The Cult

Quem gosta de The Cult conhece muito bem o hino “She Sells Sanctuary” ou o disco Love ou as fases mais pesadas da banda. Mas há um vácuo em tudo isso, uma história muito pouco ou quase não contada. E essa história cobre a vida de dois pré-grupos, o The Southern Death Cult e o Death Cult. E cobre também o primeiro e excepcional disco de estréia já do rebatizado The Cult, Dreamtime. A banda era considerada um dos maiores nomes entre os góticos, seja lá isso bom ou ruim. Mas, no meio de tanta definição, resplandecem clássicos como “Spiritwalker”, “Dreamtime”, “Go West”, “Gimmick”, entre outras. Um disco que já mostrava todas as qualidades que o grupo mostraria no futuro: um ótimo vocalista, um belo guitarrista, uma cozinha azeitada, muito carisma e ótimas referências. Dreamtime mostrou que a banda já tinha muito talento e que a fama era apenas uma questão de tempo…

Biografia – 1ª parte – Dreamtime

Por Rubens Leme da Costa

Ian Astbury em um show entre os anos de 1982 a 1983O personagem central de toda a história é, sem dúvida nenhuma, o vocalista Ian Astbury. Nascido no dia 14 de maio de 1961, Ian teve, em suas próprias palavras, uma infância traumática. Tudo por causa de seu pai, dono de um espírito aventureiro e que obrigou a família a mudar para vários lugares, até mesmo no Canadá. E foi em Ontario que recebeu um convite marcante em sua vida: ao conhecer alguns índios, foi chamado para ir até a reserva indígena. O modo de vida dos índios e sua cultura marcariam a vida de Ian profundamente.

Aos 16 anos, Ian, que era considerado um garoto estranho e rebelde, resolveu voltar para a Inglaterra. Estava fascinado pelos novos grupos punks e logo após deixar o exército resolveu que era hora de começar um grupo. Em sua cabeça havia algumas referências, entre elas a dos índios e uma paixão pelo som dos anos 60 e 70, bandas como The Doors, Led Zeppelin. Assim nascia o The Southern Death Cult, um grupo punk com influências sessentista e tribais. Uma mistura quente e estranha.

Ian nos tempos de The Southern Death CultE mais estranho era o visual de Ian ao vivo, todo pintado como se estivesse indo para a guerra, com seus uivos e uma postura completamente alucinada, mostrando ser um excelente cantor e um ótimo perfomer.

E por mais incrível que possa parecer, o The Southern Death Cult ganhou um grande número de fãs e amantes daquele som totalmente caótico, com batidas tribais e que unia diversas influências.

The Southern Death Cult - da esquerda para a direita: Ian, Buzz, Aky e BarryMas não foram apenas uma sensação londrina qualquer. Junto com outros integrantes – David “Buzz” Burrowas (guitarra), Barry Jepson (baixo) e Haq “Aky” Quereshi (bateria) causaram uma verdadeira comoção, ao ponto de juntarem duas mil pessoas em seu quinto show no clube Heaven, em Londres.

O grupo conseguiu dois grandes sucessos na parada independente com as músicas “Fat Man” e “Moya”, que durante muito tempo estiveram presentes no repertório do The Cult e com as quais costumavam fechar os shows.

capa do single FatmanTanto barulho acabou chamando a atenção da gravadora Beggar’s Banquet, a mesma do Bauhaus, no final de 1982, que os contratou.

No ano seguinte abrem os shows do grupo de Peter Murphy e lançam um compacto com as duas canções, que chegou ao topo das paradas independentes e que ficou perto das 40 mais da parada “oficial” da Inglaterra. Curiosamente, o The Southern Death Cult faria mais sucesso do que o grupo principal de sua gravadora.

Veja a letra dessas duas canções:

Fatman

The fatman cannot see
What’s going on
For he’s not me
The fatman takes away
What isn’t his
He weakens you and me
Lust of your life
Money …………. Life
Your money is his life
The fatman an unhappy man
And all his friends
Are fatmen too
…………. Tommy can you hear me?

Moya

The kids of the coca-cola nation
Are too doped up to realise
That time is running out
Nagasaki’s crying out
The doomwatch says its time
To give back what you took away
Uncle sam meets the reaper
Wounded knee over again
Kasota kasota annihilation
Of a nation ……… Of our nation
Of a world population
Of the indian nation
Paha sapa …….. Goodbye

capa do disco póstumo The Southern Death CultE sem nenhum motivo aparente, Ian encerra as atividades do The Southern Death Cult em março de 1983, e funda outra banda, a The Death Cult, com três novos integrantes: o guitarrista Billy Duffy, o baixista Jamie Stewart e o baterista Ray Mondo.

Como presente, um disco póstumo foi editado e que, incrivelmente, saiu no Brasil, anos depois: The Southern Death Cult, contendo todas as canções registradas pelo grupo, incluindo as duas canções mais clássicas.

The Death CultO Death Cult era, na verdade, a junção de outros três grupos com alguma fama entre a safra punk e new wave: Ian vinha do Southern, Billy do Theatre Of Hate e Jamie e Ray do Ritual. Meses depois, Ian diria que estava decepcionado com os rumos que sua antiga banda seguia e acabou encontrando Billy fazendo um bico após ter deixado o Hate. Os dois já se conheciam desde o ano anterior e começaram a pensar seriamente em montar um novo grupo. Vale dizer que Billy já era um veterano, tendo integrado o grupo The Nosebleeds, de Manchester, por onde passaram Vini Reilly (Durutti Column) e Morrissey, muitos anos antes desse formar os Smiths.

capa do EP Death CultEm julho, o grupo lança um EP apenas com o nome da banda. O disco trazia quatro músicas: “Brothers Grimm”, “Ghost Dance”, “Horse Nation” e “Christians” e saiu pelo selo Situation Two. Nesse lançamento, Ian abandonou o sobrenome de solteiro da mãe – Lindsay – e começou a usar o seu próprio sobrenome – Astbury.

Em setembro, Ray deixa a banda e entra o baterista Nigel Preston, ex-Sex Gang Children e velho amigo de Billy. Com essa formação, o grupo grava um novo compacto contendo a clássica “God’s Zoo” e “God’s Zoo (These Times)”, em outubro.

capa do disco póstumo Ghost Dance“God’s Zoo” encabeçou a parada independente e o grupo ganhou fama por todo o país. Apesar de não terem gravado um disco inteiro, o Death Cult, assim como o The Southern ganhou um disco póstumo: Ghost Dance.

No dia 13 de janeiro de 1984, a banda foi convidada para se apresentar no programa televisivo The Tube e nesse dia Ian avisou que o nome da banda não seria mais The Death Cult e sim The Cult, já que acreditavam que a palavra “death” (morte) atraía coisas negativas.

Ian, Jamie, Nigel e BillyAssim, nascia o The Cult, sem, contudo, mexer na formação do quarteto.

O grupo já estava consolidado e com o novo nome lançou outro número 1 na parada independente, a poderosa “Spiritwalkwer”, ainda pelo selo Situation Two. A banda vivia então entre um show e outro e como os quatro eram fortes e carismáticos ao vivo, a legião de fãs só fazia crescer.

Em abril, resolveram que era mais do que hora de entrarem em um estúdio, não para gravarem um outro compacto, mas sim um LP inteiro. O Cult já era considerado uma das grandes bandas góticas – ou a maior – da Inglaterra, rótulo que não agradava muito o grupo.

Jamie Stewart lembra que o Cult tinha suas raízes em artistas que bebiam do blues – Jimi Hendrix, Doors, Led Zeppelin – e que eles desejavam passar a limpo todo esse referencial. O baixista conta que outra fixação da época era com o Vietnã: “coisas como o filme Apocalypse Now e ‘The End’ dos Doors fazia a cabeça de todas as bandas de Brixton à época e Ian tentava falar sobre essa situação absurda na qual jovens eram jogados em uma guerra completamente sem sentido.”

Com todas essas idéias, partiram para o País de Gales junto com o produtor John Brand. O grupo resolveu pegar duas antigas canções do repertório do Southern e do Death Cult – “Flowers in the Desert” e “Horse Nation”, respectivamente e fazerem novos arranjos. A primeira teve uma sutil mudança de nome, virando “A Flower in the Desert”. Duffy começava a experimentar os feitos de wah wah em sua guitarra e introduzia seus primeiros riffs que levariam o Cult depois mais perto da fronteira com o heavy metal.

O disco foi gravado rapidamente e na segunda quinzena de abril já estava no estúdio Eel Pie, sendo mixado. Porém, teve um pequeno atraso por causa da canção “Go West”, que iria sair pelo selo Situation Two, mas acabou sendo regravada nos estúdios de Livingstone, em Londres, em 22 de junho. Ela foi remasterizada no Eel Pie e acabou entrando no disco e sendo lançada como o primeiro single.

capa do disco DreamtimeDreamtime é um espetacular disco de estréia em um ano – 1984 – em que muitos consideraram o começo do neo-psicodelismo, cheio de grandes lançamentos, como o disco de estréia dos Smiths, Ocean Rain, do Echo and the Bunnymen, Hyaena, Siouxsie and The Banshees, The Top, do The Cure, apenas para ficar entre os grupos mais populares.

Quando o disco saiu, o Cult foi aclamado como uma das melhores coisas e um dos shows mais bombásticos da Inglaterra.

capa do disco Dreamtime - Live At The LyceumE, como bônus, as primeiras 30 mil cópias traziam um disco ao vivo de presente: Dreamtime – Live At The Lyceum, gravado no dia 20 de maio de 1984, em Londres e que foi vendido junto, em edições com capas simples, duplas e teve o concerto filmado e lançado em vídeo.

Billy gostava de dizer que, se para muitos, o disco de estréia era algo absolutamente novo, para o Cult, aquelas canções já eram um passado distante: “tudo que podemos fazer é apenas seguir em frente.”

Para promover o disco, a banda saiu em uma turnê com lotação esgotada por onde tocasse, carregando o Big Country, até o Natal, dentro da Inglaterra, e com o Sisterhood, pela Europa, já em 1985.

Mas enquanto o Cult via sua fama subir às alturas, via também os problemas internos explodirem. E o grande responsável era o mais do que selvagem baterista Nigel Preston, dono de um temperamento tão explosivo, que chegou, certa vez, a ser preso por ter arrumado uma grande confusão em uma loja que não queria aceitar seu cartão de crédito vencido. A banda teve que pagar sua fiança e soltá-lo momentos antes de uma apresentação.

capa de Dreamtime em CDNigel colecionou outras grandes confusões fora dos palcos e bate-bocas imensos com os demais integrantes, até que foi definitivamente expulso em 1985, mas não sem antes ficar imortalizado como baterista da canção mais importante da história da banda, “She Sells Sanctuary”. O restante do disco Love seria gravado com o baterista de nome quase impronunciável: Mark Brzezicki, que tocava no Big Country. Na década de 90, Dreamtime ganhou uma outra capa quando foi lançado em CD. Mesmo sendo muito mais feia do que a original, pode-se ouvir todo o som e perceber alguns elementos que mostravam como a banda já era interessante e tinha feito um disco de estréia tão subestimado. Deixo vocês com duas letras do disco, a canção título e “Spiritwalker.” É importante citar que, mesmo no encarte estando escrito “my hair long my hair long/ an extension of my soul”, Ian não canta a palavra “soul” e sim “heart”. Um abraço e até a próxima coluna.

Dreamtime

Dreamtime, dreamtime
Dreamtime, dreamtime

I will wear my hair long
My hair long, my hair long
An extension of my heart
I will wear my hair long

Dreamtime, dreamtime
Dreamtime, dreamtime

Spiritwalker

Aaah, aaah aaah
Aaah, aaah aaah

Let it be beautiful when I sing the last song
I will give you even my body, Spiritwalker
Let all the children kiss the sun before
they sing their last song
I will give you even my body, Spiritwalker
Let the sun shine on me when I sing the last song
I will give you even my body, Spiritwalker
Let all the children kiss the stars before they sing their last song
I will give you even my body, Spiritwalker

Aaah, aaah aaah
Aaah, aaah aaah

Spiritwalker

Spiritwalker, Spiritwalker

Let all the children kiss the sun before they sing their last song
Let all the children kiss the sun before they sing their last song
I will have the whole world to make music with me

Spiritwalker, Sunwalker, Starwalker
Windwalker, Windwalker, Windwalker, Windwalker
Spirit, Spirit, Spirit, Spirit
Spirit, Spirit, Spirit, Spirit

Discografia

Dreamtime (1984)
Love (1985)
Electric (1987)
Sonic Temple (1989)
Ceremony (1991)
Rarites & Remixes (1991)
Pure Cult: The Best of The Cult (For Rockers, Ravers, Sinners, Lovers & Sinners)
The Cult (1994)
High Octane Cult (1996)
Painted In My Heart (2000)
Pure Cult: The Singles 1984-1995 (2000)
Rare Cult (2000)
Beyond Good and Devil (2001)