Toda a minha vida gaguejei – Alberto Morávia

Saio de casa, olhando à direita e à esquerda, para ver se “ele” está lá. Moro numa rua das que se chamam particulares, ou melhor dizendo, sem saída, e ao longo da qual se rasgam, diante uns dos outros, os jardins de três ou quatro mansões. Vejo apenas um …

Em sonhos ouço sempre passos na escada – Alberto Morávia

Como tanta gente, tenho o costume de dormir depois do almoço. Já que como e bebo muito, adormeço facilmente. Durmo no meu estúdio, uma magnífica mansarda através de cujas vidraças se rasga uma vista de conjunto sobre a cidade. Mal desperto, salto do divã e faço um café muito …

Um trovão revelador – Alberto Morávia

Havia cinco dias que eu fugia em ziguezague, para confundir as minhas próprias pegadas, de Paris a Amsterdão, de Amsterdão a Londres, de Londres a Hamburgo, de Hamburgo a Marselha, de Marselha a Viena, de Viena a Roma, ora de comboio, ora de avião sem dormir ou dormindo pouco e …

O passeio do espectador – Alberto Morávia

A chave gira na fechadura da maneira violenta com que gira uma chave quando quer exprimir repugnância e rejeição. E, com efeito, logo a seguir, para desfazer todos os equívocos, a voz da sua mulher, do outro lado da porta, grita‑lhe muito explicitamente que não quer voltar a fazer …

As mãos no pescoço – Alberto Morávia

A sua mulher lhe diz: Segura‑me no pescoço com as duas mãos. Não é estranho? Um homem grande e atlético como você, com umas mãos tão pequenas? Vai aperta, até me dares a volta ao pescoço com os dedos. Não tenhas medo de me machucar, quero ver se consegues dar‑me …

Uma mulher na casa do guarda alfandegário – Alberto Morávia

Sou um homem de ordem, não só psicológica, mas profissionalmente também: presto serviço como guarda alfandegário no aeroporto. Como todos os homens de ordem, todavia, gosto de, por vezes, esquecer a ordem e deixar passar a mercadoria de contrabando da imaginação. O sábado e o domingo dedico‑os, justamente, às …

Chuva de Maio – Alberto Morávia

Um dia desses voltarei a Monte Mario, na Taverna dos Caçadores, mas irei com amigos, aqueles do domingo, que tocam acordeão e, na falta de moças, dançam entre si. Sozinho, nunca teria coragem. De noite, às vezes, sonho com as mesas da taverna, com a chuva quente de …

O diabo não pode salvar o mundo – Alberto Morávia

Sou um velho diabo, sim, muito velho, mas nem um bom diabo nem, menos ainda, um pobre diabo. Se se pensar que, nos últimos cem anos, me dediquei sobretudo ao progresso científico e que, os conhecimentos que resultaram da bomba de Hiroshima, fui eu a sugeri‑los, um a um e …

A mulher da capa preta – Alberto Morávia

Na mesa, tudo está exatamente como há quatro anos, na época do seu casamento: o serviço de porcelana inglesa azul e branca, os copos de cristal da Boêmia, os talheres com os cabos de marfim, os saleiros de prata, o galheteiro de estanho, tudo está como naqueles dias já distantes. …

Ao Deus Desconhecido – Alberto Morávia

Durante aquele inverno, encontrava‑me muitas vezes com Marta, uma enfermeira que conhecera alguns meses antes, no hospital onde estivera internado por causa de certas febres misteriosas, contraídas provavelmente na África, durante uma viagem, na qualidade de convidado especial.
Pequena, baixinha, com uma cabeça encimada por densos cabelos castanho‑avermelhados encrespados e finos, …

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