O passeio do espectador – Alberto Morávia

A chave gira na fechadura da maneira violenta com que gira uma chave quando quer exprimir repugnância e rejeição. E, com efeito, logo a seguir, para desfazer todos os equívocos, a voz da sua mulher, do outro lado da porta, grita‑lhe muito explicitamente que não quer voltar a fazer amor com ele, nem hoje nem amanhã nem nunca mais. Já lhe gritou outras vezes durante este primeiro ano de casados; o fato enche‑o de um desespero maior do que aquele que lhe inspiraria uma recusa aberta e definitiva. Portanto, será sempre assim; portanto, serão estas as barras da gaiola em que ambos ficarão presos sabe‑se lá por quanto tempo. Em meio destas reflexões, sai do terraço da vila, atravessa as dunas, desemboca na praia e, mecanicamente, começa a caminhar ao longo do mar.

Não pensa em nada; caminha, olhando ora a bordadura negra e elegante deixada pelas ondas na areia molhada, ora o céu com vagas nuvens de calor esparsas, ora o mar num torpor inerte, arrastando uma quantidade de papéis velhos e outros detritos que flutuam sem se ficarem na areia nem se afundarem de vez. De repente abandonando a sua distração, surge‑lhe uma decisão precisa: irá o mais longe possível naquele passeio involuntário; assim, não voltará a casa para o jantar. Talvez a sua ausência ‑ quem sabe? ‑ torne a mulher mais afetuosa na próxima noite.

Com esta ideia despeitada e mesquinha de não voltar a casa para o jantar, continua a caminhar agora mais apressadamente, como se tivesse uma meta a atingir e um lugar preciso aonde chegar. É setembro e todas as vivendas das dunas se encontram fechadas e sem gente; os estabelecimentos balneares encerrados e desertos; alguns raros casais, espalhados aqui e ali pela praia, apanham sol. Depois da zona dos banheiros, surge um longo pedaço de costa sem casas nem barracas de praia: nada além dos arbustos das dunas, a areia do mar. A solidão começa a pesar‑lhe, decide chegar até um grupo de pinheiros que se avista ao longe, dando para a praia. Será essa a meta em direção pela qual caminhou aqueles quilômetros? Sem saber por que, diz para consigo: “talvez; vamos ver.”

Chega aos pinheiros; primeira desilusão: uma cerca de arame farpado circunda o pinhal, vem até ao mar. Então, começa a olhar o pinhal, com as duas mãos pousadas no arame, estendendo a cabeça o mais para o interior da cerca que lhe é possível.

O pinhal está deserto, com os troncos dos pinheiros fulvos e estalados pelo sol, que se inclinam aqui e ali, ora cruzando‑se, ora repelindo‑se. No meio do pinhal, vê‑se uma grande e velha casa de um vermelho pompeiano desbotado, com todas as janelas fechadas. Há um silêncio profundo, no qual lhe parece ouvir o canto do vento lá embaixo, sobre o mar, doce e plangente, como uma harpa distante. Então, talvez graças àquele gesto de assomar, olhando o recinto de arame farpado, recorda subitamente as fotografias dos campos de concentração, onde se vêem os prisioneiros numa postura análoga, com as mãos nos arames. E neste caso, pensa ele com tristeza, o prisioneiro é ele, embora viva aparentemente em liberdade.

De súbito, como por sugestão de tais ideias, dá‑se conta de que, afinal, o pinhal não está deserto. Quase no mesmo instante, com efeito, vê, do outro lado do recinto, um automóvel parado, de um azul elétrico brilhante; e depois, numa cova do terreno, há diversas peças de roupa de mulher e de homem espalhadas pelo chão. Levanta os olhos, enxerga na direção do mar e descobre o casal. São um homem e uma mulher completamente nus, molhados e a pingarem da cabeça aos pés, que, evidentemente, estiveram mergulhando no mar e agora sobem o ligeiro declive da praia, dirigindo‑se para o encovamento do terreno onde deixaram as roupas.

No momento em que os avista, o homem dá‑se conta de que não os vê tanto como, sobretudo, os olha; dá‑se conta de que está, em suma, a espreitá‑los. Pensa que deveria afastar à nascença aquela tentação indiscreta; partir dali sem mais tardar. Mas não consegue fazê‑lo. O que o impede disso é a ideia de estar olhando alguma coisa que, no fundo, misteriosamente, lhe diz respeito. Por outro lado, não os procurou: apenas o acaso quis que assomasse ao recinto na altura em que eles vinham saindo do mar.

Tudo isto são, todavia, sofismas, pensa de súbito. De outro modo, porque é que, após o primeiro olhar do conjunto, examinaria com escrupulosa atenção o homem antes da mulher? Dá‑se conta de que o faz ou para dar a si próprio uma impressão de desinteressada objetividade, ou, como é mais provável, para “reservar” a mulher para uma contemplação mais longa e pormenorizada, como certos apreciadores reservam o melhor bocado para o fim da refeição. Entretanto, apesar destes pensamentos lúcidos, não pára de observar o casal com uma avidez insaciável. O homem é novo e de pequena estatura, mas forte, com pernas e braços robustos. Tem a cabeça com uma fronte calva e o rosto como que lançado para a frente, numa expressão de cupidez. É agora a vez da mulher. É alta, com as formas indolentes de uma estátua, bela, de algum modo indefinível, mas seguro. Examina‑a com mais pormenor e nota nela numerosas correspondências singulares, por exemplo, entre a redondez dos braços e a das coxas, entre o negro dos cabelos e o do ventre ao fundo, entre o jeito do pescoço e o da cintura…

De forma inesperada, repara que não consegue continuar a olhar, ou melhor a espreitar, a não ser com uma impressão de impaciência furiosa e tensa. Sim, está agora não tanto a olhar os dois enquanto eles agem, como a desejar a ação deles. É um desejo semelhante ao do espectador de uma prova desportiva, que incita com a voz e os gestos o seu jogador favorito a fazer isto ou aquilo; e, com efeito, surpreende‑se a murmurar entre dentes: “que está fazendo agora? Porque não se aproximas dela? E você, porque é que está olhando para o pinhal em vez de olhar para ele?” Sim, “queria’ que os outros dois agissem no sentido de uma maior intimidade. Precisamente dessa intimidade, não pode ele deixar de pensar, que a sua mulher lhe recusou nessa manhã, fechando‑lhe a porta na cara.

Mas eles não lhe obedecem, dispõem do seu tempo, como se tivessem “outra coisa” em vista. Então, enquanto a mulher se inclina para apanhar uma toalha e começa, em pé, a esfregar lentamente o corpo molhado e o homem se senta, acendendo um cigarro, vem‑lhe subitamente à ideia que está assistindo a um espectáculo predeterminado, que poderia muito bem não se desenvolver na direção da intimidade erótica que o seu próprio desejo sugere. Na realidade, ele é um espectador de teatro ou de televisão que segue uma intriga da qual nada sabe e que deve olhar com paciência e o respeito devidos a todo o artifício. Este pensamento introduz na sua curiosidade um elemento novo que a modifica profundamente. Sim, ele não é alguém que espia a presa como um caçador emboscado, mas um crítico que segue com atenção desprendida uma representação, esperando que os intérpretes representem “bem”. Mas que quer dizer representar “bem” nestas circunstâncias? É aí que bate o ponto, exclama para consigo: não se trata da representação da peça abruptamente interrompida nessa manhã pela mulher, mas da peça “deles”. Estará escrito nessa peça que ambos devem fazer amor depois do banho de mar? Sim? Então, ótimo, façam‑no. Mas se está escrito, pelo contrário, que devem abrir a cesta do piquenique, que se vê encostada a um pinheiro, tomar uma refeição leve e adormecerem ambos, pois bem, nesse caso, não têm que fazer amor, seja esse ou não o desejo dele.

Imprevisivelmente, bruscamente a cena calma e serena desfaz‑se e transforma‑se no sentido indicado pelo seu desejo de há pouco. A mulher, que acabou de se enxugar, inclina‑se para apanhar do chão a blusa; então, o homem dá‑lhe uma vulgaríssima palmada no traseiro e, depois, agarra‑a pelas ancas. Indignado, enjoado, exatamente como um espectador que vê uma má atuação dos intérpretes, ele espera por um momento que a mulher se oponha àquele assalto tão grosseiro e inconveniente, se ofenda, ponha o companheiro no seu lugar. Nada feito. A mulher endireita‑se e foge; mas o faz, agitando descompostamente os braços e as pernas e dando risadas cheias de uma intencionalidade óbvia e gritos de falso medo, que não deixam a menor dúvida acerca da sua cumplicidade. Depois, tudo acontece da pior e mais banal das maneiras: os dois, perseguindo‑se, correm na direcção do mar que se entrevê lá em baixo, por entre os troncos dos pinheiros. A mulher entra na água, com ímpeto; o homem a apanha, cai com ela na água pouco funda, entre flocos de espuma. A última coisa que o homem pensa, ironicamente, enquanto se afasta, é que nada se assemelha mais à agonia de um grande peixe, apanhado num arpão e a debater‑se na rede, do que um par enlaçado fazendo amor no mar.

Durante o regresso a casa, caminha de novo sem pensar em nada. Limita‑se, como à ida, a caminhar olhando ora a praia, ora o céu, ora as dunas, ora o mar. Mas quando está chegando á vila, subitamente uma resolução emerge do silêncio da sua mente: para abolir a sensação incómoda e humilhante de ter estado a espiar um casal, tem que ir até ao pinhal com a sua mulher e fazer com ela o que viu os outros dois fazerem.

Dito e feito. A mulher, como ele previra, mudou de humor; está de novo com um estado de espírito afetuoso e aceita de bom grado, no dia seguinte, um passeio até esse belíssimo pinhal mítico que ele afirma ter “descoberto”. Assim, tudo se passa exatissimamente do mesmo modo, com o mesmo céu, o mesmo mar, os mesmos estabelecimentos de banho desertos e as mesmas casas fechadas. Tudo, exceto um pormenor importante: por muitos esforços a que proceda, não consegue redescobrir o pinhal. Era depois de um longo pedaço de costa desabitado e antes de certo promontório. Mas embora ande para trás e para diante ao longo da praia, o pinhal, a casa, o recinto não chegam a materializar‑se de novo, continuam reduzidos a uma lembrança da qual ele próprio começa a duvidar. Por fim, diante da mulher que ri dele, formula a única hipótese que lhe parece agora verosímil: “Será que foi tudo um sonho?”

Estranhamente, ela aceita sem hesitar esta hipótese: “Você viu em sonhos um lugar lindíssimo e pensou logo em ir lá comigo. Não acha que isso é já por si muito bonito?”

Mas não foi assim, pensa ele com certa amargura. E realmente, não tem coragem de lhe dizer que no sonho não se viu a si próprio com ela, mas dois estranhos que espiara com inveja, com excitação, com censuras. O verdadeiro amor teria, pelo contrário, consistido em não ver ninguém, dizendo: “É este o lugar perfeito para vir aqui com ela amanhã”.