Santo Agostinho

Santo Agostinho (354-430) é considerado o último dos pensadores antigos, já que cronologicamente e tematicamente se situa no contexto do pensamento antigo, e o primeiro dos medievais, já que sua obra, de grande originalidade influencia fortemente os rumos que tomaria o pensamento medieval em seus primeiros séculos. Durante esse período, a Igreja foi a única instituição estável, e a principal, e quase exclusivamente responsável, pela educação e pela cultura. Foi nas bibliotecas dos mosteiros que se preservaram textos da Antigüidade Clássica greco-romana. É claro que de forma altamente seletiva, já que foram preservados essencialmente textos considerados compatíveis com o cristianismo, bem como textos de pensadores dos primeiros séculos da era cristã.

Em 410, Roma, absolutamente fragilizada, foi saqueada pelos godos. Os pagãos – nome com que a Igreja designava os não-cristãos – atribuíram a invasão ao fato de os romanos terem abandonado os deuses antigos. De acordo com eles, enquanto fora adorado, Júpiter protegera a cidade; ao ser “trocado” pelo cristianismo, deixara de fazê-lo.

Entre 412 e 427, Santo Agostinho escreveu “A Cidade de Deus”, um livro cuja base era a filosofia grega e que exerceria forte influência nos tempos medievais. Nele respondeu a tais acusações, argumentando que coisas piores haviam ocorrido em tempos pré-cristãos. Que os deuses pagãos eram perversos. Ele não negava a existência de entidades como Baco, Netuno e Júpiter, considerados demônios.

Demônios que ordenavam aos homens, por exemplo, que criassem peças teatrais, definidas por Santo Agostinho como “espetáculos da imundície”. Em razão desses deuses, Roma sempre fora perversa e pecaminosa.

Com o cristianismo, ela se salvaria. E, se a cidade dos homens fora invadida, pouco importava, já que o objetivo maior dos homens era a salvação por meio da bondade para atingir a cidade de Deus, a sociedade dos eleitos.

A busca central não era a cidadania na sociedade dos homens, mas a salvação no reino de Deus.

Para falar sobre o mal que habitaria os homens, Santo Agostinho relatou, em suas “Confissões” – história apaixonada de sua descoberta de Deus – , que na infância roubara pêras da árvore de um vizinho, embora não estivesse com fome e na casa de seus pais houvesse melhores. Fizera-o por maldade e considerava tal ato um de seus maiores pecados. O pecado para ele habitava todos os homens. E, se os bebês são inocentes, não é porque lhes falte o desejo de fazerem o mal, mas por carecerem de força. Assim era Santo Agostinho.


 

Vida e Obra

Aurélio Agostinho destacava-se entre os Patrísticos assim como Tomás de Aquino se destacou entre os Escolásticos. E, como Tomás de Aquino se inspirou na filosofia de Aristóteles, e foi o maior vulto da filosofia metafísica cristã, Agostinho inspirou-se em Platão, ou melhor, no neoplatonismo. Agostinho, pela profundidade do seu sentir e pelo seu gênio compreensivo, fundiu em si mesmo o caráter especulativo da paidéia grega com o caráter prático da humanitas latina, ainda que os problemas que fundamentalmente o preocupavam fossem sempre os problemas práticos e morais: o mal, a liberdade, a graça, a predestinação.

Santo Agostinho escreveu mais de 400 sermões, 270 cartas que se assemelham a tratados doutrinários e 150 livros, mas muito pouco de sua obra foi convertida para o português.

Aurelius Augustinus, mais conhecido como Santo Agostinho, nasce em Tagaste de Numídia, província romana ao norte da África, em 13 de novembro de 354. Primogênito do pagão Patrício e da fervorosa cristã Mônica. Criança alegre, buliçosa, entusiasta do jogo, travessa e amante da amizade, não gostava muito de estudar porque os mestres usavam métodos agressivos, e, não eram para ele, sinceros. Ante os adultos se revelou como “um menino de grandes esperanças”, com inteligência clara e coração inquieto.

Africano pela lei do solo, romano pela cultura e língua, e cristão por educação. Agostinho, jovem, de temperamento impulsivo, se entregou com afinco ao estudo e aprendeu toda a ciência do seu tempo. Chegou a ser brilhante professor de retórica em Cartago, Roma e Milão. Em sua busca afanosa viveu longos anos com ânimo disperso. Vazio de Deus e agarrado pelo pecado, a vontade “sequestrada”, errante e peregrina, “enganado e enganador”. Mas, seu coração, sempre aberto à verdade, chegou ao encontro da graça pelo caminho da interioridade, apoiado pelas orações de sua mãe, que na infância lhe havia marcado com o sinal da cruz.

Deixando a docência, retira-se a Cassicíaco, recinto de paz e silêncio, e põe em prática o Evangelho em profunda amizade compartida: vida de quietude, animada somente pela paixão à verdade. Assim se preparou para ser batizado na primavera de 387 por Santo Ambrósio.

De novo em Tagaste, a mãe morreu no porto de Roma, vendeu suas posses e projetou seu programa de vida comum: pobreza, oração e trabalho. Por seus dotes naturais e títulos de graça, cresceu em torno dele um grupo de amizade e fundou para a história o Monacato Agostiniano.

No ano de 391 é proclamado sacerdote pelo povo, e cinco anos mais tarde, os cristãos de Hipona o apresentaram para o Episcopado. Consagrado Bispo de Hipona, título de serviço e não de honra, converte a sua residência em casa de oração e tribunal de causas. Inspirador da vida religiosa, pastor de almas, administrador de justiça, defensor da fé e da verdade. Prega e escreve de forma infatigável e condensa o pensamento do seu tempo.

Foi Santo Agostinho quem inaugurou a literatura confessional, e o seu livro Confissões tem no mundo ocidental medieval importância talvez tão grande quanto a que é dada a Odisséia ou a Divina Comédia na Antiguidade Clássica. Em Confissões, escrito quando ele ainda tinha 43 anos de idade, Agostinho narra sua vida, contada com suavidade, parece a história de uma alma, “onde se revelam os prodígios da graça em uma natureza rebelde e decaída”.

A despeito de ter recebido na infância uma educação cristã da mãe, Santa Mônica, em nenhum momento de sua juventude Agostinho ardeu de entusiasmo pelo cristianismo. Foi a busca de um caminho para uma vida mais elevada, da qual não desistiu enquanto não se deu por satisfeito em responder as perguntas que o incomodavam. E esta busca o elevou ao mais alto grau da capacidade intelectual da mente humana.

Em outra obra “Livre Arbítrio” Agostinho dialoga com Evódio, e esta obra tem como tema o problema da liberdade humana e da origem do mal moral, problema com o qual ele se preocupava desde a adolescência. Agostinho não podia suportar a idéia de que Deus fosse a causa do pecado e nessa obra deixa claro que Deus não nos induz a cometer o mal, mas nos dá a liberdade para escolher ou o bem ou o mal.

Santo Agostinho não era um homem feliz o que, segundo ele, lhe inspirava a filosofar. Em seu livro “A Cidade de Deus” afirma que “o homem não tem razão para filosofar, exceto para atingir a felicidade”. Neste livro Agostinho tem como base a história de Adão e Eva e visa o pecado e grandes oposições como bem e mal, carne e alma. Aqueles que aderem ao bem e têm como força a graça divina edificam a Cidade de Deus e vivem em bem-aventurança eterna. Abel, o episódio da arca de Noé, Abraão, Moisés, a época dos profetas e ainda a vinda de Jesu
s, são manifestações da Cidade de Deus. Já os que aderem ao pecado constroem a cidade humana, terrena, e recebem apenas castigos. Caim, o dilúvio, a servidão dos hebreus aos egípcios, são exemplos dessa cidade humana.

Seu pai, Patrício, era pagão, recebido o batismo pouco antes de morrer; sua mãe, Mônica, pelo contrário, era uma cristã fervorosa, e exercia sobre o filho uma notável influência religiosa. Indo para Cartago, a fim de aperfeiçoar seus estudos, começados na pátria, desviou-se moralmente. Caiu em uma profunda sensualidade, que, segundo ele, é uma das maiores conseqüências do pecado original; dominou-o longamente, moral e intelectualmente, fazendo com que aderisse ao maniqueísmo, que atribuía realidade substancial tanto ao bem como ao mal, julgando achar neste dualismo maniqueu a solução do problema do mal e, por conseqüência, uma justificação da sua vida. Tendo terminado os estudos, abriu uma escola em Cartago, donde partiu para Roma e, em seguida, para Milão. Afastou-se definitivamente do ensino em 386, aos trinta e dois anos, por razões de saúde e, mais ainda, por razões de ordem espiritual.

Entrementes – depois de maduro exame crítico – abandonara o maniqueísmo, abraçando a filosofia neoplatônica que lhe ensinou a espiritualidade de Deus e a negatividade do mal. Destarte chegara a uma concepção cristã da vida – no começo do ano 386. Entretanto a conversão moral demorou ainda, por razões de luxúria. Finalmente, como por uma fulguração do céu, sobreveio a conversão moral e absoluta, no mês de setembro do ano 386. Agostinho renuncia inteiramente ao mundo, à carreira, ao matrimônio; retira-se, durante alguns meses, para a solidão e o recolhimento, em companhia da mãe, do filho e dalguns discípulos, perto de Milão. Aí escreveu seus diálogos filosóficos, e, na Páscoa do ano 387, juntamente com o filho Adeodato e o amigo Alípio, recebeu o batismo em Milão das mãos de Santo Ambrósio, cuja doutrina e eloqüência muito contribuíram para a sua conversão. Tinha trinta e três anos de idade.

Depois da conversão, Agostinho abandona Milão, e, falecida a mãe em Óstia, volta para Tagasta. Aí vendeu todos os haveres e, distribuído o dinheiro entre os pobres, funda um mosteiro numa das suas propriedades alienadas. Ordenado padre em 391, e consagrado bispo em 395, governou a igreja de Hipona até à morte, que se deu durante o assédio da cidade pelos vândalos, a 28 de agosto do ano 430. Tinha setenta e cinco anos de idade.

Após a sua conversão, Agostinho dedicou-se inteiramente ao estudo da Sagrada Escritura, da teologia revelada, e à redação de suas obras, entre as quais têm lugar de destaque as filosóficas. As obras de Agostinho que apresentam interesse filosófico são, sobretudo, os diálogos filosóficos: Contra os acadêmicos, Da vida beata, Os solilóquios, Sobre a imortalidade da alma, Sobre a quantidade da alma, Sobre o mestre, Sobre a música. Interessam também à filosofia os escritos contra os maniqueus: Sobre os costumes, Do livre arbítrio, Sobre as duas almas, Da natureza do bem.

Dada, porém, a mentalidade agostiniana, em que a filosofia e a teologia andam juntas, compreende-se que interessam à filosofia também as obras teológicas e religiosas, especialmente: Da Verdadeira Religião, As Confissões, A Cidade de Deus, Da Trindade, Da Mentira.


Pensamento

Agostinho considera a filosofia praticamente, platonicamente, como solucionadora do problema da vida, ao qual só o cristianismo pode dar uma solução integral. Todo o seu interesse central está portanto, circunscrito aos problemas de Deus e da alma, visto serem os mais importantes e os mais imediatos para a solução integral do problema da vida.

O problema gnosiológico é profundamente sentido por Agostinho, que o resolve, superando o ceticismo acadêmico mediante o iluminismo platônico. Inicialmente, ele conquista uma certeza: a certeza da própria existência espiritual; daí tira uma verdade superior, imutável, condição e origem de toda verdade particular. Embora desvalorizando, platonicamente, o conhecimento sensível em relação ao conhecimento intelectual, admite Agostinho que os sentidos, como o intelecto, são fontes de conhecimento. E como para a visão sensível além do olho e da coisa, é necessária a luz física, do mesmo modo, para o conhecimento intelectual, seria necessária uma luz espiritual. Esta vem de Deus, é a Verdade de Deus, o Verbo de Deus, para o qual são transferidas as idéias platônicas. No Verbo de Deus existem as verdades eternas, as idéias, as espécies, os princípios formais das coisas, e são os modelos dos seres criados; e conhecemos as verdades eternas e as idéias das coisas reais por meio da luz intelectual a nós participada pelo Verbo de Deus. Como se vê, é a transformação do inatismo, da reminiscência platônica, em sentido teísta e cristão. Permanece, porém, a característica fundamental, que distingue a gnosiologia platônica da aristotélica e tomista, pois, segundo a gnosiologia platônica-agostiniana, não bastam, para que se realize o conhecimento intelectual humano, as forças naturais do espírito, mas é mister uma particular e direta iluminação de Deus.


Metafísica

Em relação com esta gnosiologia, e dependente dela, a existência de Deus é provada, fundamentalmente, a priori, enquanto no espírito humano haveria uma presença particular de Deus. Ao lado desta prova a priori, não nega Agostinho as provas a posteriori da existência de Deus, em especial a que se afirma sobre a mudança e a imperfeição de todas as coisas. Quanto à natureza de Deus, Agostinho possui uma noção exata, ortodoxa, cristã: Deus é poder racional infinito, eterno, imutável, simples, espírito, pessoa, consciência, o que era excluído pelo platonismo. Deus é ainda ser, saber, amor. Quanto, enfim, às relações com o mundo, Deus é concebido exatamente como livre criador. No pensamento clássico grego, tínhamos um dualismo metafísico; no pensamento cristão – agostiniano – temos ainda um dualismo, porém moral, pelo pecado dos espíritos livres, insurgidos orgulhosamente contra Deus e, portanto, preferindo o mundo a Deus. No cristianismo, o mal é, metafisicamente, negação, privação; moralmente, porém, tem uma realidade na vontade má, aberrante de Deus. O problema que Agostinho tratou, em especial, é o das relações entre Deus e o tempo. Deus não é no tempo, o qual é uma criatura de Deus: o tempo começa com a criação. Antes da criação não há tempo, dependendo o tempo da existência de coisas que vem-a-ser e são, portanto, criadas.

Também a psicologia agostiniana harmonizou-se com o seu platonismo cristão. Por certo, o corpo não é mau por natureza, porquanto a matéria não pode ser essencialmente má, sendo criada por Deus, que fez boas todas as coisas. Mas a união do corpo com a alma é, de certo modo, extrínseca, acidental: alma e corpo não formam aquela unidade metafísica, substancial, como na concepção aristotélico-tomista, em virtude da doutrina da forma e da matéria. A alma nasce com o indivíduo humano e, absolutamente, é uma específica criatura divina, como todas as demais. Entretanto, Agostinho fica indeciso entre o criacionismo e o traducionismo, isto é, se a alma é criada diretamente por Deus, ou provém da alma dos pais. Certo é que a alma é imortal, pela sua simplicidade. Agostinho, pois, distingue, platonicamente, a alma em vegetativa, sensitiva e intelectiva, mas afirma que elas são fundidas em uma substância humana. A inteligência é divina em intelec
to intuitivo e razão discursiva; e é atribuída a primazia à vontade. No homem a vontade é amor, no animal é instinto, nos seres inferiores cego apetite.

Quanto à cosmologia, pouco temos a dizer. Como já mais acima se salientou, a natureza não entra nos interesses filosóficos de Agostinho, preso pelos problemas éticos, religiosos, Deus e a alma. Mencionaremos a sua famosa doutrina dos germes específicos dos seres – rationes seminales. Deus, a princípio, criou alguns seres já completamente realizados; de outros criou as causas que, mais tarde, desenvolvendo-se, deram origem às existências dos seres específicos. Esta concepção nada tem que ver com o moderno evolucionismo, como alguns erroneamente pensaram, porquanto Agostinho admite a imutabilidade das espécies, negada pelo moderno evolucionismo.


A Moral

Evidentemente, a moral agostiniana é teísta e cristã e, logo, transcendente e ascética. Nota característica da sua moral é o voluntarismo, a saber, a primazia do prático, da ação – própria do pensamento latino – , contrariamente ao primado do teorético, do conhecimento – próprio do pensamento grego. A vontade não é determinada pelo intelecto, mas precede-o. Não obstante, Agostinho tem também atitudes teoréticas como, por exemplo, quando afirma que Deus, fim último das criaturas, é possuído por um ato de inteligência. A virtude não é uma ordem de razão, hábito conforme à razão, como dizia Aristóteles, mas uma ordem do amor.

Entretanto a vontade é livre, e pode querer o mal, pois é um ser limitado, podendo agir desordenadamente, imoralmente, contra a vontade de Deus. E deve-se considerar não causa eficiente, mas deficiente da sua ação viciosa, porquanto o mal não tem realidade metafísica. O pecado, pois, tem em si mesmo imanente a pena da sua desordem, porquanto a criatura, não podendo lesar a Deus, prejudica a si mesma, determinando a dilaceração da sua natureza. A fórmula agostiniana em torno da liberdade em Adão – antes do pecado original – é: poder não pecar; depois do pecado original é: não poder não pecar; nos bem-aventurados será: não poder pecar. A vontade humana, portanto, já é impotente sem a graça. O problema da graça – que tanto preocupa Agostinho – tem, além de um interesse teológico, também um interesse filosófico, porquanto se trata de conciliar a causalidade absoluta de Deus com o livre arbítrio do homem. Como é sabido, Agostinho, para salvar o primeiro elemento, tende a descurar o segundo.

Quanto à família, Agostinho, como Paulo apóstolo, considera o celibato superior ao matrimônio; se o mundo terminasse por causa do celibato, ele alegrar-se-ia, como da passagem do tempo para a eternidade. Quanto à política, ele tem uma concepção negativa da função estatal; se não houvesse pecado e os homens fossem todos justos, o Estado seria inútil. Consoante Agostinho, a propriedade seria de direito positivo, e não natural. Nem a escravidão é de direito natural, mas conseqüência do pecado original, que perturbou a natureza humana, individual e social. Ela não pode ser superada naturalmente, racionalmente, porquanto a natureza humana já é corrompida; pode ser superada sobrenaturalmente, asceticamente, mediante a conformação cristã de quem é escravo e a caridade de quem é amo.

O Mal

Agostinho foi profundamente impressionado pelo problema do mal – de que dá uma vasta e viva fenomenologia. Foi também longamente desviado pela solução dualista dos maniqueus, que lhe impediu o conhecimento do justo conceito de Deus e da possibilidade da vida moral. A solução deste problema por ele achada foi a sua libertação e a sua grande descoberta filosófico-teológica, e marca uma diferença fundamental entre o pensamento grego e o pensamento cristão. Antes de tudo, nega a realidade metafísica do mal. O mal não é ser, mas privação de ser, como a obscuridade é ausência de luz. Tal privação é imprescindível em todo ser que não seja Deus, enquanto criado, limitado. Destarte é explicado o assim chamado mal metafísico, que não é verdadeiro mal, porquanto não tira aos seres o lhes é devido por natureza. Quanto ao mal físico, que atinge também a perfeição natural dos seres, Agostinho procura justificá-lo mediante um velho argumento, digamos assim, estético: o contraste dos seres contribuiria para a harmonia do conjunto. Mas é esta a parte menos afortunada da doutrina agostiniana do mal.

Quanto ao mal moral, finalmente existe realmente a má vontade que livremente faz o mal; ela, porém, não é causa eficiente, mas deficiente, sendo o mal não-ser. Este não-ser pode unicamente provir do homem, livre e limitado, e não de Deus, que é puro ser e produz unicamente o ser. O mal moral entrou no mundo humano pelo pecado original e atual; por isso, a humanidade foi punida com o sofrimento, físico e moral, além de o ter sido com a perda dos dons gratuitos de Deus. Como se vê, o mal físico tem, deste modo, uma outra explicação mais profunda. Remediou este mal moral a redenção de Cristo, Homem-Deus, que restituiu à humanidade os dons sobrenaturais e a possibilidade do bem moral; mas deixou permanecer o sofrimento, conseqüência do pecado, como meio de purificação e expiação. E a explicação última de tudo isso – do mal moral e de suas conseqüências – estaria no fato de que é mais glorioso para Deus tirar o bem do mal, do que não permitir o mal. Resumindo a doutrina agostiniana a respeito do mal, diremos: o mal é, fundamentalmente, privação de bem (de ser); este bem pode ser não devido (mal metafísico) ou devido (mal físico e moral) a uma determinada natureza; se o bem é devido nasce o verdadeiro problema do mal; a solução deste problema é estética para o mal físico, moral (pecado original e Redenção) para o mal moral (e físico).


A História

Como é notório, Agostinho trata do problema da história na Cidade de Deus, e resolve-o ainda com os conceitos de criação, de pecado original e de Redenção. A Cidade de Deus representa, talvez, o maior monumento da antigüidade cristã e, certamente, a obra prima de Agostinho. Nesta obra é contida a metafísica original do cristianismo, que é uma visão orgânica e inteligível da história humana. O conceito de criação é indispensável para o conceito de providência, que é o governo divino do mundo; este conceito de providência é, por sua vez, necessário, a fim de que a história seja suscetível de racionalidade. O conceito de providência era impossível no pensamento clássico, por causa do basilar dualismo metafísico. Entretanto, para entender realmente, plenamente, o plano da história, é mister a Redenção, graças aos quais é explicado o enigma da existência do mal no mundo e a sua função. Cristo tornara-se o centro sobrenatural da história: o seu reino, a cidade de Deus, é representada pelo povo de Israel antes da sua vinda sobre a terra, e pela Igreja depois de seu advento. Contra este cidade se ergue a cidade terrena, mundana, satânica, que será absolutamente separada e eternamente punida nos fins dos tempos.

Agostinho distingue em três grandes seções a história antes de Cristo. A primeira concerne à história das duas cidades, após o pecado original, até que ficaram confundidas em um único caos humano, e chega até a Abraão, época em que começou a separação. Na Segunda descreve Agostinho a história da cidade de Deus, recolhida e configurada em Israel, de Abraão até Cristo. A terceira retoma, em separado, a narrativa do ponto em que começa a história da Cidade de Deus separada, isto é,
desde Abraão, para tratar paralela e separadamente da Cidade do mundo, que culmina no império romano. Esta história, pois, fragmentária e dividida, onde parece que Satanás e o mal têm o seu reino, representa, no fundo, uma unidade e um progresso. É o progresso para Cristo, sempre mais claramente, conscientemente e divinamente esperado e profetizado em Israel; e profetizado também, a seu modo, pelos povos pagãos, que, consciente ou inconscientemente, lhe preparavam diretamente o caminho. Depois de Cristo cessa a divisão política entre as duas cidades; elas se confundem como nos primeiros tempos da humanidade, com a diferença, porém, de que já não é mais união caótica, mas configurada na unidade da Igreja. Esta não é limitada por nenhuma divisão política, mas supera todas as sociedades políticas na universal unidade dos homens e na unidade dos homens com Deus. A Igreja, pois, é acessível, invisivelmente, também às almas de boa vontade que, exteriormente, dela não podem participar. A Igreja transcende, ainda, os confins do mundo terreno, além do qual está a pátria verdadeira. Entretanto, visto que todos, predestinados e ímpios, se encontram empiricamente confundidos na Igreja – ainda que só na unidade dialética das duas cidades, para o triunfo da Cidade de Deus – a divisão definitiva, eterna, absoluta, justíssima, realizar-se-á nos fins dos tempos, depois da morte, depois do juízo universal, no paraíso e no inferno. É uma grande visão unitária da história, não é uma visão filosófica, mas teológica: é uma teologia, não uma filosofia da história.


 

Educação

Agostinho foi grande pensador e sutil psicólogo. Mas destacou-se sobretudo como o mais importante filósofo e teólogo, no limiar entre a Antiguidade e a Idade Média. É igualmente o principal representante da educação patrística, que perdurou do século I ao VII depois de Cristo. Esse modelo de educação que teve sua origem no chamado período decadente do Império Romano, mas que influenciou um longo período da Idade Média, se caracterizava pela intenção apologética, isso é, de defesa da fé e conversão dos não-cristãos. A exposição da doutrina religiosa tenta harmonizar fé e razão., a fim de compreender a natureza de Deus e da alma e os valores da vida moral. Os primeiros teólogos da educação patrística, ao retornar à filosofia platônica, dão destaque a alguns temas, adaptando-os à ótica cristã de valorização do supra sensível, a fim de fundamentar uma moral rigorosa, que defende a abdicação do mundo e o controle racional das paixões. Em sua busca de conciliação entre a fé cristã e as doutrinas greco-romanas difundiu escolas catequéticas por todo o império.
Os estudo medievais compreendiam o trivium (gramática, dialética e retórica) e o quadrivium (aritmética, geometria, astronomia e música).
Durante muito tempo Agostinho deu aulas de retórica em Tagaste, sua cidade natal, e depois em Roma e Milão, onde entrou em contato com a filosofia neoplatônica. Após a sua conversão ao cristianismo dedicou-se a elaboração da filosofia cristã. Seu trabalho específico sobre educação é o pequeno livro De Magistro (Do Mestre), que também ficou conhecido como “O Livro da Revolta”. A obra adota uma forma platônica de diálogo entre Agostinho e seu filho, Adeodato, que época estava com 16 anos. Nesse livro desenvolveu a idéia de que, como toda necessidade humana, inclusive a aprendizagem, em última instância só pode ser satisfeita por Deus. Em sua pedagogia recomendou aos educadores jovialidade, alegria, paz no coração e às vezes também alguma brincadeira. Procurou investigar os aspectos fundamentais de uma pedagogia de estatuto religioso e deu-lhe soluções realmente exemplares: pela espessura cultural, pelo vigos teórico e também pelo significado espiritual.
Concentrado na questão da origem e natureza do conhecimento, como Platão Agostinho distingue dois tipos: um, imperfeito, mutável, advém dos sentidos, e o outro que é o perfeito conhecimento das essências imutáveis, de onde provém? Sabemos que Platão começa explicando-o pela alegoria da caverna e em seguida chega a teoria da reminescência. O cristão Agostinho adapta essa explicação à teoria da iluminação. O homem receberia de Deus o conhecimento das verdades eternas, o que não significa desprezar o próprio intelecto, pois, como o sol, Deus ilumina a razão e torna possível o pensar correto. A verdade vem de DEus, de quem aalma humana carrega diretamente a marca criadora, já que é feita a sua imagem e semelhança. O saber portanto não seria transmitido do mestre ao aluno, já que a posse da verdade é uma experiência que não vem do exterior, mas de dentro e cada um. Isso é possível porque Cristo habita o homem interior. Toda educação é dessa forma uma auto-educação, possibilitada pela iluminação divina. As Confissões mostram – de forma autobiográfica – o cmplexo itinerário da alma cristã que deve se afastar do pecado e se dirigir a Deus, através do arrependimento e da ascese, mas tornando-se cosnciente de sua própria fragilidade e da luta dramática que deve animá-la e que deve ser guiada pela razão. A ascensão a Deus é um processo de auto-educação, de crescimento interior que deve se realizar sob a direção do próprio indivíduo e da sua racionalidade, capaz de desafiar e corrigir o erro e o pecado.
Mas o cristão deve também adquirir conhecimentos, que enquanto universais e eternos superam o próprio indivíduo e se colocam além da linguagem que é instrumento: tais verdades devem ser descobertas e despertadas; o mestre é, portanto, sobretudo um mestre interior, do qual Cristo é o símbolo. Aprender é operar esse despertar, seguindo o mestre espiritual, que ilumina com a verdade dos universais.


 Fontes

Internet:

Mundo dos Filósofos: www.mundodosfilosofos.com.br/agostinho.htm
Santo Agostinho: site de autoria de Sandra Elisa que traz uma série de trabalhos acadêmicos dedicados à literatura.
OSA (Ordem de Santo Agostinho)

Bibliografia:

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. Filosofia da Educação. São Paulo: Moderna, 1996.

ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. Filosofando: Introdução à Filosofia. São Paulo: Moderna, 2002.

AGOSTINHO, Santo, Tradução de J. Oliveira Santos, S.J., e A. Ambrósio de Pina. S.J., Confissões, Editora Nova Cultural Ltda., São Paulo, Brasil, 1999.

SANTO Agostinho. “De Magistro”. In: Santo Agostinho, São Paulo: Abril Cultural, 1973, Coleção Os Pensadores.

CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 1995.

MARCONDES, Danilo. Iniciação à História da Filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.

ROSA, Maria da Gloria de. A história da educação através dos textos. São Paulo: Cultrix, 1999.