| Osvaldo Collucci
não é famoso como Luiz Calanca da Baratos Afins
ou René Ferri da extinta Wop-Bop. Mas sua importância
para mim é a mesma. Afinal, quando eu ainda vivia em Ribeirão
Preto, a Cantinho Discos (ou Cantinho do Disco, como muitos a
chamavam) era a única loja que trazia vinis que só
existiam em São Paulo. Entre 1985 e 1988 foi a única
boa opção não apenas da cidade, mas da região.
Acabei fazendo amizade com Osvaldo, apesar de no começo
ele ser mais fechado. Com o tempo, fomos nos aproximando e saímos
até em uma matéria em um pequeno jornal, juntos,
em 1991! E quase viramos sócios! Daria para fazer um livro
com essas e outras histórias. Mas o motivo que eu o entrevistei
foram dois: o primeiro foi que ele reativou a loja com um novo
nome (ou quase) e a segunda foi meu desejo em mostrar como funcionava
o meio roqueiro numa cidade tão pouco comentada como Ribeirão.
Tá certo que a Cantinho não tinha o estoque da Baratos
ou da Wop-Bop, mas tinha lá seu charme e era abarrotada
de vinis. Sendo assim, por que não saber como funcionava
a melhor loja da Alta Mogiana e quais são seus novos planos?
Pergunta:
- Osvaldo, conte como fundou a Cantinho Discos...
Osvaldo Collucci: - A loja nasceu num programa
de rádio criado aqui em 1983. Comecei a freqüentar
o estúdio e fiz amizade com a apresentadora. À época
eu tinha alugado uma sala num prédio do centro pro meu
escritório de filatelia e numismática - trabalhava
de noite numa filiada da TV Globo e tinha tempo de sobra durante
o dia - e a Cibeleza, a tal apresentadora, sugeriu que utilizasse
o espaço para um sebo pioneiro de discos de rock. Topei
a idéia e abri um espaço na sala pros discos, o
cantinho dos discos. Começamos a divulgar na rádio
e panfletar em locais afins. O negócio deu tão certo
que, em pouco tempo, eu deixei de trabalhar com as outras coisas
e mudei pro primeiro andar do prédio, mais acessível,
e continuei a expansão. Em 1986, pedi um imóvel
da família para um inquilino, reformei e levei a loja para
a rua. Os motivos? bem, eu sou roqueiro, freqüentava direto
as Grandes Galerias de São Paulo e como dizia meu avô
tenho bicho carpinteiro, sempre gostei de fugir do convencional.
Pergunta:
- Por que você fechou a loja na década de 90 e voltou
com um outro nome (Cantinho Discos Record Shop)? Quais são
suas expectativas com esse retorno?
Osvaldo Collucci: - Deixei de trabalhar com a Cantinho
em 1993 e voltei agora em 2006 por vários motivos: gosto
disso, sou dono do meu tempo e tinha vontade. Estava com bronca
da atual conjuntura econômica e, confesso, estava com saudade
do velho vinil. Minhas expectativas? Olha, por aqui nunca vingou
uma loja de bom gosto nos velhos tempos por falta de mercado e,
atualmente, por falta de percepção ou competência
e acho que a região merece e comporta uma loja desse tipo.
São boas, portanto, as perspectivas.
Pergunta: - Nos
anos 80, a loja era a única boa opção de
Ribeirão. Como você se mantinha informado dos lançamentos
e como comprava os discos?
Osvaldo Collucci: - Realmente na década de 80
a loja se firmou como a única opção e passei
a ser respeitado no mercado. Para rock e MPB eu era a primeira
opção e as outras passavam batidas pra esse tipo
de público. Era eu quem cuidava da Cantinho, com a ajuda
da família e mensalmente ia até São Paulo
para buscar material, me inteirar das coisas, etc. Eu lia o que
existia sobre rock e MPB, conversava sempre com o pessoal do meio
em São Paulo, enfim, me mantinha antenado, pois via nisso
o diferencial importante para meu mercado.
Pergunta: - Você
não tinha concorrentes em Ribeirão, mas resolveu
sair do mercado. Por que?
Osvaldo Collucci: - Realmente não tive concorrentes
e o que surgiu depois nessa área foi feito por gente que
freqüentava minha loja, depois que saí do mercado.
Francamente, as intenções podem ter sido boas, mas
a receita nunca mais foi repetida e, humildemente, acho que posso
repetir a história. Apesar dos problemas econômicos,
eu cismei em me dedicar a algo "sério' em termos comerciais;
tinha mulher e filha e meu na cabeça de buscar segurança.
Me arrependi de não ter continuado na área. Mas
gás não falta e sempre se pode fazer melhor.
Pergunta:
- O que você mais vendia?
Osvaldo Collucci: - Rock e MPB e acessórios que
os acompanham. Peguei a onda do metal, do rock 80, da MPB independente.
Foi uma época rica em que se consolidou o mercado roqueiro
e alternativo do Brasil e eu creio ter trazido isso para a região.
Pergunta: - Você
se sentia antenado inteiramente com o contexto da época
ou nem tanto?
Osvaldo Collucci: - Claro que sim e tanto tive certeza
que poderia participar disso que levei em frente a idéia
de se criar um espaço assim, em Ribeirão Preto.
Por uma questão de lógica sempre soube que eu nunca
teria a amplitude de Sampa, mas sempre acreditei que haveria (como
houve) espaço aqui. Conversava com o pessoal de São
Paulo; o Calanca, o René, o Walcir, Chicão, Jonas,
Eric e tantos outros. Freqüentei o Lira Paulistana e só
sinto não ter conhecido a Wop-Bop ainda nas Grandes Galerias,
mas em compensação peguei a época do Chicão
da Devil com todo aquele tamanho sentado num banquinho minúsculo
e com os discos de sua coleção encostados na parede
da recente loja; o Walcir e o cunhado se espremendo na minúscula
loja da Rua José Bonifácio.
Pergunta: - Uma
curiosidade aos leitores. Nós quase viramos sócios
duas vezes. Você se lembra dessas histórias?
Osvaldo Collucci: - Claro que sim! A primeira foi quando
fomos ver a grande coleção que era, na verdade,
o estoque da loja Rocks que o Prisco Fázio havia aberto
em 1976, mas não tinha dado certo. Quanto à loja
em Sampa era uma ótima idéia como outras dezenas
de boas idéias. Só que eu nunca quis morar em São
Paulo..
Pergunta: - Ribeirão
Preto é extremamente provinciana. Ainda existe algum público
para sua volta?
Osvaldo Collucci: - Ribeirão é mesmo provinciana,
mas atualmente existem espaço para o rock. A cena roqueira
aqui tá cheia de bares com som ao vivo, excursões
de shows e outras coisas. The times they are a-changin'...
Pergunta:
- O que você gosta de ouvir hoje em dia?
Osvaldo Collucci: - Da música de hoje em dia eu
gosto mesmo do que rola em pistas de dança, rave,
todas aquelas tendências; gosto de sacudir.
Pergunta: - Quais
são seus cinco discos favoritos?
Osvaldo Collucci: - The Piper at the Gates of
Dawn (Pink Floyd); Freak Out! (The Mothers
of Invention); Electric Ladyland (Jimi Hendrix);
Bringing It All Back Home (Bob Dylan) e The
Velvet Underground & Nico.
Pergunta:
- E quais são suas cinco músicas preferidas?
Osvaldo Collucci: - "Chapter 24" (Pink Floyd);
"Hungry Freaks, Daddy" (The Mothers of Invention); "Mr.
Tambourine Man" (Bob Dylan); "Strange Days" (The
Doors) e "Purple Haze" (Jimi Hendrix).
Pergunta: - Valeu
Osvaldo, deixe uma mensagem para os antigos e novos clientes!
Um abraço!
Osvaldo Collucci: - Bem, não
tenho nenhuma mensagem especial. Muito dos antigos clientes são
meus amigos e nos falamos até hoje. A eles, digo que estamos
aí. Quanto aos novos, vou adorar conhecer aos amantes da
boa música. Um abraço a todos e a Cantinho Discos
Record Shop está aí!
PS: a razão da foto
do Closer do Joy Division é uma "vingança"
minha. Explico: naquela época, Osvaldo vendia o vinil a
75 cruzados e ele possuía uma cópia pirata, argentina,
do Closer a 600 cruzados! Oito vezes o preço!
Eu comprei. O selo do vinil estava apagado e odiei quando toquei
"Atrocity Exhibition" pela primeira vez. Até
escondi o disco por meses e fiquei me odiando por ter gastado
meu dinheiro. E cinco meses depois, saiu uma edição
nacional dele! Fica aqui meu protesto.. devolva meu dinheiro,
Osvaldo!!!!
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