Sinceramente não entendo a vulgarização que fizeram da obra e da escritora Clarice Lispector. Alguns pseudo-intelectuais que nunca leram uma obra dela sequer, querem tratá-la como se fosse uma escritora de segunda categoria, que escreveu livros bobos de auto-ajuda. Quem acha isso é por que realmente não conhece nada a respeito de Clarice Lispector, e o que sabe a respeito dela é apenas o que dita a modinha das redes sociais em que uma frase atribuída mil vezes a um escritor se torna verdadeiramente dele, ainda que ele nunca a tenha dito ou escrito aquilo.

Pois bem, é exatamente isso que aconteceu com Clarice Lispector. As redes sociais lhe impingiram frases que ela nunca disse ou escreveu, e é difícil tirar essa informação errônea das pessoas. E alguns passaram a julgar a escritora pelo que ela nunca escreveu.

Lembro de uma escola onde eu trabalhei em que todo ano a professora de Português fazia um trabalho com os alunos, colando cartazes com frases de Clarice Lispector, frases que não eram dela mas que a professora achava que eram pois viu na internet. Ela enquanto professora de português propagava a ignorância. Daí como dizer aos alunos dela que aquilo estava incorreto?

Eu juro que aquilo doía em meus olhos, tanto quanto dói ver um pseudo-intelectual apedrejando Clarice Lispector pautado na ignorância das frases da internet e das redes sociais. “Clarice Lispector virou modinha, então vamos apedrejá-la” pois pseudo-intelectuais por praxe tem que odiar o que é “popular”. Mas será que Clarice Lispector ficou mesmo popular? Não, na verdade ela foi vulgarizada, e não popularizada. Tem uma diferença. O pior é que ela é julgada por coisas que nunca escreveu. Clarice Lispector não é autora de auto-ajuda, também não escreveu poesia como alguns acreditam.

Na verdade Clarice Lispector é uma excelente escritora, e os livros dela são maravilhosos e valem muito a pena serem lidos. Considero-a tão boa ou melhor do que Virginia Woolf. Clarice Lispector ousa mais e seus personagens vão além. Após as epifanias, os personagens de Virgínia voltam a mesma vidinha de sempre ou sequer ousam ao ponto de atingir epifanias; os de Clarice Lispector vão até as últimas consequências, e nunca mais são os mesmos.

Moser Benjamin chegou a compará-la a Kafka, apesar de que mesmo inspirando-se em Woolf, Kafka, Joyce e em Hesse, ela possui um estilo próprio e peculiar, nascido da sua vivência no Brasil e em especial no norte e nordeste.

Acho lamentável o que fizeram com a escritora, postando frases que ela nunca escreveu e ainda por cima vulgarizando a obra como se fosse algo ruim, uma espécie de manual de auto-ajuda. Clarice Lispector não é um “Lair Ribeiro de saias”.

A maioria das pessoas que publicam essas frases na internet não tem ideia do conteúdo da obra da escritora e nunca devem ter lido um livro sequer dela.

Eu amo a verdadeira obra de Clarice Lispector, e não vou deixar de gostar dela por que virou “modinha maldita” nas redes sociais e os tais pseudos passaram a pré-julgá-la. Danem-se os pseudos e danem-se as modinhas. Danem-se também as redes sociais de compartilhamento de desinformação.