Trisexual – Luís Fernando Veríssimo

As amigas se contavam tudo, tudo, do mais banal ao mais íntimo. Eram amigas desde pequenas e não passavam um dia sem se falar. Quando não se encontravam, se telefonavam. Cada uma fazia um relatório do seu dia e do seu estado, e não escapava uma ida ao super, um corrimento, uma indagação filosófica ou uma fofoca nova. Deus e todo o mundo, literalmente. Jacine, Marília e Branca. Branca era…

A casa do remorso – Luís Fernando Veríssimo

Li no Estadão uma matéria, reproduzida do The Guardian, da Inglaterra, sobre Mikhail Kalashnikov, que criou o mais usado fuzil automático do mundo, o AK-14. Mikhail está com 83 anos, vive uma aposentadoria tranqüila nos Urais, cercado pelas filhas, e, fora a surdez, resultado dos anos testando armas, não ficou com qualquer seqüela do seu trabalho. Certamente nenhum remorso.

A mão no ombro – Lygia Fagundes Telles

O homem estranhou aquele céu verde-cinza com a lua de cera coroada por um fino galho de árvore, as folhas se desenhando nas minúcias sobre o fundo opaco. Era uma lua ou um sol apagado? Difícil saber se estava anoitecendo ou se já era manhã no jardim que tinha a luminosidade fosca de uma antiga moeda de cobre. Estranhou o perfume úmido de ervas. E o silêncio cristalizado como num…

Sala de espera – Luís Fernando Veríssimo

Sala de espera de dentista. Homem dos seus quarenta anos. Mulher jovem e bonita. Ela folheia uma Cruzeiro de 1950. Ele finge que lê uma Vida dentária. Ele pensa: que mulherão. Que pernas. Coisa rara, ver pernas hoje em dia. Anda todo mundo de jeans. Voltamos à época em que o máximo era espiar um tornozelo. Sempre fui um homem de pernas. Pernas com meias. Meias de náilon. Como eu…

A Voz da Felicidade – Luís Fernando Veríssimo

A Voz da Felicidade – Alô? – Aqui fala a Voz da Felicidade. Quem fala aí? – Como? – Aqui fala a Voz da Felicidade. A voz que leva a alegria ao seu dia-a-dia. Amaro Amaral, o rei do dial. O que está nas ondas e não é surfista, está no fio e não é equilibrista. O que leva a sorte ao seu lar pelo ar.

Eu sei, mas não devia – Marina Colasanti

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia. A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma…

Começou, ele disse – Marina Colasanti

Acordou com o primeiro tiro sem saber porque tinha acordado. Trazia porém do sono um aviso de alarme. Sem se mexer, sem abrir completamente os olhos para não denunciar sua vigília, olhou em volta pela fresta das pálpebras. Lentamente percorreu as sombras, detendo-se mais na cadeira, onde as roupas jogadas criavam formas que não lhe eram familiares. Fazia sempre assim quando acordava de repente no meio da noite e o…