29 - Alpha III - entrevista com Amyr Cantusio Jr.

Há mais de 40 anos, o rock progressivo tem um importante - embora, não tão famoso - expoente campineiro. Ele atende pelo nome de Amyr Cantusio Jr. e luta contra as limitações do mercado, lançando discos, seja pelo Alpha III ou apenas com seu nome.


A primeira vez que ouvi falar no Alpha III foi em uma antiga revista fluminense chamada ROLL, onde comentavam o novo disco da banda, Sombras, mas mostravam a foto do LP Mar de Cristal.

O Alpha III é basicamente o projeto de um homem só: Amyr toca todos os instrumentos, produz, arranja. Um músico excepcional, com vários prêmios internacionais como pianista.

E, como Spectro, o primeiro lançamento, comemora 40 anos em 2014, nada melhor do que esse gancho para falar com essa figura underground da música brasileira e tão versátil que faz até trabalhos com dança do ventre.

Amyr é uma pessoa educada, culta e que tem um grande senso crítico de que vivemos, no Brasil, um momento horrível, culturamente falando, mas que jamais devemos desistir.

Boa leitura!

Mofo: - Amyr, me fale como começou sua paixão musical, com que idade, qual o primeiro instrumento que tocou.
Amyr: -
Comecei com violão clássico aos 6 anos... aos 9, passei para o piano erudito. Minha mãe foi Professora da PUCCamp (Universidade de Campinas) de música (piano e canto), então comecei com ela.

Mofo: - Gostaria que você falasse sobre o Alpha III, um grupo que era considerado um dos melhores de rock progressivo do Brasil. Você gosta e gostava desse rótulo ou o achava muito restritivo?
Amyr: -
Vamos colocar a resposta no presente... Não era, ainda é, mas não um grupo e, sim, um projeto. Não que seja o melhor, mas é o que tem mais obras internacionais em quantidade e pesquisa. Aliás, não é exatamente rock progressivo, já que eu me estendo ao erudito experimental e ao eletrônico. O Alpha III é meu pseudônimo e as variações de músicos convidados são grandes, de disco para disco. conforme a obra. No estúdio e, muitas vezes ao vivo, eu toco tudo sozinho.

(capa dos dois primeiros discos do Alpha III, Spectro e Mar de Cristal)

Mofo: - Falando em shows, faz muitos? Mais em SP ou também em outros estados?
Amyr:
- Ele está mais atual que nunca e sim, fazemos e faço muitas apresentações e produções em CD, e estúdio. Continuamos no pico e ainda como um dos projetos mais importantes do Brasil. Ainda bem!

Mofo: - Você foi eleito um dos melhores tecladistas do mundo. Quais são suas grandes influências e quais estilos mais te agradam?
Amyr: -
Minha formação é totalmente erudita em piano. Então, Mozart, Chopin, Rachmaninoff, Liszt, Beethoven, Wagner, os russos como Mussorgsky, Strawinsky, Prokofiev, Rimsky-Korsákov e outros, como J.S. Bach, J.B. Lully, Monteverdi, Scarlatti são prioridades. Também adoro jazz e meus pianistas prediletos são McCoy Tyner,Chick Corea, Gonzalo Rubalcaba e George Duke.

No progressivo fico com Ed Jobson, Tony Banks, Keith Emerson, Dave Greenslade, Rick Wakeman, Vangelis, Klaus Schulze, Edgar Froese, Brian Eno, Tomita, Kerry Minnear, Rick Van Der Linden, etc. É um universo muito amplo.

Mofo: - Gostaria que você falasse também de sua carreira-solo. Você ainda utiliza o nome Alpha III ou apenas o seu nome?
Amyr: -
O Alpha III é minha carreira solo!!!Não tenho outra.

Mofo: - Você é ligado à dança do ventre, estilo que é ainda visto com muito preconceito no Brasil, especialmente entre os homens. Me fale da sua paixão e seu envolvimento.
Amyr: -
A Academia de Danças Orientais Lince Negro (nome de uma das minhas músicas do Spectro, de 1974) foi fundada por mim e minha mulher, há 20 anos. Paixões sobre a filosofia oriental hindu, a música indiana e arábica me levaram a entrar pelos caminhos mais extremos de pesquisa do Oriente Médio e Índia.

(capas dos LPs Sobras e Ruinas Circulares)

Mofo: - Além de músico, desenhou a capa de vários discos seus. De onde busca a inspiração e qual sua preferida?
Amyr: -
Sim, eu desenho, mas por hobby. A inspiração vem dos sonhos, das visões, da literatura e da vida, em geral. Eu desenhei e fiz fotos do LP The Aleph e Mar de Cristal, e o CD The Edge, que saiu na Itália, mais uns 10 inéditos que estão saindo agora nos BOX Alpha III. Mas, geralmente convido desenhistas profissionais, como Oswaldo Vasconcellos Filho, que desenhou o Sombras, Temple of Delphos e Ruínas Circulares (os LPs). O Ruínas Circulares foi colocado como uma das 10 melhores capas do mundo no livro do desenhista do YES, Roger Dean, do ano de 1988. Um bom prêmio para o Brasil!

Mofo: - Como você vê o espaço dado ao tipo de música que faz? Como a divulga?
Amyr: -
Poucos espaços, muito preconceito, aculturamento geral da nação, mergulhada no ostracismo da Rede Globo de imbecilização das massas, mas conseguimos sobreviver e fazer acontecer na raça!!

Mofo:- E qual sua opinião sobre a música produzida no Brasil hoje, ou acha um insulto chamá-la de música?
Amyr: -
No Brasil, há uma cena fantástica de músicos que como eu, estão na margem, na obscuridade nacional, mas fazendo acontecer grande música, batalhando e produzindo obras incríveis e lindas. Conheço muitos, mas na mídia a música nacional está detonada, nada se salva. Só lixo e enlatado medíocre.

Mofo: - O que gosta de ouvir ultimamente? São basicamente os mesmos artistas de 20, 30 anos atrás ou seu leque se expandiu muito?
Amyr: -
Sim, o leque se ampliou ao experimental, ao black metal sinfonico, ao gothic metal, me aprofundei mais no eletrônico de Stockhausen, no minimalismo de Reich,no microtonalismo eletrônico,além da pesquisa as bandas de R.I.O. como Univers Zero, Art Zoyd,Miriodor, etc....

Mofo: - Me fale quais discos mais te marcaram, entre os que gravou e também de outros artistas.
Amyr:
- Bem, entre os discos e LPS do Alpha III, os que mais gosto são o Sombras, The Aleph e Temple of Delphos. Agora, entre os CDs que sairam na Itália (Voyage to Ixtlan e The Edge) gosto bastante, mas estou mais antenado nos meus novos trabalhos como Fracture, Destroyer, Andrus X7, Ninfa, Nucleum, Infernus, Dreams of Mussorgsky, além de outros.

Sobre obras de outros artistas que me influenciaram,tem muita coisa... pois ouço muito diversificação musical. Mas, vou colocar que nos anos 70 ouvi e marcou Gentle Giant, Van Der Graaf Generator, Yes, Pink Floyd, Genesis, EL&P, Klaus Schulze, Tangerine Dream, Vangelis, Beatles, Led Zeppelin, Black Sabbath e Deep Purple.

Mofo: - Há alguma chance de reeditar os primeiros discos do Alpha III?
Amyr: -
Sim estou reeditando todos e já estão a disposição em Box de 10 CDS, remasterizados e com bônus!! Todo os meus trabalhos progressivos, os LPS, e os eletrônicos...É só me contatarem no e-mail lunardraco@gmail.com.

Mofo: - Por favor, deixe uma mensagem aos fãs. E obrigado pela entrevista.
Amyr: -
Creio que o homem morre, mas se a obra for forte, ela fica permanentemente no planeta. Precisamos ter consciência global de que este é um momento péssimo para a cultura e a arte. Mas temos uma tecnologia imensa ao dispor, então temos que ser persistentes, loucos, visionários, disciplinados e ter foco que assim geralmente alcançamos a realização das obras. Não para ficar rico, mas pelo prazer de fazer acontecer e ver os frutos do trabalho, que é o principal.

Agradeço aos fãs espalhados por todo mundo que me ajudaram e incentivaram a obra, aos concertos,a fazer a cena rolar.Ao pessoal que tem bom gosto, que quer buscar algo melhor na arte e ver o Brasil também se levantar.

E obrigado a você pela oportunidade da entrevista e à todos que lerem. Finalizando, o ALPHA III é um projeto vivo,muito ativo e na estrada ainda nestes 30 anos completos de sua existência!! Grato a todos!!

Discografia

LPs

Spectro (1974)
Mar de Cristal (1983)
Sombras (1986)
Agartha (1987)
Ruínas Circulares (1988)
Temple of Delphos (1989)
The Aleph (1989)
The Seven Spheres (1990)

CDs

Voyage to Ixtlan (1993)
The Edge (1995)
Acron (1995)
Grimorium Verum (1996)
Oasis (1996)
Cosmic Meditation (1998)
The Edge of Vortex (1999)
New Voyage to Ixtlan (1999)
Book of Sacred Magik (2000)
Live Destroyer – (Studio) (2001)
Infernus (2001)
Protheus (2001)
Spectro (2001)
Lord of the Abyss (2002)
Procyon X (2005)
Veronikka (205)
Mussorgsky Dreams (2008)
Live-Shades of Windows (2008)
Vitória, ou a Filha de Adão e Eva (Libreto de Barata Cichetto) (2010)
Pianos Solo (1995-2012) (2012)
Spectro (Regravação (2014)
Ninfa (2014)
Nucleum (2014)
Andrus X7 (2014)
Seren Goch (2014)
Von Tesla (2014)
Special Box Alpha III 10 CDs (Progressive) (2014)
Special Box Alpha III 10 CDS(Electronics) (2014)