Srom – Lygia Fagundes Telles

ELA foi o jardineiro surdo-mudo que encontrei certa manhã podando a grama do jardim do meu avô. Quando a lâmina recurva afundou mais, traçando um semicírculo, senti seu hálito de terra e me afastei depressa. Foi depois a mariposa de prata com um olho azul-turquesa desenhado em cada asa, entrou no meu quarto, voejou pesadamente em redor da lâmpada e saiu para a noite. Encontrei-a bem mais tarde na flor de seda lilás do chapéu da antiga professora, convidei-a para um chá numa confeitaria antiquada e do encontro só me ficou aquela flor comovente, de pétalas lânguidas, estiradas ao longo da aba de feltro empoeirado.


Voltei a revê-la na madrugada de um aeroporto – Marrocos? Era agora criança de gorro de lã, dormindo no colo da velha senhora que também cochilava, tudo muito tranqüilo até a velha acordou num susto, como se a tivessem sacudido, acordou e olhou em pânico para a criança dormindo, parecia perguntar, mas quem a deixou aqui?

Desviei o olhar. Foi ainda o som do bumbo no escuro, as batidas compassadas de um ritual enquanto a trapezista de malha branca e pés em ponta ia subindo pela corda pendendo do teto, cada vez mais difíceis os movimentos do corpo em contrações de lagarta, subindo com o som do bumbo que avisava em código o que ia acontecer – tapei os ouvidos. Enrolo no dedo o fio do tempo, era menina e a reconheci na pequena pá de cabo de marfim, meu pai jogava roleta, mas eu olhava o homem de smoking com sua pá leve, ágil, recolhendo ou oferecendo as fichas deslizantes, o medo também indo e vindo sobre o pano verde com números nos quadrados, como jogo de amarelinha. Naquele baile de carnaval não foi a mulher de cílios postiços e luvas de lantejoulas vermelhas? Passei perto do seu camarote, reconheci-a e ela me atirou um punhado de confete na boca.

Desertora de mortos assim que eles morrem, nunca está onde se supõe que ela esteja. Com seu raro poder de mimetismo, toma a forma e o calor dos objetos, fragmenta-se nas pessoas e a única vez que deixou seu nome escrito foi na embaçada janela de uma igreja. De trás para diante, era um reflexo no vidro. Em latim.