O sabor de saber

Era um pai dedicado, bom amigo e irmão. Celinho era o açougueiro mais famoso de Campo Belo, digo, não famoso por brilho próprio mas por celebrizar os outros. Não havia nada que Celinho não soubesse. “Quando Tancredo morreu”, dizem, “ele foi o primeiro a saber” e, é claro, o primeiro a espalhar.
Não lembro onde eu li, talvez numa revista ou num jornal, que o substantivo sabor é derivado do verbo saber, ou seja, saborear algo é sabê-lo, conhecê-lo. Pois é assim que me lembro de Celinho: cortando um lombo gordo de carne vermelha, tecendo comentários da vida alheia, fosse um adultério fosse um assassinato, e falando como quem saboreia um bom churrasco.

A carta

Abrira o açougue às 6:30h, aliás, como fez nos últimos 30 anos de sua vida. Seria um dia como outro qualquer, cheio de fofocas pra contar, não fosse um envelope azul escuro postado bem embaixo da porta. Pensou, “Mmm… Convite de aniversário ou convite de casamento?”. Abriu-o. Era um bilhete amarelo, duas linhas porcamente escritas, que diziam assim, “Celinho, sua filha tem um caso com um homem casado”. Achou estranho, riu e pensou que aquilo fosse uma brincadeira de mau gosto. Contudo, refletiu melhor e, realmente, notara que o comportamento da filha estava diferente. Colocou a mão na boca, e sussurrou, “Não pode ser, meu Deus. Não pode ser!”.

A filha, a amiga da filha, e o pai da amiga da filha

Diferente de Celinho, seu pai, Lidiane era uma menina muito quieta. Sempre fora a aluna mais tímida da classe, tinha vergonha de perguntar e levava dúvidas pra casa. Era incapaz de falar mal de alguém, e incapaz de falar bem, também. Simplesmente não falava. Tinha uma única amiga, a Denilza, confidente e conselheira.
Denilza morava com os pais, Agenor e Mirtes. A mãe era pintora. O pai, porteiro, era uma boa figura. Sorria sem querer pra todos, e além da simpatia inata, era um bom contador de histórias. Contava histórias fascinantes, não da vida dos outros, mas histórias cheias de fantasia, imaginação. Lidiane adorava ouvir suas histórias, adorava tanto que ficou perdidamente apaixonada por ele. E numa bela manhã de domingo, quando Denilza havia ido à missa com sua mãe, Lidiane decidiu ir atrás de Agenor.

Caso

Bateu à porta mas ninguém atendeu. “Será que ele está dormindo? Vou entrar”. A porta estava aberta. Seu Agenor estava cochilando no sofá, e levou um tremendo susto quando abriu os olhos e deu de cara com uma adolescente de 17 anos, completamente nua. “Minha Nossa!”, pensou. Antes que ele pudesse verbalizar qualquer coisa, a menina avançou e beijou a boca do velho de 74 anos. Depois que se amaram pela primeira vez, e muitas outras, passaram a se encontrar todos os dias de tardezinha, numa espelunca nos arredores da cidade.

Outra carta

5 dias depois, recebeu outra carta. “Abre o olho, homem. Tua filha é uma desavergonhada”. Pensou, “Puxa, mas quem é que está difamando minha filha? E se esse desgraçado estiver certo?”. Pensamentos de sangue passaram pela cabeça de Celinho, “E quem será este homem que seduziu minha pobre filha?”.
No fundo, não queria acreditar naquela notícia. Mas ao mesmo tempo que achava inconcebível que sua filhinha fosse uma desqualificada, lembrou-se de inúmeros casos de mulheres insuspeitas, mulheres com nome e reputação dignas da Virgem Maria. E pensou que o único jeito de saber a verdade, era pegar o terrorista que estava enviando aquelas cartas. “Vou ficar a noite inteira no açougue. Vamos ver se eu não te pego, miserável!”.
Por volta das 4:30h da madrugada, ouviu alguém se aproximando.

Flagra

Qual não foi sua surpresa quando viu que era Denilza, a melhor amiga de Lidiane. Ela segurava um envelope nas mãos.
- Denilza? Então é você?!
- Olha Celinho, eu posso explicar…
- Cale a boca! Bem que eu sempre desconfiei de você menina. Puxa! A minha filha confia tanto em você, e você apronta uma dessas! O que você pretende?
- Mas o que eu posso fazer se ela está dormindo com o meu próprio pai?
- O quê?
- Pois é, “Dr.” Celinho. Saiba que a sua imaculada filha está de caso com um velho de 74 anos!
- Mas como?
- Sei lá. A sua filha é louca! Com tanto homem nesse mundo, e ela foi logo procurar meu pai, um homem de bem, um homem de família. E minha mãe? Como ela fica?
- Você só pode estar brincando!
- Então, abre a carta que eu tenho aqui comigo.
Abriu o envelope, que dizia assim, “Se o senhor está duvidando de mim, vá ao hotel da Rose, às 5, lá na Br-73”.
- E tem mais uma coisa, Celinho. Quero encontrar-me novamente com você amanhã.
- Onde e quando?
- Pode ser aqui mesmo, às 22h.

Confirmação

O hotel da Rose, na verdade, era um prostíbulo. Era uma casa bastante freqüentada pelos homens da periferia da cidade, trabalhadores da construção civil, serventes, faxineiros, eletricistas, office boys, enfim, pra quem tinha pouca grana.
Celinho ficou de bituca, bem em frente ao hotel, atrás de uma árvore. E não é que a menina aparecera por lá? Também estava acompanhada de um senhor. Este, trajava um chapeuzinho preto, calças largas, bigode postiço, aliás, muito mal colocado, e ainda portava uma bengala. Já, a filha, estava muito safada, com uma maquiagem bem pesada, um baton vermelhaço e um vestido branco muito curto. Mas nada daquilo enganava Celinho: disfarçadas ou não, conhecia todas as pessoas de Campo Belo.
De fato, tivera a confirmação: sua própria filha, Lidiane, junto ao velho Agenor.

Uma chantagem inútil

No açougue, às 22h.
- Como é? Viu ou não viu? Indagou Denilza.
- Vi, é claro. Como é que pode, né?! A gente cria um filho, dá atenção, dá carinho, e pra quê? Pra ele virar um vagabundo, uma prostituta, um viciado.
- Pro senhor vê, né seu Celinho? É como diz o Fernando Pessoa, “Todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os outros, quer para fazer o bem, quer para fazer mal”.
- E qual o propósito da tua denúncia, vaca?
- Ei, vê lá como fala comigo. Eu só quero uma coisinha do senhor: quero que o senhor me mande pra Belo Horizonte, pague o aluguel de um apartamento, e patrocine os meus estudos, digo, a Faculdade.
- E o que mais? Você quer um filho também?
- Engraçadinho.
Neste instante, Celinho virou-se de costas pra Denilza, e começou a rir.
- Eu não to brincando, Celinho. Se você não der o que eu estou te pedindo, todos saberão que sua querida filhinha não passa de uma rameira descarada, sem moral alguma, e que destrói famílias por aí. Eu quero só ver onde tu vai enfiar essa cara. Logo você, que fala da vida de todo mundo.
- Ha ha ha ha ha! Gargalhava Celinho.
- O que foi? Você acha que eu não vou contar pra ninguém? Pois saiba que todos saberão se você não pagar o que estou te pedindo.
- Olha aqui, garota…
E nesse momento, como que possuído por um demônio, segurou-lhe rudemente pelo colarinho da blusa, e disse:
- SE TU NÃO CONTAR, CONTO EU!!!


Por Thomas Rafael Durley – oprocesso@bol.com.br – Publicado em 31/07/2005