137 - The Mighty Lemon Drops

Esse grupo quase desconhecido este, acredite ou não, por aqui em seu "auge". Corria o ano de 1988, e haviam lançado o disco World Without End que continha a contagiante "Inside Out", pequena coqueluche entre os amantes do pop britânico daquela época. E acabaram descolando alguns shows pelo Brasil, em mais uma prova de nossas excentricidades. Pois essa banda de Wolverhampton (onde mesmo?), que possui um nome que poderia dar muito certo em algum anúncio de balas de hortelã tem um passado deveras interessante. Por isso, os Poderosos Drops de Limão valem ser citados. E você nem precisará pegar o mapa para descobrir onde fica a tal cidade...


 

da esquerda para a direita: Keith Rowley, Paul Marsh, à frente, Tony Linehan e Dave NewtonHá quem os considere uma mera cópia do Echo And The Bunnymen e outros um raro exemplo de quão boa pode ser uma pequena e despretensiosa banda. O The Mighty Lemon Drops possui alguma coisa parecido com o ex-grupo de Ian McCulloch, embora tenha sua própria personalidade. E, sim, foram um pequeno e excelente grupo.

Incluídos na chamada Class Of 86, movimento pelo qual o Primal Scream também foi rotulado, no início – não se assustem o ano indica apenas a data em que começaram e as bandas desse tal “estilo” era conhecidas por fazerem um regressive rock, ou seja um rock com nítidas influências, mas especificamente, os anos 60.

O grupo nasceu no meio da década de 80 – 1984 -, quando quatro jovens tocavam no The Sherbert Monsters, banda de amigos que se encontravam no clube JB’s em Dudley, perto de Wolverhampton.

O núcleo básico se compunha de Paul Marsh (cantor e guitarrista) e Dave Newton (guitarrista), ambos apaixonados pelas raízes do movimento punk e seus filhotes. Newton contava, todo orgulhoso, que esteve no lendário show “Rock Against Racism”, no qual o The Clash foi a grande estrela.

Os dois, mais o baixista Linehan participavam de um grupo chamado Active Restraint, até que Newman saiu e montou outra banda, The Wild Flowers. Mas ele logo voltou e convidaram o baterista Kevin Rowley.

Após alguns shows no local, conseguiram dar uma fita para Dan Treacy, cantor do TV Personalities, que era o chefe de um pequeno selo chamado Dreamworld Records e promotor de noites de sábado no “Room At The Top”, em Londres.

Já rebatizados como Migthy Lemon Drops, foram aceitos para tocar na tal festa em Londres, embora apresentassem uma peculiaridade: não queriam ensaiar para o show.

"Um dos maiores erros que uma banda iniciante pode cometer é ensaiar em demasia no início. Pode ser muito chato e monótono quando uma banda conhece demais as primeiras composições. Quando você não ensaia tanto elas ficam excitantes ao serem apresentadas ao vivo”, disse Dave, sob o peculiar ponto-de-vista do grupo.

capa do compacto Like An AngelApesar disso, conseguiram emplacar um primeiro compacto pelo selo Dream: Like An Angel, que bateu no topo da parada independente e ficou em 34º lugar no Festive 50, organizado pelo já falecido DJ John Peel, que acabou convidando a banda para um programa na Radio 1 da BBC.

O grupo apresentava em seus shows uma performance tímida e normalmente odiavam ser encarados pela platéia. “Odeio a idéia de subir em um palco e ver as pessoas olhando para nós como se fôssemos um bando de simplórios. Odeio ser observado”, diz Tony.

Com seu visual extremamente básico - todos de pretos e jaquetas jeans – a banda não entendia tal desprezo de algumas pessoas. “Nos vestimos para o palco como nos vestimos para qualquer lugar. Não somos uma banda típica de Wolverhampton que tem um moicano na guitarra, um baixista que curte heavy metal, um baterista skinhead e um cantor romântico, ou algo do gênero”, disse Keith.

Para eles, o Mighty Lemon Drops era um filho direto de bandas como Beatles e The Shangri Las.

O compacto continha “Something Happens” e ”Sympathise With Us”, no lado B de 12 polegadas e “Now She's Gone”, no de 7. Rapidamente foram classificados pelo semanário New Musical Express como integrantes do C86, ao lado do Shop Assistants e outras preciosidades, que lançou um fita cassete justamente intitulada NME C86, com as seguintes bandas e canções:

cassete da revista New Muscal ExpressLado 1

1-Primal Scream: “Velocity Girl”
2-The Mighty Lemon Drops: “Happy Head”
3-The Soup Dragons: “Pleasantly Surprised”
4-The Wolfhounds: “Feeling So Strange Again”
5-The Bodines: “Therese”
6-Mighty Mighty: “Law”
7-Stump: “Buffalo”
8-Bogshed: “Run To The Temple”
9-A Witness: “Sharpened Sticks”
10-The Pastels: “Breaking Lines”
11-The Age Of Chance: “From Now On, This Will Be Your God”

Lado 2

1-Shop Assistants: “It’s Up To You”
2-Close Lobsters: “Firestation Towers”
3-Miaow: “Sport Most Royal”
4-Half Man Half Biscuit: “I Hate Nerys Hughes (From The Heart)”
5-The Servants: “Transparent”
6-MacKenzies : “Big Jim (There’s No Pubs In Heaven)”
7-Big Flame: “New Way (Quick Wash And Brush Up With Liberation Theology)”
8-We’ve Got A Fuzzbox And We’re Gonna Use It: “Console Me”
9-McCarthy: “Celestial City”
10-The Shrubs: “Bullfighter’s Bones”
11-The Wedding Present: “This Boy Can Wait (A Little Longer)”


Foi quando começaram as comparações com o Echo And The Bunnymen. Na verdade, os quatro gostavam das três grandes bandas de Liverpool dos anos 80: Echo, Teardrop e Wah!. Os três líderes desses grupos – Ian McCulloch, Julian Cope e Pet Wylie – eram garotos apaixonados por anos 60, e especialmente por Velvet Underground, Doors e Byrds. Ian McCulloch conta que Pete era o mais maluco de todos e que ficava o dia inteiro com uma garrafa de uísque na mão e comentando como Jim Morrison era um gênio.

Dave fala que eles amavam essas bandas, realmente, mas se tivessem que escolher uma das três como a maior influência seria o Wah!. “Quando elas apareceram foi com uma brisa de ar fresca. O que mais gostava delas é que, apesar de terem nascido logo após o punk, tinham uma sonoridade sessentista, o que os faziam muitos mais elaborados do que os grupos punks. Seria estupidez nossa negar a influência do Echo And The Bunnymen, embora eu não goste dessa comparação com eles. Se fosse o caso, gostaria que fôssemos mais comparados ao Wah! e até com o Teadrop Explodes. O primeiro por sua força, e o segundo por suas melodias”, disse Dave.

capa do disco Happy HeadEm 1986 assinam com a pequena Blue Guitar e lançam o primeiro LP, Happy Head, produzido por Stephen Street, que ficaria famoso depois ao trabalhar com os Smiths e na carreira-solo de Morrissey.

O grupo vivia então uma situação curiosa: eram considerados uma das mais promissoras e “quentes” bandas novas, mas estavam sem contrato. E não viam problema algum em assinar com uma grande companhia, já que não queriam o rótulo de cult band. Eles queriam era fazer sucesso, muito sucesso.

“Nunca dissemos que não asssinaríamos com uma grande gravadora. Se uma banda é uma boa vendedora em selos pequenos e dizem que não querem ir mais longe do que conseguiram, pode apostar que estão de gozação. Nós desejamos ser ouvidos por todo mundo”, garantia Dave.

Quando assinaram com a pequena gravadora e viram o primeiro disco fazer algum sucesso na parada independente se sentiram felizes.

“Veja, acho que somos uma banda realmente sortuda. Quando começamos eu e Dave íamos a mesma escola juntos e encontramos Keith e Tony nesse clube de Dudley, o JB’s. Quando nos encontramos e resolvemos montar uma banda, gravamos quatro músicas e começamos a tocar em volta de Woverhampton. Aí enviamos uma demo e conseguimos o contrato com a Dreamworld, que lançou nosso single e foi bem nas paradas e agora temos o LP e ele caminha bem. Até que para uma banda iniciante não podemos reclamar,” dizia Paul.

capa do compacto Inside OutEm 87 foi a vez do disco Out Of Hand, que rendeu mais alguns elogios e até um convite para o programa da DJ Janice Long onde gravaram um EP, Janice Long Session.

Estabelecidos entre os pequenos novos grupos ingleses, conseguiram uma mudança em 1988 quando lançaram o maior sucesso deles até hoje, a canção “Inside Out”.

A canção era o carro-chefe do novo disco, World Without End, e a banda experimentou um sucesso sem precedentes, quando viajaram para a América ao lado do Love & Rockets, durante nove semanas e até tocaram por aqui. Foram perto de 120 shows entre 1988 e 1989.

capa do disco World Without EndO disco chamou a atenção para o grupo e seu punhado de boas canções pops produzidas por Tim Palmer, que havia trabalhado recentemente com Robert Plant e The Mission, deu mais brilho às músicas do grupo. Alguns contatos com outros selos foram iniciados, mas o grupo seguia ainda na Blue Guitar.

A excursão acabou marcando a saída do baixista Tony Linehan, substituído por Marcus Williams. Para gravarem o próximo disco, preferiram se refugiar por completo.

Sem seu baixista e co-autor de várias canções, tudo ficou nas conta de Dave Newton e eles resolveram gravar o novo disco no estúdio de Peter Gabriel, em Bath.

capa do disco Laughter“Queríamos um, estúdio que tivesse uma casa onde pudéssemos morar e tocar, sem precisar nos mover de um lado para outro. Não gostamos dos grandes estúdios das cidades grandes, eles são frios. No de Peter podíamos sentir uma atmosfera mais desafiadora, e ele mesmo vinha todos os dias para saber como estávamos. Ele ficava genuinamente preocupado conosco. Gravamos baixo, bateria e guitarra juntas, e isso foi bom porque experimentávamos mais, já que Marcus deu um novo som ao grupo. E também haviam as pessoas da vizinhança, com quem socializávamos, e saíamos, às vezes. Tudo isso gerou nosso melhor disco”, conta Paul.

Assim, em 1989 lançam Laughter, que rendeu boas críticas e chamou mais ainda a atenção de grandes companhias, até que a Sire, que cuidava de grupos como o Talking Heads, os contratou.

E, como muitas vezes acontece com pequenas bandas que entram em uma major, o Mighty Lemon Drops não rendeu o esperado, muito menos para uma companhia que espera grande rentabilidade.

capa do disco Sound… Goodbye To Your StandardsO primeiro lançamento pelo novo selo, Sound… Goodbye To Your Standards, trazia o mesmo estilo de antes, um pouco mais trabalhado e mais amadurecido. Os Drops estavam em grande forma, com o produtor Andy Paley (que havia assinado algumas trabalhos para Brian Wilson) e ainda contaram com o diretor Howard Greenlagh, o responsável por vídeos do Cocteau Twins, The Jesus And Mary Chain e Lush. Logo após o lançamento, o Mighty Lemon Drops realizou vários shows costa-a-costa pelos Estados Unidos.

No ano seguinte, a Sire botou um novo projeto do quarteto nas lojas: Richochet. O grupo resolveu que era hora de mudar a postura do álbum anterior e gravaram rapidamente e com um mínimo de overdubs. O disco continha 11 canções e não fez muito sucesso.

Como resultado, tiveram o contrato encerrado com a gravadora e em 1993 lançam pela pequena Overground o disco All The Way. Mas a vontade de fazer sucesso já era menor, e o sucesso menor ainda, e o Drops termina.

capa do disco Rollercoaster – The Best Of The Mighty Lemon DropsEm 1997 sai a coletânea Rollercoaster – The Best Of The Mighty Lemon Drops que ajuda um pouco a reacender a chama da banda. Aos poucos, os integrantes foram conversando e vendo se ainda havia alguma chance de retornarem. O caso é que em 2000, eles realmente voltaram a tocar juntos, por poucas datas e com Donald Ross Skinner na bateria. Os fãs deliraram, de qualquer maneira, ao ver o Mighty Lemon Drops ao vivo, novamente.

 

capa do CD Young, Gifted, and Black CountryComo o século XXI é o século da volta e dos relançamentos de artistas que já sumiram há um bom tempo, saiu em 2004, o disco Young, Gifted, and Black Country que consiste em 10 canções gravadas em um programa de rádio em Los Angeles, no auge do grupo, em 1988, além de todas as músicas presentes no primeiro compacto do grupo Like An Angel, de 1985. Um lançamento precioso e oportuno (além de oportunista).

A banda não pensa em gravar nada mais e vez por outra se reúne, sem maiores pretensões. Deixo vocês com a letra de "Inside Out", grande clássico do grupo. Um abraço e até a próxima coluna.