| Poucas coisas
podem nos fazer viver ou morrer por elas. Rock está nessa
lista. Na minha, ao menos. Música é uma velha companheira
e confidente há tanto tempo que me fez querer entender
e escrever sobre ela. Mas escrever sobre algo tão belo
é complicado.
No filme Quase
Famosos o crítico musical Lester Bangs diz que devemos
ser impiedosos com quem entrevistamos e jamais ficarmos amigos
dos mesmos. Eu discordo disso veementemente. Acredito e faço
entrevistas apenas de quem gosto sempre procurando uma aproximação
cordial. Estou lá para entrevistá-lo e não
para esmagá-lo.
Esse pode vir a
ser o caso com Sandro Garcia. Não o conheço bem,
embora tenha conversado com ele uma vez após um show do
Violeta de Outono. Mas Sandro possui no Continental Combo duas
pessoas que conheço; dois Carlos: o Nishimiya é
meu amigo há 10 anos. O Rodrigues é uma pessoa bacana
e a quem devo uma grana, que será paga em algum momento.
Nem que a envie via Major Tom...
Foi o Dalai Lama
quem disse que os homens adoecem ganhando dinheiro e que depois
o gastam todo tentando recuperar a saúde. Não quero
isso. Aposto que Sandro também não. Ele quer apenas
tocar rock and roll. Eu quero apenas ouvir e escrever sobre isso.
Pete Townshend
imortalizou a frase "espero morrer antes de ficar velho".
Mas Pete errou, assim como Lester. E Lester está morto.
Pete ainda não. Nem eu. Nem Sandro. Sendo assim porque
não ler o que Sandro tem a nos dizer? Conte-nos Sandro.
Conte como tudo começou...
Pergunta:
- Como você começou? Quando se apaixonou pela música
e descobriu que queria ser músico?
Sandro Garcia: - Na primeira metade da década
de oitenta. Nessa época, a descoberta do meu lado musical
foi reforçada quando comecei a trabalhar de office boy
no centro de São Paulo e estabeleci um contato com as lojas
de discos. Havia também o clima de efervescência
do rock paulista, fui em muitos shows o que me serviu definitivamente
como incentivo a comprar um instrumento (um contra-baixo) e montar
uma banda.
Pergunta: - Fale
um poucos dos grupos onde tocou...
Sandro Garcia: - A primeira foi o Faces e Fases, um grupo
que não chegou a lançar nenhum material oficial.
Tocamos muito durante a segunda metade da década de oitenta.
A banda era totalmente influenciada pela sonoridade Mod. Em seguida,
no início dos 90, foi o The Charts, que também carregava
influências do Mod, mas mesclada com o som das garage-bands
americanas e, na fase final já havia na sonoridade do grupo
algo de psicodélico e folk. O Charts fez muitos shows de
90 até 99, em 2006 nos reunimos para uma apresentação
especial na festa Start!
Toquei também, por
um curto período, no Ultimates uma banda que teve várias
fases, toquei entre 96 e 97 nesse periodo o som era bem garageiro.
Em 98, montei com o Plato o Momento 68, que depois virou um trio
e acabou em 2002. O grupo deixou, entre vários lançamentos
o disco Tecnologia.
Entre 2000 e 2001 toquei
no Violeta de Outono nos shows de lançamento do disco Mulher
na Montanha. Com o fim do Momento 68 em 2002, o Carlos
(baixista) eu, mais o Rogério, formamos o Continental Combo
banda que estamos tocando até então. Houve ainda
a minha cooperação como baixista na banda de apoio
do Cadão Volpato. O grupo foi formado para fazer os shows
de lançamento dos seu primeiro disco solo chamado
Tudo que eu quero dizer tem que ser no ouvido. Também
toquei baixo com os The Darma Lovers e ainda possuo um projeto
instrumental chamado Dellatrons com o músico e desenhista
Marcelo Badari.
Pergunta:
- Você tocou, basicamente, em trios - Charts, Violeta, Momento
68. Por que o Continental Combo abandonou essa formação
e convidou Carlos Nishimiya para ser o segundo guitarrista?
Sandro Garcia: - Desde do Momento 68, nas gravações,
eu sempre acrescentava muitos overdubs de guitarra e no Continental
acontece o mesmo e notamos que seria muito bacana ter a possibilidade
de alguém tocar conosco ocupando esta lacuna que a banda
deixava ao vivo. Então, encontramos o Carlinhos, que é
um musico genial, eu diria que sua entrada na banda foi vital,
ajudando de forma crucial para os próximos passos do grupo.
Pergunta: - Nishimiya
é um velho conhecido meu, fui balconista da Sweet Jane
e cliente por anos e Golfetti é um bom amigo até
hoje. Você vê alguma semelhança entre eles,
além do fato de serem guitarristas?
Sandro Garcia: - Eles são, de certo modo, hérois
combatentes da cena musical. Ambos são grandes guitarristas,
extremamente minunciosos, figuras apaixonadas por música.
São duas personalidades muito dedicadas e transbordam simpatia.
Pergunta: - Suas
letras são abstratas, simbólicas, um estilo bem
parecido com as de Fabio Golfetti. Como vocês as constrói?
Elas vêm primeiro, depois ou junto com as melodias?
Sandro Garcia: - Geralmente as letras vão tomando
forma junto com a idéia musical, uma preocupação
constante embora tudo aconteça de forma natural é
que a letra transmita uma idéia visual servindo de forma
complementar ao som da composição.
Pergunta:
- No Momento 68 e do Continental você era e é o principal
compositor, vocalista e guitarrista, mas no Charts e no Violeta
era "apenas" o baixista. Como você lidava com
essas mudanças? E qual instrumento você prefere mais?
Sandro Garcia: - Como músico e instrumentista
é com o contra-baixo que me sinto mais tranquilo, mas com
a guitarra ou violão encontro um caminho mais amplo para
desenvolver minhas composições. Não sei exatamente
qual é o meu preferido; às vezes mesmo não
tendo o domínio técnico sobre determinado instrumento
procuro utilizá-lo como uma ferramenta de expressão
das minhas idéias musicais.
Pergunta: - Os
Charts tinha uma linguagem mod muito forte, influências
nítidas de Who, Jam e até Small Faces. Flávio
Telles tinha uma boa voz, potente. Por que a banda acabou? O que
ele anda fazendo?
Sandro Garcia: - A banda tocou durante muito tempo e
acredito que acabamos chegando em um momento em que ficamos sem
perpectivas do nosso futuro musical, então o grupo desmoronou.
Sei que o Flávio têm ótimas composições
gravadas em formato demo, mas infelizmente, nunca foram apresentadas
com uma nova banda ou projeto.
Pergunta:
- Você ficou um bom tempo no Violeta, mas não há
registros oficiais com você, apenas com o Gregor. Isso te
chateia?
Sandro Garcia: - Toquei entre 2000 e 2001, não
vejo nenhum problema em não ter dado uma maior contribuição
musical tocando baixo em algum disco da banda; claro teria sido
uma honra, mas foi uma experiência musical muito importante
ter tocado as sensacionais composições do Fabio
nos shows.
Pergunta: - Uma
curiosidade: é possível viver apenas da música
ou você tem um emprego?
Sandro Garcia: - Tenho o meu estúdio, o Quadrophenia,
que em 2008 vai fazer dez anos, mas mesmo assim ele só
paga as contas. Viver com um trabalho musical onde você
tenha total liberdade é bem dificil, mas há muitos
caminhos nesse universo, cada um pode escolher o que melhor lhe
convem. Uns conduzem sua trajetória musical de forma absolutamente
tranqüila, gravando discos de forma completamente independente
e existe também aqueles que chegam a sobrepor a qualidade
e o caráter musical do grupo pela necessidade de estar
toda semana na MTV.
Pergunta: - Como
você vê a cena rock brasileira em geral e a cena paulista,
especificamente? Considera os espaços e as divulgações
hoje mais precárias do que há 10, 20 anos atrás?
Sandro Garcia: - A quantidade de bandas tem aumentado
cada vez mais, criando uma concorrência muito maior, e na
cena alternativa a qualidade deste ou daquele trabalho não
é só o que manda, você têm que matar
dez leões por dia, e como sou defensor dos animais acabo
deixando este trabalho sujo para outras bandas. Nos espaços
pra shows, no circuito alternativo aqui em SP, há uma linha
tênue entre a total precariedade e o mínimo de qualidade.
Faltam espaços de médio porte, teatros, lugares
onde a atração musical seja o principal motivo para
agregar as pessoas.
Pergunta: - Eu
defendo uma tese de que o espaço rock na mídia é
cada vez mais escasso; as rádios não tocam mais
rock, a não ser algumas que investem no chamado "classic
rock"; o público também prefere outros estilos,
mais populares e os espetáculos do gêneros são
mais ligados aos grandes nomes. Você concorda comigo ou
me acha muito fatalista?
Sandro Garcia: - As rádios realmente não
se preocupam em reciclar o "play list" com novos talentos,
isso só têm acontecido em programas pela internet
(por exemplo como Loaded e-zine). Estes espaços que a internet
possibilita são dezenas de vezes mais democráticos.
Pergunta:
- Eu sou grande fã do Momento 68, achava uma grande banda,
tenho o CD Tecnologia e dois singles - Onde Estão Suas
Canções? e o Ziggy - e tenho uma curiosidade. Por
que o personagem "Homem Retalho" não aparece
na faixa de mesmo nome e sim em outra canção? Isso
me lembrou aquela coisa dos Doors, de lançarem o disco
Waiting for the Sun, mas de gravarem a música apenas em
Morrison Hotel.
Sandro Garcia: - As duas composições foram
feitas com a idéia de transmitir a solidão de um
personagem em uma grande metrópole. A letra de "O
Homem Retalho" foi terminada sem que a composição
tivesse esse nome, achei que a descrição do cenário
combinava com um protagonista melancólico, então
lembrei do personagem que estava em "Outra Cidade" aí
batizei esta faixa do Continental Combo com este nome, criando
uma ligação entre as situações descritas
nas duas composições.
Pergunta:
- "Homem Retalho", aliás é a minha música
preferida do disco de estréia do Continental Combo, uma
linda melodia, que tem uma levada - se me permite o disparate
- que parece uma "melancolia alegre". O que você
tinha em mente quando a compôs?
Sandro Garcia: - A cidade, lugar que tanto convivo é,
e sempre será, aminha fonte de referência.
Quando me deparo com a necessidadede de criar uma letra
para uma nova composição é nela que vou buscar
as informações. Por ela, circulam muitos personagens
com suas alegrias e tristezas, livres ou oprimidos, cheios de
esperança ou de desilusões; a dualidade que habita
em todas as metrópoles é a minha matéria
prima principal. O cinema também é outro ingrediente
muito importante, filmes como o genial O Homem que virou
Suco (com José Dumont) e A Hora da Estrela
(com Marcélia Cartaxo e José Dumont), têm
um paralelo absoluto com esta composição do Continental.
Pergunta: - Qual
a importância da internet na vida de vocês? A banda
usa e abusa dessa ferramenta para a divulgação ou
preferem o velho e fiel boca-a-boca? A sua esposa, Consuelo, te
ajuda bastante, não?
Sandro Garcia: - Hoje a internet é um ferramenta
importante para qualquer músico ou artista para divulgar
e organizar o trabalho. O Continental têm sua página
no My
Space e também em breve uma home page oficial.
Pergunta:
- Quando sai o novo disco do Continental?
Sandro Garcia: - No primeiro semestre de 2008, com absoluta
certeza. (N do E: O disco se chamará A Vida
é um Mistério e eis a capa dele, segundo
nota do próprio Sandro em seu blogs
e terá 12 faixas.)
Pergunta: - Há alguma chance
dos Charts e do Momentos serem reativados, ainda que para alguns
shows, somente?
Sandro Garcia: - Acredito que não.
Pergunta: - Você saberia
dizer qual a faixa etária do seu público?
Sandro Garcia: - Não saberia te responder com
exatidão, talvez dos oito aos oitenta.
Pergunta: - Vocês
fizeram um especial dos Byrds. "Nova Manhã" tem
um final tipicamente byrdniano. Sua praia é realmente os
anos 60, não?
Sandro Garcia: - Apesar de ouvir muitas bandas de de
periodos diferentes, são as dos anos sessenta que ainda
de forma muito forte me servem de base para criar as canções.
Pergunta:
- Uma curiosidade: por que no disco do Charts (SP em PB) e no
do Continental vocês deram destaque a uma placa de sinalização
de trânsito?
Sandro Garcia: - A semelhança entre elas foi casual;
no caso do Charts a idéia foi buscar elementos da Pop Art
e Mod e a placa com a seta traduz isso muito bem. A arte do disco
do Continental surgiu de fotos que fui fazendo na estrada, quando
a banda foi tocar em Londrina. A minha visão pessoal da
foto usada na capa com estrada e a placa de sinalização
é o da banda sempre percorrer seu caminho, olhando para
frente.
Pergunta:
- Poderia me dizer sua discografia completa com todas as bandas?
Sandro Garcia: - Há uma quantidade consideravel
de lançamentos entre Eps, Singles e títulos não
oficiais, além de algumas participações (onde
toquei algum instrumento) discos de artistas como: Laboratório
SP, Skywalkers, Cadão Volpato, Blue Afternoon, Plato Divorak,
Manta, Fotograma, The Automatics e o Violeta de Outono. Então
vou deixar aqui um pequeno resumo de alguns títulos:
The Charts - Carbônicos [1996 - Suck MY Discs - Suck 002
CD]
The Charts - São Paulo em PB [2005 - Solaris Discos - SLRS
- CD 0545]
Continental Combo - Continental Combo [2005 - Monstro Discos 065-
CD]
Dellatrons - Dellatrons [2001 - Bada0- CDR]
Dellatrons - Asia Lee [2002 - QMR#06 - CDR]
Dellatrons - Gunnar Lou [2003 - QMR#007 - CDR]
Faces e Fases,1987-89 em Lo-Fi [2005 - QMR#011 - CDR]
Momento 68 - Single em Vinil [2000 - Monstro Discos # 011]
Momento 68 - Tecnologia [2002 - Sebo 264/ VoicePrint VPB 105 CD]
Sandro Garcia - Enigma Central Park - demos vol.1 [2005 - GRR003
- Open Field/Peligro - CD]
Explanações Vídeo Compilação
vol.1 [2007 - QMR]
Pergunta:
- Obrigado pela chance e desculpe esse questionário interminável.
Deixe um recado aos fãs. Um abraço e boa sorte na
carreira!
Sandro: - Rubens, agradeço muito pelo espaço
e gostaria claro de agradecer a todos que sempre estão
dispostos a nos dar uma força e também àqueles
que estão por ai, produzindo seus trabalhos de forma independente
(zines, blogs, bandas e etc). Valeu, gente!!!!
Valeu, Sandro!
|