ele mesmo e usando apenas as cordas mais graves. A idéia era criar uma banda que unisse o rock com o jazz e que servisse como trilha sonora para seus poemas, influenciados pela literatura beat de Jack Kerouac.

GoodA estréia aconteceu em 1992, com Good, um disco que chamou atenção pela proposta inovadora e os belos poemas de Mark, que também se mostrava um excelente músico. O disco foi lançado pela pequena gravadora Accurate/Distortion.

Já no segundo disco, Cure for Pain, a banda atinge uma maturidade impressionante. O disco marca a transição entre Jerome e o Billy Conway, antigo colega de Mark e o novo baterista da banda. Billy já havia participado em duas faixas no disco anterior, “You Speak My Language” e “You Look Like Rain”. Com canções como “Buena”, “In Spite of Me” e “Let’s Take a Trip Together”, fez a alegria da gravadora Rykodisc (novo selo do grupo), por vender mais de 300 mil cópias e ser maciçamente tocando nas famosas college radios. O amigo Jimmy Ryan toca seu bandolim na canção “In Spite of Me”. O grupo conquistava um séquito imenso de fãs, apaixonado pela sonoridade única do grupo. A última faixa, chamada de “Miles Davis’ funeral” era uma homenagem a um mestre espiritual de todos, que havia morrido no dia 28 de setembro de 1991 e fecha com chave-de-ouro um dos discos clássicos dos anos 90.

da esq. Para a dir.: Mark, Dana e Billi) e Morphine CureLetras como a de “I’m Free Now (eu estou livre agora para dirigir um filme ou cantar uma música ou escrever um livro sobre sua verdade que me interessa tanto…”) mostravam uma liberdade e ironia pouco comuns. Na canção-título, Mark pergunta “onde está o ritual, onde está o sabor, onde está o sacrifício, onde está a fé; um dia haverá cura para a dor e quando isso acontecer jogarei fora todos meus remédios”).

 

 

Cure for PainMark já era um homem com mais de 40 anos, cheio de experiências e falando de crises existenciais que, embora boa parte do seu público mais jovem não tivesse contato ainda, vinha de encontro a outros medos. O grupo virou uma sensação ao ter cinco canções do disco na trilha sonora do filme Spanking the Monkey, que venceu o prêmio de público do mais importante festival de cinema independente americano, o Sundance Festival. Até no desenho Beavis and Butt-head, da MTV, foram mostrados. O Morphine era elogiado por todos, e a Rolling Stone elegeu o grupo como a banda underground de maior sucesso de 1994.

 

 

Um grande destaque do grupo era a sonoridade dos saxes de Dana Colley. Jazzista inveterado, Dana tocava com competência sax barítono e tenor, que formavam uma bela combinação com as letras reflexivas e livres de Mark. E Dana, assim como Mark inovaria mais ainda no soberbo Yes, próximo trabalho do grupo, tocando um sax duplo, instrumento em que tocava com as duas mãos e com apenas uma boquilha em um dos saxs que era ligado ao outro por um tubo.

O disco alavancou ainda mais a carreira do trio, agora um dos grandes destaques da cena alternativa norte-americana. O grupo fazia seguidas apresentações pela América e pela Europa, recebendo elogios da crítica especializada. O disco abre com uma de suas canções mais fortes e poderosas, “Honey White”. Veja a letra…

Honey white (x3)
Made a deal for some angel food
Honey white (x2)
Everybody told her it was sweet and good yea
Oh honey (x4)
She said you’ll see me later yea you’ll see me later
Will you see me later seemed all too soon
And then he smiles he knows honey’s coming back
Honey’s going to want some more angel food
Devil made of honey (x4)
She said you’ll get me when I’m old and wizened
And not a day before that
The devil said honey it won’t be that long
Besides I like to see a little more fat
Yea I like to see a little more fat
You know I like to see a little more fat
Honey white (x4)
Uh tell me how is your angel food
Honey white oh honey white
She says it’s sweet and good
Honey white honey white uh honey white
The sweetness starts to fade
Honey white (x2)
Thought you could get away
Poor honey (x4)

O disco trazia alguns dos maiores clássicos do grupo, como “Scratch”, “Sharks”, que mostravam o medo e a insegurança do homem moderno e tratavam de temas como o sexo em “Super Sex” ou em “Free Love” (o que é isso? onde posso conseguir algum?). Além das letras, mais uma vez Mark cuidava da produção e das fotos do encarte.

Like SwimmingO grupo chamou atenção da Dreamworks, que os contratou, apostando que com um esquema maior de divulgação poderiam se tornar a next big thing do rock americano. E em 1997 sai o quarto disco do grupo Like Swimming, talvez o mais fraco de todos. A liberdade ainda está intacta, com Mark e Paul Q. Kolderie dividindo a produção do mesmo, e com vários convidados nas faixas, mas o Morphine parecia estar sentindo a obrigação de ter assinado com um grande selo. Ainda assim partem para uma turnê imensa pelo mundo, sendo destaque em festivais com mais de 50 mil pessoas e a atração principal em um concerto chamado Central Park Summerstage, em Nova York. A gravadora pressionava o grupo a tocar em espaços grandes, mas o grupo não aceitava a imposição, preferindo agendar suas apresentações em locais menores, aconchegantes, onde Mark alegava ser o palco ideal do grupo. “Nossa música é mais intimista, as pessoas se sentem mais confortável ouvindo em pequenos teatros ou bares. E eu também.”

Como parte de uma obrigação contratual, lançam, ainda em 1997, o B-Sides & Otherwise, pela Rykodisc. Esse disco vale a pena por algumas curiosidades: primeiro, por conter a faixa “Kerouac”, que fez parte de um cd tributo ao escritor beat, Kerouac – Kicks for Darkness e por conter, nas edições brasileiras e japonesas, duas faixas exclusivas, “Anita” e “Mary Won’t Call My Name?”.

The NightMark também trabalhava em sua casa em Cambridge, naquele que seria o disco mais ousado e bem acabado do grupo, The Night. Durante dois anos, Mark planejou criteriosamente o disco, gravando-o em seu estúdio particular, o Hi-N-Dry, de oito e dezesseis canais. O Hi-N-Dry era o local onde todos os outros discos anteriores tinham sido concebidos, mas desta vez apenas ele assinaria como produtor.

O trabalho foi envolvido em um clima de grande alegria. Mark, Dana e Billy tiveram a companhia de Jane Scarpatoni (cello), Mike Rivard (baixo) e Joseph Keller (violino). A idéia era criar um álbum mais soturno. O antigo baterista, Jerome Deupree, também foi convidado, participando de todas as faixas. Mark tocou uma infinidade de instrumentos, entre eles, pianos, órgão, guitarra acústica e trombone. Dana inovou com seu sax baixo e contribuiu com seus arranjos para que o disco fosse ainda mais minimalista do que os trabalhos anteriores. A idéia era que o conceito rock intimista fosse levado às últimas conseqüências.

Mark usa um convencional baixo de quatro cordas e na faixa “Rope on Fire”, dedilha um belo violão, sob uma letra muito triste e desesperada. Com dois bateristas trabalhando em conjunto e um belo backing vocal feminino de várias amigas de Mark, todas de Boston, The Night era classificado pelo mesmo, como um passo novo e totalmente diferente na carreira do grupo.

Talvez a letra mais intrigante do disco seja mesmo a de “Rope on Fire”…

Hand over hand up the lifeline, luckily the knots stay tight.
Silhouettes of the two of us climbing, climbing up a rope on fire.
Climbing up a rope on fire.

Trapped in a room in a fortress, running outta air to breathe.
Only seconds to go and we’ll break free, I didn’t think that we would reach.

Only the two of us can disconnect the bomb.
And save ourselves before the oxygen is gone.
I’ll call for backup, you start to scream.
It’s not the first time we’ve been in this dream.

She ripped the wings right off my back.
She whispered deep, keep it on the track.
She said you’re no angel, no angel anymore.

All the wheels are coming loose. Close-up shot of a burning fuse.
The sky is filled with question marks. Will the chains come apart?
These few seconds that I’ve left to go. Flames and chaos down below.
And the earth opens wide. Got to climb a rope on fire.

Look at the clock. Look at the clock.
Make it to the car but the car won’t start.
Me try to move the car but there’s no more time.
We’ll have to climb a rope on fire.

Hand over hand up the lifeline, luckily the knots stay tight.
Silhouettes of the two of us climbing, climbing up a rope on fire.
Climbing up a rope on fire. Climbing up a rope on fire.

Only the two of us can disconnect the bomb.
Then save ourselves before the oxygen is gone.
I’ll call for backup. You start to scream.
It’s not the first time we’ve been in this dream

Foi esse projeto que Mark entregou à Dreamworks, no começo de julho de 1999 para ser lançado no ano seguinte. O grupo voou então para a Europa, onde estava com a agenda lotada. No dia 3 de julho, em Palestrina, o grupo estava realizando seu show.

Mark já tinha dito o seu famoso discurso de boas-vindas (“From Boston, Massachusetts; we are MORPHINE, at your service”). E começa o show. No meio dele, Mark pára e fala: “Obrigado Palestrina. É uma linda noite. É ótimo estar aqui e quero dedicar uma canção super-sexy a todos vocês…”. Não houve tempo para mais nada. Mark acabou sofrendo um enfarte fulminante e morreu, ali mesmo, no palco.

Chocados com a morte do amigo e mentor, o grupo se desfez, e The Night acabou sendo o último registro oficial da banda. Dana e Billy ainda prestaram uma homenagem ao amigo montando o Morphine Project, que tinha a intenção de divulgar algumas músicas do finado trabalho. O grupo ainda voltou à mesma cidade onde tocaram pela derradeira vez, mas só conseguiram tocar seis músicas, pois o show teve de ser cancelado por ter começado muito tarde. Também perceberam que sem Mark, não haveria o menor sentido. Ou nas palavras de Dana: “Mark era um homem abençoado, uma dessas pessoas que você encontra raramente na vida. Extremamente simpático, adorava compartilhar suas experiências e emoções com os amigos, com os fãs. Tinha uma bondade incrível e uma sabedoria que nunca mais vi em nenhuma outra pessoa. Sempre conseguia ver o lado positivo nos problemas, e, embora, muitos considerem nossa música como depressiva ou triste, pela sonoridade, as letras deles eram cheias de vida e otimistas.”.

Ainda em 2000, sai Bootleg Detroit – live, gravado em uma fita por Mark durante a turnê promocional de Cure for Pain. Apesar de não possuir uma qualidade sonora excelente, serve como amostra do carisma e competência do grupo em suas apresentações.

TwinemenColley e Conway formaram depois o Twinemen ao lado de Laurie Sargent, e em 2002, lançaram o disco de estréia apenas com o nome da banda, pelo selo que leva o nome do estúdio Hi-N-Dry, uma mistura de jazz, blues, rock, trance, além de dois discos gravados ao vivo em dias consecutivos, Madison, Wi 01.02.03 e Chicago, IL 02.02.03, fechando com músicas de Sandman.

Mark deixou alguns projetos inacabados, entre eles, uma excursão pelo Brasil, onde tinha vários amigos e os visitava com alguma regularidade e sua fundação para difundir a música entre as crianças. Quem quiser saber mais ou colaborar com a mesma, basta escrever para: Mark Sandman Music Education Fund, PO Box 380644
Cambridge, MA 02238, USA. Se o telefone não mudou, continua sendo 617.441.0197.

Infelizmente Mark não pode cumprir à risca um de seus poemas musicados, “French Fries with Pepper”, em que dizia: “…em 9-9-99 espero estar sentando em uma varanda bebendo vinho tinto e cantando ‘oh, batata frita com pimenta’”. Tudo bem, Mark, a partir de 9-9-04 farei isso religiosamente por ti, todo ano, e de
preferência com um Morphine como som de fundo.

Um abraço a todos e até a próxima coluna!

Discografia

Good (1992)
Cure for Pain (1993)
Yes (1995)
Like Swimming (1997)
B-Sides & Otherwise (1997)
The Night (2000)
Bootleg Detroit – live (2000)
The Best of Morphine: 1992-1995 (2003)

por Rubens Leme da Costa