Toda a minha vida gaguejei – Alberto Morávia

Saio de casa, olhando à direita e à esquerda, para ver se “ele” está lá. Moro numa rua das que se chamam particulares, ou melhor dizendo, sem saída, e ao longo da qual se rasgam, diante uns dos outros, os jardins de três ou quatro mansões. Vejo apenas um par de automóveis estacionados junto ao passeio e são automóveis de luxo, como de luxo é o bairro todo. “Ele”, pelo contrário, para me seguir, serve‑se de um carro utilitário, o qual, conveniente para se confundir no meio do trânsito da cidade, aqui, nesta rua de milionários, ressalta a vista como o automóvel de um milionário numa rua de gente pobre.


Portanto, “ele” não está lá. Entro no meu carro com um sentimento de frustração angustiante: sem “ele”, que posso fazer agora, nesta primeira hora vazia da tarde? Na realidade, saí por causa dele. Queria enfrentá‑lo. Obrigá‑lo a uma explicação.

Mas, quando ao acaso volto à esquerda e, no mesmo instante, ajusto o espelho retrovisor, eis que avisto o seu automóvel a seguir‑me. É um carro tão anônimo que, paradoxalmente, poderia distingui‑lo entre mil. Olho outra vez: através do pára‑brisas, vejo a cara dele, também esta completamente anônima. Mas é preciso entendermos, em primeiro lugar, acerca do que é o anônimo. Alguém poderia pensar, sei lá, num tipo do gênero funcionário público ou empregado de empresa privada, vestido corretamente e sem colorido. Não, anônimo, hoje, não é esse tipo de empregado ou funcionário; é antes o homem sem emprego. “ele” é anônimo dessa maneira. Bigodudo, cabeludo, com um vistoso blusão vermelho e encarnado e jeans, é verdadeiramente anônimo; como “ele”, na cidade, há milhares. É o novo anonimato, pitoresco, cuidadoso, ostensivo. Tanto poderá ser um rapaz sério, como um assassino, um intelectual, qualquer coisa ao acaso. Para mim, é “ele”, alguém que me segue há uma semana, espiando‑me onde quer que eu vá e seja a que horas for.

Enquanto conduzo devagar para lhe permitir que me siga, recapitulo uma vez mais os motivos por que “ele” poderá andar atrás de mim. Afinal de contas, esses motivos reduzem‑se a um só: sou filho único de um pai riquíssimo e, por isso, provavelmente, muito odiado. Assim, as hipóteses sobre os objetivos da perseguição só podem ser duas: a hipótese a chamemos assim, realista e a hipótese, digamos, simbólica. A primeira, obviamente, comporta o sequestro com o fito de fazer com que o meu pai pague um resgate mais ou menos avultado; a segunda, menos obviamente, implica o homicídio, na medida em que serei o símbolo de uma certa situação. Se se quiser, em suma, trata‑se de atingir, através de mim, a sociedade da qual, apesar de contra vontade, faço parte.

Ora, continuo a pensar, sinto‑me estranho, como realmente sou, a tudo isto. A tal ponto que não quis recorrer à polícia, já que, de certo modo, uma denúncia equivaleria a uma implicação. Não, nada de denúncias. Quero enfrentar o meu perseguidor e demonstrar‑lhe que está seguindo o homem errado e que, através de mim, nada poderá obter: nem dinheiro nem vingança.

Vou conduzindo e, pouco depois, levo os olhos ao espelho do retrovisor para ver se continuo a ser seguido. Sim, lá vem “ele”. No entanto, surgem agora duas dificuldades. A primeira é superável: trata‑se do automóvel; se quiser enfrentá‑lo, tenho que estacionar e prosseguir a pé. A segunda, pelo contrário, é quase invencível: a minha gaguez. Sou gago num grau quase absoluto; só raramente consigo ir além da primeira sílaba da frase. Gaguejo, gaguejo e, subitamente, a frase acaba por ser completada pelo meu tão perspicaz como compadecido interlocutor. Então, aprovo com a cabeça, de modo entusiasta: não falei, mas fui compreendido como se o tivesse feito.

Com “ele”, porém, tal método não funciona. Não posso realmente esperar que o meu assassino me complete as frases. É verdade que o fez esta manhã; mas isso ocorreu em circunstâncias tais que temi o pior. Julguem vocês. Entrei numa agência de viagens para reservar um lugar no avião para Londres, onde vou continuar os meus estudos de física. Como não consigo senão repetir: “O qua… o qua… o qua…”, “ele, que entretanto se pusera ao meu lado diante do balcão, completou com uma sinistra cortesia: “o senhor quer dizer o quatro. Também quero reservar um lugar para o mesmo dia.” Saí da agência bastante indisposto. Agora o tempo aperta, não só para mim, mas, sobretudo, para “ele. Antes da minha partida, tenho que o obrigar a todo o custo a uma explicação.

Aqui está a entrada da garagem subterrânea onde guardarei o carro. Conduzo devagar, através da imensa sala mergulhada em penumbra, apinhada de automóveis alinhados em espinha entre colunas ciclópicas. Vejo que ele entrou na garagem atrás de mim e me segue a uma pequena distância. Avisto dois lugares vazios, viro bruscamente a direção e introduzo o automóvel na fila. Também ele vira e vem estacionar no espaço vazio, ao lado do meu lugar. Por um momento, penso em ter a explicação na garagem. Mas o deserto, o silêncio, a sombra do local dissuadem‑me: é exatamente o lugar ideal para arrumar um homem e continuar em frente como se nada tivesse acontecido. De resto, “ele” não parece interessado na garagem. Sai do carro, fecha a porta, precede‑me, caminhando entre um carro e outro, desaparece. Terá terminado a perseguição? Tenho que mudar de idéia, mal chego à escada rolante que me leva do subterrâneo à superfície. Vejo‑o, deixando se transportar para cima, dir‑se‑ia que completamente absorto, fumando pensativamente.

Estou agora na via Veneto. Começo a descer a rua, com o ar de um estrangeiro que, após ter feito um almoço abundante e solitário, segue pelo passeio mais famoso de Roma com a intenção de abordar, ou melhor, de se fazer abordar por uma transeunte desocupada. É claro que não experimento qualquer desejo desse gênero. Mas a idéia de me comportar como se estivesse à procura de uma mulher agrada‑me, porque confirma aos meus olhos a minha já mencionada estranheza total em relação ao sistema de que decorre a perseguição destes últimos dias.

Vou pensando nestas coisas e eis que, de repente, dou pela mulher que finjo procurar, ali, à minha frente, precedendo‑me alguns passos. É nova, mas com alguma coisa, no rosto e na pessoa, de cansado, desalentado e sutilmente impuro. Loura, a cor dos cabelos parece continuar no rosto e no pescoço, dourado por recentes banhos de mar, e depois na roupa: uma espécie de túnica de um amarelo velho, folha morta. Caminha rebolando‑se um pouco mais do que o normal, mas, até esse chamamento profissional, parece fazê‑lo com cansaço e desânimo. Em seguida, com uma tática previsível, pára diante da vitrine de uma loja qualquer e aplica‑se a apanhar no seu o meu olhar. Precisamente nesse momento, entrevejo o meu perseguidor barbudo, que se demora com ar entendido diante dos livros de bolso ingleses em exposição num quiosque. E então tenho uma idéia. Acrescento: uma idéia de gago que, na impossibilidade de comunicar pela palavra, recorre à linguagem figurada, metafórica: vou agarrar aquela mulher e servir‑me dela como de um sinal simbólico para transmitir uma mensagem ao sistema inimigo que me quer raptar ou matar.

Dito e feito. Avizinho‑me dela e digo‑lhe: “Está livre? Podemos ir a um lugar qualquer”

Milagre! Aconteceu tudo com tanta naturalidade que não me dei conta de que, pela primeira vez na minha vida, não gaguejei. Talvez a tensão própria de uma situação excepcional e ameaçadora tenha expulsado a gagueira. Falei! Falei! Falei! Sinto uma alegria desmesurada, profunda; ao mesmo tempo, uma gratidão imensa para com a mulher: como se a houvesse buscado toda a vida e finalmente a encontrasse, exatamente ali, no passeio da via Veneto. Ébrio de alegria, mal reparo que ela responde: “Vamos para minha casa, é aqui ao lado.” Ofereço‑lhe o braço e ela coloca o seu braço na minha mão, com um gesto intencional. Caminhamos não sei por onde durante uns dez minutos. Eis‑nos agora numa ruela deserta, com as suas casas velhas e modestas. Quando entramos no átrio comum, lanço uma olhadela por cima do ombro e vejo que “ele” ficou lá fora à minha espera, apoiado a um poste. Subimos dois andares a pé, a mulher tira da bolsa uma chave, abre uma porta, introduz‑me numa entrada sombria e depois numa saleta cheia de luz. Vou à janela, que se encontra aberta, e vejo que “ele” continua lá embaixo, na rua, olhando‑me descaradamente.

A mulher está agora a meu lado e diz: “Fechamos a janela, não?” Então, em duas palavras, explico‑lhe o que quero dela: “Está vendo aquele rapaz, ali, no passeio defronte? É um amigo meu, muitíssimo tímido com mulheres. Pois bem, gostaria que você o provocasse, lhe tirasse a timidez. Não te peço mais nada para além disso: que se exiba à janela, por um instante apenas, nua, toda nua, sem nada em cima de você. Esse instante será o símbolo de tudo o que ele ignora.”

Ela aceita com a maior prontidão: “Se é só isso que quer…” Com um gesto grandioso, como se levantasse o pano de cena sobre um cenário excepcional e nunca visto, inclina‑se, pega com as duas mãos na orla do vestido, sobe‑o de uma só vez até ao peito. Com surpresa, vejo então que não tem nada por baixo do vestido, quase, diria, premeditadamente. Nua dos pés aos seios, o pequeno ventre proeminente e murcho lançado para adiante com soberba, avizinha‑se da janela e encosta o púbis ao vidro por um momento. Tudo isto é presenciado por mim do fundo da sala, com os olhos fixos na sua coluna magra e dourada. Depois, a mulher volta a descer cuidadosamente o vestido e diz: “Está feito. O seu amigo desta vez parece ter vencido a timidez. Fez‑me sinal de que ia subir.”

Perante tais palavras, foi como se na minha cabeça se desse uma explosão silenciosa. Volto a ver‑me diante da vitrine; lembro‑me de ter surpreendido de passagem uma estranha troca de olhares entre a mulher e o meu perseguidor. E agora tinha vontade de gritar: Mas você  conhece aquele homem; está combinada com ele; me atraiu a uma emboscada.”

Infelizmente, nada disto consegue sair da minha boca. Gaguejo apenas: Tu… Tu… Tu…”, e aponto‑lhe o dedo. Sem modificar o seu ar cansado e decepcionado, ela concorda: “sim, eu, eu, eu… Mas agora está aqui o seu amigo; Ele está batendo à porta: fique aqui enquanto eu vou abrir.” Dizendo isto, empurra‑me para um divã e, em seguida, sai rapidamente. Logo a seguir, ouço girar a chave na fechadura.

Então, aproximo‑me da janela e pergunto‑me se não será altura de saltar para a rua, ainda que com risco de morte. Mas pondero que aquilo que quero não é salvar‑me, mas explicar‑me, fazer‑me entender, comunicar. A luz branda e indireta do céu nublado me assombra, estou quieto, encantado, suspenso. Estou dentro da vida a tal ponto que, dentro em breve, talvez seja sequestrado e morto; e ao mesmo tempo fora dela, sou‑lhe totalmente estranho. Poderão eles compreender? Serei capaz de lhes explicar? Entretanto, nas minhas costas, a porta abre‑se.