X-Ray Spex

Por Eric Wanderson Nunes


Estamos em 1976, o rock passa por um momento de audível decadência criativa.

Seus grandes astros ficaram milionários com a venda de discos e turnês e agora parecem estar mais preocupados em gastar seu dinheiro em luxo, drogas e orgias do que em realizar boa música.

Da época que é  considerada por muitos a mais profícua do rock (1965-1975) resta apenas lembranças,  e o cenário é desolador. Dentro desse contexto há na cidade de Londres uma galera sintonizada não em medalhões, mas no que ainda era feito com qualidade e  relevância musical, que idolatrava o som protopunk e da “blank generation” que era feito do outro lado do Oceano Atlântico (Patti Smith, New York Dolls, Velvet Underground, Ramones, Stooges), reggae, rock alemão (kraut rock), artistas da geração glam(Alex Harvey, Marc Bolan, David Bowie) e bandas de rock primal e pesado em geral.

O importante, analisando as diferenças desses estilos, é que a música fosse direta, que falasse da realidade da maioria das pessoas. Vai se formando uma efervescência e esse povo  estranho que curtia coisas estranhas vai provocando uma agitação cultural que acaba evoluindo para  o que hoje conhecemos como o punk rock inglês , que se propôs a ser uma ruptura com o rock feito anteriormente e  marcaria de forma definitiva toda a cultura pop daí prá frente.

Nesse ano Mary Joan Elliot Said, uma garota de 19 anos,hipponga, outsider,gordinha e usando aparelho dentário assiste a  um show dos Sex Pistols .Da mesma forma que para outros de sua geração, como Joe Strummer (The Clash) e Steve Shelley (Buzzcocks) a apresentação tem o efeito de uma bomba. Ela fica eufórica ao ver um desses primeiros shows dos Pistols  e se impressiona com a comoção que eles estavam conseguindo causar e com a possibilidade de se expressar com pouca técnica musical. Ela sente o  “estalo”, aquele momento abençoado em que se tem certeza de que se quer e se deve fazer algo; então ela decide montar uma banda.

Ela coloca classificados no jornal e em pouco tempo o X-Ray Spex (que significa óculos com visão de raio-x, aquele que permitiria enxergar através das coisas)está formado: Jak Airport nas guitarras, Paul Dean no baixo, Paul ‘B.P.’ na bateria e Lora Logic no saxofone. Mary se batiza com o nome artístico de Poly Stirene e vira a  vocalista do grupo.

Diferente, anti-convencional, inventiva são os primeiros adjetivos que vêm à cabeça quando se vai definir a música feita pelo conjunto. Não se tratava de uma banda punk em termos convencionais e estereotipados, graças principalmente à presença de duas mulheres na formação.

Poly era uma frontwomen com feições inusitadas para os padrões britânicos (filha de mãe inglesa e pai somali) que berrava com toda a visceralidade que conseguisse transpor para as cordas vocais, considerada pela revista Billboard  como o “arquétipo da roqueira punk moderna”.

Lora Logic tocava sax, instrumento incomum dentro de grupos punk, fazendo o som ficar mais melodioso, o que, no caso deles não quer de forma nenhuma dizer que isso é ruim.O visual abusava do Day-Glo, até confundir pensando se tratar de um grupo new wave “dos pobres”(já que não tinha nenhum glamour).As letras tratam de maneira não-panfletária e inteligente de assuntos  como consumismo:

“1977 e nós estamos enlouquecendo.
É 1977 e nós vemos muitas propagandas…
Eu como Kleenex no café da manhã.
E uso papel higiênico Weetabix
Para secar as minhas lágrimas.”

Artificialidade:

“Eu sei que sou artificial

Mas não coloque a culpa em mim.

Eu fui criado com eletrodomésticos

Numa sociedade de consumo”

(letra de Art-i-ficial)

“Você poderá tocá-la Se suas luvas estiverem esterilizadas

Enxágue sua boca com Listerine

Assopre desinfetante nos seus olhos”

(Letra de Germfree Adolescents)

E também sobre  o papel da mulher, em que apesar dos avanços, ainda era vista como objeto sexual e decorativo:

“Algumas pessoas acham que garotas devem ser vistas e não ouvidas

Mas eu penso Oh escravidão acima de vocês”

(Letra de Oh bondage up yours)

Com essa formação em 1977 lançam o single “Oh bondage up yours”, a música mais conhecida deles e tida como o maior hino punk feminista,pela gravadora Virgin, a mesma que lançou “nevermind the bollocks”, do Sex Pistols e que tinha a  fama de ser uma gravadora “corajosa”. Em 1978 lançam o primeiro álbum deles, Germfree Adolescents, já sem Lora Logic, que deixa a banda prá se tornar hare krishna e é substituída por Steve “Rudi” Thompson, que aproveita todas as linhas de sax criadas por Lora. Apesar de no período não ter o devido reconhecimento,sendo por exemplo lançado nos EUA somente em 1992, esse disco entra hoje em toda e qualquer lista de melhores registros sonoros do punk rock e inclusive está no famoso livro “1001 discos prá se ouvir antes de morrer”.

Exausta pelas turnês, Poly passa mal num show em 1978 e  tem  diversas crises depressivas, chegando a ficar internada em hospitais psiquiátricos. Opta por se retirar da banda em 1979, que acaba oficialmente.

Poly Styrene se torna também hare krishna, como tinha feito Lora Logic anos atrás. Ela entra em carreira-solo e lança Translucence em 1980, um disco bem tranqüilo e meditativo, que em nada se parece com o som de sua antiga banda.

Em 1991 a banda retorna e faz um show no teatro Brixton Academy, e em  1995 há  a gravação de um disco, Conscious Consumer, que conseguiu pouca repercussão.

Ainda em 2008 voltam a se reunir para fazer um show para 3000 pessoas no Roundhouse.

O X-Ray Spex  durou pouco tempo, mas contribuiu de forma significativa  para a  cultura punk, sendo ainda bastante desconhecida e sua importância subestimada.Deixaram como legado eterno um álbum perfeito, que sempre será um dos mais classudos de todos os tempos e presente nos lares de quem aprecia música empolgante e feita com boas idéias.

DISCOGRAFIA

*GERMFREE ADOLESCENTS (1978)

*LIVE AT THE ROXY (LANÇADO EM 1991 COM GRAVAÇÕES FEITAS NO ROXY CLUB, EM LONDRES EM 1977)

*CONSCIOUS CONSUMER (1995)

*LIVE AT THE ROUNDHOUSE LONDON 2008 (2009)

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