Eram duas da madrugada, e ele lia algo sem sentido, suas pernas suadas como sua vista, um calção quase sem cor, em suas mãos tudo o que um ser humano poderia desejar em vida e morte, tudo lhe pertencia, ele era o centro do Universo. — Não, todos eram iguais. — Essa era a certeza que ele havia chegado depois de ler atrapalhadas páginas do livro. Na cabeça nada entrava. Sua vida estava completa e cheia de porquês. Não compreendera nada da criação do mundo ou, talvez, não estivesse querendo compreender. — Sentira algo mais forte que a paixão. Nada. Nada conseguia si e lhe explicar. Em nada havia explicação. Sabia que não devia fazer perguntas. Sabia da sua capacidade de resolver o que lhe era imposto por vida. Sabia que sua missão era sempre duvidar.


E duvidava.

Nada o fazia supor que na manhã seguinte a sua vida poderia passar por transformações. Sua vida não, seu espírito. — Sentiu naquela madrugada seus músculos atrofiarem durante os minutos que pensara no significado de sua existência. O coração inchou, inchou. Ficou vermelho, mas não estuporou. Perguntou-se: “- Nada me resta? De que me vale viver? Qual será o plano do Divino? Ainda tenho provas a cumprir? O que me espera?”. Mas por algum motivo santo: nada se respondia.

 

Continuou a ler até que adormeceu.

Sonhou com um objeto que não soubera nunca explicar o que fosse. Mas sabia que havia um objeto meio que sagrado, que vivia em baixo de sua cama. Quando estava triste ou com perguntas sem resposta, ia para debaixo da cama e ali ficava durante pouco tempo, ou mundo tempo. Ainda no sonho ouviu alguém falar: “Deixe-se ficar por pouco tempo ou por muito tempo. Não conte o tempo de si dar!” — A muito não sabia o significado de se ter um objeto aparentemente sem aparência ou significado religioso. Mas que lhe trazia não as respostas que talvez precisasse. Mas a certeza de que estava agindo corretamente, de acordo com o que lhe foi determinado.

Ficou durante horas no sonho com seu objeto invejado pelo mundo. Ao acordar as seis e vinte e sete da manhã, tentara reproduzir o prazer de poder ter estado com aquele abjeto… Mas não conseguira.

Calou-se e paralisado ficou durante algum tempo, nada conseguia pensar. Essa reação já acontecera outras vezes, inclusive durante a leitura do livro na noite passada. Era como um transe. Não pensara em nada, uma ação automática, inesperada, espontânea…

Quando voltou a vida diária. Sentiu vontade de descer em baixo de sua cama e procurar algo – “talvez fosse um aviso” – decidido a encontrar algo que pudesse lhe responder o motivo daquele sonho tão fantástico. – pois ele não lembrara de nada que lhe desse tanto auxilio quando a presença daquele objeto. – Foi então que de súbito colocou o que dera de seu corpo para debaixo da cama. Tudo era escuro e sem sombra. Mas sentira no peito a presença de algo significativo. O coração novamente inchou, inchou. Ficou vermelho, e dessa vez quase estuporou. — A sensação era a mesma sentida em sonho, só que agora mais real. — Pensou em passar a mão. Mesmo sem ver nada. Sabia que ali havia. Com medo e sem pudor sentiu o objeto em baixo de seu indicador. Percebeu que já sentira aquele toque outras vezes, mas fazia tempo. Puxou para fora o corpo sem trazer consigo o objeto. Sentou na estreita da cama e durante quatro minutos pensou no medo que sentira no momento do toque. Pensou que com o encontro em luz com o objeto, poderiam acabar suas duvidas. — Só que exatamente após esse pensamento. Soube o que em baixo da cama encontrava-se. O livro-da-vida. O livro da sua vida.

Era um diário que escrevera suas emoções e experiências quando moço. Anotações que o ajudou a crescer, a ser homem, humano. — Chorou. E dessa vez o coração já estava muito vermelho e estuporou. — Chorou o quanto podia. Por dentro de si sabia que não desejara chorar, mas por fora não desejara parar.

Depois de muito tempo ali na estreita da cama tomou uma decisão. Faria como no sonho: “-O ato teria que ser cumprido”. Ele sabia que o sonho realmente tinha mudado sua manhã como previsto na madrugada passada. Tinha mudado parte de sua vida. Soube também que a perca de algo valioso nem sempre é perca. — Decidiu então: não tiraria o livro debaixo da cama. Entraria ali sempre que precisasse ficar só. E leria o quanto fosse pedido pelo seu ser. Assim como no sonho faria.

 

Sempre que ficava com o livro em baixo da cama, sentia que um ritual estava sendo feito e cumprido. Não sabia a importância que aquela atitude tinha para ele, mas sabia que era importante que ali ficasse.

Já se passaram tempos. E continua ali em baixo o seu livro, e ele continua a visitar seu lugarzinho sempre que precisa. — O seu coração continua inchando, inchando ficando vermelho e estuporando. E ele é o homem mais feliz do seu tempo.


Por Kizer Carvalho (Bailarino com formação clássica, contemporânea e popular)
kizer_freire@hotmail.com
Recife-PE
Publicado em 31/07/2005