“VESTIDOS DE BRANCO, NA COVA DA IA,
NO CÉU APARECE…”
Cantavam as criancinhas do grupo escolar,que foram “escolhidas”, para a honra de fazer a procissão,levar a tampa e até mesmo o caixão do menino ainda nenê,que tivera uma vidinha tão breve nesta terra…
E a mãe do anjinho chorava sem controle ao seguir ao lado do caixão diminuto que guardava aquele corpinho inerte,ao ser levado a sepultura. E o desfile das crianças,nessa parada quase surrealista tomava forca de dimensões inexplicáveis…

 

“OS TRÊS PASTORZINHOS CERCADOS DE LUZ
VISITAM MARIA, QUE É’ MÃE DE JESUS”…
Os transeuntes se juntavam a parada,ao ouvirem o canto pungente das crianças a encenar tão distinto enredo…
De repente, coisa assim que sai bem do coracão, já não tinha um só olho que estivesse enxuto naquela trajetória…
Podia-se ouvir anjos cantando em todas as direções…
Ao chegar ao cemitério, uma cova já pronta aguardava o prosseguimento do ritual.
Não lembro se ouve sermão,não lembro do nome do anjinho…já fazem muitos anos,desde que eu ajudei a levar a tampinha do caixãozinho que resguardou o pequeno anjo… eu fui “escolhida”, pela professora (que também era minha prima).
Não lembro bem onde era o cemitério,daquela cidadezinha pacata,do interior de Alagoas.
Lembro-me sim,com perfeita clareza, do tom triste e sincero com que todos cantavam e também lembro claramente da angustia daquela mãe, que momentos antes de permitir que colocassem areia na cova e desse um “adeus” final ela chamou o irmão do anjinho e disse “Olhe menino, olhe para os olhos de seu irmãozinho”. Foi aí que também me atrevi a olhar para dentro do caixão e notei os belos e grandes olhos bem azulzinhos, abertos com firmeza…numa pose assim de boneco de porcelana… e aquela mãe continuou, em voz firme e agora já bem mais calma, como se as lágrimas de todos tivessem contribuído para dar-lhe um conforto inexplicável, ela continuou “menino, você precisa ser cuidadoso! tenha muito cuidado quando estiver andando de bicicleta! eu já perdi este filho, não quero perder você também!”. E eu comecei a entender o que ela estava dizendo… no início da semana, um menino de nove anos, passou com a bicicleta pela calçada da minha casa, e feriu o pé de meu irmãozinho de dois anos de idade… e quase foi atropelado por um carro. Agora eu sabia quem tinha sido. De repente fiquei cismada, achando que meus pais não iriam ficar de acordo com eu ter ajudado naquele enterro…
Corri para a professora, minha prima, e disse “esse menino foi quem feriu o pé de Duduzinho”. Ela disse: “Eu sei. Mas uma coisa não tem nada a ver com a outra.Você fez uma boa ação hoje.”

De volta a casa, ao final da tarde, minha mãe me deu um banho de água morna, com aroma de “seiva de alfazemas”, duas ou três bacias de água eu tive de usar… e Mamãe lavava minhas unhas com uma escovinha de dentes,para retirar toda a areia que tivesse ficado ali. Eu disse:”Mamãe, por que banhar outra vez? eu já tomei banho hoje de manhã”… e Mamãe calmamente disse:”Cemitério já não é lugar pra criança, imagine levar a tampa do caixão aquele percurso todo. Quero ver o que seu pai vai dizer sobre tudo isso”. Fiquei um bom tempo pensando que fizera algo errado e que meu pai iria ficar rancoroso!
Dai Papai chegou, ao mesmo tempo em que a minha professora e prima também chegou a minha casa (ela morava bem pertinho). Ao ver todos conversando a respeito do ocorrido naquela tarde, eu fui me esconder debaixo da cama grande de meus pais. Fiquei bem quietinha,quase sem me mover…esperando que ninguém me encontrasse. Esperando que a professora fosse embora, e parasse de falar sobre mim… esperando que meu pai não ficasse furioso quando ouvisse a historia toda…

“Cheirosinha, filha linda… acorde! saia debaixo da cama, é’ hora da ceia. E a sopa de hoje tá tão boa que você nem imagina…”
“O senhor está com raiva de mim, Papai?” Ele gargalhou bem alto, como era seu costume, ao reagir as minhas perguntas bobas, aos meus medos infundados. “Que nada ! Você fez uma boa ação hoje. Foi muito bonito o seu gesto de ter aceitado carregar a tampa do caixão do anjinho. Sua mãe queria apenas ter certeza que você não pegou nenhuma doença, por isso ela teve que fazer você banhar três vezes.”
E Papai me levou nos seus braços para a mesa, enquanto eu me agarrava ao seu pescoço de maneira bem forte, como para ter certeza que ele não estava zangado comigo, e que eu não fiz nada errado. Minha mãe sorria e disse que tinha guardado um pedacinho de torrão de doce de leite para mim. O pé do meu irmãozinho já estava quase sarado e ninguém tinha ressentimentos contra aquele menino da bicicleta (creio que esta era minha maior preocupação).

 


Por Rosalice de Araujo Scherffius