O diabo não pode salvar o mundo – Alberto Morávia

Sou um velho diabo, sim, muito velho, mas nem um bom diabo nem, menos ainda, um pobre diabo. Se se pensar que, nos últimos cem anos, me dediquei sobretudo ao progresso científico e que, os conhecimentos que resultaram da bomba de Hiroshima, fui eu a sugeri‑los, um a um e rapidamente, aos maiores cientistas do século, em troca das suas almas, a começar pela de Albert Einstein ‑ terá que se reconhecer que não sou um diabo menor.

Neste ponto, haverá talvez quem queira saber como é que um homem, sob tantos aspectos, simplesmente angélico como Einstein, pode alguma vez vender a alma àquele que é habitualmente designado como o inimigo da humanidade. Para responder a essa pergunta, é necessário recorrermos à psicologia característica dos chamados espíritos criadores, sejam eles ou não inspirados pelo diabo. Já ouviram falar de um poeta que tenha renunciado alguma vez a publicar um verso da sua autoria? De um pintor que tenha destruído uma tela que lhe parecia perfeita? Os cientistas não são diferentes. Nenhum dos que assinou pacto comigo se sentia inclinado a renunciar às descobertas que eu lhe ia proporcionando, embora, sem dúvida, todos eles se dessem lucidamente conta de que eram descobertas absolutamente diabólicas. Einstein não era, de maneira alguma, excepção a esta regra, e sabia muitíssimo bem que as suas invenções conduziam diretamente a qualquer coisa terrível, indizível; mas posso garantir‑vos que essa consciência não pesou para ele um segundo sequer nos pratos da inclinável balança do mal e do bem. No máximo, procurava não pensar no caso, lançar a responsabilidade das catástrofes previsíveis e previstas para os ombros de cientistas que introduziram desenvolvimentos posteriores nas suas descobertas e dos chefes de Estado que delas se serviram, como se verificou mais tarde.

 

Nem tudo é límpido, porém, nestes contratos diabólicos. Há os que, chegado o momento, se recusam a pagar a dívida; há outros que pretenderiam um êxito suplementar, mais poder e glória; há, por fim, os que procuram enredar‑me, ou seja: que gostariam de levar a melhor sobre o diabo. Houve, finalmente, o caso único de Gualtieri, a quem eu gostaria de devolver a sua dívida. E esta é a história verídica dessa tentativa.

 

Gualtieri, quem não o conhece? Quem não o viu já, pelo menos em fotos? Um homem de idade e, ao mesmo tempo, de aspecto juvenil: alto, magro, e elegante; com um rosto sedutor, simultaneamente severo e sorridente: olhos penetrantes à sombra de fartas sobrancelhas negras, cabelos de prata, grande nariz encurvado e impreciso, boca altiva e nobre. E com este aspecto, para dizer pouco, impressionante, tem ainda a voz mais suave e as maneiras mais convincentes que é possível imaginar. Este homem extraordinário, ela já era, quando ainda estudante, me aproximei dele pela primeira vez, no intuito de fazê-lo assinar a carta fatal.

 

Já o conhecia de nome, através do seu professor de Física, Palmisano, outro sábio que me vendera a sua alma, mas sem qualquer resultado, dada a sua inacreditável preguiça patológica. Quando estava morrendo, Palmisano me dissera: “Tanto pior para mim: condenei‑me para nada. Mas quero recomendar‑te o Gualtieri, o meu melhor aluno, um verdadeiro gênio em potência, que, se decidir-se em fazer o pacto com você, pode ter certeza que vai revolucionar a ciência, pondo a ferro e fogo o seu campo, hoje ainda tão tranquilo.”

 

Esta recomendação inspirou‑me um ardente desejo de entrar em contato com Gualtieri. Hesitei longamente sobre a melhor maneira de fazê-lo. Que aparência deveria eu assumir para lhe aparecer e me apresentar? A do companheiro de estudos? A do industrial em busca de novos engenhos para o seu laboratório? A da mulher apaixonada? Ative‑me nesta última possibilidade. O disfarce que prefiro é o da figura feminina. Até porque acompanha a tentação do sucesso com a outra, muitas vezes irresistível, a tentação do desejo.

 

Com esta idéia na cabeça, comecei a seguir Gualtieri por onde quer que ele andasse, apresentando‑me ora como aluna da universidade onde ele ensinava, ora como mulher casada num dos salões ou grupos que ele costumava frequentar, ora como prostituta à esquina da sua rua. Estas mulheres em quem encarnava eram todas de notável beleza e procuravam de todas as maneiras fazer compreender a Gualtieri que estavam dispostas a satisfazer‑lhe todos os caprichos. Mas Gualtieri, então um homem ainda novo, com cerca de trinta anos, não se dignava sequer a olhá‑las, demonstrando uma indiferença aparentemente fácil e sem esforço: dir‑se‑ia que, do modo mais simples, elas não tinham para ele o mínimo dos interesses.

 

Já estava desistindo de manter algum contato com ele, quando, um dia, no fim de um verão particularmente abafado, o encontrei no último lugar em que teria pensado vê‑lo: num jardim público. Estava sentado num banco de ripas de madeira, com um livro nas mãos, mas fechado; parecia observar com atenção bem desperta uma coisa à sua frente. Disfarcei‑me de formosa jovem morena, sentei‑me na frente dele, olhei‑o com insistência, até que acabei por me dar conta de que os seus olhos eram para outra coisa que olhavam. Fitava com ar de profunda atenção um grupo de menininhas, entre os doze e os quinze anos que, um pouco afastadas, se dedicavam ao jogo bem conhecido de pular amarelinha. O diabo, como se sabe, é muito intuitivo. Ver Gualteri com os olhos presos nas menininhas, às quais o jogo a todo o momento descobria as pernas bem acima dos joelhos, e decidir que encontrara não só o disfarce adequado, mas também a maneira de fazê-lo assinar imediatamente a carta do pacto infernal, foi fácil.

 

Levantei-me do banco, entrei num bosquezinho do jardim, e aí mudei de aparência (o diabo pode fazer tudo o que quiser neste gênero de coisas!) transformando-me em uma menina com cerca de doze anos, cabeça coberta por abundantes cabelos, busto delgado, pernas esguias e musculosas. Então, em seguida entrei no jogo e a puxei para cima as saias para melhor saltar. Sou o diabo e reconheço que os meus processos são muitas vezes brutais, grosseiros; os hesitações e as ambiguidades não são coisas para mim. Assim, não é de espantar que, para saltar, levantasse a saia muito mais do que o necessário; além disso, não estava usando nada por baixo do vestido, estando portanto sem calcinha. O olhar de Gualtieri descobriu rapidamente esse nada; percebi‑o pela pressa com que subitamente mergulhou na leitura do livro que tinha nas mãos. Pouco depois, separei‑me do grupo e fui ao encontro dele. Estava muito seguro do que fizera; sabia ter acertado de primeira no centro do seu alvo mais íntimo.

 

Aproximo‑me dele; tenho na mão um caderno escolar qualquer, no qual, na primeira página, se encontra escrito em letra gótica (infelizmente, não me desfiz ainda dos meus velhos hábitos de diabo de origem alemã) o texto do contrato habitual. Digo‑lhe com a voz típica de uma menininha petulante: “estou fazendo uma coleção de autógrafos. Não quer assinar o meu caderno?” ‑ e, ao mesmo tempo, ponho‑lhe o pacto debaixo dos olhos.

Ele ergueu o rosto, fitando primeiro as minhas pernas nuas, depois a minha cara. Olhou‑me diretamente, como para se certificar das minhas intenções, e depois perguntou: “Queridinha, o que você quer de mim?”

“Coleciono assinaturas: Quero que ponha a sua neste caderno.”

“Mostre-me.”

Dei‑lhe o caderno aberto na página do pacto. Ele pegou nas folhas e eu, entretanto, como para lhe explicar o que queria, fingi ter comichão no púbis e cocei‑me através do vestido. Ele deitou‑me uma olhadela penetrante e, depois, voltou a examinar o caderno. As letras do texto do contrato deviam, nesse momento, flamejar‑lhe diante dos olhos; mas tenho que reconhecer que nem um músculo do seu rosto se moveu. Leu e releu aquelas poucas palavras e finalmente disse: Então você quer a minha assinatura?”

“Sim, você me faz esse favor.”

“E o que você me dará em troca?”

Vocês pensarão que, neste ponto, seria fácil, para além de lógico, responder‑lhe que estava pronta a fazer tudo o que lhe agradasse no momento e da maneira que preferisse. Pois bem, não, nada disso. Não estava ali para favorecer as suas tendências para o vício, as quais, noutros lugares, ele poderia satisfazer perfeitamente sem ter necessidade de me vender para isso a alma. Não, eu estava ali com um desígnio grandioso: fazer dele um árbitro dos destinos do mundo. Esta ideia encontrava‑se claramente, ainda que sob uma forma breve, indicada no contrato (não há um pacto padrão, cada pacto é sempre pessoal); e ele, sem dúvida, já compreendera tudo no momento em que pousara os olhos na página do caderno. Qualquer coisa semelhante a um abismo devia ter‑se aberto à sua frente, nessa ocasião, no calor abafado do dia estival, na banalidade do jardim público. Depois, lançou‑se de cabeça no abismo, com os olhos fechados, decidido a explorar toda a sua insondável profundidade. Repetiu: “Então, posso saber o que me dará em troca?”

Respondi com a máxima sinceridade: “Tudo o que você quiser.” Ele respondeu com extrema frieza: “então, basta que me dê uma caneta para que possa assinar o caderno.”

Trazia a sacola a tiracolo. Procurei lá dentro, peguei na minha caneta escolar e estendi para ele. Ele assinou com decisão, restituiu‑me o caderno, depois ergueu os olhos para mim, dizendo com uma voz cortante: “e agora é inútil continuares aí parada na minha frente. Vai brincar, vai brincar. E, daqui pra frente, vê se não se esquece de pôr a calcinha”. Era exatamente o que se diz ao diabo quando aparece vestido de menininha. Não fiz com que ele mo tivesse que repetir; disse de um só fôlego: “Obrigada pela assinatura e até breve”, e corri para me reunir ao grupo das minhas colegas.

 

Deste modo, Gualtieri assinou o pacto que, no decurso de trinta anos de trabalho furioso por mim sugerido e inspirado, o fez tornar‑se um dos mais famosos cientistas do mundo. Não obstante a fama e a riqueza decorrentes, ele continuava a ensinar na universidade de Roma. E julgo saber por quê. Digamos que por causa da sua insaciável curiosidade pelo feminino. As suas lições, com efeito, eram muito procuradas por alunas que o aspecto dele fascinava, com a sua mescla, como já referi, de severidade e doçura. Mas nunca me chegou aos ouvidos a menor notícia de qualquer relação amorosa com uma aluna. Também creio saber o motivo de tal correção. Na realidade, Gualtieri deveria ter ensinado não na universidade, onde todos os elementos do sexo feminino ultrapassaram já os dezassete anos de idade, mas numa escola secundária, numa aula guarnecida de menininhas de doze anos do gênero das que o vi observar no jardim. A este seu desejo secreto opunham‑se o nível do seu ensino, a sua fama. Mas quantas vezes, pelo que imagino, ele não deve ter invejado de todo o coração alguns colegas modestos, que lidavam todos os dias com as menininhas ainda impúberes dos primeiros anos do liceu!

É uma regra nunca infringida da relação do diabo com os que assinam o pacto com ele, a de que o credor infernal só se mostre duas vezes: na assinatura do pacto e chegado o momento do pagamento da dívida, o momento da morte do devedor. O diabo pode, todavia, se quiser, vigiar, espiar, seguir de perto a sua vítima, disfarçando‑se de todas as maneiras que lhe pareçam convenientes. Devo confessar que Gualtieri me intrigava independentemente da sua profissão, como homem. Havia nele uma insolência soberba que não me parecia realmente de acordo com a condição de inferioridade em que se colocara a partir do momento em que assinara o pacto comigo. Recordo a este propósito um episódio significativo. Nos primeiros tempos, muito orgulhoso da minha conquista, segui de perto Gualtieri ao longo dos seus numerosos êxitos crescentes. Certa noite, vigiava‑o disfarçado de copeiro, num restaurante onde os colegas o tinham querido homenagear com um banquete. Houve alguém que, entretanto, lhe disse: ” Gualtieri, por acaso você não terá feito um pacto com o diabo?” E ele com uma imensa calma: “não fiz, não, mas estaria pronto a fazer.” “e porquê?” “porque o diabo está hoje numa situação inferior à do homem. Por isso, o pacto, seria eu a fazê‑lo com ele, e não ele comigo. Isto é, não seria ele a ditar‑me as condições, mas eu a ditar a minhas condições a ele.”

Estão vendo! Queria ditar‑me as condições, “a mim”! Tanta presunção me dispôs a achar o ponto fraco desse homem que parecia ignorar o que me devia, e só a mim, o seu estrepitoso sucesso. Queria debelar aquele seu orgulho, de alguma maneira luciferino; quase chegava, com efeito, a pensar que, de nós dois, era ele o diabo. Mas, descoberto o seu ponto fraco, seria fácil voltar a pô‑lo, como se costuma dizer, no seu lugar de mísera criatura humana. Parecerá, aqui, estranho que eu não me desse conta de que o ponto fraco de Gualtieri era a sua ambição desmedida. Mas a inclinação erótica particular de que me servira para o fazer assinar o pacto escondia‑me a realidade, ou seja: que as garotinhas o interessavam, sim, mas não a ponto de as pôr à frente do seu êxito. Em suma, embora o sexo tivesse servido para facilitar o pacto, este referia‑se à ciência e não ao sexo. Mas eu ainda não esquecera o longo e penetrante olhar que Gualtieri lançara às pernas nuas da menininha, a forma que eu assumira para o abordar, nem da sua frase de então: “e ouça, de agora em diante não esqueça de vestir a calcinha”; pareceu‑me por isso, acertado transformar‑me, baseando‑me no nosso primeiro encontro que, na realidade, criara para sempre um certo tipo de relação entre nós dois.

 

Assim, no fim de uma tarde, pus‑me à espera de Gualtieri nos jardins da universidade, à hora do término da sua aula habitual. Disfarcei‑me de mulher de certa idade, com cerca de cinquenta anos, de aspecto modesto e sério, vestindo roupas de cor escura, no entanto, desmentido de modo irrecusável por certo tom inequívoco, fácil de se perceber. Gualtieri caminha de cabeça baixa, mergulhado nas suas reflexões; corto‑lhe bruscamente o passo e digo‑lhe: “Só uma palavra, professor” Ele detém‑se, olha‑me e diz: “desculpe‑me, mas não a conheço e estou com pressa, por isso…” Interrompo‑o no mesmo instante, baixando exageradamente a voz e tratando‑o por você: “Quando você souber o que tenho para dizer, não terá mais pressa.” Ele franze as sobrancelhas e responde: “Mas quem é você?” Eu digo  de repente: “Alguém que o conhece e que pretende fazer-lhe um favor. Espera, ouve só: ela tem onze anos, está intacta, a mãe já concordou e você a terá a disposição neste número de telefone”. E com estas palavras entregou‑lhe um pedaço de papel com o número escrito. De súbito, foi como se um golpe no coração lhe tivesse retirado o fôlego e paralizado as pernas. Parado, pega maquinalmente no papel, abre a boca, hesita e por fim diz: “A mãe concordou?” “Claro” “E ela é virgem? “Com certeza. “Mas parece que você quer lhe tirar a virgindade com o seu caralhão”. De repente, um rubor carregado encheu‑lhe o rosto, como se ele se sentisse insultado e quisesse reagir. Mas, em vez disso, limitou‑se a dizer: “E o número do telefone é este?” “É esse mesmo, eu estou ao lado desse telefone quase vinte e quatro. É só você ligar que a garota chega dez minutos depois.” “com a mãe?” “claro, com a mãe.” Ele parece obcecado, com a idéia da mãe que vende a filha como de qualquer coisa fascinante e incompreensível. Por fim, afasta‑se sem se despedir de mim, metendo no bolso o pedaço de papel com o número do telefone.

Desta feita, estava completamente seguro do êxito da minha intervenção, porque sabia que poucas palavras, imprevistas e peremptórias, ditas no momento devido, podem, em certos casos, como era o de Gualtieri, fazer cair de vez a resistência mais firme. Mas me enganei. Nem no dia seguinte, nem nos que depois vieram, deu Gualtieri sinais de vida. Deste modo, por fim, só gastei tempo e fadiga: porque, embora o diabo tudo possa, encarnar uma velha alcoviteira levá-la aos jardins de uma universidade para oferecer seus serviços a um professor respeitável não é coisa pouca.

No entanto, a perturbação tão visível e profunda de Gualtieri ante a proposta da alcoviteira convencera‑me de que estava no bom caminho: tratava‑se apenas de insistir. Pensei, por isso, numa outra metamorfose, desta vez mais direta. Sabia que Gualtieri estacionava o automóvel perto de casa, num bairro antigo da cidade. Certa noite, sob a aparência de uma garota de treze anos, abri a porta do carro e escondi‑me no banco de trás. Querem saber como ia vestida? Pois direi: exceto por um minúsculo pedaço de pano por cima do púbis, estava completamente nua. Gualtieri sai de casa, entra no carro, liga o motor; então me levanto, tapo-lhe os olhos com as duas mãos e digo‑lhe: “adivinha quem sou eu.” Ele não estremece sequer, não se espanta, aceita imediatamente aquele jogo infantil: “quem é você?” Respondo com a voz arrastada e vulgar de certas meninas pobres: “a minha mãe me pôs para fora de casa porque fiz uma grande besteira. E agora, sem saber para onde ir, vim me esconder no seu carro. Eu conheço você, sei quem você é, vejo sempre você passar por aqui, tenho a certeza de que não vai e expulsar também.” Ele não diz nada; leva a mão ao espelho retrovisor, apanha a minha imagem no espelho. Depois exclama: “Mas você é um menino!” Eu respondo, pondo‑me em pé e tirando o pedaço de pano: “Que menino o que! Olhe bem se eu sou um menino” Ele olha demoradamente e, a seguir, de maneira inesperada, diz: “ah, é verdade, sim, você é uma menina. Ora bem, sai do carro.” Eu protesto no mesmo instante: “A minha mãe me expulsou de casa toda nua e me disse: vai procurar os homens que te dão dinheiro, eles que te dêem a roupa. Não quer comprar uma roupinha para mim?” “Não, vai embora.” “não vou, tenho vergonha de sair assim despida.” Ele não diz mais nada, sai do automóvel, abre a porta de trás, agarra‑me por um braço e tira‑me para fora do automóvel, como se extraísse um molusco da sua concha. Depois volta a entrar para o carro e arranca.

 

Percebi então que deveria ter pensado em algo diferente: um homem como Gualtieri não se deixa caçar por uma alcoviteira vulgar nem por uma prostitutazinha qualquer. Eu pecara por grosseria, excessivamente confiante; era necessária uma tentação mais complexa, mais criminosa, mais estranha, ou digamos até: mais demoníaca. Pensei um bom bocado no problema; em seguida, senti‑me surpreso por não ter ainda pensado no seguinte, que era a primeira coisa que poderia servir ao meu propósito: Gualtieri casara tarde, com uma mulher muito mais nova do que ele, tivera uma filha, depois separara‑se da mulher, e a filha, que tinha agora onze anos, ficava ora com a mãe ora com o pai. Esta filha era o que se chama uma verdadeira beleza; da sua pessoa infantil, mas insolitamente nada imatura, emanava o fascínio de uma sensualidade inconsciente e, por isso mesmo, ainda mais provocante. O que eu tinha a fazer era que Paola, tal era o nome da filha, induzisse o pai em tentação e que Gualtieri, por sua vez, se enamorasse da filha. Por outras palavras, tratava‑se de fomentar um incesto, empresa que, até o diabo, só de má vontade comete, porque, exceto em condições especiais e particularmente favoráveis, a relação sexual entre os progenitores e os filhos encontra‑se submetida a um pesado tabú, contra o qual muito pouco é possível fazer‑se. Ora, por uma vez, tais condições especiais, particularmente favoráveis, existiam: Gualtieri gostava de menininhas. Além disso, a tentação era favorecida pelo carácter soberbo de um homem para quem precisamente o tabú poderia tornar‑se, em certo momento, mais um incentivo do que um obstáculo. Restava a menina. Haverá quem queira saber o que faz o diabo para corromper uma menina de onze anos. Neste caso, foi muito simples. Certa manhã desse verão, transformei‑me apressadamente numa dessas borboletas brancas, que andam pelos jardins. Esvoaçando, entrei pela janela aberta do quarto da filha de Gualtieri. Lá estava a belíssima Paolinha, mergulhada no sono, completamente nua, estendida com as pernas afastadas fora dos lençóis caídos, dado o calor intenso que fazia. Voltejando por aqui e por ali, acabo por pousar no púbis da adormecida, exatamente no ponto onde uma leve prega de carne anuncia o início do sexo. Passa‑se tudo num segundo, mas, nesse segundo, consigo infundir na menina de onze anos a malícia, a deliberação, o desejo de uma mulher de trinta. A minha intervenção “atua”. Para o fim dessa mesma tarde, Paola, como que inspirada, pega no livro de matemática e no caderno e dirige‑se, decidida, ao gabinete de trabalho do pai. Sem bater, entra e diz a Gualtieri, que lia, sentado à sua mesa: “papai você tinha prometido me ajudar no dever de casa, aqui estou.” Gualtieri não pensa em nada de mau, responde que está pronto, indica‑lhe a cadeira ao lado da sua. Mas Paola responde: “Vou me sentar no seu colo, assim verei melhor as correções”; e, sem mais, sobe‑lhe para os joelhos e instala‑se aí o melhor que pode. Aproveito os movimentos dela ao instalar‑se para fazer com que pareça tentando pressionar com as nádegas o membro do pai. Mas isso não basta: Gualtieri julgando que a filha está fazendo aquilo sem querer, pode repelir a tentação de tirar Paola de cima dos seus joelhos. Procedo, por isso, de maneira a que Paola dê a ver que “fez de propósito”. Trata‑se de um dos empreendimentos mais ousados da minha longa carreira: fazer “entender” a Gualtieri que Paola está fazendo de propósito e, ao mesmo tempo, que não se dá conta de que o está fazendo de propósito. Atuo seguinte forma: Paola move‑se, instala‑se nos joelhos paternos e, por fim, eis que consegue “agarrar” Gualtieri. Então se imobiliza de repente, como que atenta a qualquer coisa que está “sentindo”, e a lição pode começar, mas numa atmosfera muito diferente da que envolve habitualmente um bom pai que corrige os deveres da filha. Paola, distraída e pensativa, está sossegada de maneira fora do comum dada a sua costumeira e extrema vivacidade; por seu lado, Gualtieri mostra na voz hesitações inexplicáveis que indicam uma perturbação profunda. Enquanto a lição decorre, entretanto, não fico com as mãos paradas. Para criar uma atmosfera adequada à trágica transgressão do tabú do incesto, arranjo maneira de adensar sobre a cidade um temporal tremendo.

Uma imensa nuvem, escura e parada, suspende‑se sobre os campanários, as cúpulas, os telhados de Roma como uma fonte carregada de pensamentos turbulentos; o gabinete de trabalho fica assim quase às escuras; pai e filha instintivamente tendem a estreitar o seu contato; como se as suas mãos fossem de um outro, Gualtieri, quase incrédulo, arrisca uma carícia tímida. Paola deixa‑o fazer por um momento; depois, bufa de impaciência, pega‑lhe na mão e guia‑a francamente para o ponto certo. Mas Gualtieri tem um último impulso de resistência; com a mão livre acende a luz. Paola então salta dos seus joelhos e propõe: “basta de exercícios. Vamos jogar agora um jogo. Eu vou me esconder; depois, quando acabar de me esconder, eu chamo e você bem me procurar.” Gualtieri aceita: neste momento aceitaria ir procurar a filha no inferno. Paola, sob influência minha, acrescenta ainda uma recomendação: “Se me encontrar não precisa me tocar. Basta gritar o meu nome, porque só estamos nós dois aqui em casa.” E com esta advertência que é na realidade, uma provocação, desaparece na ponta dos pés.

Gualtieri continua sentado à mesa de trabalho e põe a cabeça entre as mãos. Este gesto de desconforto não o impede, porém, daí a um minuto, quando ouve o chamado esperado ‑ “Me escondi. Quero ver se consegue me achar. Ele então se levanta de um pulo e sair apressado do seu gabinete. É nesta altura que eu intervenho de novo, servindo‑me da tempestade. Acabo com as luzes de todo o bairro onde mora Gualtieri; ao mesmo tempo, faço “soar ao longe um trovão rouco e cavernoso, excepcionalmente longo, enquanto um relâmpago ofuscante, num clarão vibrante e intenso, ilumina de modo claríssimo e irreal a sala onde Gualtieri já mexe nas pregas dos cortinados. O relâmpago extingue‑se; o trovão morre ao longe; no escuro e no silêncio do andar ouve‑se apenas o murmúrio difuso da chuva caindo sobre a cidade. Mas, num som claro, eis de repente a voz de Paola que grita: “porque é que não vem me procurar?”

Entre trovões e relâmpagos, Gualtieri, aparentemente já informado do que vai suceder, sai tateando da sala de visitas e avança pela sala de estar. Ora, esta sala, pela sua própria configuração, favorece o meu plano, consistindo este em fazer com que o tabú do incesto seja violado no interior de uma atmosfera demoníaca. A sala é, na realidade, um antigo miradouro, cujos arcos foram fechados por grandes janelões. Se o incesto ocorrer, como é inevitável que aconteça, os relâmpagos, os trovões, e a chuva que lhe servirão de fundo, convencerão Gualtieri de que até a própria natureza se revolta contra o seu horrível crime. Mas é certo que, enquanto qualquer outro no seu lugar se sentiria por isso desencorajado, ele, verdadeiramente possesso, só se sentirá desse modo talvez mais determinado.

Gualtieri, portanto, entra tateando na sala. Tenho razões para crer que, nesta altura, Paola já terá feito certos preparativos e desencadeio assim um relâmpago muito intenso, cujo lívido clarão dura pelo menos meio minuto. Então, no fundo da sala, Gualtieri vê Paola estendida em cima de um sofá, na atitude de convincente expectativa (eh, eh, sou um diabo culto!): as duas mãos juntas atrás da nuca, o peito avançado, o ventre recuado e as pernas bem fechadas. Está completamente nua; a única diferença em relação ao quadro reside no fato de Paola ter arranjado as coisas de modo a que a fenda branca, cheia e implume do sexo seja bem visível, constituindo o centro da visão. O relâmpago extingue‑se por fim e a obscuridade volta a reinar; espero apenas que Gualtieri se lance sobre a filha. Já sei o que vai suceder: no mesmo instante, Paola dissolver‑se‑à em névoa entre os braços do pai e este terá apenas o estofo do sofá para morder. Trata‑se, com efeito, da norma deste tipo de sortilégios diabólicos; são reais apenas até certo ponto, até ao ponto, digamos assim, de ruptura: como os sonhos, para além desse ponto, todas as coisas se tornarem fantasmas da mente perturbada.

Mas esperava-me uma surpresa. No escuro, ouço bruscamente um surto de riso sarcástico, selvagem, e, depois, a voz de Gualtieri que exclama: “um Goya! Um Goya em minha casa! Tenho que conservar a memória desta aparição. Tenho que fazer uma fotografia da minha duquesinha de Alba. Fica quieta, aí. O papai vai tirar seu retrato. E para te iluminar, em vez do magnésio, vou usar estes magníficos relâmpagos tempestuosos!” Dito e feito. Antes de eu ter tempo para me recompor, Gualtieri tira do fundo de um armário uma máquina fotográfica e, depois, entre acessos de riso contínuo e com uma entoação verdadeiramente diabólica, servindo‑se, conforme anunciara, dos “meus” relâmpagos, fotografa uma e outra vez a filha deitada nua em cima do sofá. Inútil contar o que se seguiu, ou seja, como Gualtieri, à força de fotografias dissipou a apetência incestuosa e, no fim, ordenou à filha que voltasse a se vestir para ir estudar mais um bocado. De raiva, suspendo a tempestade antes do tempo. Gualtieri volta para o seu gabinete e eu, derrotado, abandono a partida.

Compreenderam? No último momento, em vez de se descarregar na ação, Gualtieri escolhera a via contemplativa. Recorrera ao antiquíssimo truque da reprodução artística, ou quase. E ainda por cima, apanhara‑me na jogada, servindo‑se dos relâmpagos da “minha” tempestade como de lâmpadas de magnésio. Cheio de mau humor, desfiz imediatamente a carga precoce de luxúria de Paola, levando‑á a cair de novo no torpor da inocência infantil. Quanto a Gualtieri, decidi não mais o tentar. O nosso pacto chegava ao termo dentro de dois anos; restava‑me doravante esperar a meia‑noite do dia fatal e exigir então o meu crédito. Passados alguns dias, soube que Gualtieri aceitara ensinar numa universidade americana e partira para os Estados Unidos.

Alguns poderão objectar agora que, para o diabo que sou, me deixei desencorajar depressa demais. Sinto que devo uma explicação sobre esse ponto. Como já indiquei, foi, na realidade, exatamente por ter favorecido a ambição de Gualtieri que me achava impedido, a partir da noite do temporal, de o tentar de novo através da inclinação pelos amores infantis. Não se podem servir dois senhores. O jovem solitário e inseguro quanto ao seu destino, que se encontrara num jardim público, hesitava ainda entre a ambição e o sexo. Levando‑o a assinar o meu caderno escolar, servira‑me do sexo como de um meio para atingir o meu objetivo, mas ao mesmo tempo, fizera com que ele pusesse a ambição no pico mais alto da sua vida. Incapaz de dominar a sua secreta inclinação, Gualtieri, a partir desse momento, descobrira finalmente na ambição o limite que a simples consciência não poderia lhe garantir.

Um grande cientista não pode passar o tempo a meter‑se com menininhas de escola. Deste modo, Gualtieri salvara‑se no mesmo instante em que, assinando o caderno, se perdia para sempre.

 

Seja como for, durante quase dois anos, desinteressei‑me dele.”; Chegavam‑me da América os ecos dos seus êxitos extraordinários; mas isso não me dava prazer, coisa que não sentia ser estranha, uma vez que, afinal de contas, os seus êxitos eram obra minha. Habitualmente, enquanto espero enviá‑los para a condenação eterna, sigo atentamente os triunfos de todos os que firmaram pactos comigo e não posso furtar‑me a experimentar alguma satisfação, como um artífice competente perante o belo objeto que fabricou. Pelo contrário, no caso de Gualtieri, dei‑me conta de que um insistente sentimento de frustração levava a melhor sobre o costumeiro orgulho artesanal. Porquê? Finalmente, ao cabo de longas reflexões, cheguei à única conclusão possível: tinha me apaixonado por Gualtieri. Alguns pensarão num amor homossexual: o diabo é masculino. Mas não é assim. O diabo pode ser indiferentemente macho ou fêmea, heterossexual ou homossexual. E como seria de outro modo, se entre outras coisas, o diabo pode ser também borboleta? No caso de Gualtieri, eu era feminina, irremediavelmente feminina. Desprezada e repelida por ele sob a aparência que me fora ditada pelas suas inclinações viciosas, enamorara‑me agora dele, como se o próprio disfarce se tivesse tornado a minha segunda natureza. Era mulher e amava Gualtieri e de nada me servia sabê‑lo loucamente ambicioso e cheio de sucesso; queria‑o meu amante e, antes de lhe apresentar o caderno fatal, poder, a qualquer preço, fazer amor com ele.

 

O segundo dos dois anos referidos estava terminando. Então, repentinamente, decidi‑me: iria me encontrar com Gualtieri aos Estados Unidos, procuraria tentá‑lo uma vez mais antes de lhe aparecer com a minha verdadeira aparência de diabo e exigir‑lhe o cumprimento do pacto. Restava-me, porém, resolver a dificuldade do disfarce. Gualtieri ensinava na universidade de A.; Eu me dava conta de que não poderia frequentar as suas aulas, como teria sido necessário, sob a aparência de uma menininha de doze anos. E era, todavia, indispensável que Gualtieri, na minha figura de adulta, descobrisse alguma coisa da menina que outrora o seduzira. Pus‑me a espremer os miolos: um rosto redondo, olhos esbugalhados, franja e traços delicado, um rosto de menina num corpo de mulher? Mãos pequenas, pequeninos pés? Um peito apenas insinuado? Estatura inferior ao normal? Uma a uma, afastava estas hipóteses pela boa razão de que quase todas as mulheres têm, pelo menos, uma destas características e nem por isso são tomadas por meninas. Depois, bruscamente, veio‑me uma recordação à ideia. Na noite em que levara Gualtieri ao limiar próximo do incesto observara no seu gabinete, na parede em frente da sua mesa de trabalho, uma reprodução fotográfica ampliada e emoldurada. Devia tratar‑se de uma fotografia feita por Gualtieri durante uma de suas viagens ao Oriente. Mostrava uma jovem mulher cambodjana, malaia, ou japonesa, que, com uma das mãos guiava uma menina, enquanto com a outra amparava um grande cesto cheio de frutas, que trazia acima da cabeça. No gesto de erguer o braço para segurar o cesto, o tecido que lhe envolvia os flancos, e que formava todo o seu vestuário, abrira‑se na parte da frente, deixando ver o sexo nu. Era um sexo de menina, ou seja, uma simples fenda branca, sem pêlos e com as bordas entumescidas; mas o comprimento da fenda era de mulher adulta: começava pouco abaixo do umbigo e acabava sem que se visse onde, entre a junção das pernas. Um golpe de sabre exposto e por fechar, tanto mais impressionante quanto contrastava com a atitude maternal da mulher fotografada. Enquanto Gualtieri me corrigia o exercício de matemática, olhara para essa fotografia, e pensara que aquele sexo era semelhante ao meu e que, sem dúvida, Gualtieri mandara ampliar e emoldurar aquela fotografia unicamente por causa desse pormenor tão anómalo do sexo infantil num corpo de mulher. Compreendia‑se, em suma, que tudo o mais não o interessara, já que a fotografia nada tinha de curioso para além desse pormenor: era uma dessas fotografias que os turistas trazem aos milhares das suas viagens ao Oriente. Ficava o problema, aliás, pouco interessante, de saber se a fotografia fora casual ou, pelo contrário preparada de antemão. Inclinava‑me mais para esta segunda hipótese; imaginava muito bem Gualtieri pegando uma boa máquina para obter aquela pose da moça malaia: uma menina pequena pela mão e um cesto carregado de frutas na cabeça. Eu o via depois abrir a cobertura da mulher como um pano de boca de cena, apenas o suficiente para deixar ver completamente o sexo nu, tão invulgar e surpreendente com o seu aspecto infantil e as suas dimensões adultas, para alguém como Gualtieri descobrir semelhante anomalia, uma mulher com um sexo de menina, deveria ter sido como, para um colecionador de selos, encontrar um exemplar até aí impossível de encontrar.

Então, compreendi pela primeira vez que não eram tanto as meninas com o seu sexo, e o seu sexo apenas, com o seu colorido, o seu desenho e o seu relevo próprios, o que fascinava Gualtieri. Paradoxalmente, podia pensar‑se que ele se sentisse extremamente atraído pelo contraste entre um corpo adulto e um sexo infantil. Talvez se enamorasse de uma velha se o sexo dela tivesse as características do de uma garota. Além disso, ficava assim explicada uma das muitas fotografias que me tirara na tarde da tempestade: de muito perto, com um dos joelhos em terra, visando visivelmente com a objetiva o centro do meu corpo.

 

Não hesitei mais. Criei uma figura de acordo com as observações atrás mencionadas: uma mulher não excessivamente nova, na proximidade dos trinta anos, alta, com um corpo de adulta em tudo, exceto no sexo. Este último, pretendi que fosse exatamente como o de uma menina, só que monstruosamente grande: branco, sem pêlos e bordas túmidas. Acrescentei seios baixos e abundantes, com uma consistência branda e contornos resolutamente maternais, flancos estreitos, um traseiro reduzido, pernas bem torneadas e compridas. Por fim, recordando‑me da fotografia da jovem malaia, tentei que o meu rosto tivesse certos traços euroasiáticos: olhos um pouco oblíquos embora não propriamente mongólicos, nariz e boca minúsculos, cabelos pretos e lisos. Além do mais, contava com o fato de, nos Estados Unidos, os euroasiáticos serem em grande número: deste modo, recordaria a Gualtieri a moça malaia sem, ao mesmo tempo, dar muito na vista. Último pormenor: seria inteligentíssima sobre todas as matérias versadas por Gualtieri no seu seminário. Pensava assim fasciná‑lo por meio de duas monstruosidades simultâneas: sexo enorme e cultura nunca vista.

 

Muito satisfeita comigo mesma, apanhei o avião e, no termo de uma viagem demorada, aterrei no aeroporto de A., em pleno deserto. O Estado onde se encontra A. é famoso pela sua central nuclear, onde continuamente se realizam experiências atómicas; a universidade, no fundo, não passa de um apêndice da central. O seminário tinha a sua primeira sessão quando me apresentei na sala de aula e me sentei na primeira fila. Gualtieri, justamente nesse momento, estava anunciando o tema do seminário: as possibilidades a longo prazo dos futuros desenvolvimentos das descobertas mais recentes. Era um tema que realmente prometia muito; após a aula, que incidiu sobre questões gerais, aproximei‑me de Gualtieri e apresentei‑me. Compreendi logo que ele não me atribuía a menor importância: para ele, eu era apenas uma aluna entre muitas. Então, aproveitando um momento em que o apanhei sozinho, lancei‑lhe a flecha de uma observação de índole científica, pressupondo um conhecimento superior ao dos seus alunos. Uma observação da qual, para dizer tudo, não haveria mais do que três ou quatro pessoas no mundo a poderem considerá‑la em todo o seu alcance. Vi Gualtieri estremecer e fitar‑me surpreendido por baixo das suas fartas sobrancelhas negras. Depois, perguntou‑me em que universidade me formara, e eu respondi‑lhe que vinha da universidade de Tóquio. Fiquei muito feliz com a surpresa que lhe inspirara; doravante, já não lhe seria possível confundir‑me com os seus outros alunos. Mas isto era apenas o começo. Agora precisava fazer com que ele se apaixonasse por mim; e sabia com toda a segurança que só o conseguiria por meio da exibição do meu inacreditável, nunca visto e monstruoso sexo infantil.

A empresa não era fácil: é mais simples exibir o saber do que uma anomalia sexual. Para falar verdade, desde o início, seja porque, pelo menos nos primeiros tempos, precisava de fazer o papel de estudante instruída e inocente, seja porque esperava ainda não ser obrigada a exibir‑me, pretendi recorrer às manobras normais, através das quais uma mulher procura atrair as atenções do homem que ama. Sentava‑me, como já disse, na primeira fila, não tirava os olhos dele e tentava, por meio de olhares, expressar sem reserva os sentimentos de amor que experimentava perante ele. Mas rapidamente tive que reconhecer que Gualtieri não alimentava o menor interesse por mim ou, pelo menos, pela parte da minha pessoa que lhe era visível. Para ele, eu era uma elegante moça euroasiática, uma das suas numerosas alunas; muito sabedora, sem dúvida, ou mesmo espantosamente informada, mas era tudo. Que fazer?

Procurei abordá‑lo de novo, a pretexto da matéria que ele expusera ao longo da sua lição. Mas agora, passada a primeira surpresa perante os meus excepcionais conhecimentos, Gualtieri, como rapidamente verifiquei, em vez de se interessar mais por mim, tendia a fugir‑me. Perguntei‑me muitas vezes qual seria o motivo de semelhante atitude. Seria embaraço perante o sentimento que eu, nos meus olhares, tão claramente deixava transparecer? Ou seriam os meus conhecimentos científicos que o intimidavam? Após longa reflexão, disse para comigo que Gualtieri devia estar já bastante habituado ao fato, de resto lisonjeiro para a sua vaidade, de as alunas se apaixonarem por ele. Mas havia no modo como procurava fugir de mim qualquer coisa que, pelo contrário, eu não compreendia. Eu era a sua aluna mais inteligante e mais brilhante, porque tentava ele, então, manter‑me à distância? Por fim, foi o próprio Gualtieri que me forneceu uma explicação.

 

Isso sucedeu quando o seminário ia já pelo meio. As exposições de Gualtieri tinham‑se tornado ultimamente cada vez mais difíceis e obscuras; ao mesmo tempo, penetrava‑o, visivelmente, um humor estranho, entre a violência e a melancolia. Mostrava‑se rude e simultaneamente triste, impaciente e simultaneamente como que toldado. Dir‑se‑ia que um pensamento dominante e inconfessável o atormentava cada vez mais à medida que o tempo passava. Naturalmente, eu sabia muito bem que pensamento era esse: dentro em breve, algumas semanas apenas, chegaria o prazo em que eu me apresentaria diante dele, com o meu rosto verdadeiro, cobrando o preço dos meus favores interesseiros. Mas, estranhamente, tinha a impressão de que não era somente o pacto que o atormentava; havia algo mais. Mas o quê?

 

Subitamente, as aulas sobre o futuro desenvolvimento da ciência assumiram um carácter ao mesmo tempo fantástico e catastrófico, pelo menos para mim, que, entre todos os alunos, era a única à altura de entender onde Gualtieri queria chegar. Ou porque ele falava agora sobretudo por enigmas, ou porque se recusava, perante qualquer pedido de esclarecimento, a dar explicações, numerosos alunos desertaram das suas aulas: as maneiras bruscas do professor, o seu discurso obscuro e, em geral, a atmosfera carregada desconcertavam a maioria. Por fim, ficámos muito poucos, numa sala bastante grande. Na primeira fila, estava apenas eu. Depois, duas ou três filas de bancos atrás, encontravam‑se dispersos não mais de uns doze outros estudantes.

Então, imprevistamente, durante uma exposição particularmente árdua, ocorreu‑me uma iluminação. Gualtieri falava daquela maneira porque, segundo toda a evidência, aludia a uma descoberta pessoal sua que ele ainda não revelara aos demais. Ninguém, portanto, para além dele, sabia nada acerca dessa descoberta; o que significava, por conseguinte, que ninguém, exceto eu, poderia dar‑se conta do seu alcance. Nesse dia, tomei uma quantidade de notas; depois, chegando em casa, procurei articular os fragmentos recolhidos. O que pude, por fim, entender fez com que eu empalidecesse. Recordo que ergui os olhos da mesa de trabalho e, por um momento, olhei fixamente pela vidraça da janela o deserto cinzento e frio, por cima do qual morria um sol vermelho de fogo. Voltei a debruçar‑me sobre os meus papéis, retomei o estudo das notas e, finalmente, tive que me convencer de que a minha primeira intuição fora justa: Gualtieri, na realidade, estava falando do fim do mundo. Era a isso e a nada mais do que isso que, com efeito, levavam os desenvolvimentos futuros da ciência a que dedicara o seu seminário.

Compreendia agora ‑ ou, pelo menos, intuía ‑ o drama profundo de Gualtieri. Chegara a conclusões catastróficas; ao mesmo tempo, encontrava‑se sob a ameaça de uma catástrofe pessoal. Uma e outra entrelaçavam‑se. Realmente, se Gualtieri não tivesse vendido a alma, não teria feito a sua descoberta e justamente essa descoberta, obtida pelo preço da catástrofe pessoal, ameaçava agora provocar a catástrofe universal.

 

Esta intuição muito humana fez‑me rapidamente compreender qualquer coisa que a minha natureza de diabo até então me escondera: estava ali já não para tentar Gualtieri e para o humilhar através do seu vício, mas porque o amava. Compreendi a ele pelo sentimento de compaixão afetuosa e inteiramente feminina que experimentara ao contemplá‑lo enquanto ele falava da sua cátedra, sabendo‑o tão triste e desesperado. Sentia vontade de estar perto dele, de lhe acariciar o rosto, de apertá-lo contra mim, de lhe dirigir palavras meigas. Mas a este sentimento amoroso opunha‑se a minha consciência dos limites que ao amor impunha o fato de eu ser um diabo. Já disse que sabia perfeitamente que, no momento preciso em que Gualtieri me abraçasse e me penetrasse, eu me desvaneceria como névoa ao sol. Quando a minha ideia era ainda a de punir Gualtieri pela sua soberba, servindo‑me do seu gosto por meninas, imaginara que o fato de me desvanecer nos seus braços conferiria à punição um carácter de escárnio muito adequado à minha natureza demoníaca. Mas agora que descobrira que o amava, dava‑me conta de que, dos dois, seria eu a escarnecida.

 

Me desvanecer justamente no momento supremo, inefável; e além disso, não poderia voltar a aparecer‑lhe a não ser sob a minha horrível aparência de diabo, a exigir‑lhe a sua alma de acordo com o habitual ritual implacável. Era uma magra consolação, de que prescindiria de boa vontade: não queria a sua alma numa outra vida, queria‑a nesta vida que estávamos vivendo juntos! É, todavia, característico da natureza humana, que eu adotara, continuar a esperar com o corpo, mesmo quando a mente já desesperou. Deste modo, a certeza que possuía de me desfazer em fumaça mal a hora do amplexo amoroso chegasse, não influía sobre os meus sentimentos para com Gualtieri. Embora sabendo que jamais poderia unir‑me carnalmente a ele, sentia‑me impelida na sua direção por uma atração física violenta; e quase esperava, sim, secretamente esperava, que, pelo menos neste caso, a norma infernal pudesse ser transgredida. Mas o que era essa esperança, de certo modo desesperada e, seja como for, sem o menor alicerce real, senão o meu amor? Senão esse amor que, originalmente, me deveria ter servido para caçar Gualtieri e em cujos laços, pelo contrário, era eu agora a ver‑me caída? Assim, decidi aplicar o que havia intuido para forçar Gualtieri a conceder‑me um encontro fora da universidade, se possível em sua casa. No final da lição seguinte à que me esclarecera, aproximei‑me dele e, falando em voz extremamente baixa, disse‑lhe como se de uma confidência se tratasse: “Parece‑me que o desenvolvimento da ciência, como nos mostrou em seu seminário, levam diretamente ao fim de tudo. É isto, não é verdade? Foi isso o que quis dizer?”

Senti‑me impressionada pelo aspecto dele: magro, macilento, com as sobrancelhas hirsutas encimando os olhos encovados e febris; o nariz aquilino, fazia‑o parecer uma ave de rapina, com as penas eriçadas e hostis, pronta a agredir quem quer que ousasse aproximar‑se dele. Com efeito, respondeu‑me quase com raiva: “Não estive falando de coisas insignificantes. Basta dizer  que você compreendeu.”

“E apesar de tudo, é claro: de certas premissas só se pode chegar a um resultado.”

“Que premissas, diga?”

A sua voz era tão áspera que preferi responder: “gostaria de ter uma entrevista com você, talvez em sua casa, para discutirmos todas estas questões.”

Ele exclamou, sempre com a voz alterada: “Em minha casa? Não pode ser.”

“Mas porque é que não pode ser? Tudo é possível aos homens de boa vontade.”

Ele disse então, brutalmente: “Olhe, desde há algum tempo que percebi o que você pretende de mim. Mas acontece que não estou apaixonado por você e creio que jamais estarei.”

“Tem a certeza absoluta?”

“Arranje um amante, um desses rapazes que vêm aqui às aulas, já que está tão precisada. E deixe‑me em paz de uma vez.”

Estas últimas palavras foram ditas em voz alta; por sorte, os outros alunos tinham já saído e estávamos apenas dois ali, a sós. Olhei a sala, onde todas aquelas fieiras de bancos vazios pareciam encorajar‑me a uma maior intimidade; por um instante, senti a louca tentação de despir a reduzida mini‑saia, que envolvia as minhas pernas como uma bainha, e fazer‑me possuir, como qualquer fêmea de cão ou gato, por trás, ali mesmo, atrás da cátedra de Gualtieri. Foi um momento de desejo tresloucado e violento; em seguida, com uma moderação mais humana, decidi limitar‑me a declarar o meu amor. Mas algo do desvario inicial, bestial e inocente, deve ter ficado na voz muito baixa e cheia de humildade com que respondi: “Amo a você e é só a você que amo”, uma vez que Gualtieri, talvez comovido, me acariciou o rosto, perguntando: “Me ama de verdade?”

Respondi com ímpeto: “Amo tanto você!”

Ele disse com um tom resoluto: “Não pense mais nisso. Não estou disponível, não há nada a fazer.”

Recuperei a coragem e expliquei audaciosamente: “Tenho motivo para crer que há no meu corpo um pormenor físico que possivelmente te agradará. Na próxima lição, farei de modo a que esse pormenor seja visível a você. Se realmente gostar do que vou te mostrar, peço  que me faça um sinal de assentimento, baixando os olhos, assim e, e cerrerei lentamente as minhas pálpebras. Ele olhou‑me por um momento, perplexo e talvez já perturbado. Depois, disse num tom paternal: “Você é uma moça estranha.”

Peguei‑lhe na mão, levei‑a aos lábios e beijei‑a com paixão. A seguir, com um débil “até amanhã”, desapareci.

 

Na tarde do dia seguinte, antes de me dirigir ao seminário, tirei do armário um vestido cambodjano, casaco e calças, de tecido preto, então com tesoura, agulha e linha, alargo a abertura na parte da frente, no local correspondente ao púbis, depois reaplico o fecho que tinha descosturado: agora, vestidas as calças do conjunto, o fecho mal chega a correr até acima; bastar‑me‑á soltar a lingueta que o prende para que o meu ventre cheio e elástico de mulher jovem irrompa da roupa demasiado cingida, pondo em evidência o meu incrível sexo de menina. A minha ideia era sentar‑me como de costume na primeira fila e, numa ocasião propícia, soltar o fecho das calças e, ao mesmo tempo, abrir, como se fosse um pano de palco dando para o espetáculo do meu sexo, as duas abas do casaco. Desse modo, Gualtieri teria debaixo dos olhos, durante toda a sua lição, esse pormenor físico estranho e, para ele, irresistível, que no dia anterior eu me gabara de poder proporcionar‑lhe.

 

Notei imediatamente, mal a aula começou, que Gualtieri parecia perturbado. Falava num tom de fadiga, alternando frases pronunciadas apressadamente com silêncios demasiado prolongados, não tanto como quem não conhece bem aquilo de que está falando, mas antes como alguém que não consegue concentrar‑se no seu discurso por ter o pensamento preso a outra coisa. Segui a exposição sem excessiva atenção, a não ser do olhar; queria surpreendê‑lo com a minha exibição na altura em que ele olhasse para baixo, na minha direção. Gualtieri falava, com a cabeça apoiada na mão, os olhos orientados para o fundo da sala. Depois, eis que ele se endireita, começa a encher um copo de água. Prevenida, solto a lingueta do fecho, as calças abrem‑se no mesmo instante, o ventre irrompe e eu afasto então as abas do casaco, abro as pernas, destacando o púbis para fora. Nesta posição quase horizontal, sei que a fenda branca e túmida do sexo é visível em toda a sua dimensão invulgar, do fundo das coxas entreabertas até quase ao umbigo. É o mesmo sexo infantil que há trinta anos o fez assinar o caderno no jardim público; que a alcoviteira lhe ofereceu uma vez à saída da universidade; que a pequena prostituta de onze anos lhe mostrou despindo-se no automóvel; que, finalmente, a filha o deixou fotografar tão demoradamente e com tamanha complacência durante o temporal que fiz abater‑se sobre Roma. É o sexo com que ele sonhou toda a vida e que a ambição o impediu de gozar a não ser em sonhos. Agora esse objecto privilegiado e obsessivo dos seus desejos mais secretos é exibido, proposto, oferecido, num momento em que ele já nada tem a perder se o aceitar e consentir com o seu próprio agrado.

Tinha a certeza de que nenhum dos poucos alunos que se distribuíam pelo fundo da sala poderiam me vez, e por isso, não hesitei em conservar aberto todo o tempo possível o pano de cena das duas abas do casaco. Pensei até, em certa altura, em passar a mão pelo púbis, como fazem algumas vezes as meninas, inconscientemente impúdicas e provocantes. Então, enquanto espalmava distraidamente a mão por cima do ventre, olhei à volta e vi que a porta da sala estava entreaberta e que dois olhos brilhantes me espiavam pela fresta. Quase no mesmo instante, virei o olhar para Gualtieri: o vi beber a água que pusera no copo e, por cima da borda deste, notei claramente que os seus olhos imprimiam às pálpebras, cerrando‑as, em um movimento de acordo.

A natureza feminina é extremamente impressionável ainda que esteja apenas servindo de disfarce a um diabo. Depois de ter visto aqueles olhos que me espiavam, senti‑me mais morta do que viva; à minha segurança habitual sucedera um sentimento confuso de medo e de vergonha. Bem podia repetir para comigo: “Lembre-se que você é o diabo!”; continuava a experimentar os sentimentos de uma mulher jovem que sabe ter sido espreitada enquanto cedia a uma galanteria demasiado audaz. Este sentimento de medo transformou‑se em pânico, quando a porta se abriu por completo e um rapaz de blue jeans e blusão quadriculado, cabelos ruivos e olhos cerúleos brilhantes, veio sentar‑se ao meu lado. Naturalmente, mal vira o sinal de assentimento de Gualtieri, apressei-me em fechas as calças. Mas compreendi logo que era tarde demais. O meu vizinho escreveu um bilhete e depois me passou para as mãos, sem se dar sequer ao trabalho de dissimular o que fez de modo conveniente. Não pude deixar de ler o seu conteúdo. Com os devidos termos, ele elogiava aquilo que eu estivera exibindo para Gualtieri; depois, de forma decisiva, dizia que esperasse por ele no fim da aula. Pus o bilhete no bolso e com o coração em alvoroço olhei para Gualtieri: a lição terminara e ele estava levantando-se. Então, deixei o meu lugar de um salto e fui colocar‑me a um passo da cátedra, exatamente na altura em que Gualtieri vinha descendo. Segredei‑lhe veladamente: “estou perdida, aquele tipo de cabelo ruivo me viu”. Gualtieri compreendeu imediatamente, olhou para o estudante que, nesse momento, se levantou; depois me disse: “Vamos sair juntos, me dê o braço e converse comigo.”

Exclamei com uma vivacidade fingida: “que magnífica lição, professor, posso fazer‑lhe só uma pergunta?”, e ao mesmo tempo enfiei o braço no dele, e tive a alegria de sentir que ele o apertava num sinal de estreita cumplicidade. Depois, respondeu-me, sem olhar para mim, num tom de circunstância: “Quem pergunta aqui sou eu. Você é mesmo naturalmente daquele jeito naquele lugar?”

“Como? Sou assim desde criança. Estou aos trinta anos, igual ao que era aos oito”

“Você não se depila, nem faze nada parecido?”

“Depilar‑me? E para que eu precisaria disso? Nunca tive a sombra de um pêlo.”

Estávamos agora já fora da sala de aula, no corredor. De repente, o rapaz de cabelos ruivos e olhos cerúleos e brilhantes cortou‑nos o caminho: “Professor Gualtieri, esta é a minha namorada. Por favor, temos um encontro esta noite.”

Eu respondi um tanto histericamente: “Não é verdade, não temos encontro nenhum.”

O rapaz mostrava‑se, ao mesmo tempo, embaraçado e decidido. Disse, estendendo uma das mãos e agarrando‑me o braço: “vamos, vamos, sei que brigamos, mas já passou tudo, venha cá, se despeça do professor e vamos embora”

Segurava‑me com força o braço, fitava‑me nos olhos com as pupilas cintilantes, parecia um pouco louco. Eu respondi: “Isso é loucura, nunca vi você antes.”

O pequeno rosto triangular dele mostrava‑se duro, como que de pedra, ao alto de um pescoço forte e musculoso. Acabou por me responder em voz baixa, como se quisesse excluir Gualtieri do diálogo: “em compensação, eu a vi muito bem.”

Desta vez, Gualtieri interveio com uma autoridade convencional e fingida: “Você deve estar enganado, ela é minha filha e a verdade é que não conhece você. Como você de fato também não a conhece. Sabe por acaso como ela se chama?”

O rapaz, com o rosto pequeno por cima do pescoço robusto, não disse nada. Os seus olhos falavam por ele. Percebia‑se que estava com vontade de gritar a verdade, que me vira com o púbis exposto em intenção do homem que dizia ser meu pai. Mas, afinal de contas, tratava‑se de um rapaz bem educado, e não de um arruaceiro. Limitou‑se a pronunciar entre dentes: “belo pai”.

Gualtieri arrastou‑me rapidamente, quase a passo de corrida, para fora do edifício. Poucos minutos depois, rodávamos de automóvel pelo deserto, em direção ao horizonte ainda incendiado pelo pôr do sol. Gualtieri conduzia com intensa concentração, como quem pensa com afinco em qualquer coisa sobre a qual consegue chegar a uma conclusão segura.

Finalmente, disse: “a propósito, aquele estudante não sabia o seu nome. Mas agora reparo que também não sei.”

Senti‑me pouco à vontade. Sem dúvida, tinha um nome no passaporte, que mostrara à polícia, quando chegara ao aeroporto. Mas eu o esquecera. Disse ao acaso: “Chamo‑me Ângela.”

Apesar de tudo, era um nome que dizia a verdade: o diabo é um anjo caído, expulso do céu, precipitado na terra. Ele respondeu com seriedade, como se falasse consigo mesmo: “Não, vou tratar‑te por Mona”

“Mona, por quê?”

“No dialeto veneto, significa aquilo que você me mostrou durante a aula. Mas, ao mesmo tempo, é um diminutivo de Demônia. De resto, aqui na América, há muitas mulheres chamadas Mona.”

“Demônia”, repeti, “porquê Demônia?”

“ou Mefista”.

Queria dizer que ele compreendera. Ou melhor, punha‑se a adivinhar, movido por uma suspeita mais do que legítima. Por um instante, interroguei‑me sobre o que aconteceria se admitisse, perante ele, que era o diabo. Gualtieri, horrorizado pela ideia de que, sob aparências tão amáveis, se escondia o velho e repugnante bode infernal (é assim que a humanidade me imagina e figura desde há tempos imemoriais, embora, na realidade, eu seja um espírito e, como tal, possa ser qualquer coisa), deixaria de querer fazer amor comigo, esse amor impossível ao qual eu aspirava, porém, de todo o meu coração. Por isso, decidi negar rapidamente e por completo: “Mas que ideia? Não entendo.”

Ele respondeu após um momento de silêncio, falando entre dentes: “porque você é o diabo. Reconheça o fato e será tudo mais simples.”

O que ele queria dizer com aquele “tudo”? A fatal revelação da meia‑noite já próxima? O amor? Respondi: Sei por que você acha que eu sou o diabo. No seu lugar, francamente, eu pensaria o mesmo. “

Tínhamos chegado, depois de um prolongado trajeto, a um grande espaço asfaltado no meio do deserto. Grandes candeeiros, suspensos de postes altíssimos, iluminavam, como se fosse dia, aquela espécie de enorme largo completamente deserto. Havia um pequeno número de automóveis estacionados à volta: uma grua e um par de automóveis do exército americano. Ao fundo, entrevia‑se a barreira fechada de um recinto rodeado de arame farpado, a perder de vista para um e outro lado, desaparecendo na escuridão, agora total, da noite. Gualtieri deu meia volta, parou o carro numa zona de sombra, ao abrigo da luz ofuscante das grandes lâmpadas. Apagou os faróis, mas acendeu a luz interior do automóvel; depois, virou‑se para mim: “Porque é que, na tua opinião, eu penso que você é o diabo?”

“Porque parece que só o diabo poderia induzir a você em uma tentação de maneira tão particular.”

Olhou‑me de través, por baixo das espessas sobrancelhas. “não foi bem a maneira que achei diabólica. Foi antes a coisa que você me mostrou.”

Fingi que não percebia: “O que é que um sexo de mulher pode ter de diabólico?”

Ele respondeu numa voz meditativa: “O certo é que só o diabo poderia conhecer a minha preferência erótica particular.”

Senti um impulso autêntico atrair-me na direção dele; atirei-lhe os braços ao pescoço e murmurei‑lhe ao ouvido: “Se te dá prazer, imagina então que sou o diabo. Na realidade, sou apenas uma pobre moça, muito, muitíssimo feliz por estar agora aqui com você e te agradar.”

Beijava‑o atrás da orelha, nas têmporas, no rosto, procurando os seus lábios com a língua. Mas ele virava a cara, obstinadamente. Então, segredei‑lhe: “Quer fazer amor aqui no automóvel? Olha, vou mostrar novamente vez aquilo que te perturbou tanto durante a aula. Olha, você pode ver, tocá-la, ela é sua, só para você. “

 

Na minha perturbação, nem sabia o que devia dizer. Experimentava, ao mesmo tempo, um desejo violento e um igualmente violento desespero, porque sabia que não era possível fazer amor com Gualtieri: no momento do amor, eu me dissolveria em fumaça. Mas o desejo era mais forte do que o desespero; e foi com uma estranha esperança de infringir a lei a que até então me sabia subjugada, que lancei as duas mãos ao fecho, abri e afastei o mais que me foi possível a roupa à volta. Entretanto, estirava‑me no automóvel, tanto quanto me permitiam as suas dimensões, abria as pernas e sussurrava enlouquecida: “aqui está ela, vê, você gosta dela, vem pra cima de mim, mete aqui dentro.” Esperava naquele anseio de algum modo tresloucado pelo desespero, que ele me possuísse ali. Mas Gualtieri, pelo contrário, repeliu-me com suavidade e depois estendeu a mão na direção do meu ventre, não para me acariciar, como por um momento ainda pensei, mas tão só com a intenção de me fechar as calças abertas à frente. Porém, não o conseguiu, porque o meu ventre, transbordando das calças muito apertadas, o impedia de correr o fecho. Depois, disse de súbito: “está bem, não se cubra. Enquanto falo, poderei olhar e isso me dará coragem.”

Verifiquei, deste modo, que continuava a existir nele um apetite insaciável pelo que fora a origem da sua tragédia. Sentei‑me um pouco de lado, no assento do automóvel, de modo a ele poder olhar‑me à vontade e respondi: “Olhe o quanto quiser. Mas o que é que você tem para me dizer? Porque precisa de coragem para me falar?”

Ele ficou calado por um momento, e depois começou, indicando com a mão o largo deserto, que entretanto era atravessado, numa espécie de trote tranquilo, por um animal que parecia um cão ou um chacal: “Sabe onde estamos? Em frente do recinto que veda o terreno onde se fez explodir o mais recente artefato nuclear. Seja você ou não o diabo, deve saber que se te trouxe aqui, foi para te dizer uma coisa estreitamente relacionada com o uso dado a este lugar.”

Fingi uma vez mais não perceber e disse num tom ligeiro: “Mas é possível que você, um grande cientista, célebre em todo o mundo, acredite no diabo?”

A resposta dele foi estranha e ambígua: “não acredito, é evidente, como havia eu de acreditar no diabo? Mas o certo é que há toda uma série de elementos da realidade que tendem a me fazer crer que o diabo existe.”

Quis minimizar aquelas palavras: “Que elementos? O fato de eu saber que você gosta de um sexo depilado? Ora, tentei advinhar e o acaso quis que eu acertasse.”

“Em primeiro lugar, é já bastante diabólico que você tenha adivinhado com tanta exatidão a minha, chamemos assim, especialidade erótica. A qual, precisamente, não é o sexo depilado, mas o sexo infantil. Mas não é disso que se trata agora, trata‑se de uma coisa muito diferente.”

“De quê?”

Ele olhou à volta: pelo largo asfaltado, o cão ou chacal desaparecera; tudo ali era luz, solidão e silêncio. “Trata‑se daquilo”, disse por fim, indicando a entrada do recinto, “embora em íntima ligação com isto”, e apontou o meu sexo nu. “Para possa compreender essa ligação, essa confusão, tenho que saltar até trinta anos atrás.”

Encoragei‑o com simpatia: “Pois bem, vamos dar esse salto para trás.” Gualtieri disse, como que falando consigo próprio: “Se você for o diabo como ainda penso, poderás verificar que falo a verdade: só o diabo a conhece, só ele poderia desmentir‑me. Se você não for o diabo, se for apenas uma moça apaixonada por mim, talvez aprecie a minha confiança: é a primeira pessoa do mundo a quem conto estas coisas.”

Assim começou Gualtieri o que depressa se revelou ser a história de toda a sua vida, da longínqua adolescência até ao presente. Falava‑me de maneira ordenada, simples, racional; falava precisamente como um famoso cientista; só que a sua voz, afeita à fria estranheza das demonstrações científicas, procurava agora iluminar o panorama de uma vida que nada tinha de simples, ordenada ou racional. Era a vida de um homem que, desde o fim da infância, quisera servir a dois senhores igualmente exigentes: a ambição e o sexo. Este último, com o passar do tempo, especializara‑se, por assim dizer, da maneira que se sabe. A este propósito, Gualtieri disse‑me que a sua mais secreta inclinação se manifestara da primeira vez com uma menina de doze anos, absolutamente em nada diabólica, filha da sua porteira, que ia muitas vezes ao seu apartamento levar‑lhe o correio. Entre o estudante de vinte anos e a garota de doze nascera uma ligação amorosa que, segundo Gualtieri, nada tinha de vicioso: a especialização pedófila ainda não se instalara. O amor com a garota durara, sem remorso ou escrúpulo algum, com plena satisfação de ambas as partes, um inverno inteiro. Depois, a menina viajou para visitar os avós na província e ele ficara com a nostalgia de qualquer coisa que – são palavras suas ‑ se assemelhava muito à relação que deve ter existido entre Adão e Eva antes da expulsão do Paraíso.

Naturalmente, procurara repetir a experiência, mas os resultados foram tão ruins que o fizeram jurar a si próprio não voltar a cair. Quantas vezes, antes de renunciar definitivamente, tentara Gualtieri regressar ao Paraíso dos amores infantis? Não me disse, limitando‑se a referir-se muito vagamente a dois ou três encontros “preparados”, ou seja, ocorridos não diretamente como da primeira vez, mas por intermédio dessas figuras cuja aparência eu própria tomara quando o abordei uma vez à saída da universidade. Estes encontros fizeram‑no cair numa degradação tão profunda que chegara a pensar na idéia do suicídio. Mas não se matara; continuara a conviver com as suas duas paixões, a da ambição, ainda longe de cumprimento adequado, e a da carne, já recusada e reprimida, embora permanecendo presente como tentação.

Estavam as coisas nesse pé, quando o surpreendi no jardim público a olhar para as pernas das garotas, numa atitude que demonstrava eloquentemente que recusa e repressão podem, em certos casos, tornar‑se um incentivo e um condimento da tentação. Curiosamente, Gualtieri forneceu uma versão muito semelhante à minha do nosso primeiro encontro. Disse‑me que as provocações da garota o haviam perturbado profundamente, de tal modo que decidira que, se a tentadora se aproximasse dele, se libertaria dos escrúpulos, abandonando‑se definitivamente à sua fatal paixão. Dava‑se conta de que isso significaria o fim da ambição; mas, como ele próprio me disse, nesse momento preciso, tinha para si mais importância a observação do sexo, ora visível ora não, da menina que jogava, do que todas as maravilhosas descobertas de Albert Einstein. No entanto, continuava consciente de estar prestes a arruinar‑se para sempre; e assim, quando a garota lhe pusera debaixo dos olhos a fórmula do pacto infernal, experimentara um imenso alívio: melhor era condenar‑se na outra vida por causa da ambição do que nesta por causa de umas virilhas infantis nuas. Esta explicação, como já disse, coincidia com a minha: também eu pensara que a ambição levara a melhor sobre o sexo porque o pacto viera a ser a garantia absoluta de que Gualtieri a poderia satisfazer para além das suas esperanças mais exaltadas. Mas, entretanto, ele acrescentava: “Resta o fato de que assinei num momento de fraqueza, quase de ruína. E essa fraqueza, essa ruína haviam sido provocadas já não pelas perspectivas de êxito científico, mas pela visão daquele sexo infantil tão parecido com o seu.”

Nesse ponto, deverei apresentar uma indicação importante acerca do modo de assinatura do pacto infernal. Portanto, o diabo deverá fazer saber à sua vítima os termos do pacto, mostrando‑os escritos em letras nítidas numa folha, sobre a qual a vítima porá a sua assinatura. Mas, uma vez lido o pacto, eis que, por um dos numerosos mistérios da relação existente entre o diabo e os homens, a escrita desaparece como se tivesse sido traçada com uma tinta que se evapora, sumindo‑se; pelo que o condenado, o que assina, na realidade, é uma folha branca. Se se quiser saber porque é que isto sucede, poderei responder o seguinte: provavelmente, sucede porque se pretende que o condenado se condene com plena liberdade de escolha, duvidando até ao último momento, sem saber ao certo se não sofreu uma alucinação ou um sonho. Assim foi igualmente com Gualtieri. Ele disse‑me, com efeito, que no momento de assinar se dera conta de que as letras do pacto desapareciam da folha. Mas pensara imediatamente que tal desaparecimento não devia modificar a sua decisão. Tanto melhor, se se tivesse tratado de uma alucinação causada pelo que ele chamava a sua ruína. Tanto melhor: pelo menos, colocando a ambição acima do sexo, salvar‑se‑ia de um destino que lhe repugnava e que era algo que, acima de tudo, queria evitar.

Perguntei‑lhe então porque é que, uma vez que nem sequer tinha a certeza de ter assinado o pacto, acreditava agora no diabo com tanta convicção que chegara a imaginar que ele talvez se encontrasse escondido sob a minha inocente aparência de jovem euroasiática. Fingiu não ter ouvido a alusão à nossa relação presente e disse que a prova de que o diabo existia e de que ele próprio assinara realmente o pacto estava nas características atuais da investigação científica, tal como as interpretara e decifrara após trinta anos de sucesso crescente e ininterrupto. Sim, o fato de a garota diabólica o ter levado, no fundo, a assinar o pacto, não já através da promessa do êxito e da glória, mas da exibição do sexo infantil, esse fato parecia demonstrar que o diabo continuava a contar sempre com os velhos e tradicionais meios sexuais. Só que não era assim: na investigação científica é que residia atualmente a força do diabo. Depois, prosseguiu: “Para que compreenda melhor estas provas que demonstram a existência do diabo, vou retomar a história da minha vida desde os primeiros tempos até ao momento em que decidi fazer‑me cientista. Até porque, quando rapaz, não me sentia atraído pela ciência, mas antes, o que te poderá parecer estranho, pela poesia. Nesse campo, era de uma ambição extrema; queria vir a ser um novo Leopardi, um novo Helderlin. No entanto, como tinha um interesse vivo, apesar de tudo, pela ciência, inscrevera‑me na faculdade de Física. De resto, pensava que não havia contradição entre a poesia e a ciência: na antiguidade, os poetas eram também cientistas e os cientistas, poetas. E, com efeito, devo ao exercício da poesia ter compreendido muito rapidamente certas coisas fundamentais acerca da criatividade. Quero dizer que, todas as vezes que me parecia ter escrito uma poesia menos má do que o habitual, então, me dava conta de que isso acontecera porque, enquanto escrevia, não estava só. Junto a mim, advertia com segurança a presença dessa entidade misteriosa que outrora se chamava inspiração e que prefiro indicar pelo nome de demônio. Era esse demônio quem me ditava por dentro; era ele que me fazia dar o salto de qualidade da fria cogitação até a isso a que é necessário dar o nome de canto. Perguntará você neste ponto: “Mas essas poesias eram realmente belas? “E eu respondo: era o melhor que eu podia escrever. O meu melhor era, porém, o pior de um autêntico poeta. Em suma, o demônio, inspira tanto os bons como os maus poetas. É uma questão de presença, não de poesia. Se estiver presente, o demônio te fará escrever exatamente a poesia que você é capaz de escrever, nada mais.”

Concluindo, as suas poesias eram ruins?”

“Provavelmente, sim. Pelo menos, é o que se deve pensar, porque, a certa altura, abandonei a poesia pela física. Mas, como já disse, a poesia servira‑me para adivinhar a existência e a função do demônio.”

“Ou seja, do diabo.”

“Devagarinho: para já, digamos apenas demônio. E passemos depois ao diabo. Portanto, dedico‑me apaixonadamente à física; a poesia desaparece da minha vida. Vou com uma bolsa de estudos para os Estados Unidos e torno‑me o melhor aluno do célebre Steingold. Ele era então já um homem de idade muito avançada, e, judeu de origem, era igualmente um grande leitor da Bíblia. Ora, um dia, quando estávamos falando da nossa profissão, ele saiu‑se com a seguinte frase singular: “Deus é doravante impotente, o vemos por inumeráveis indícios. O poder passou para as mãos do diabo”. Perguntei‑lhe porque dizia uma coisa dessas, ele um homem crente e praticante. Respondeu‑me: “Porque se Deus fosse poderoso não permitiria nem por um instante o progresso da ciência e sobretudo deste ramo da ciência a que você e eu nos dedicamos”. Insisti, tentando saber mais do seu pensamento; mas ele fechou‑se com as seguintes e definitivas palavras: “A impotência de Deus talvez seja ainda um sinal do seu poder. “Deus decidiu a perda da humanidade; dá-se por impotente e deixa atuar o diabo.”

“Muito pessimista, o seu Steingold.”

“Pensa bem, afinal de contas, ele ainda cria em Deus. Enquanto eu não creio em Deus nem no diabo, mas apenas em mim mesmo. De qualquer modo, não voltei a falar nem de Deus nem do diabo com Steingold. Terminado o seminário anual, voltei a Roma e continuei a dedicar‑me com a mesma paixão às experiências da física nuclear. Já não pensava em Steingold nem no que ele me dissera; mas devo ter recordado a conversa no dia em que fiz a primeira das muitas descobertas a que devo a minha celebridade. E eis o motivo: no decurso do trabalho, dei‑me conta de que todas as vezes que dava o salto qualitativo da cogitação para a invenção, me acontecia pensar nostalgicamente e com desejo nos meus amores infantis de havia muito. Depois, estranhamente, uma vez que expulsava esses fantasmas do espírito e me reaplicava ao estudo dava‑me conta de que alguém, ou seja, o demônio, e, por conseguinte, o diabo, me fizera dar o salto da criação. Sim, não havia dúvida, o demônio agia primeiro raramente, depois de modo cada vez mais frequente e sempre em conexão com a minha especialidade erótica. Ora, como não ver a relação entre a renúncia ao sexo e a criação científica? E entre o que poderia ter sido a minha ruína e o que parecia ser a minha glória?”

Nesta altura, interrompi‑o: “Mas ainda não me disse por que é que esse demônio se transformou no diabo.”

“É simples. Estava já muito adiantado na investigação que, mais tarde, desembocaria na descoberta final de que falei, embora em termos algo enigmáticos, durante este último seminário quando fui surpreendido pela seguinte reflexão: todo o progresso científico do último século, do ponto de vista da utilidade para a humanidade, que surge, por fim, quando está já tudo dito e é a única coisa que deveras então conta, fora, de modo absoluto, completamente negativo. As nossas descobertas são maravilhosas em si e para si mesmas; mas a sua aplicação tecnológica dirige‑se por inteiro à destruição final da humanidade. Quando as descobertas parecem úteis, como, por exemplo, no caso da criação de novas fontes de energia, podemos ter a certeza de que a mesmíssima utilidade teria podido ser obtida por outros meios. O carácter autodestrutivo do progresso científico encontra, todavia um corretivo poderoso na positividade implicada pela consciência de que nos aproximamos cada vez mais da verdade. Por isso, sucede que muitos cientistas levaram a termo as suas investigações sem se preocuparem com as suas aplicações práticas. Sentiam‑se justificados pela certeza de caminharem pela estrada real da ciência e não lhes interessava irem além dessa consciência. Os efeitos das suas invenções não lhes interessavam; diziam respeito aos chefes de Estado, aos ministros, aos generais, Mas eu não podia deixar de recordar as palavras de Steingold acerca da doravante e comprovada impotência de Deus e do conseqüente reforço dos poderes do diabo. Daí, fui levado a chegar à única conclusão possível: o demônio que estava a meu lado durante as minhas experiências, dado o caráter totalmente autodestrutivo da nossa ciência, esse demônio não podia deixar de ser o velho diabo, o inimigo da humanidade, tantas vezes descrito num passado ainda bastante recente. Sim, um desenvolvimento científico que conduz diretamente ao fim do mundo, não pode ser, ainda que com o consentimento de Deus, senão obra do diabo. Por isso, repito : não acredito no diabo; mas acredito nos indícios que demonstram a sua existência.” Ficou calado por um momento e depois acrescentou de maneira inopinada: “O diabo cumulou‑me de favores. “Tudo leva a crer que, de acordo com a lógica diabólica, não possa deixar de se manifestar dentro em breve, ou seja, à meia-noite.”

Não esperava aquela conclusão imprevista; senti‑me desconcertada; exclamei: “Desculpa, mas nesta meia‑noite por quê? Porque é que o diabo deverá aparecer logo nesta meia‑noite e não na meia‑noite do ano que vem”

Ele respondeu com toda a seriedade: “Porque nesta meia‑noite completam‑se exatamente trinta anos desde que encontrei o diabo e lhe vendi a minha alma em troca dos seus favores.”

“Mas não está falando sério! Primeiro, diz que não acredita nem em Deus nem no diabo, mas apenas em si próprio. Agora me vem com um absurdo desses: vendeu a alma ao diabo. Onde está a lógica de tudo isso”

“Mas é assim mesmo. Em poucas linhas, no caderno da garota do jardim, estava escrito que o pacto duraria trinta anos. Esta noite esses trinta anos chegam ao fim.”

Era verdade. O pacto referia‑se a trinta anos: um tempo suficiente para a construção de uma carreira. Exclamei: “essa garota não passava de uma garota. E foi você quem imaginou isso tudo, o pacto, os trinta anos, a meia‑noite.”

A resposta de Gualtieri foi estranha: “Mesmo que tenha sido eu a imaginar, que importa? Isso quer dizer apenas que o diabo não está fora de mim, objectivamente, mas dentro de mim, de modo subjetivo. O resultado vem a ser o mesmo.”

Sem se dar conta, ele colocava assim o problema maior da minha existência diabólica: o fato de, no momento do abraço, eu me desvanecer em fumo. Como os sonhos que o desejo inspira. Como os fantasmas que presidem à masturbação. Falei de maneira impetuosa: “o diabo não está nem fora nem dentro de você. Não pense mais no diabo; entrega‑se à vida.”

 

“Quer dizer ao seu amor, não é verdade” Suspirou e depois prosseguiu: “De qualquer modo, se o diabo me voltasse a aparecer disfarçado de garota, desta vez, condenação por condenação, não hesitaria em fazer amor com a garota, mas sob uma condição”

“Que condição?”

“Primeiro, era preciso que o pacto fosse dilatado por um período de mais trinta anos. E depois que o diabo me assegurasse uma carreira em sentido oposto à que tem sido a minha até agora.”

“Que sentido seria esse?”

“Como posso dizer? No sentido de uma descoberta que salve a humanidade da catástrofe doravante inevitável. Mas não podemos falar com ligeireza destas coisas. Embora salar delas, é que eu tenha trazido você aqui, perto do local onde se deu a explosão.”

Senti-me mortalmente perturbada. Compreendia onde ele queria chegar e dizia‑me, com o coração em alvoroço, que me colocava em um dilema: ou aceita as minhas condições ou não fazemos amor. Disse, então, fingindo não ter notado que a frase se referia a mim de modo característico: Será assim. Mas você não se dá conta de que o diabo pode fazer tudo exceto aquilo a que geralmente se chama o bem. Salvar a humanidade, não vê que é isso justamente o que o diabo não poderá jamais fazer?

Gualtieri tinha os olhos fixos em mim, parecia excitado com a perspectiva de estar prestes a fazer o que se proibira ao longo de toda a sua vida. Exclamou: “ora, o diabo pode fazer tudo, até o bem.”

“Mas quem é que te disse isso”

“Diga-me você.”

“Eu, por que eu?”

Apontou‑me bruscamente um dedo ao peito: “porque você é o diabo; é o diabo, fora de toda a dúvida, porque só o diabo podia saber que a sua monstruosa conformação, por exemplo, me enlouquece. Mas sou eu quem tem a faca e o queijo na mão. Você gosta de mim e eu digo: ou você prolonga o prazo e afeta a minha futura carreira de uma forma positiva, ou não fazemos amor: ficamos com o pacto antigo, tomará a minha alma e a humanidade continua a seguir direto à catástrofe.”

Agora mil sonhos explodiam como fogo de artifício na minha cabeça. Sim, era verdade, eu me dizia. O diabo só pode fazer o mal; mas talvez o diabo apaixonado, dada a imensa força do amor, possa também fazer o bem? Seria um milagre; mas o diabo tem que acreditar em milagres, caso contrário que diabo será? Respondi, ao mesmo tempo desesperada e esperançosa: “não sou o diabo, sou uma pobre moça que, como você diz, está apaixonada por você. Vamos fazer amor e logo verá que não sou o diabo.”

“Por quê? Como é que verei tal coisa?”

Não quis dizer a verdade ‑ que, com o diabo, não se faz amor, porque, no melhor momento, tudo se desfaz em fumaça. Retorqui: “Você o verá à meia‑noite. Quando se der conta de que nenhum diabo aparecerá para levar a sua alma”

As minhas palavras eram sinceras. Faria amor com ele, lhe concederia um prazo suplementar de trinta anos, viveria esses trinta anos ao lado dele, inspirando‑lhe descobertas benéficas, em proveito da humanidade. Que me importava? Para conseguir a satisfação do meu desejo incandescente estava disposta a fazer até o bem.

 

Mas ele respondeu com um ardor estranho: Nada disso. Quero fazer amor precisamente com o diabo. Excita‑me a ideia de que, sob essa sua aparência tão graciosa, se oculta o velho bode fedorento. Quero fazer amor com ele e só com ele. A pobre moça apaixonada por mim não me interessa para nada. “Farei amor com o diabo e depois sigo para o inferno.”

Lancei um olhar em volta, por todo o imenso espaço daquele terreno asfaltado, numa agonia de medo e de incerteza. Depois, decidi‑me, atirei‑lhe os braços à volta do pescoço e gritei: “Sou o diabo, sim, sou o diabo e o amo. E agora que já sabe, vamos fazer amor, sim, pelo amor de Deus, vamos fazer amor os dois, porque sinto que desta vez haverá um milagre e a seguir poderemos viver juntos e felizes para sempre.”

Gualtieri não disse nada. As nossas duas bocas se unem, as nossas línguas misturam‑se, as nossas mãos orientam‑se na direção certa, a minha arrancando‑lhe das calças um membro extraordinariamente grande e rijo, a sua afastando os lábios nus e túmidos de desejo do meu sexo de menina. Ele sussurra‑me: “Vem por cima.” E eu, desembaraçando‑me o melhor possível, monto nos seus joelhos, no estreito espaço interior do automóvel. Segredo‑lhe, anelante, ao ouvido: “Me aperta, enfia dentro. Não vê que sou uma mulher de carne e osso e não um fantasma de fumaça?”

E dizendo isso, lanço‑me para adiante, impetuosamente, com os flancos, deixando o meu sexo entreaberto frente ao seu pênis em estado de ereção. Um impulso mais, enquanto as nossas bocas se estrangulam num beijo e o membro dele me penetra profundamente na vagina. Com um suspiro de alívio sinto que tenho um ventre real, de carne e não de fumo, no qual agora se encontra mergulhado um pênis também real, de carne e não de fumaça; começo a agitar furiosamente o corpo, com as coxas estreitando os flancos dele, os meus braços à volta do seu pescoço, o queixo nos seus ombros, os olhos voltados para o espaço, visível através dos vidros do automóvel. Depois, o meu olhar cai no braço que lhe rodeia os ombros e vejo, no relógio de pulso, que é meia‑noite. No mesmo instante, com indizível horror, sinto que vou me desvanecer. Contra a minha vontade, apesar do meu espasmódico desejo de permanecer real, dou‑me conta de que estou me transformando na matéria impalpável de que são feitos os sonhos, os fantasmas. Dissolvo‑me pedaço a pedaço: primeiro a cabeça, o pescoço, os braços, o peito; depois os pés, as pernas, a bacia. Por fim, resta apenas o meu incrível sexo de menina, branco, sem um pêlo, entumescido por uma luxúria insaciada. Semelhante a um desses círculos de fumo que os fumantes mais hábeis conseguem introduzir a volta da ponta acesa do charuto, a abertura oblonga do sexo mantém‑se por um momento suspensa na extremidade do membro de Gualtieri; depois, gradual e molemente, começa a desfazer‑se, a desaparecer. Agora, entre os braços e os joelhos do meu amante não há já mais do que um tênue fumo trémulo, que poderia muito bem ser uma consequência do motor sobreaquecido do automóvel. E Gualtieri olha surpreso e desgostoso para o seu próprio membro que, estendido para fora das calças, ejacula, com espasmos intermitentes e violentos, onda sobre onda de sêmen.

É realmente assim: o diabo pode fazer, e fazer com que seja feito, tudo exceto o bem. E quem imagina possuí‑lo acaba por abraçar o nada.


Alberto Morávia – Contos eróticos

2 comments

  1. Extraordinario !!!! Meus parabens, voce tem um imaginaçao notavel!!!
    Por acaso nao quer adaptar este texto para um argumento cinematografico??
    Se voce quiser, sou um jovem argumentista e adoraria fazelo…
    Continuaçao, e mais uma vez parabens!!!

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