Uma mulher na casa do guarda alfandegário – Alberto Morávia

Sou um homem de ordem, não só psicológica, mas profissionalmente também: presto serviço como guarda alfandegário no aeroporto. Como todos os homens de ordem, todavia, gosto de, por vezes, esquecer a ordem e deixar passar a mercadoria de contrabando da imaginação. O sábado e o domingo dedico‑os, justamente, às minhas fantasias. Tiro o uniforme, estendo‑me na cama e fixo o pensamento em qualquer coisa que recentemente me tenha impressionado de maneira particular. Hoje, depois de me deitar na cama, no silêncio da casa deserta, não tardei muito a descobrir o objeto que recentemente mais me ferira a imaginação.

Era a mala de uma viajante já madura, que devia ter sido linda na sua juventude. Fizera‑me desconfiar dela o jeito embaraçado, de uma pressa excessiva para ser sincera. Perguntei‑lhe, como de costume faço, se nada tinha a declarar, e ela estremeceu, como se eu lhe tivesse pousado acusadoramente a mão no ombro; apressou‑se a repetir que não tinha nada, absolutamente nada, só peças de roupa. Olhei‑a com atenção: tinha um rosto magro, de traços finos e bem desenhados, mas insignificantes, nos quais era, sobretudo, notável o esforço para, artificialmente, esconder a idade: cabelos apanhados e cheios por cima da testa e dos ouvidos; sombras nas pálpebras e por baixo dos olhos; lábios pintados; cara empoada. Além disso, uma expressão ‑ como direi? ‑ pateticamente, atormentadamente, frívola e aduladora. Trazia uma tal quantidade de roupa vestida, que era difícil distinguir peça a peça; confusamente, notei um lenço de pescoço, uma espécie de sobretudo de veludo, um casaco de lã, uma camisola, uma blusa, um corpete; tudo isso de corte e cores diferentes. Talvez por esta sua maneira complicada de vestir, talvez pela sua insegurança, pensei que fosse uma dessas chamadas “aventureiras”, figuras literárias, mas ainda atuais, e isso poderia significar sabe‑se lá o quê, da droga à espionagem. Ordenei‑lhe secamente, indicando a mala elegante, de couro flexível: “abra.” Ela objetou logo: “mas se estou dizendo que não tenho nada a declarar.”

“Abra, por favor.”

Suspirou, tirou da bolsa um molho de chaves, deu a volta à chave. Eu abri a mala com uma espécie de violência sádica, enterrei as mãos no seu interior. Continha um amontoado de panos, sedas e não sei quantos outros tecidos, todos muito leves e esvoaçantes, numa confusão, segundo pensei, tipicamente feminina, já que não passaria pela cabeça de um homem meter a roupa na mala de maneira tão promíscua.

Continuava com as mãos metidas entre todos aqueles tecidos moles, vagamente perfumados e, entretanto, pensava que as mulheres, mais do que vestir‑se, como os homens fazem, tendem, por assim dizer, a enfeitar‑se; e na realidade, os vestidos que põem não aderem ao corpo, mas envolvem‑no de modo sedutor e misterioso, escondendo o que têm e simulando o que não têm. E que dizer, pensei ainda, continuando a busca, do fato de os vestidos das mulheres não assentarem no corpo, como as roupas dos homens, mas se agitarem, moverem, incharem ou desfazerem e assim por diante? Ou, na alternativa, o extremo oposto: aderem de mais, e então o corpo feminino surge prisioneiro de uma quantidade de tecidos elásticos, ligas,cintas e outras cadeias semelhantes? Portanto, ou o tecido esvoaçante e lisonjeiro ou a bainha estreita, hermética. Entre estes pensamentos, acabei a busca sem nada achar e, então, tirei as mãos do interior da mala, fechei‑a eu mesmo e fiz com um giz uma cruz no couro, indicando que a bagagem podia passar. A mulher agradeceu‑me, talvez algo excessivamente, com um sorriso rasgado e brilhante; e depois desapareceu empurrando o porta‑bagagem.

Agora, pensando neste incidente mínimo, ocupo‑me de novo da diferença entre as roupas das mulheres e as dos homens. Por que tal diferença? O que leva as mulheres a vestirem‑se desse modo? Porque é que as suas roupas são cortadas de forma a pôr em relevo as linhas curvas enquanto as dos homens tendem a definir linhas retas? Que significa a preferência da mulher pelos tecidos leves, transparentes, moles, acariciantes, esvoaçantes? Ponho‑me estas perguntas e, por fim, sempre às voltas com elas, acabo por adormecer.

Durmo talvez meia hora; depois, o som da campainha da porta, um ruído estridente que, vivendo sozinho, quis que fosse muito forte, faz‑me sobressaltar na cama. Fico um momento à escuta, perguntando‑me quem poderá vir procurar‑me a esta horas, numa tarde de domingo; por fim, ponho a camisa e o casaco e, descalço, dirijo‑me à entrada e espreito para o patamar.

Ora, uma mulher! Uma mulher com cerca de quarenta anos, com um rosto magro e fino que, não sei por que, tenho a impressão de já ter visto. Depois, o casaco comprido de veludo aberto, os pequenos adereços que lhe enquadram o rosto, o lenço do pescoço mal atado, fazem‑me descobrir de repente onde foi que a vi já: há dias, no aeroporto, à chegada de um vôo – deixe-me ver… ‑ de Madri. O meu olhar desce e, então, confirmando a minha memória, avisto a mala que remexi tão demoradamente e em vão. Ponho o fecho de segurança, entreabro apenas a porta e pergunto: “Sim, o que quer?”

Ela responde com uma familiaridade, desconcertante: “A você, justamente, simpático.”

“Desculpe‑me, mas não a conheço, é a primeira vez que a vejo e…” “Vamos, vamos, pouca conversa, abre a porta e deixe‑me entrar.” Fascinado por tanta segurança, tiro o fecho e abro. Ela entra e logo uma vaga de perfume me envolve, um perfume adocicado, pesado e, contudo, penetrante e, de algum modo, também apimentado. Ao entrar impetuosamente, com um movimento vivo da saia plissada, ela diz com uma voz vibrante: “Justamente a você, Athos Canestrini, justamente a você.”

“Mas repito: não a conheço.”

“Realmente não me conhece, ou melhor: não quer conhecer‑me. Isso não me impede de te procurar”

“O que quer dizer”?

“Ora, já explico. Entretanto, mostre‑me o caminho para o quarto.” Não seria melhor irmos para a sala?”

“Eh, não, não! Temos que ir para o quarto.”

“Mas, por quê?”

“Já vais ver.”

Dirijo‑me à frente dela para o quarto. É uma divisão grande, com duas janelas; há uma cama de casal, um armário, uma cômoda, cadeiras: os móveis de costume. Ela diz prontamente ao entrar: “Que quarto frio, austero e, sobretudo… mentiroso.”

“Mentiroso, essa é boa, e por quê?”

“Porque, na realidade, gostaria de ter um quarto muito diferente.”

“Como?”

Um quarto, assim, mais feminino. Mas agora eu vou arrumar-lhe o quarto, olha.”

Pois a mala em cima de uma cadeira e começa a tirar de dentro dela uma quantidade de objetos de toilette que vai pondo no tampo de mármore da cômoda: escovas, escovinhas, pentes, frascos, caixinhas, estojos, recipientes pequenos, enfeites e assim por diante. Dispõe tudo aquilo em boa ordem, em volta do espelho. A mala parece inexaurível; quanto mais coisas tira, mais coisas parece haver ainda lá dentro. Por fim, me diz: “pronto. Agora já não está tão triste.”

Não digo nada, limito‑me a observá‑la. Ei‑la a extrair da mala uma longa camisa recamada, uma combinação de seda, outras peças de vestuário íntimo que vai pendurar nos cabides. Entretanto, no seu vaivém, fez as coisas de modo a deixar pelas cadeiras calças, combinações, camisetas, saias e não sei quantas outras peças de roupa diferentes. Agora, além disso, salta da mala mágica um pijama negro, uns chinelos verdes, um roupão cor‑de‑rosa. Diz, voltando‑se para mim, finalmente satisfeita:

“Que achas, não está melhor assim?”

Olho para ela, estupefato. Depois que acrescenta de súbito: “vem cá”.

Aproximo‑me. Estamos ambos, um ao lado do outro, diante do espelho do toucador. Ela diz: “Olha, olha bem, não acha que somos parecidos?”

Olho e reconheço que tem razão. Temos os mesmos traços, os mesmos olhos, o mesmo nariz, a mesma boca. Seríamos ainda mais parecidos se não fosse, no seu rosto, aquela expressão frívola e patética que, por sorte, se encontra plenamente ausente do meu. Ela diz, porém, calmamente: “Compreende agora? Eu sou você e você sou eu. Ou seja, eu sou a versão feminina e você a versão masculina do mesmo indivíduo, do mesmo Athos Canestrini. Bem, agora vou deitar‑me, estender‑me na cama e descansar um pouco. E você, o que vai fazer?”

Aturdido, balbucio: “Mas estou em minha casa, tenciono fazer o que sempre fiz, até ao dia de ontem: repousar, ler, refletir, fantasiar…”

“Fantasiar o quê? Que eu tomo o seu lugar? Já não é preciso: está feito. De agora em diante, no aeroporto, estará a versão masculina de Athos Canestrini e, em casa, a versão feminina. E agora, adeus, tens que ir para o aeroporto; voltamos a ver‑nos logo à noite.”

“Mas que vais fazer aqui na minha casa?”

“Fico cuidando das coisas à minha maneira, não há nenhuma razão para ter que te explicar isso tudo. De qualquer modo, vou pôr a casa mais alegre, mais acolhedora, mais frívola.”

Entretanto, sem outras explicações, despe‑se, não se envergonha de me mostrar um corpo no qual, como no rosto, o artifício, em vez de esconder, sublinha os sinais da idade. Penso que não me resta nada a fazer; saio do quarto, seguido pela voz dela que recomenda: “fecha bem a porta.”, e eis‑me na entrada. Ao abrir a porta, quase esbarro num tipo enorme de estilo ultra‑vulgar: moreno, cabelos desgrenhados, feições grosseiras e sensuais, envergadura atlética, o qual, com uma voz que exibe bem as inflexões não sei de que dialeto, me inquire: A senhora Canestrini”

“Aqui não há senhora nenhuma…”, e… desperto.

Assim era tudo um sonho: aquela senhora da mala, no aeroporto, deve ter realmente me impressionado bastante! Olhei o meu quarto frio e triste de celibatário e disse para comigo que, talvez no meu sonho, houvesse alguma coisa de verdadeiro: a aspiração inconsciente de ter uma casa mais habitada e mais habitável. Comecei a pensar nos melhoramentos que gostaria de introduzir: flores, quadros, ninharias nas paredes, tapetes, almofadas, estofos e por aí fora. E foi no meio destas imagens prazerosas que voltei a adormecer.

 

Fim