Morrissey

PARTE 2

Nesta segunda e última parte da biografia de Morrissey abordaremos os anos mais tumultuados de sua vida: o processo contra os ex-Smiths Mike Joyce e Andy Rourke, a guinada na carreira e toda a confusão que deixou o cantor por sete anos sem poder lançar um novo disco, embora tivesse um projeto inteiro construído. Foram nesses anos que Morrissey resolveu ir embora da Inglaterra e morar na Irlanda e depois na América. Morrissey conheceu a raiva e a perseguição de perto, mas sua volta triunfal em 2004 com o belíssimo You Are the Quarry e a atual turnê mostram que ele ainda continua vivo e relevante, para desespero de seus detratores e alegria de seus discípulos. Mostrando coragem, Morrissey falou mais do que devia e nunca deixou de reclamar quando se achava no direito. Ainda que tenha pago um preço bem alto…


Biografia – 1994 a 2005

1 – Mudança de gravadora

capa do disco Vauxhall and IMorrissey começou o ano de 1994 com um novo disco, Vauxhall and I e o mesmo ritmo de shows dos anos anteriores.

Considerado pelo próprio Morrissey como seu melhor disco até então, superando até os seus insuperáveis discos com os Smiths, o cantor mostrava grande felicidade com o rumo de sua vida. E, em uma entrevista para a revista Q fez uma revelação insuspeita: ele, Morrissey era um grande apaixonado por futebol e um bom artilheiro!

Nesta entrevista, Morrissey demonstrou um bom conhecimento esportivo, criticando a comissão técnica e alguns jogadores já em decadência, como Paul Gascoigne e afirmou, que às vezes, batia suas peladinhas e fazia seus golzinhos. Quem diria…

Mas, Morrissey não é um atleta propriamente falando (as fotos mais novas demonstram bem isso) e sim um cantor. E em Vauxhall and I, confessou que tinha feito seu melhor disco e explica a razão.

“Esse trabalho fala da minha relação de amor com Londres. Por eu ter nascido e sido criado no norte da Inglaterra, eu tinha obrigação de odiar Londres. Mas gradualmente isso foi se alterando, conforme eu fui descobrindo a felicidade e um pequeno círculo social que eu não tinha em Manchester. Minha vida mudou de tal maneira em Londres, que me senti muito mais feliz e confortável lá. Só de pensar em fazer um vôo de volta de algum país para Londres minhas bochechas ficavam mais rosadas e meus olhos mais brilhantes… até eu ser revistado na alfândega, claro…”

O disco trazia ainda algumas canções falando de um tema que sempre fascinou Morrissey: a violência. “‘Spring-Heeled Jim’ e ‘Now My Heart Is Full’ são canções que realmente falei sobre violência, embora eu não tenha feito justiça às histórias verdadeiras.”

Morrissey estava atravessando um período de perseguição da mídia, que ainda o acusava de racismo. “É uma questão que todos falam de mim, apenas para venderem jornais ou ficarem alimentando uma imagem que não corresponde à minha pessoa, na realidade. E eu sei que os boatos são mais importantes do que a verdade hoje em dia, especialmente na Inglaterra, onde temos uma indústria da mentira. É uma coisa bem inglesa e, de certa forma, é um elogio à minha pessoa, porque ainda devo ser muito amado e incomodar. Pessoalmente me sinto muito feliz ultimamente. Eu não quero saber desses prêmios todos – Grammy (que Morrissey foi indicado por Your Arsenal) ou BPI – porque eles não me dizem nada. Não preciso que alguém me diga o quão bom é meu disco ou não. Eu sei exatamente quem sou e sei também que fiz algumas canções ruins nos últimos tempos. Aliás, qual é a importância de um prêmio como esse? Para mim, o mais importante é terminar um disco que me deixe feliz e não vai ser uma estátua que me trará essa felicidade.”

Mas Morrissey teve algumas tristezas, como a morte de alguns amigos, Mick Ronson incluso nesta lista. Os outros foram Tim Broad, diretor de alguns vídeos para Morrissey e seu antigo empresário Nigel Thomas.

“Eu conversei com Mick dias antes dele morrer e ele me parecia tão feliz, tão entusiasmado e falava que queria voltar a compor algumas canções comigo e voltarmos ao estúdio. Ele sempre teve uma atitude positiva sobre sua doença e sempre fazia planos para o futuro. E dias depois sua esposa me ligou para dizer que ele havia morrido. Foi muito doloroso e me sentia tão ligado a ele, que passei muito mal e nem conseguir ir ao seu funeral. As três mortes me deixaram arrasado e muito deprimido. Tim e Mick sabiam que iriam morrer, mas Nigel foi repentino e isso fez de meu ano, terrível.”

Mas um das coisas boas daquele ano foi poder trabalhar com o produtor Steve Lillywhite. “Ele é um cara muito talentoso e um pessoa muito bondosa e me ajudou muito.”

Vauxhall and I marcou o encerramento de um ciclo com a EMI, após seis anos de relacionamento profissional. E Morrissey foi se alojar na casa de um antigo ídolo…

2 – Na casa de Elvis Presley

capa do disco Southpaw GrammarNo ano seguinte, Morrissey lança um novo disco, talvez o mais estranho de toda sua carreira: Southpaw Grammar.

Para começar, o disco só tinha oito faixas, sendo que a primeira, “The Teachers Are Affraid Of The Pupils” tinha mais de 11 minutos e a última, “Southpaw”, mais de 10 minutos. Estaria Morrissey fazendo um disco de rock progressivo?

“Bem, realmente gostaria de continuar de onde o Van Der Graaf Generator parou. Mas, não, na verdade nós apenas não conseguíamos parar o gravador. Veja, ainda são canções pop, certo? Nós evoluimos enormemente como músicos desde que nos tornamos um grupo e isso possibilitou experimentarmos mais em estúdio.”

O disco marca a estréia de Morrissey pela gravadora RCA. “Eu saí da EMI porque estava lá há muito tempo. Foram sete anos e deixei muitos bons amigos. Apenas me pareceu a coisa certa de se fazer. E vim para a RCA porque o nome soa bem, não? Além disso era a casa de Elvis Presley.”

Morrissey afirmava que a vida na Inglaterra estava terrivelmente difícil para ele e que pela primeira vez pensava em morar em outro país: “alguns realmente esperam que eu me mate ou suma de vez. Não que eu vá fazer o que os outros desejam, mas fico pensando se não é uma boa idéia. Alguns me perguntaram o que achei do suicídio de Kurt Cobain. Bem, eu fiquei triste e com inveja ao mesmo tempo. Ele teve coragem para realizar o ato e sempre admirei pessoas que se auto-destróem porque eles estão no controle de seus atos e se recusam a continuarem infelizes, o que mostra um tremendo auto-controle. Deve ser assustador sentar, olhar para um relógio e dizer que não mais fará parte desse mundo em 30 minutos. E o mundo moderno adora esse tipo de coisa. Mas eu não darei esse gosto a ninguém.”

Embora o disco tenha algumas músicas difíceis isso não impediu que ele chegasse ao quarto lugar das paradas. Mas mesmo com o sucesso, Morrissey continuava perseguido pela imprensa e até por algumas novas bandas, como o Oasis, também de Manchester.

“Tudo começou porque fiz um comentário irônico e alguém já saiu publicando em primeira página. Era natural que eles viessem me criticar. Mas eu gosto do grupo e acho Noel muito divertido. Fico feliz que um grupo de Manchester esteja fazendo sucesso novamente.”

E, embora tenha se dado bem na RCA, Morrissey deixou o selo no ano seguinte. E pela primeira vez estava sem uma casa em qualquer lugar, já que as gravadoras inglesas simplesmente o baniram. Mas Morrissey tinha construído uma imensa legião de fãs nos Estados Unidos e em pouco tempo assinava com a Mercury para lançar seu último disco dos anos 90…

3 – Maladjusted

Nova casa de todas as maneiras. Após deixar a EMI e a RCA, Morrissey resolve radicalizar e mudar também para Los Angeles. Mas a primeira experiência durou pouco, apenas duas semanas.

“O fato é que deixar a Inglaterra me aterrorizou. Sim, a Inglaterra me enlouquece, mas não me imagino vivendo em outro país. Morrissey tinha também uma casa em Dublin, na Irlanda, onde passava algum tempo, mas sem jamais morar na cidade.

E tendo novamente a produção de Steve Lillywhite pelo terceiro disco seguido, Morrissey entrou em estúdio e produziu um portentoso trabalho: Maladjusted.

capa do disco MaladjustedMaladjusted é seu disco mais raivoso e revoltado. Culpa dos inúmeros problemas legais que chegavam ao final, como o processo de Mike Joyce contra ele e Johnny Marr e que acabou sendo ganho pelo ex-baterista. Mike Joyce afirmou, após terminado o julgamento, que não fazia isso por dinheiro, embora o montante fosse de grande utilidade para escorar seu filho e esposa. Joyce ganhou cerca de 1 milhão de libras e Morrissey e Marr ainda tiveram que arcar com as custas de todo o processo de quase 10 anos, que ficou em mais 250 mil libras.

“O mais triste é que fui chamado de mentiroso, truculento e traiçoeiro e isso maculou minha ficha.” Mas o pior estava para vir, pouco tempo depois, quando a Mercury faliu. O pior é que Morrissey havia assinado um contrato longo e ficou preso a ele, o que impedia que ele pudesse imediatamente ir para um outro selo.

Morrissey a caminho do tribunal, em 1996 Maladjusted fez pouco sucesso, embora seja um bom disco, bem gravado e onde ele disparou farpas contra seus ex-colegas Mike Joyce e Andy Rourke.

Após o processo de Joyce, Andy Rourke pensava em reabir o caso contra Morrissey e Marr, dizendo que as 83 mil libras que havia recebido anos antes não era suficiente para viver e que queria seus direitos. Morrissey, contrariando os conselhos, resolveu contra-atacar legalmente. “Nunca vou perdoar Mike e nem Andy. Como podia ficar sendo xingado pelo juiz que arrancou dinheiro meu apenas porque achou que eu era o que ele pensava?”

Embora o ódio tenha pautado seu disco, uma faixa merece um destaque: “Wide to Receive”. Morrissey conta que a fez pensando nas pessoas que se conhecem pela internet. “Sempre achei curioso ver as pessoas angustiadas em frente a um computador, esperando um e-mail que nunca chega.”

casa de Morrissey em Los AngelesLogo após o julgamento, Morrissey mudou definitivamente para a América, Los Angeles, em especial. Lá, comprou uma casa projetada por Clark Gable, que a deu de presente para Carole Lombard, que morreu em um acidente de avião antes de mudar para lá. Depois a casa teve como morado o ilustre escritor F. Scott Fitzgerald, autor de O Grande Gatsby.

Morrissey começou então a fazer shows com pouca ou nenhuma ajuda. Batizou sua turnê de “Oye Esteban”, segundo ele em homenagem ao cantor El Vez, um mexicano que plagia Elvis Presley.

Entre 1997 e 1998, duas coletâneas foram editadas: Suedehead: The Best of Morrissey reuniu seus maiores sucessos durante os anos na EMI e My Early Burglary Years é uma colcha de retalhos, embora interessante.

Morrissey só conseguiu ficar livre da Mercury no final de 1999 quando o selo foi comprado pela Universal e o liberaram. Mesmo assim, Morrissey seguiu em frente com seus shows e chegou a passar pela América do Sul, inclusive no Brasil, em 2000, onde fez shows lotados e concorridos. Morrissey chegou a dizer que amou a platéia brasileira e considerou sua estadia aqui como uma das melhores de sua carreira.

Enquanto não achava uma gravadora, começou a compor novas canções. Com um provisório título de “Irish Blood, English Heart”, o disco falaria dos anos de ostracismo e de suas origens. Em uma entrevista de 1999, Morrissey mostra como ser um inglês com sangue irlandês é um fardo.

“Muitos dos professores que eu tive eram irlandeses, inacreditavelmente brutais e, em muitos casos, homossexuais. É chocante pensar no que era permitido e como as crianças eram mal tratadas dia após dia. Minha educação em Manchester foi violência e brutalidade. Assim que você entrava na sala era cruelmente espancando. Me ensinaram a não ter auto-estima e sentir vergonha sem motivo algum. Veja, o que aquele juiz disse ficará nos arquivos para sempre e se eu for processado no futuro, basta alguém recorrer àquelas palavras e perderei sempre. Eu era da classe trabalhadora e fui feito para me sentir um camponês.”

Morrissey e banda no programa de Janice LongMorrissey tocou algumas dessas músicas em shows durante os anos de 2000 a 2002. Em um programa na BBC da radialista Janice Long, Morrissey falou de sua vida em Los Angeles e de seu futuro. Afirmou que nunca mais viu nenhum dos ex-Smiths e que não há a menor possibilidade de reestabelecer a amizade com Johnny Marr, após tantos problemas.

Sobre Los Angeles, disse que gosta da cidade por duas coisas: tem muito sol e porque ele pode andar calmamente pelas ruas sem ser incomodado como é o caso na Inglaterra. Morrissey passou uns meses também na Irlanda, em sua casa, e disse que o país é muito mais receptivo que a Inglaterra.

Em 2003, Morrissey surpreendeu ao anunciar que havia assinado com a Sanctuary Records, que estava ressucitando o selo Attack para o novo disco do cantor.

O Attack foi um selo que existiu entre 1969 e 1980 e voltado para o reggae. Na entrevista coletiva, o diretor Merck Mercuriadis comentou: “Morrissey é um dos mais importantes artistas dos últimos 20 anos e estamos maravilhados que ele tenha dado a nós a oportunidade de liderar uma importante fase em sua carreira. com um acordo como esse. No início das discussões, Morrissey provou ser um grande conhecedor de nosso catálogo da Trojan Records e expressou o interesse em usar o selo da Attack no lançamento de seus discos, assim como ele usava o selo da HMV nos lançamentos da EMI. Estamos muito gratos em acomodá-lo e esperamos que achemos novos artistas para usar o selo da Attack. A Attack Records será uma reflexão de sua criativa visão e de uso exclusivo. A Sanctuary Records Group inclui artistas da Rough Trade Records, Fantastic Plastic, Trojan Records e bandas como The Strokes, Spiritualized, The Libertines, Ween, Death In Vegas, British Sea Power, Pet Shop Boys, The Beatings, Tricky and The Futureheads.”

capa do disco You Are the QuarryE assim, em 2004 Morrissey lança You Are the Quarry, um clássico e um dos melhores (ou o melhor) disco do ano.

Mantendo a dupla de guitarristas Boz Boorer e Alain Whyte, além do antigo baixista Gary Day e o baterista Dean Butterworth, Morrissey se travestiu de gângster na capa e como a metralhadora indicava, saiu atirando para todos os lados.

Morrissey não perdoou o estilo de vida dos norte-americanos, na primeira faixa “America Is Not The World”. A segunda é a poderosa “Irish Blood, English Heart” e a terceira a genial “I Have Forgive Jesus”, onde conta um pouco da violência que sofria quando criança. Para quem acha que entende e conhece Morrissey à fundo, ele dedicou “How Can Anybody Possibly Know How I Feel?” e aos idiotas que tanto o perseguem, “The World Is Full of Crashing Bores”.

capa do disco Live At Earl's CourtEmbora, seja um disco com duas guitarras, o clima é mais lento e Morrissey impressiona pela excelente forma vocal com que executa as composições. Outra canção que merece comentários é a cômica “All The Lazy Dykes”, algo como “todas as sapatonas vagabundas”.

Desde que o disco saiu, Morrissey segue inabalável dando shows pelo mundo e no final de março de 2005, o mundo conhecerá um outro disco ao vivo, Live At Earls Court.

caixa de singles 1988-1991caixa de singles 1991-1995

Se alguém puder dispor de um bom dinheiro e tiver interesse em ter todos os singles de Morrissey nos anos em que ele gravou pela EMI, de 1988 a 1995 pode adquirir duas preciosidades, lançadas em 2000: The CD Singles, Vol. 1: 1988-1991 e The CD Singles, Vol. 2: 1991-1995, que contam com a arte original de cada single.

Desejando que Morrissey passe pelo Brasil em breve, novamente, deixo vocês com a discogradia do maior letrista dos últimos 25 anos. Um abraço e até a próxima coluna.

Discografia

Viva Hate (1988)
Bona Drag (1990)
Kill Uncle (1991)
Your Arsenal (1992)
Beethoven Was Deaf (1993)
Vauxhall and I (1994)
Southpaw Grammar (1995)
World Of Morrissey (1995)
Suedehead: The Best of Morrissey (1997)
Maladjusted (1997)
My Early Burglary Years (1998)
The CD Singles, Vol. 1: 1988-1991 (2000)
The CD Singles, Vol. 2: 1991-1995 (2000)
The Best of Morrissey (2001)
Under the Influence (2003)
You Are The Quarry (2004)
Live At Earls Court (2005)

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