442 - Maria Angélica Não Mora Mais Aqui

O movimento independente no rock brasileiro dos anos 80 sempre rendeu boas bandas esquecidas pelo tempo. Uma das mais pretensiosas e que chegou a ter um fã clube que levava faixa nos shows - Os Corações Partidos - foi o Maria Angélica Não Mora Mais Aqui. Liderado pelo crítico musical e poeta Fernando Naporano, homem tão talentoso quanto temperamental e genioso, a banda teve uma vida acidentada durante os 8 anos de existência, deixando dois LPs e um EP, além da participação no disco tributo ao ex-líder dos Mutantes, Arnaldo Baptista, Sanguinho Novo.


Para contar a história da banda, pedi a três ex-integrantes - o baixista Lu Stopa e os guitarristas Victor Bock e Carlos Nishimiya - para contarem a história do grupo, falando inclusive de alguns assuntos delicados, como a morte do baterista Victor Leite, a dissolução do grupo e da convivência com Naporano.

A seguir trechos editados do papo, via e-mail...

(Na foto utilizada em matéria da Revista BIZZ, número 7, de fevereiro de 1986, aparecem Décio Medeiros, Nelson Fumagali, Fernando Naporano e Victor Bock.)

Mofo: - Fale um pouco de como vocês entraram na banda. Quem era o fundador, quem veio depois?
Lu Stopa: - Eu entrei no Maria Angélica substituindo o baixista Felipe T. Sabia que a raiz da banda estava em Carlos Nishimiya e Fernando Naporano. Os primeiros ensaios comigo foram na casa de Felipe e durante minha permanência nãoo houve mudança.

Carlos Nishimiya: - Bom, pelo que eu me lembro a banda já estava em seus estágios formativos quando eu entrei. Tinha o Naporano, o Victor Bock e o baterista era o Décio. Faltava um baixista então fomos atrás de um. Chamei meu amigo de Escola Politécnica, Guilherme Mola e o Naporano trouxe o tecladista Nelson que não sabia tocar, mas tinha dois teclados.

Eu acabei ensinando a ele as partes do órgão. Nelson era aplicado e sabia tudo o que tinha fazer nos ensaios. Com essa formação de sexteto fizemos nossas primeiras músicas e até uma sessão de fotos. Saiu na coluna social, da Folha De São Paulo. Nessa época gravamos nossa primeira demo nos estúdios da RCA, foram gravadas quatro músicas.

Fizemos tambem nossos primeiros shows, no Rose Bom Bom e alguns outros locais. Logo o Guilherme saiu e entrou um novo baixista, Felipe, o Mercenário, como o chamávamos. Em um show, logo em seguida, Décio chegou chapado e, logo em uma das primeiras músicas, perdeu uma baqueta e parou de tocar.

A banda foi até o fim da música só para ver que ele vasculhava o chão do palco escuro para ver onde é que a baqueta tinha ido. Ele só tinha um par. Fomos convencidos a tirar fora da banda um dos nossos amigos de infância. Em seguida, quem entrou foi o baterista Kuki, que tocava numa banda cover junto com Felipe. Tambem não ficou muito tempo.

No lugar dele veio o Paulo Zinner, que gravou a terceira demo, desta vez, encomendado pela gravadora Continental. Com o Paulo gravamos nove músicas. Paulão tambem não durou muito e voltou para o Golpe de Estado. Felipe tambem foi mandado para fora por ser um belo causador de encrencas. Logo o Naporano chamou o Lu que estava sem banda desde o fim do Magazine. O entrosamento foi perfeito logo de cara. Outro que veio para ficar foi o Victor Leite, egresso do Muzak.

Essa foi nossa formação definitiva. Com o Victor gravamos o LP Outsider e a faixa para o tributo ao Arnaldo Baptista, Sanguinho Novo, com produção do Carlos Eduardo Miranda.

Victor Bock: - Bom, vou dar a minha perpectiva. A banda não foi fundada per se, foi sendo formada aos poucos, e passou por várias formações.

Eu tinha uns 17 anos e vivia nas lojas de disco do centro, principalmente a Punk Rock do Fabio, da banda Olho Seco, e tambem a Wop-Bop. Quando era moleque não gostava de rock, só ouvia disco e reggae, mas quando ouvi os grupos punks foi uma revelação. Comprei o primeiro disco do Clash, lançado no Brasil por milagre, e não parei de ouvi-lo, por meses. O próximo foi o Television (Marquee Moon).

Mas achava que brasileiro não era capaz de fazer nada pareçido, até ouvir o Olho Seco, o que levou a segunda revelação: se esses caras faziam aquele super som eu também poderia.

Foi quando comprei a minha primeira guitarra (Fink Tele). Montei uma banda de garagem com amigos, que não durou muito. Foi na Wop-Bop que encontrei um cara chamado "Priscila", um punk meio travesti, que falou que tocava baixo e conhecia um baterista.

Marcamos uma jam, e lá conheci o Décio, baterista, que era amigo do Fernando Naporano. O Fernando veio na próxima jam e acabamos nos conhecendo. Priscila não apareceu na próxima reunião foi logo ejetado. Aí apareceu o Carlos, que também era conhecido do Fernando, se juntou e nós três nos tornamos o núcleo inicial da banda.

(Formação clássica da banda, da esquerda para a direita: Victor Leite, Carlos, Naporano, Victor Bock e Lu Stopa).

Mofo: - Qual o nome original: Maria Angélica Não Mora Mais Aqui ou Maria Angélica Doesn't Live Here Anymore?
Lu Stopa: -
Creio que os dois...

Carlos Nishimiya: - O nome original era Maria Angélica Não Mora Mais Aqui. Isso porque no início a intenção da banda era fazer baladas românticas em português.

Depois das nossas primeiras três demos em português começamos a compôr o material do Outsider.

Foi um período muito criativo depois da entrada do Lu. E já que não teríamos mesmo chance de conseguir uma gravadora para cantar em português, o Naporano começou a escrever em inglês, para o bem ou para o mal.

Assim, o Outsider saiu com o nome da banda em inglês. Mas nunca nos apresentamos com o nome adaptado.

Victor Bock: - O nome inicial é o Maria Angélica Não Mora Mais Aqui, pois inicialmente as letras eram todas em português. Mais tarde, com as letras em inglês é que o nome "mudou" para Maria Angélica Doesn't Live Here Anymore. A ideia era exportar a banda, a gente pensava alto! Na época, ninguém pensava nisso e era considerada uma ideia esdrúxula e prepotente.

Aliás, a ideia de cantar em inglês e exportar o som para fora foi comentada pelo Fernando para o Max Cavalera, num dos lugares que a gente usava para ensaiar, quando o Sepultura ainda cantava em português e tinham acabado de se mudarem de Belo Horizonte. Parece que eles ouviram bem a sugestão.

Mofo: - Quais eram as influências sonoras?
Lu Stopa: -
Basicamente Buzzcoks, David Bowie, e mais adiante alguma influências das bandas do "regressive rock": Bam Bam and the Calling, The Pastels, entre outros.

Carlos Nishimiya: - Bom, isso eu posso dizer de mim. Época de post-punk, gothic e new wave em geral, então a gente ouvia muito Joy Division, Bauhaus, Television, Tom Verlaine solo, Elvis Costello, Aztec Camera, Marc Almond, Undertones. Nos shows ao vivo a gente fez uma enorme seleção de favoritas. Tocamos ao vivo "Needles & Pins" dos Searchers, "Marquee Moon" do Television, entre muitas outras que não me lembro mais agora.

Victor Bock: - Muitas! O Fernando tem uma cultura musical muito rica e um super bom gosto, então sua coleção de discos era enorme, e para um moleque como eu era um paraíso. A gente ouvia muita coisa nova da época (1984), mas o Fernando também me mostrou muita coisa legal de folk e bandas obscuras dos anos 60.

Sempre gostei do lado mais psicodélico do post-punk, coisas tipo Echo and Bunnymen, Teardrop Explodes, etc, então para mim tinha a ver fazer uma ligação entre essas bandas e as originais tipo The Seeds, Count Five, 13th Floor elevators. Na época, estava pintando tambem as bandas do "Paisley Underground", Rain Parade, etc que a gente ouvia bastante.

Mas a banda era composta de muitos indivíduos, e as formações sempre mudando, e issoi foi moldando a sonoridade. Todos trouxeram suas influências. Suspeito que ninguém nunca ficou 100% satisfeito com a sonoridade da banda; eu puxava para o psicodélico, o Fernando para o literário/poético, o Carlos e o Lu talvez para algo mais pop, o Victor para algo mais pesado. Mas creio tambem que isso gerou o charme da banda, de nunca ter caído em nenhum cliché.

Mofo: - O grupo tinha como figura principal o vocalista Fernando Naporano, ex-crítico da revista BIZZ, entre outras publicações, e considerado uma figura antipática e arrogante por muitos. Como era o dia-a-dia, especialmente em ensaios?
Lu Stopa: -
Os ensaios eram bastante produtivos e muito mais produtivos eram as reuniões para compôr as músicas e as letras. Elas ficavam prontas rapidamente e com muita facilidade. Foi uma época muito produtiva e criativa.

Carlos Nishimiya: - O Fernando era exatamente como aparecia na mídia. Ele era transparente, arrogante, antipático e adorava se dizer odiado por todos. Xingava a todos, com a exceção das pessoas da banda, com quem tinha relação muito cordial. Afinal, todos que estavam ali ou eram amigos de longa data ou em quem tinha confiança.

A gente começou ensaiando na sala da casa dele. Depois começamos a ensaiar em estúdio, quando ficou evidente que acabaríamos enlouquecendo a coitada da mãe dele.

O Naporano sempre foi um péssimo cantor. Excelente compositor, inclusive participando da criação das melodias e sempre das letras. Mas tinha problemas enormes de entonação, entradas, afinação etc. Por isso ensaiávamos muito. Até que, lá pela época do Outsider, ele havia realmente se esforçado muito e melhorado demais.

Victor Bock: - O Naporano não participava do jogo medíocre da mídia e da cena musical, e por isso, mais que por sua personalidade, era considerado arrogante. Eu via isso como algo positivo.

Claro que ele tem uma personalidade forte, o que às vezes gerava certos atritos, mas ele sempre foi um cara honesto e digno, e nunca gerou nenhuma intriga e futrica, tão comum em bandas. Mas acho que com o tempo ele foi ficando cada vez mais frustado, cansado de bater com a cabeça na parede.

Recentemente conheci um cara que me lembrou muito o Fernando; o Lawrence, cantor do Felt (outra influência). Ambos se vêem como indivíduos com uma missão civilatória, mas que nunca foram devidamente reconhecidos. Ambos com egos enormes!

Mofo: - Como era a relação com a crítica especializada?
Lu Stopa:
- Éramos respeitados.

Carlos Nishimiya: - Sempre foi algo entre o amor e o ódio. Conhecíamos todos os críticos da época, ou por meio da Bizz, Folha, Estado, ou por cruzarmos com eles nas casas noturnas. Havia quem realmente gostasse e entendia o que nos propusemos a fazer. Outros nos criticavam só por causa da figura do Naporano. Ou então porque não fazíamos música de vanguarda, como o Akira S ou punk verdadeiro, como as Marceneiras.

Victor Bock: - Difícil, pois o Naporano tambem era crítico e na época ser artista e crítico era quase que sacrilégio. Tínhamos poucos amigos na imprensa...

Mofo: - Fale um pouco das gravações de Outsider. Em uma entrevista antiga, o Kid Vinil me disse que foi chamado para ser produtor de uma demo da banda...
Lu Stopa: -
Não me recordo desse episódio, talvez essa demo citada tenha sido pré-Lu Stopa.

Carlos Nishimiya: - Realmente o Kid foi chamado para produzir a banda. Mas isso foi de uma demo que fizemos no estúdio Transamérica, patrocinado pela Continental que queria saber se valíamos o investimento.

Mas o Kid só apareceu no primeiro dia (e talvez no segundo) e quando perguntávamos a ele o que estava achando ele dizia "ok, ok".

As gravações do Outsider foram feitas em um estúdio na Bela Vista. O Naporano inventou o nome do estúdio. Chamou de "Blue Cheer Studios". O produtor não teve trabalho algum a não ser de providenciar o estúdio e os caixas para os amplificadores de guitarra, já que todo o resto nós tivemos que levar. As gravações e mixagem levaram exatas duas sessões de seis horas. As primeiras seis horas em um dia foram usadas para se gravar a banda inteira, ao vivo. Todas as músicas do disco e mais umas quatro que não entraram e são outtakes bacanas.

Na semana seguinte, voltamos ao estúdio e o produtor nem apareceu. Aí a gente descobriu que não teriamos nem mesmo técnico para a mixagem. O caboclo que estava tomando conta não sabia mexer na aparelhagem e a "mixagem" consistiu em usarmos dez mãos na mesa para levantar ou abaixar volumes.

Não houve acréscimo de reverbs, compressores, nenhum efeito comum em gravações porque não havia ninguem para fazer isso. Por isso cada um cuidou do seu instrumento. A minha guitarra sobe e desce, passa de um lado a outro do estéreo. Um trabalho realmente braçal. Por isso a produção deveria ser da banda, já que o input do produtor foi zero.

(contra-capa do disco Outsider)

Victor Bock: - Eu não lembro direito de como foram arranjadas aquelas gravações.

Sei que o Fernando conseguiu dois dias num estudio perto da Paulista, não lembro do nome. Talvez tenha sido através do Kid Vinil, mas não lembro dele ter comparecido nas gravações. O Kid ia a alguns ensaios e era amigo do Fernando, mas eu não tinha muito contato direto com ele.

Quanto à gravação do disco, foi muito rápida: um dia gravando tudo ao vivo e um dia mixando. Soa bem rock'n'roll, mas na verdade não tínhamos grana mesmo para bancar as sessões, e sempre achei que o resultado foi para lá de satisfatório. Achei uma pena que as músicas, que eram boas, tiverem sido gravadas com tão pouco cuidado.

Na verdade, ninguém produziu aquele disco, nem a banda (hehe). E o engenheiro era daqueles que não via a hora do dia acabar pra ele tomar a branquinha dele no buteco da esquina...

Mofo: - Com o disco na praça, vocês fizeram uma série de shows no Rose Bom Bom e participaram do projeto Sanguinho Novo, o disco-tributo ao Arnaldo Baptista. Como foram os shows com o ex-líder dos Mutantes e as grasvações do LP lançado pela Gravadora Eldorado?
Lu Stopa: - Me lembro de uma passagem pitoresca: na época eu tinha um baixo Rickenbacker e o Arnaldo gostava do modelo Gibson SG. Ele olhou pro meu baixo, resmungou e eu ri, afinal o Arnaldo era um mito.

A gravação de "Te amo podes crer" foi sensacional, no Estúdio Eldorado. Foi uma das melhores sessões que já participei. A música terminaria em fade out e acabou ficando na íntegra, mais longa do que planejávamos. Fernando cantou deitado pra conseguir um pouco mais de agonia na voz, e conseguiu, foi um dia bem louco.

Carlos Nishimiya: - O Outsider, apesar de todos os contratempos e dos problemas, foi um belo registro. Pena que só registramos as músicas da fase mais recente, com as músicas em inglês. Em retrospecto, lamento que não tivéssemos gravado melhor as músicas que tínhamos na fase inicial da banda. Mas os shows de lançamentos foram ótimos. A gente ainda tinha fãs e os shows sempre tinham bastante público.

(Carlos e Arnaldo Baptista)

Sobre o Sanguinho Novo, o convite partiu do Alex Antunes e do Miranda. Foi um susto, no bom sentido, porque sempre pensamos que o Alex nos odiava, mas acho que era só intriga do Naporano, como sempre xingando todos os colegas.

Gravamos no estúdio da Eldorado, um local enorme, com produção do Miranda, que foi perfeito, estimulou nossas ideias, embarcou no nosso projeto da nossa versão, que ficou muito mais longa do que originalmente havíamos planejado.

Dessa vez tinhamos um produtor de verdade e um disposto a trabalhar junto conosco. Um monte de experiências tiveram lugar nessa música. Eu me lembro de uma em particular, que achei tremenda. Depois de gravar a bateria, o Miranda e o técnico resolveram ampliar o som dela. Colocaram o som da bateria nas enormes caixas do estúdio e colocaram dois mics no centro do estúdio para captar novamente o som e mixar junto com o som original. Parece bobagem, mas na época ninguem faria isso. Era mais fácil usar uma câmara de eco.

(Maria Angélica no Aeroanta)

Os shows com o Arnaldo foram experiências muito legais. Ensaiamos no mesmo estúdio gigante onde a Xuxa costumava ensaiar com suas paquitas. O show do Aeroanta foi bacana porque uma amiga do Fernando filmou o show. Eu postei uma música do show no YouTube.

Um segundo show, que foi no extinto Projeto SP não foi tão bom assim. O Arnaldo inventou, na passagem de som, que queria tocar "Honky Tonky Women". Ensaiamos, mas na hora do show ele se esqueceu da letra e mesmo com a ajuda do Naporano não conseguiu e, frustrado, saiu correndo do palco para não voltar mais. Fomos novamente xingados porque o Arnaldo ainda iria cantar com outras bandas, mas ele ficou incomunicável.

Nessa história ficou muito claro para a gente que ele tinha sido obrigado a voltar para levantar dinheiro, mesmo sem condições físicas ou psicológicas para isso. Acredito que até hoje ele esteja incapacitado. Ao mesmo tempo que foi uma honra estar no palco com o ídolo foi de cortar o coração vê-lo em tão péssimo estado.

Victor Bock: - É, esse foi o auge da anda, não fizemos grana nenhuma mas foi um grande prazer tocar numa banda concisa com gente que se gosta. A gravação da faixa do Arnaldo tambem foi bem rápida, uma tarde para gravar e mixar. Foi tudo gravado no Estudio Eldorado, que era um espaço ótimo, mas com equipamentos velhos e descalibrados. Novamente o resultado deixou a desejar...

Mas o Arnaldo gostou da nossa versão e nos escolheu para tocar com ele no lançamento do disco no Aeroanta. O show foi muito bom, lotado, com uma super energia. Os ensaios com ele tambem foram bem legais, o Arnaldo é uma figura muito inteligente, com muitas estórias para contar, mas infelizmente com o sistema neurológico danificado. Ainda assim, com um espírito muito maior que qualquer cérebro!

Mofo: - Porque Lu e Carlos deixaram o grupo após o lançamento do álbum? A banda ainda lançou depois um EP e outro LP.

Lu Stopa: - Não me recordo, nada constrangedor.

Carlos Nishimiya: - Essa foi uma história das mais cabeludas da banda e o que até hoje me deixa p* da vida. O Naporano inventou que já não existia mais clima para a banda no Brasil e que deveríamos ir todos para Londres. Mas, naquela época, eu já tinha minha loja de discos e o Lu tinha acabado de casar. Um dia, depois de um ensaio o Naporano chegou para nós todos e disse 'daqui para a frente a gente vai começar a ensaiar todos os dias e depois de gravarmos o próximo LP, iremos todos para Londres. Quem não for que saia do grupo já.'

Bom, considerando as alternativas, a resposta era "não". Eu não poderia me mudar de país sem saber o que iria fazer lá, se a banda não desse certo. Assim, eu e o Lu fomos obrigados a deixar o grupo. O pior é que isso depois de termos composto todo um novo repertório e já estarmos prontos para gravar novamente. Fiquei um ano sem falar com o pessoal da banda. Quando vimos os novos membros ficamos intrigados. Uma menina, Debbie, entrou no lugar do Lu. Ela era totalmente tosca e não conseguia tocar as linhas que o Lu inventou. Precisou até pedir ajuda para ele ensinar a ela como tocar. Na época o Naporano achou que seria IN ter uma menina baixista.

Após a gravação dos disco seguintes eles foram mesmo embora, deixando nosso amigo, dono da gravadora, com o maior pepino na mão, com dois discos (o EP Full Moon Depression e o LP Stroboscopic Cherries) e sem banda para promover.

E o pior: só quem foi para Londres foram Naporano, Debbie e Victor Bock. Nem o nosso baterista Victor Leite foi e nem o meu substituto, Kim. Eu fiquei possesso mesmo. Se era para isso, eu poderia muito bem continuar na banda e gravar o disco decentemente. O Lu poderia ter gravado. E, para piorar, nossos nomes só entraram nos créditos das composições em uma música. E todas as que estavam no álbum e no EP eram nossas, também!

O Naporano achou que pegava mal se os integrantes atuais não estivessem nos créditos, porque a gente sempre assinou todas as músicas em conjunto. Nem é preciso dizer que chegando em Londres a banda se desintegrou e não ficou ninguém na casa do Naporano.

Victor Bock: - Eles não deixaram a banda logo depois do lançamento, ainda fizemos vários shows com essa formação.

A verdade é que apesar de ter um LP na praça a banda não estava gerando grana. O Fernando nunca deixou de escrever e devia ser razoavelmente bem pago, eu trabalhava na TV Cultura e morava com meus pais, acho que o Carlão estava montando uma loja de discos na época, mas o Lu e o Victor "viviam de música" e estava difícil. Na época, o boom das bandas tinha passado e o que estava rolando era lambada, lembra? Então a banda estava meio sem direção.

Para mim e para o Fernando, a opção que começou a tomar forma foi de sair do país e tentar a sorte aqui fora. Eu estava bem afim de sair do país, a combinação de Collor no poder e lambada tocando no rádio era mais do conseguia engolir, então acabei comprando passagem para Londres e anunciei à banda que estaria indo, quem quiser que viesse também.

Foi uma decisão meio abrupta e egoísta mesmo, não pensei muito nas outras pessoas da banda, tenho que admitir. Mas forçou uma decisão. O Fernando decidiu vir, também, mas o Carlão e o Lu não, o Victor queria, mas não tinha condições financeiras.

Mas ainda tínhamos um ano pela frente e varias músicas compostas, então chamamos o Kim Kell na guitarra e a Débora no baixo, fizemos alguns shows e fomos gravar. Dessa vez tivemos mais tempo para gravar, num estúdio pequeno, mas bem legal, do Marco Matolli (Rei do Samba Roque!), com um engenheiro bem legal que esqueci o nome... Ele é ou foi o chefe do áudio da MTV...

As gravações foram legais e o resultado também, mas rolou muitas brigas entre Victor e Fernando. Muita tensão.

Mofo: - Falem da perda do grande baterista Victor Leite.
Lu Stopa: -
Foi muito triste. Toquei com Victor em outras bandas além do Maria Angélica e trabalhamos juntos em uma famosa loja de instrumentos musicais. Foi um choque muito grande, mesmo sabendo que, em breve, aconteceria.

Carlos Nishimiya: - O Victor era um cara valente, durão por fora, um pote de manteiga por dentro. Sempre foi generoso, mas tinha um lado podre em conjunto, escroto mesmo, que emergia subitamente. Às vezes podia ser o seu melhor amigo, ou então o seu pior inimigo. Mas tenho as melhores recordações dele. Pelo menos, tive a oportunidade de estar com ele nos seus últimos momentos.

Ele sempre vinha para a minha loja para conversarmos depois que a banda havia ido embora. Planejávamos uma nova banda. Na época, eu tinha um grupo chamado de Mush, que não estava bem, mas tinha um repertório muito interessante e principalmente tinha a Rebecca Barreto nos vocais, um enorme talento. Ela era a menininha que apareceu na capa do Outsider.

Fazíamos planos, mas sabíamos que era tudo uma fantasia porque ele tinha pouco tempo de vida. Foi um dos melhores músicos com quem já havia tocado. Sua morte me deixa triste até hoje.

Victor Bock: - Pois é, naquela época fiquei bem triste do Victor não poder ter vindo conosco para Londres, sei que iria adorar e era um sonho dele.

O Victor sempre foi um cara de opiniões fortes, um cara que sacava os idiotas e falava tudo na cara deles. Talvez, por isso, e por um pouco de falta de sorte ele acabou desperdiçando várias oprotunidades de ouro.

Tanto o Ultaje a Rigor quanto Ira! começaram a vida na garagem do Victor, com ele na bateria para ambas as bandas. Outra banda que queria muito ele como baterista no começo, mas que ele recusou a oferta por não gostar do som, foi o RPM. Então ele passou os anos 80 vendo os colegas de bairro e bandas se dando bem e ganhando milhões. É para frustar qualquer um.

Tenho saudade dele até hoje.

Mofo: - Após a banda, vocês continuaram dentro do mundo musical? Quais são seus projetos hoje?
Lu Stopa: -
Após o Maria, fui tocar na noite nos anos 90. Tive a oportunidade de trabalhar com Carlos em sua loja de cds (Sweet Jane). Na virada dos anos 90 pra 2000 comecei a trabalhar com o Marcelo Nova, com o qual estive até final de 2005. Em 2004, com o Camisa de Vênus, no DVD do Festival de Verão de salvador; algumas bandas tributo a Raul Seixas, em 2009, na Virada Cultural, em São Paulo, no Palco "Toca Raul", com "caverna guitar band" interpretando o album Novo Aeon e com Edy Star interpretando o disco Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresenta sessão das 10 e, em 2010, reapresentando o Sessão das 10, no palco São João.

Hoje em dia toco com as bandas Trio de Estranhos e Caverna Guitar Band.

Carlos Nishimiya: - Eu continuei tocando com o Kid Vinil, que me convidou para entrar para o Magazine, em 1991, já que o Lu, na época, trabalhava na minha loja. Daí para a frente continuei nas várias formações que o Magazine/Verminose passaram. Algumas vezes tive que sair, por causa do clima com outros integrantes. Mas nunca com o Kid.

Em 2002, lançamos o disco final do Magazine pela Trama, o Na Honestidade. Mas foi um período miserável na minha vida. Apesar de estar numa boa gravadora e ter feito o trabalho sem qualquer pressão, o clima dentro da banda era péssimo. Tive que sair em 2003 por pressão dos outros. Ainda bem que o Kid encerrou o Magazine pouco tempo depois. Ele tambem percebeu que naquele estágio não havia chance de desenvolvimento.

Assim, em 2004 formamos algo descompromissado, o Kid Vinil Xperience, algo que eu e ele pudéssemos levar sem pretensões, fazer alguns shows, compôr algumas novas, tocarmos o que gostavamos mesmo. A primeira providência foi retirar quase tudo que estava no repertório do Na Honestidade. A direção musical desse disco foi um equívoco, algo que percebemos logo. E agora lançamos esse primeiro CD, de covers de coisas que adoramos, bandas extremamente desconhecidas a outras favoritas nossas.

Além disso, eu tenho o Surfadelica, desde 2006, meu projeto de surf music instrumental deturpada. É um veículo que criei para mostrar um outro lado meu, o de guitarrista e compositor. E dentro do formato limitado do trio e da surf music eu tenho a chance de inventar alguma coisa totalmente fora do estilo.

Também toco com o Continental Combo, banda do grande Sandro Garcia, da qual tenho orgulho em integrar. Eu me juntei sorrateiramente a eles, quando me chamaram para um show tributo aos Byrds. Depois disso eu dei uma de joão sem braço e acabei ficando. Era para ser apenas para um show e agora já gravei dois discos com a banda. Estamos gravando novo material que deve ficar pronto em breve. A novidade é que agora estou explorando mais ainda o meu lado folk com o meu mandolin elétrico e sonoridades mais acústicas. E tem sido ótimo porque tambem posso levar para a banda as minhas composições que não teriam lugar nos discos do Kid. E estou preparando um disco solo, mas sem data de término.

Victor Bock: - Bom, quando vim para Londres no começo dos 90, a batalha inicial foi para sobreviver mesmo, então não fiz música por uns dois anos. Tambem por estar em Londres onde muita coisa diferente rola ao mesmo tempo, a cabeça abriu muito.

Lembra que falei que gostava de disco e reggae quando era moleque? Pois é, tive uma recaída e caí nas raves undergrounds e sound systems. Foi nessa época que eu e Fernando paramos de nos ver. Fui chamado de traidor do Rock! Hehe, e nunca mais nos vimos.

Na verdade nunca fui roqueiro, não gosto de Rolling Stones, Deep Purple, Iron Maiden ou Judas Priest... Sempre gostei de música inovativa e não me filio a estilo nenhum.

Foi quando começou o Jungle\Drum'n'Bass que decidi fazer musica de novo. Foi muito bom ver e ouvir um novo genero de música se desenvolvendo ali, na esquina onde morava, em Dalston. Comprei um sampler e saí produzindo. Mixei varias faixas de Jungle, na época, até quando virou fórmula e perdeu a graça.

Produzi uns dois álbuns de electronica, junto com um parceiro, lançados pelo selo Nothing, do Trent Reznor, voltei para ao Brasil, trabalhei como finalizador de audio numa produtora em SP (do Jesus dos Los Pirata), voltei para Londres fiz uma trilha sonora para um filme longa americano Quinceanera, outras trilhas para curtas, instalações sonoras, e no momento estou procurando um cantor(a) para várias composições, esperando, no HD.

Mofo: - Deixem uma mensagem final aos fãs. Obrigado pela entrevista, um abraço a todos vocês.
Lu St
opa: - Os fãs do Maria Angélica poderiam e devem fazer campanhas e solicitações para que a banda retorne para um revival com aquelas belas canções que ainda são bem atuais. Muito obrigado e um grande abraço a todos!

Carlos Nishimiya: - Sempre encontro alguém que se lembra da banda e isso é um grande prazer. Foi um grande período na minha vida, aprendi muito e o legado que deixamos foi grande. Quem sabe um dia a gente consiga lançar o material que permanece inédito. São várias demos com músicas nunca lançadas. Obrigado a todos que foram tocados pela música do Maria Angélica. Isso é mais do que uma alegria, é uma dádiva. Muito obrigado e que Deus os abençoem!

Victor Bock: - Fãs? Como assim? Hehe... Na época, dava para contar nos dedos das mãos e dos pés o número de fãs. Não tenho muita noção de como o Maria é visto hoje em dia. Foi tanto tempo atrás, e tanta coisa rolou desde então...

Mas se ainda tem gente nos ouvindo por aí é porque fizemos algo certo!

Ah, a mensagem: know thyself!

Discografia

Outsider (1988)
Sanguinho Novo - Arnaldo Baptista Revisitado (1989, com a faixa "Te Amo Podes Crer)
Full Moon Depression (EP, 1991)
Stroboscopic Cherries (1991)

 

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