This Mortal Coil

Formada em 1983 em Wadsworth, Londres,Inglaterra, This Mortal Coil é um projeto do presidente da 4AD Ivo Watts. O nome escolhido para o projeto é bastante rico em interpretações. This Mortal Coil seria algo como “Esta espiral mortal”, fazendo alusão ao corpo da serpente que se enrodilha antes de dar o bote fatal. O espiral representa ainda agitação, dinamismo e força, símbolo do tempo cíclico e expressão do mito do eterno retorno onde vida e morte se alternam infinitamente, este mito traduz-se na figura do oroboro, presente na tradição de várias culturas, representado por uma serpente que enrodilhada em si mesma abocanha a própria cauda.

Na verdade não é uma de fato uma banda e sim um meio para Watts explorar diferentes territórios musicais com seus artistas favoritos, incluindo Syd Barret, Alex Chilton, Talking Heads, Tim Buckley e Gene Clark.

Durante o tempo em que durou, seu elenco teve a participação de várias estrelas do casting da gravadora. A lista incluiu ainda Kim Deal (Pixies e Breeders), Tanya Donelly, Heidi Berry e Robin Guthrie e Elizabeth Fraser do Cocteau Twins. Assim como as bandas que faziam parte do selo 4AD, This Mortal Coil tem um som atmosférico, algumas vezes lânguido, outras vezes tenebroso, próprio do gênero ethereal e darkwave.

Após o lançamento do álbum Blood em 1991, Watts declarou que este seria o último disco da banda, dando fim a um dos mais interessantes e criativos trabalhos do gênero ethereal.


Canções, sonhos e lágrimas …

Leonardo Saraiva

Etéreo, gótico, dark-wave …
Esqueça essas classificações.
E pense em música. Apenas em música. Canções …

Forjadas a partir do silêncio vivo, da pausa que pulsa, de finas lâminas de acordes suaves, muito suaves. Acordes que se entrelaçam ao corpo/alma como se O abraçasse e A conduzisse a um entorpecimento onírico, a uma perfeita e nítida sensação de se estar em sonho quando mesmo acordado. Uma música que se apropria de melodias tristes, talvez as mais tristes um dia já executadas, mas que antes de tudo encantam pela beleza de seus contornos macios e de suas nuances clássicas. Violinos, cellos e pianos em arranjos cintilantes. Vocais e cores irretocáveis. Sons e efeitos hipnóticos.

Por vezes a suavidade é irrompida pelo pulsar forte de uma percussão ou pelo agudo “acorde!” de uma guitarra. Os sonhos podem ser inquietantes e perturbadores. Uma tarântula ou um horizonte que sangra. Mas a suavidade logo retorna e se faz maior. E novamente a alma é reconduzida às paisagens plácidas e tristes. Sozinha, a verter lágrimas. O lençol alvo é revolvido pois o corpo se contorce. Mas o despertar é glorioso, afinal foi possível beijar o mundo dos sonhos por alguns delirantes minutos.

O This Mortal Coil era mesmo um sonho. O sonho de todos aqueles que atravessaram os anos 80 encantados pela música da gravadora 4AD, celeiro de grupos como Cocteau Twins, Dead Can Dance, Dif Juz, Clan of Xymox e Wolfgang Press. Esses, apenas alguns nomes. O This Mortal Coil era antes um projeto do que um grupo propriamente dito e reuniu, em suas três únicas obras, alguns integrantes da maior parte dessas bandas. Um verdadeiro “dream team”, na mais fiel tradução do termo.

O primeiro trabalho, It´ll End in Tears, já conseguia demonstrar a força do projeto, fruto da mente de Ivo Watts-Russel, dono/diretor/produtor da 4AD. Segundo relatos dos próprios músicos, Ivo tinha um conhecimento sobre música pop às raias da erudição. Suas intenções eram claras: promover o resgate de canções especiais e pouco conhecidas de grupos como Big Star, Talking Heads e The Byrds – ou ainda de registros únicos de artistas totalmente obscuros, esquecidos pelo tempo ou pela absoluta insensibilidade do ouvinte comum – e reconstruí-las sob uma ótica musical absolutamente diferente. Traduzi-las para o sofisticado refinamento estilístico da 4AD, costurando-as com os delírios sonoros concebidos por ele próprio ou pelos artistas convidados, privilegiando sempre os vocais. “A voz humana é o mais importante instrumento”, disse Ivo em uma entrevista à revista francesa Les Incorruptibles, em 93.

Song to The SirenO primeiro álbum, It´ll End in Tears (algo como “Terminará em Lágrimas”), do distante ano de 84, trazia releituras desconcertantes de “Another Day”, do desconhecido inglês Roy Harper, talvez a mais bela interpretação de Elizabeth Frazer, do Cocteau Twins que, da mesma forma, elevou “Song to The Siren” (magistralmente usada em “Estrada Perdida”, pelo diretor David Lynch, outro louco) do cantor folk Tim Buckley à condição de obra-prima. Vale também citar as covers de “Kangaroo” e “Holocaust”, canções do Big Star – grupo do genial Alex Chilton. As peças compostas pela “turma” da 4AD formam um capítulo à parte pois resultaram em encontros memoráveis, como em “Not Me”, de autoria de Colin Newman do grupo pós-punk inglês Wire, gravada conjuntamente pela guitarrista Manuela Rickers, do X-Mal Deutschland, Robin Guthrie e Simon Raymond, respectivamente guitarrista e baixista do Cocteau, além de Robbie Grey, vocalista do Modern English.

Em 1986, foi lançado o definitivo Filigree & Shadow.

BloodSeguiu-se um grande hiato de 5 anos até que, em 1991, surgisse Blood, o registro final do This Mortal Coil. A última lágrima. O álbum sedimentou a linha evolutiva percorrida pelos trabalhos anteriores. A diferença fundamental se deu com relação à predominância absoluta de vocalistas femininas, presentes em 19 das 21 músicas. Os destaques ficam com as vozes inigualáveis de Deirdre e Louise Rutkowsky, além de Caroline Crawley, do grupo Shelleyan Orphan, Alisson Limerick, Heidi Berry, e de Tânia Donelly do grupo americano Throwing Muses e Kim Deal do Pixies (que tinha sido contratado pela 4AD em 1986). Tânia e Kim interpretam “You and Your Sister”, a mais doce canção do disco. Os violinos e cellos ouvidos em Blood foram arranjados e tocados – assim como em It´ll End in Tears – por Martin Maccarrick e Gini Ball. Os demais tratamentos instrumentais e eletrônicos couberam a Ivo Watts-Russel e a Jon Tuner e John Fryer, importantes produtores da 4AD e presenças constantes nos trabalhos realizados pela gravadora durante boa parte de sua história. Entre as outras releituras, destacam-se igualmente “I Come and Stand at Every Door”, faixa do álbum Fifth Dimension dos Byrds e “Late Night”, música de Syd Barret, além de uma bela canção interpretada por Caroline Crawley, “Mr. Somewhere”, do The Apartments, obscuro grupo que gravou pela Rough Trade no início dos anos 80.

Em 1993, a 4AD lançou uma linda e obrigatória caixa do This Mortal Coil contendo quatro CD´s: os três álbuns oficiais e um CD adicional com as canções originais, interpretadas por seus autores. Iniciativa que seria impraticável não fosse a excelência e o primoroso trabalho de resgate promovido pela 4AD. Outro sonho realizado por Ivo Watts-Russel. Ivo ainda idealizaria outro projeto/banda em 1998, o Hope Blister, nos mesmos moldes do This Mortal Coil, com integrantes das novas bandas da 4AD. Mas isso é outra história.


DISCOGRAFIA

ÁLBUNS:

It’ll End In Tears, 1984
Filligre & Shadow, 1986
Lonely is An Eyesore, 1987
Blood, 1991

COLETÂNEAS

This Mortal Coil (1989)
1983-1991 (1993)