457 – The Primitives

No meio dos anos 80, a Inglaterra conheceu a famosa “classe de 86” – também batizada como regressive rock – movimento que gerou bandas como The Pastels, The Mighty Lemon Drops, Primal Scream, My Bloody Valentine, the Soup Dragons, The Wedding Present, entre outros. O som dos Primitives tentava reeditar as girl groups dos anos 60, com a energia dos Ramones, Buzzcocks, destilado pela voz da cantora Tracy Tracy. O grupo chegou a produzir três belos discos, até a separação e a grande volta, agora, em 2012, com um novo trabalho.


O grande charme da banda era mesmo a vocalista Tracy Louise Cattell, conhecida como Tracy Tracy, uma loira de imensos olhos azuis, voz doce.

A segunda metade da década de 80 viu a ascensão de deliciosas bandas pops que bebiam na mesma fonte dos Primitives e com sua “loira fatal” como atração: Transvision Vamp, Shop Assistants e Darling Buds.

O sonho da banda era fazer o pop perfeito e tinha em sua formação inicial, em 1985, o guitarrista Paul Court (vocais e guitarra), Steve Dullaghan (baixo), Peter Tweedie (bateria) e a vocalista principal Keiron McDermott.

Keiron logo saiu e Tracy Tracy acabaria sumindo o papel de musa e cantora do grupo.

Em 1987, o baterista Tig Williams entrou no lugar de Peter Tweedie.

Desde o início, a banda se tornou uma das sensações da cena independente, ao lado do The Jesus and Mary Chain, My Bloody Valentine, The Wedding Present e Primal Scream.

Com músicas de dois minutos e meio, unindo melodias doces com distorção e nítidas influências dos anos 60, os Primitives começaram a abrir espaço.

Entre todas essas bandas, foram o grupo dos irmãos Reid que deu mais atenção aos Primitives: “o Jesus and Mary Chain começava a ganhar reconhecimento e, ainda assim, iam prestigiar nossos shows, em pubs minúsculos, o que era muito bacana da parte deles”, se recorda Paul.

Em 1986 lançam seus dois primeiros singles – Thru The Flowers e Really Stupid – e mais três em 1987 – Stop Killing MeOcean Blue e Thru the Flowers (New Version) – e ficam famosos por serem elogiados por Morrissey, que chegou a tirar uma foto vestindo uma camisa da banda.

Tendo um “padrinho” de tamanho peso, a banda rapidamente consegue um contrato fonográfico com a RCA e lançam, em 1988, o primeiro disco, Lovely.

Em 14 faixas e pouco mais de 35 minutos, o Primitives desfilava toda sua cartilha. Composições próprias, melodias doces e barulhentas, com a bela Tracy costurando tudo com sua voz.

A faixa de abertura, “Crash”, se tornou o primeiro single do novo álbum e o álbum conseguiu ficar em sexto lugar na parada inglesa.

Lovely chegou a ser lançado no Brasil, com uma péssima qualidade sonora e capa desbotada, padrão mais do que normal dos LPs da RCA brasileira.

Ele trazia as seguintes faixas:

Lado A

01. “Crash” (Court, Steve Dullaghan, Tracy Tracy) – 2:31
02. “Spacehead” (Court, Dullaghan, Tracy) – 2:11
03. “Carry Me Home” – 2:54
04. “Shadow” (Court, Dullaghan, Tracy) – 3:28
05. “Thru the Flowers” – 2:30
06. “Dreamwalk Baby” – 2:01
07. “I’ll Stick With You” – 2:33

Lado B

01. “Nothing Left” (Court, Dullaghan, Tracy) – 3:04
02. “Stop Killing Me” – 2:04
03. “Out of Reach” – 2:20
04. “Ocean Blue” – 3:24
05. “Run Baby Run” – 2:32
06. “Don’t Want Anything to Change” – 1:52
07. “Buzz Buzz Buzz” – 2:01

Lovely trazia também climas orientais, com cítara – caso de “Shadow” – e momentos pops beirando à perfeição.

A boa repercussão do primeiro disco fez com que saíssem excursionando pelo circuito independente de toda a Europa, onde Tracy assumia a função de principal destaque, sempre bela e carismática.

Apesar de ter uma presença dominante, Tracy achava divertido quando os fãs se aproximavam dela e viam que a linda loira platinada era tão pequenina e miúda.

“Crash” acabaria ficando em quinto lugar na parada de compactos. O segundo single tirado de LovelyOut of Reach, alcançaria a 25ª posição.

O sucesso de “Crash”, aliás, mudou radicalmente a vida da banda. “Nós ainda tínhamos que pagar aluguel, mas chegávamos em limousines no aeroporto”, recorda Court. Faminta por mais dinheiro, a RCA lançou ainda um terceiro compacto e que seria incluindo no disco mais tarde, especialmente no formato CD: “Way Behind Me”.

Com o prestígio em alta, o grupo curtiu a fama, encerrando a turnê com dois shows esgotados no Town & Country Club, em Londres.

No ano seguinte voltam ao estúdio e lançam um novo disco, Pure.

O disco rendeu dois singles: a mesma “Way Behind Me” que entraria em CD, em Lovely, “Sick of It” e “Secrets”.

Os três compactos conseguiram um excelente resultado na parada modern rock, nos EUA: oitavo, nono e décimo segundo lugares, respectivamente.

Na Inglaterra, os três singles tiveram sucessos moderados: 36º, 24º e 49º lugares, respectivamente. Aliás, há uma curiosidade: na época a banda não tinha um baixista e na gravação do clip para “Sick of It” o ex-baterista Peter Tweedie, aparece tocando baixo.

Steve Dullaghan havia abandonado o grupo na véspera do Natal quando a banda se preparava para uma série de shows nos Estados. “Era a única pessoa que tínhamos disponível e ele se considera um fã da gente”, contou, sem graça, Tracy em uma entrevista.

“Steve nunca quis tocar baixo, sempre foi guitarrista e, por isso, preferiu sair”, explicou a cantora.

Além dos compactos, havia uma cover decente de “I’ll Be Your Mirror”, do Velvet Underground, que era cantada por Nico.

Pure trazia as seguintes faixas:

Lado A

01. “Outside” – 1:54
02. “Summer Rain” – 3:09
03. “Sick of It” – 3:11
04. “Shine” – 3:53
05. “Dizzy Heights” – 2:35
06. “All the Way Down” (P.J. Court, Tracy, Dullaghan) – 3:35
07. “Secrets” – 2:29
08. “Keep Me in Mind” – 2:35

Lado B

01. “Lonely Streets” – 2:18
02. “Can’t Bring Me Down” – 2:37
03. “Way Behind Me” (P.J. Court, Tracy) – 3:08
04. “Never Tell” – 2:53
05. “Noose” – 3:27
06. “I’ll Be Your Mirror” (Lou Reed) – 2:41
07. “All the Way Down (Beat Version)” (P.J. Court, Tracy) – 2:21
08. “I Almost Touched You” – 2:40

No mesmo ano, a RCA não perdeu tempo e editou uma coletânea de compactos, Lazy 86-88, que abraçava toda a discografia do grupo. A compilação tinha as seguintes faixas:

Lado A

01. Thru the Flowers
02. Across My Shoulder
03. She Don’t Need You
04. Lazy
05. Really Stupid
06. (We’ve) Found a Way (To the Sun)
07. Where the Wind Blows

Lado B

01. Stop Killing Me
02. Buzz Buzz Buzz
03. Laughing Up My Sleeve
04. Shadow [Guitar Version]
05. Thru the Flowers
06. Everything Shining Bright

Em 1990, a banda partiu para a América dividindo a bilheteria com uma das mais novas sensações do pop europeu, os islandeses do Sugarcubes, que trazia Bjork nos vocais. Os dois grupos ainda viajaram para o Japão.

Em 1991 é a vez do último álbum dessa primeira fase, Galore.

Longe dos melhores dias da fama e já meio esquecidos, teve uma vendagem baixa e foram dispensados pela gravadora.

Galore ainda trazia a fórmula dos dois discos anteriores e parecia datado, já que a Inglaterra vivia outro momento, especialmente com as bandas Stone Roses, Inspiral Carpets puxando a nova geração.

Mesmo “fora de moda” é um bom disco e tinha as seguintes faixas:

Lado A

01. “You Are the Way” – 3:32
02. “Lead Me Astray” – 3:16
03. “Earth Thing” – 4:20
04. “Give This World to You” – 4:04
05. “Slip Away” – 2:24
06. “Cold Enough to Kill” – 4:41

Lado B

01. “Hello Jesus” – 2:16
02. “Empathise” – 4:07
03. “See Thru the Dark” – 2:59
04. “Kiss Mine” – 3:31
05. “Smile” – 2:36
06. “The Little Black Egg” – 3:09

Após a separação, cada um seguiu seu rumo e ficaram mais ou menos sumidos.

Várias coletâneas foram lançadas e o melhor disco do período foi Bubbling Up – BBC Sessions, de 1998, onde mostra a banda em vários programas do falecido DJ John Peel, um dos grandes fãs dos Primitives.

Em 2008, o single Really Stupid foi eleito um dos 40 melhores singles independentes pela Revista Mojo, jogando um pouco de luz no passado do grupo.

Aos poucos, a idéia de uma volta começou a ganhar corpo, nada tão original se observarmos quantas bandas dos anos 70 e 80 resolveram sair de seus esconderijos recentemente para garantirem uma aposentadoria mais feliz. E rica.

Pensando nisso foi que os Primitives resolveram fazer uma nova tentativa. Na verdade, o grande motivador foi homenagear o baixista original, Steve Dullaghan, morto em 2009, realizando uma apresentação na cidade natal do músico, em Coventry.

Era o primeiro show em 17 anos e os Primitives foram ovacionados e decidiram seguir em frente, começando uma excursão, em abril de 2010. Para Paul Court foi uma surpresa ver como ainda tinham fãs: “foi maravilhoso saber que as pessoas ainda queriam nos ver, mesmo sem um álbum para divulgar”.

Tracy amou fazer o show: “foi surpreendente, estávamos nervoso pela homenagem e as pessoas se divertiram bastante.”

O grupo passou a se apresentar em vários festivais e resolveu marcar a volta com um novo trabalho, o primeiro em 20 anos.

No entanto, ao invés de novas composições, os Primitives optaram em lançar um disco de músicas dos anos 60, a maioria delas de pouco acesso comercial. Todas elas, claro, bandas que possuíam vocais femininos.

Assim, em 2012 editam o excelente Echoes and Rhymes.

O trabalho letra os anos 60 até na capa, com os nomes das músicas no canto inferior esquerdo da capa, com uma bela foto de Tracy e 14 músicas, onde o grupo mostrava ser capaz de recriar antigos hits, com sensibilidade competência.

Com textos explicativos de Paul Court sobre cada faixa, Echoes and Rhyme é outra prova de como as bandas dos anos 80 – tão desprezadas nos anos 90 – ainda sabem lançar ótimos discos e conseguem chamar a atenção de velhos e novos fãs.

Não é à toa que já está na lista de melhores dos anos em várias publicações.

O novo trabalho tem as seguintes faixas:

01. Panic
02. Turn Off the Moon
03. Move It On Over
04. Sunshine in My Rainy Day Mind
05. Till You Say You’ll Be Mine
06. I’m Not Sayin’
07. The Witch
08. I Surrender
09. Amoureux d’une affiche
10. Where Will You Be?
11. Single Girl
12. Who Are You Trying to Fool?
13. Time Slips Away
14. Wild Flower

O futuro da banda segue em aberto, com excursões e ótimas críticas. Se é apenas uma volta momentânea ou algo mais concreto, só o tempo dirá.

Deixo vocês com a discografia da banda. Um abraço e até a próxima coluna.

Discografia

Singles

“Thru The Flowers” (1986)
“Really Stupid” (1986)
“Stop Killing Me” (1987)
“Ocean Blue” (1987)
“Thru the Flowers (New Version)” (1987)
“Crash” (1988)
“Out of Reach” (1988)
“Way Behind Me” (1988)
“Sick of It” (1989)
“Secrets” (1989)
“You Are the Way” (1991)
“Lead Me Astray” (1991)
“The Witch (Halloween Mix)” (2011)
“Turn Off The Moon” (2012)

EPs

Spells (1991)
Never Kill a Secret (2011)

Discos

Lovely (1988)
Pure (1989)
Galore (1991)
Echoes and Rhymes (2012)

Coletâneas

Lazy 86-88 (1989)
Bombshell – The Hits & More (1994)
Best of The Primitives (1996)
Bubbling Up – BBC Sessions (1998)
Thru the Flowers – The Anthology (2004)
Buzz Buzz Buzz (2005)
The Best of The Primitives (2005)
Buzz Buzz Buzz – Complete Lazy Recordings (2006)