Ninguém jamais saberá tudo sobre Eve. Isso porque talvez ela seja uma das mais notórias mentirosas que existem. Ao que Eve responderia sorrindo. “O divertido é improvisar, para isso que temos a imaginação, é triste quando uma história fica para sempre igual”.

Eve gostava de improvisar principalmente nos palcos e fazê-lo com maestria, ao ponto de ter sido, em vida, chamada várias vezes de a Sarah Bernhardt britânica, enquanto ascendia meteoricamente nos palcos. A vida de Eve, entretanto, não teve nada de improvisação, tudo foi na verdade friamente planejado seja por ela seja pelos outros que a rodeavam.

Desde seu início na vida social como cortesã de luxo até sua triunfante estréia no teatro tudo foi muito bem planejado.

Mas claro que entre uma coisa e outra há uma história a ser contada, e talvez a única pessoa que a conheça em detalhes seja a própria Eve. Mas vamos aos detalhes sórdidos que de fato é aquilo que nos interessa, pois é uma inverdade achar que buscamos somente a grandeza na história dos grandes homens e grandes mulheres. Nosso fascínio é principalmente pelas coisas sórdidas, pelo indigno e vil que há por trás das pessoas chamadas de grandes, pois isso facilita digerirmos sua grandeza, descê-las dos pedestais e compará-las a nós mesmos com nossos fracassos e defeitos. Por isso as pessoas se deleitavam com as intrigas e fofocas palacianas e é isso que alimenta os paparazzi e a indústria das revistas e jornais que bisbilhotam a vida das celebridades nos dias atuais.

Mas voltemos a Eve. Mesmo constando em sua biografia oficial que ela seria filha bastarda de um nobre falido e uma jovem atriz que teria feito muito sucesso caso não tivesse morrido tuberculosa, a verdade é que Eve era filha de uma atriz fracassada que vivia da prostituição e de um marinheiro irlandês que foi assassinado por dívidas de jogo e nem sequer conheceu Eve.  Alguns especulam ainda que a própria mãe de Eve o teria assassinado, mas enfim, tudo névoa, tudo fantasmagoria.

Eve, porém, cresceu bem longe da mãe e passou a infância e a adolescência em um colégio interno de freiras freqüentado apenas pela elite inglesa. Eve não sabia ao certo como a mãe vivia, e tecia mil fantasias sobre sua origem e seu verdadeiro pai, o que explicaria sua tendência em fantasiar suas origens.

Certo dia, a mãe de Eve resolveu que era hora da filha lhe restituir o investimento feito em uma educação primorosa e cara. Tirou-a do convento e arrastou-a consigo para Londres.

Assim, com apenas 14 anos, a mãe de Eve introduziu-a no mundo das cortesãs de luxo em Londres. Para Eve isso foi um duro choque de realidade, e as coisas que sua mãe exigia que ela fizesse feriam todos os princípios que ela aprendera no convento.

Praticamente a força, Eve (graças a alguns contatos de sua mãe) começou a integrar um famoso salão de cortesãs de Londres.  Aos poucos, Eve acabou por perceber nisso algumas enormes vantagens. Ao participar da intensa vida social da cidade, ela começou a freqüentar teatros e casas de ópera e começou a se deslumbrar com o que via. Se esse início não foi planejado por Eve como podemos perceber, foi planejado por sua mãe, que esperava que ela conseguisse e conquistasse tudo que ela própria não havia alcançado.

O salão do qual Eve participava era freqüentado por várias figuras da elite inglesa. Foi através dos contatos do salão, que Eve conseguiu acesso a famosa Royal School of Theatre onde iniciaria a sua formação como atriz.

Nesta escola dava aulas uma grande dama do teatro internacional, Lady Mary Baylis. Ela se afeiçoou a Eve e passou a estimular-lhe o talento. Eve passou a ser sua protegida, e muito abusou dessa proteção e do estímulo recebido. Ao ter alguém que valorizava seu talento, ela passou a se superestimar e considerar-se a melhor de todas. Claro que isso passou a despertar ciúme e inveja no competitivo meio teatral.

Infelizmente, a protetora de Eve viria a falecer e o diretor da Royal School não era nada tolerante com Eve e sua atitude caprichosa e desdenhosa com as demais alunas. Na verdade ele por este motivo passou a odiar a garota, chegando a persegui-la. Eve acabou sendo vítima de uma armadilha e foi acusada de roubo. Encontraram jóias de uma das alunas nos pertences de Eve e ela foi expulsa da escola. Isso foi terrível para Eve, foi como se seu mundo tivesse desabado. Para não acabar presa, ela abandonou Londres deixando sua mãe para traz e fugindo para Paris, onde esperava encontrar mais oportunidades de sucesso.

Lá passou a freqüentar também os salões de cortesãs de Paris. Entretanto, a maior aspiração de Eve ainda eram os palcos. Infelizmente no meio competitivo de Paris, nada foi tão fácil quanto o principio de Eve em Londres. Mas quem achava que ela com seu rosto angelical e voz suave era uma mocinha ingênua e frágil estaria muito enganado. Ela desde cedo aprendeu com sua mãe a afiar suas garras, mas antes não estava pronta para usá-las, só que agora seria diferente.

Assim, derrubando quem se interpusesse em seu caminho, Eve acabou conquistando um papel em uma peça importante que seria apresentada no Palais Garnier, ainda que fosse como atriz substituta da estrela principal, Isabelle de Gouges.

Eve é claro não podia se contentar com tão pouco, ela almejava uma chance de mostrar ao público todo o seu talento. Ao menos uma chance para mostrar o que poderia fazer. Assim ela formulou um plano aproveitando que a estrela principal passaria uma temporada antes da estréia em uma casa de campo nos arredores de Lyon. Antes da viagem Eve já vinha se encontrando com um dos empregados da atriz principal, e assim o subornou para que ele simulasse um pequeno acidente na estrada que fizesse com que ela se atrasasse na viagem de volta para Paris e assim perdesse a estréia.

Entretanto, o que aconteceu foi que o acidente acabou sendo mais grave do que Eve previra. A carruagem virou e a atriz ficou gravemente ferida. Enquanto a estrela principal da peça jazia em um leito à beira da morte, Eve estreava no teatro em grande estilo.

Devido à consternação provocada pelo acidente, as críticas em todos os jornais foram elogiosas, mas discretas quanto ao excelente desempenho de Eve, o que a deixou aborrecida. Contudo, um crítico chamado Jules Dancourt deu amplo destaque a essa estréia de Eve, tecendo altos elogios ao seu desempenho.

Inebriada com o sucesso em sua primeira grande interpretação, Eve nem se importou com a posterior morte da atriz principal. Houve é claro um enterro com muita pompa, mas o assunto logo a seguir foi esquecido. Nada foi provado quanto ao acidente e todos escaparam ilesos.

Diante desse primeiro triunfo Eve ainda não se satisfez, ela queria mais e mais sucesso. E logo estava rondando um grande diretor de teatro muito festejado em Paris, para que a chamasse para a sua próxima peça. Afinal, o público esquece facilmente grandes êxitos que se seguem de silêncios. Ela fez de tudo para que ele a escolhesse para suas peças, tentou seduzi-lo, mas em vão. Então, ela resolveu pesquisar a vida privada do diretor e ao descobrir que ele tinha um caso com um rapaz de uma importante família da nobreza de Paris, passou a chantegeá-lo até que ele cedesse a sua pressão e lhe garantisse o papel que desejava.

Querendo evitar um escândalo ele atendeu ao pedido de Eve. E assim, mais um sucesso seria levedo aos palcos com Eve representando o papel de destaque. Na segunda noite da peça ela teve um desmaio ao pensar ver na platéia a figura de Isabelle de Gouges, a estrela que ela assassinara, mas provavelmente deve ter sido o nervosismo natural dos palcos, e esse evento não tornaria a se repetir por muito tempo.

Nesse ano Eve receberia o prêmio revelação do teatro francês, aclamada por público e crítica. Ao fazer seu discurso ela teve novamente a impressão de ter visto Isabelle, o que a levou a suar frio e ficar pálida, mas todos acharam que era apenas nervosismo.

Na festa da entrega do prêmio ela finalmente conheceu o crítico Jules Dancourt que tanto elogiara seu desempenho nos palcos. Na verdade Jules era o principal articulador para que Eve recebesse o prêmio, mas disso ela não sabia. Futuramente ela descobriria isso e muito mais.

Depois desse primeiro encontro, eles acabaram se tornando bastante íntimos, o que agradou Eve, pois assim ela teria a voz de um importante crítico do teatro francês a promovê-la. Além disso, Jules parecia ser tão maquiavélico quanto Eve, e não só a promovia como plantava todo tipo de boato sórdido sobre as outras atrizes que poderiam concorrer com Eve ou superá-la em talento, arrasando muitas carreiras promissoras.

Foi assim com Catherine Trouvé, a quem Eve arrasou não só a reputação, mas a própria vida. Ela seduziu Aristide, o noivo de Catherine fazendo com que ele a abandonasse. Catherine estava grávida e desesperada, então cometeu suicídio. Após a morte da rival Eve desprezou Aristide deixando-o praticamente enlouquecido.

O ato seguinte de Eve seria conseguir que um dos grandes escritores da época criasse uma peça exclusivamente para ela, e dessa forma a imortalizasse. Não foi difícil com as suas amizades do círculo de cortesãs fazer tais contatos. Assim, logo ela se tornaria amante de um famoso escritor francês, que uma vez envolvido começou a escrever a peça que ela tanto desejava. Enquanto escrevia a peça, o escritor acabou se apaixonando realmente por Eve, e ela resolveu se aproveitar desse sentimento e o levou a largar a esposa e os filhos para ficar apenas com ela, dedicar-se apenas a ela. Escrever-lhe peças, poemas e até mesmo quem sabe um romance inteiro dedicado à sua pessoa.  Assim, ela o iludiu prometeu que eles viveriam juntos e de que talvez até mesmo fosse deixar os palcos.

Só que ao representar tão bem esse papel da amante dedicada ela conseguiu convencer até mesmo Jules.  Ao descobrir os planos de Eve e imaginar-se traído, Jules ficou furioso e começou a ameaçá-la. Disse que contaria tudo sobre ela, e que todos ficariam sabendo que ela não passava de uma cortesã, ladra assassina e vigarista. Eve ficou transtornada ao descobrir que Jules sabia toda a verdade sobre ela, inclusive do seu passado em Londres. Assim, ela contou a Jules que tudo não passava de um plano e que em breve assim que obtivesse o que desejava ela voltaria a ser só dele. De fato dali a um ano quando Eve conseguiu a notoriedade que queria através das peças do seu amante escritor, que trabalhava exaustivamente para agradar a exigente Eve, ela simulou um escândalo, acusando o escritor de espancá-la. Era a desculpa para abandoná-lo. E é claro que enquanto esteve em companhia do escritor, Eve não deixou de ver Jules nem nenhum dos seus amantes menos importantes.

Sem sua família, enganado e abandonado, depois de perder tudo que lhe era caro e importante, o escritor tornou-se um alcoólatra, e vivia bêbado pelas gares de Paris, até finalmente morrer atropelado por uma carroça.

Nos camarotes do teatro era mais um fantasma que passou a assistir as peças de Eve. Ela agora já completamente enlouquecida pela fama e o sucesso, nem ligava para esses espectadores mórbidos. Quando agradecia as palmas ao término do espetáculo olhava para esses intrusos com o olhar duro e frio do desprezo. Afinal que culpa tinha Eve se eles eram fracos e ela era forte. Sim ela que nascera com mão dura e sem nojo da dor, e que por isso desprezava os fracos, os que se dobram.

Eve entretanto, sabia que sua carreira não era eterna, ela queria ser lembrada por todos ainda no auge da sua beleza, juventude e talento, e não como uma estrela decadente arrastando-se pelos palcos à mercê da piedade alheia. Assim, o próximo ato de Eve, seria conquistar o amor de um homem bastante rico que com ela se cassasse. Sim, o bom e velho golpe do baú, mas não se pode ser criativo em tudo, essa é a verdade. Claro que Eve não teve dificuldades nessa conquista, e mais uma vez convenceu Jules de que essa seria como tantas outras, uma aventura passageira, apenas para alcançar seus objetivos. Mas Eve tencionava mesmo casar-se com o milionário e abandonar definitivamente os palcos.

Mas seu plano não estaria completo se Jules pudesse a qualquer momento atrapalhar Eve, revelando os segredos do seu passado, chantageando-a para que ela estivesse sempre a mercê da sua vontade. A verdade é que ao saber dos segredos de Eve, Jules a tinha em suas mãos.  Assim, ela começou a planejar o assassinato de Jules que ela perpetraria logo que tivesse oportunidade. Acontece, que se Jules sabia quase tudo sobre Eve, esta na realidade não sabia nada sobre o crítico de teatro e teria uma terrível surpresa.

Dali a uma semana, Eve mostrava-se totalmente voltada para Jules, parecia querer sempre agradá-lo e convidou-o para tomar um vinho soberbo em companhia dela. Ao vinho de Jules seria acrescentado um veneno especial que Eve havia encomendado a um herborista italiano. O veneno não poderia ser facilmente detectado e uma vez ingerido produziria um efeito semelhante a um enfarte, sendo confundido portanto com morte natural.

Nessa noite Eve estava ainda mais carinhosa e sorridente para Jules, e este segurou a taça que Eve oferecia sem demonstrar sequer imaginar o que se passava. Entretanto, ao tomar o primeiro gole, a expressão dele pareceu se alterar por um breve momento. A seguir ele ingeriu o líquido e sorriu para a amante. A noite continuou calma até que perto da meia-noite Jules começou a passar mal. Estava sofrendo um enfarte. Enquanto ele parecia morrer, Eve passou a provocá-lo, jogando na cara dele o quanto ele tinha sido louco em ameaçá-la e que agora ela seria livre para ficar com quem bem entendesse, que ela já era uma estrela e não precisava dele.

Nesse momento Jules para de fingir e começa a rir mostrando que tudo não passava de uma farsa. Depois ele fica muito sério, e a encara com um olhar que a faz quase desmaiar na poltrona.

Então, era assim que ela agradecia a tudo que ele havia feito por ela? Tentando assassiná-lo? Criatura tola e imbecil é o que ela era. Contudo, Jules não mudaria os planos dele, e gostasse ou não ele conservaria o talento de Eve para sempre, ainda que ela não o merecesse.

- Como uma pessoa tão cruel como você pode ter sido abençoada com tanto talento? Você não precisaria fazer nada disso que fez, mesmo assim admiro a sua iniciativa e ambição. Ficar comigo para sempre Eve, esse será o seu castigo. E seus caprichos não mudarão isso.

Ela já não entendia mais nada. Sem que ela possa se mover, Jules se aproxima de Eve e ela sente seu rosto junto ao dela, e logo a seguir sente os lábios dele encostando-se em seu pescoço. Tal toque delicado e quase imperceptível segue-se da dor provocada pelos dentes de Jules que lhe perfuram a pele. A seguir o sangue flui, e a vida de Eve se esvai até que ela não sente mais nada, não ouve mais nada, apenas silêncio e escuridão. Mas não era simplesmente matá-la o que Jules desejava. Então, Eve sente o sangue dele escorrer por sua boca, e uma dor intensa toma conta de seu corpo de suas entranhas despertando-a novamente. Tudo se torna claro e ruidoso outra vez e Eve parece voltar à vida, mas não a vida a qual ela estava acostumada a ter, isso ela aprenderia depois.

E foi assim que nossa estrela dos teatros sumiu dos palcos e nunca mais foi vista. Dizem que ela se casou com o crítico de teatro e foi morar em alguma terra exótica e distante. Quem vai saber? É por isso que eu continuo a insistir, que ninguém na verdade sabe nada sobre Eve, e provavelmente ninguém nunca irá saber.