31 - Sandro Garcia - entrevista

Poucas coisas podem nos fazer viver ou morrer por elas. Rock está nessa lista. Na minha, ao menos. Música é uma velha companheira e confidente há tanto tempo que me fez querer entender e escrever sobre ela. Mas escrever sobre algo tão belo é complicado.

No filme Quase Famosos o crítico musical Lester Bangs diz que devemos ser impiedosos com quem entrevistamos e jamais ficarmos amigos dos mesmos. Eu discordo disso veementemente. Acredito e faço entrevistas apenas de quem gosto sempre procurando uma aproximação cordial. Estou lá para entrevistá-lo e não para esmagá-lo.

Esse pode vir a ser o caso com Sandro Garcia. Não o conheço bem, embora tenha conversado com ele uma vez após um show do Violeta de Outono. Mas Sandro possui no Continental Combo duas pessoas que conheço; dois Carlos: o Nishimiya é meu amigo há 10 anos. O Rodrigues é uma pessoa bacana e a quem devo uma grana, que será paga em algum momento. Nem que a envie via Major Tom...

Foi o Dalai Lama quem disse que os homens adoecem ganhando dinheiro e que depois o gastam todo tentando recuperar a saúde. Não quero isso. Aposto que Sandro também não. Ele quer apenas tocar rock and roll. Eu quero apenas ouvir e escrever sobre isso.

Pete Townshend imortalizou a frase "espero morrer antes de ficar velho". Mas Pete errou, assim como Lester. E Lester está morto. Pete ainda não. Nem eu. Nem Sandro. Sendo assim porque não ler o que Sandro tem a nos dizer? Conte-nos Sandro. Conte como tudo começou...


Sandro GarciaPergunta: - Como você começou? Quando se apaixonou pela música e descobriu que queria ser músico?
Sandro Garcia: -
Na primeira metade da década de oitenta. Nessa época, a descoberta do meu lado musical foi reforçada quando comecei a trabalhar de office boy no centro de São Paulo e estabeleci um contato com as lojas de discos. Havia também o clima de efervescência do rock paulista, fui em muitos shows o que me serviu definitivamente como incentivo a comprar um instrumento (um contra-baixo) e montar uma banda.

Pergunta: - Fale um poucos dos grupos onde tocou...
Sandro Garcia: -
A primeira foi o Faces e Fases, um grupo que não chegou a lançar nenhum material oficial. Tocamos muito durante a segunda metade da década de oitenta. A banda era totalmente influenciada pela sonoridade Mod. Em seguida, no início dos 90, foi o The Charts, que também carregava influências do Mod, mas mesclada com o som das garage-bands americanas e, na fase final já havia na sonoridade do grupo algo de psicodélico e folk. O Charts fez muitos shows de 90 até 99, em 2006 nos reunimos para uma apresentação especial na festa Start!

Toquei também, por um curto período, no Ultimates uma banda que teve várias fases, toquei entre 96 e 97 nesse periodo o som era bem garageiro. Em 98, montei com o Plato o Momento 68, que depois virou um trio e acabou em 2002. O grupo deixou, entre vários lançamentos o disco Tecnologia.

Entre 2000 e 2001 toquei no Violeta de Outono nos shows de lançamento do disco Mulher na Montanha. Com o fim do Momento 68 em 2002, o Carlos (baixista) eu, mais o Rogério, formamos o Continental Combo banda que estamos tocando até então. Houve ainda a minha cooperação como baixista na banda de apoio do Cadão Volpato. O grupo foi formado para fazer os shows de lançamento dos seu primeiro disco solo chamado Tudo que eu quero dizer tem que ser no ouvido. Também toquei baixo com os The Darma Lovers e ainda possuo um projeto instrumental chamado Dellatrons com o músico e desenhista Marcelo Badari.

Pergunta: - Você tocou, basicamente, em trios - Charts, Violeta, Momento 68. Por que o Continental Combo abandonou essa formação e convidou Carlos Nishimiya para ser o segundo guitarrista?
Sandro Garcia:
- Desde do Momento 68, nas gravações, eu sempre acrescentava muitos overdubs de guitarra e no Continental acontece o mesmo e notamos que seria muito bacana ter a possibilidade de alguém tocar conosco ocupando esta lacuna que a banda deixava ao vivo. Então, encontramos o Carlinhos, que é um musico genial, eu diria que sua entrada na banda foi vital, ajudando de forma crucial para os próximos passos do grupo.

Pergunta: - Nishimiya é um velho conhecido meu, fui balconista da Sweet Jane e cliente por anos e Golfetti é um bom amigo até hoje. Você vê alguma semelhança entre eles, além do fato de serem guitarristas?
Sandro Garcia:
- Eles são, de certo modo, hérois combatentes da cena musical. Ambos são grandes guitarristas, extremamente minunciosos, figuras apaixonadas por música. São duas personalidades muito dedicadas e transbordam simpatia.

Pergunta: - Suas letras são abstratas, simbólicas, um estilo bem parecido com as de Fabio Golfetti. Como vocês as constrói? Elas vêm primeiro, depois ou junto com as melodias?
Sandro Garcia:
- Geralmente as letras vão tomando forma junto com a idéia musical, uma preocupação constante embora tudo aconteça de forma natural é que a letra transmita uma idéia visual servindo de forma complementar ao som da composição.

Pergunta: - No Momento 68 e do Continental você era e é o principal compositor, vocalista e guitarrista, mas no Charts e no Violeta era "apenas" o baixista. Como você lidava com essas mudanças? E qual instrumento você prefere mais?
Sandro Garcia:
- Como músico e instrumentista é com o contra-baixo que me sinto mais tranquilo, mas com a guitarra ou violão encontro um caminho mais amplo para desenvolver minhas composições. Não sei exatamente qual é o meu preferido; às vezes mesmo não tendo o domínio técnico sobre determinado instrumento procuro utilizá-lo como uma ferramenta de expressão das minhas idéias musicais.

Pergunta: - Os Charts tinha uma linguagem mod muito forte, influências nítidas de Who, Jam e até Small Faces. Flávio Telles tinha uma boa voz, potente. Por que a banda acabou? O que ele anda fazendo?
Sandro Garcia:
- A banda tocou durante muito tempo e acredito que acabamos chegando em um momento em que ficamos sem perpectivas do nosso futuro musical, então o grupo desmoronou. Sei que o Flávio têm ótimas composições gravadas em formato demo, mas infelizmente, nunca foram apresentadas com uma nova banda ou projeto.

Sandro com o VioletaPergunta: - Você ficou um bom tempo no Violeta, mas não há registros oficiais com você, apenas com o Gregor. Isso te chateia?
Sandro Garcia:
- Toquei entre 2000 e 2001, não vejo nenhum problema em não ter dado uma maior contribuição musical tocando baixo em algum disco da banda; claro teria sido uma honra, mas foi uma experiência musical muito importante ter tocado as sensacionais composições do Fabio nos shows.

Pergunta: - Uma curiosidade: é possível viver apenas da música ou você tem um emprego?
Sandro Garcia:
- Tenho o meu estúdio, o Quadrophenia, que em 2008 vai fazer dez anos, mas mesmo assim ele só paga as contas. Viver com um trabalho musical onde você tenha total liberdade é bem dificil, mas há muitos caminhos nesse universo, cada um pode escolher o que melhor lhe convem. Uns conduzem sua trajetória musical de forma absolutamente tranqüila, gravando discos de forma completamente independente e existe também aqueles que chegam a sobrepor a qualidade e o caráter musical do grupo pela necessidade de estar toda semana na MTV.

Pergunta: - Como você vê a cena rock brasileira em geral e a cena paulista, especificamente? Considera os espaços e as divulgações hoje mais precárias do que há 10, 20 anos atrás?
Sandro Garcia:
- A quantidade de bandas tem aumentado cada vez mais, criando uma concorrência muito maior, e na cena alternativa a qualidade deste ou daquele trabalho não é só o que manda, você têm que matar dez leões por dia, e como sou defensor dos animais acabo deixando este trabalho sujo para outras bandas. Nos espaços pra shows, no circuito alternativo aqui em SP, há uma linha tênue entre a total precariedade e o mínimo de qualidade. Faltam espaços de médio porte, teatros, lugares onde a atração musical seja o principal motivo para agregar as pessoas.

Pergunta: - Eu defendo uma tese de que o espaço rock na mídia é cada vez mais escasso; as rádios não tocam mais rock, a não ser algumas que investem no chamado "classic rock"; o público também prefere outros estilos, mais populares e os espetáculos do gêneros são mais ligados aos grandes nomes. Você concorda comigo ou me acha muito fatalista?
Sandro Garcia
: - As rádios realmente não se preocupam em reciclar o "play list" com novos talentos, isso só têm acontecido em programas pela internet (por exemplo como Loaded e-zine). Estes espaços que a internet possibilita são dezenas de vezes mais democráticos.

capa do disco Tecnologia, do Momento 68Pergunta: - Eu sou grande fã do Momento 68, achava uma grande banda, tenho o CD Tecnologia e dois singles - Onde Estão Suas Canções? e o Ziggy - e tenho uma curiosidade. Por que o personagem "Homem Retalho" não aparece na faixa de mesmo nome e sim em outra canção? Isso me lembrou aquela coisa dos Doors, de lançarem o disco Waiting for the Sun, mas de gravarem a música apenas em Morrison Hotel.
Sandro Garcia:
- As duas composições foram feitas com a idéia de transmitir a solidão de um personagem em uma grande metrópole. A letra de "O Homem Retalho" foi terminada sem que a composição tivesse esse nome, achei que a descrição do cenário combinava com um protagonista melancólico, então lembrei do personagem que estava em "Outra Cidade" aí batizei esta faixa do Continental Combo com este nome, criando uma ligação entre as situações descritas nas duas composições.

capa do disco de estréia do Continental ComboPergunta: - "Homem Retalho", aliás é a minha música preferida do disco de estréia do Continental Combo, uma linda melodia, que tem uma levada - se me permite o disparate - que parece uma "melancolia alegre". O que você tinha em mente quando a compôs?
Sandro Garcia:
- A cidade, lugar que tanto convivo é, e sempre será, aminha fonte de referência. Quando me deparo com a necessidadede de criar uma letra para uma nova composição é nela que vou buscar as informações. Por ela, circulam muitos personagens com suas alegrias e tristezas, livres ou oprimidos, cheios de esperança ou de desilusões; a dualidade que habita em todas as metrópoles é a minha matéria prima principal. O cinema também é outro ingrediente muito importante, filmes como o genial O Homem que virou Suco (com José Dumont) e A Hora da Estrela (com Marcélia Cartaxo e José Dumont), têm um paralelo absoluto com esta composição do Continental.

Pergunta: - Qual a importância da internet na vida de vocês? A banda usa e abusa dessa ferramenta para a divulgação ou preferem o velho e fiel boca-a-boca? A sua esposa, Consuelo, te ajuda bastante, não?
Sandro Garcia:
- Hoje a internet é um ferramenta importante para qualquer músico ou artista para divulgar e organizar o trabalho. O Continental têm sua página no My Space e também em breve uma home page oficial.

Pergunta: - Quando sai o novo disco do Continental?
Sandro Garcia:
- No primeiro semestre de 2008, com absoluta certeza. (N do E: O disco se chamará A Vida é um Mistério e eis a capa dele, segundo nota do próprio Sandro em seu blogs e terá 12 faixas.)

Pergunta: - Há alguma chance dos Charts e do Momentos serem reativados, ainda que para alguns shows, somente?
Sandro Garcia: - Acredito que não.

Pergunta: - Você saberia dizer qual a faixa etária do seu público?
Sandro Garcia:
- Não saberia te responder com exatidão, talvez dos oito aos oitenta.

Pergunta: - Vocês fizeram um especial dos Byrds. "Nova Manhã" tem um final tipicamente byrdniano. Sua praia é realmente os anos 60, não?
Sandro Garcia:
- Apesar de ouvir muitas bandas de de periodos diferentes, são as dos anos sessenta que ainda de forma muito forte me servem de base para criar as canções.

capa do disco do The ChartsPergunta: - Uma curiosidade: por que no disco do Charts (SP em PB) e no do Continental vocês deram destaque a uma placa de sinalização de trânsito?
Sandro Garcia:
- A semelhança entre elas foi casual; no caso do Charts a idéia foi buscar elementos da Pop Art e Mod e a placa com a seta traduz isso muito bem. A arte do disco do Continental surgiu de fotos que fui fazendo na estrada, quando a banda foi tocar em Londrina. A minha visão pessoal da foto usada na capa com estrada e a placa de sinalização é o da banda sempre percorrer seu caminho, olhando para frente.

capa do último EP do grupo, Retiro Pergunta: - Poderia me dizer sua discografia completa com todas as bandas?
Sandro Garcia:
- Há uma quantidade consideravel de lançamentos entre Eps, Singles e títulos não oficiais, além de algumas participações (onde toquei algum instrumento) discos de artistas como: Laboratório SP, Skywalkers, Cadão Volpato, Blue Afternoon, Plato Divorak, Manta, Fotograma, The Automatics e o Violeta de Outono. Então vou deixar aqui um pequeno resumo de alguns títulos:
The Charts - Carbônicos [1996 - Suck MY Discs - Suck 002 CD]
The Charts - São Paulo em PB [2005 - Solaris Discos - SLRS - CD 0545]
Continental Combo - Continental Combo [2005 - Monstro Discos 065- CD]
Dellatrons - Dellatrons [2001 - Bada0- CDR]
Dellatrons - Asia Lee [2002 - QMR#06 - CDR]
Dellatrons - Gunnar Lou [2003 - QMR#007 - CDR]
Faces e Fases,1987-89 em Lo-Fi [2005 - QMR#011 - CDR]
Momento 68 - Single em Vinil [2000 - Monstro Discos # 011]
Momento 68 - Tecnologia [2002 - Sebo 264/ VoicePrint VPB 105 CD]
Sandro Garcia - Enigma Central Park - demos vol.1 [2005 - GRR003 - Open Field/Peligro - CD]
Explanações Vídeo Compilação vol.1 [2007 - QMR]

Pergunta: - Obrigado pela chance e desculpe esse questionário interminável. Deixe um recado aos fãs. Um abraço e boa sorte na carreira!
Sandro: -
Rubens, agradeço muito pelo espaço e gostaria claro de agradecer a todos que sempre estão dispostos a nos dar uma força e também àqueles que estão por ai, produzindo seus trabalhos de forma independente (zines, blogs, bandas e etc). Valeu, gente!!!!

Valeu, Sandro!