Carlos Nishimiya considera-se
um verdadeiro adepto do R.I.P. (Rock Impopular Brasileiro e
não Rest In Peace, boys!) em seu perfil no orkut.
Mas Carlos é, isso sim, um maníaco por música
desde muito jovem e por causa da música se divide em
vários. Após passagens pelo Magazine, Maria Angélica
Não Mora Mais Aqui e outras bandas, Carlos abraça
um novo grupo, uma nova proposta: Surfadelica, uma mistura de
surf-music com psicodelismo, garagem, shoegazer e muito mais.
Apesar de ainda não terem debutado em palco, o Surfadelica
já apareceu em uma coletânea do gênero editada
em Portugal e apenas em vinil. Além disso, prepara um
disco próprio. Nessa entrevista, Carlos conta um pouco
de sua vida, dos seus antigos projetos, os atuais e o que esperar
desse trio inspirado. Com vocês, Mr. Savage Fuzz Guitar...
Pergunta:
- O trio tem menos de um ano de atividades, mas já está
cheio de projetos. Conte um pouco desse começo, por favor...
Carlos Nishimiya: - O trio começou suas atividades
em novembro de 2006. Como eu já estava cheio de demos que
havia feito em casa com meu antigo porta-estúdio de 4 canais,
achei que era hora de fazer uma banda instrumental de surf music
que tivesse apenas músicas próprias. Na época,
eu ainda estava com o Los Tornados, mas o grupo estava mais voltado
a executar clássicos do estilo e músicas obscuras
e não tinha muito espaço para o que eu queria fazer,
que eram minhas composições e também porque
o background de Sonny e McCoy sempre foi o rockabilly
e eu estava querendo enveredar por um caminho que fosse mais ousado,
melódico e psicodélico. Com esse material em mãos
escolhi dois amigos que achava que poderiam ter o perfil adequado
ao Surfadelica, gente de mente aberta, que curtisse a vibração
da surf music, mas que ao mesmo tempo não tivesse restrições
em ousar: JC Góes Rock na bateria e Mauricio, um multi-instrumentista
que conhecia por termos tocado numa banda cover dos Cardigans!
Nessa época pensei que poderia conciliar ambas as bandas,
o Surfadelica e o Los Tornados. Até que durou por um tempo.
No começo de 2007,
o Los Tornados havia sido convidado a participar do maior festival
de surf music no Brasil, o Sexto Primeiro Campeonato Mineiro de
Surf, que ocorreu em 7 de abril de 2007. Para isso entramos em
estúdio e gravamos três canções minhas.
O show em Belo Horizonte foi ótimo, mas também foi
o fim do Los Tornados porque ficou evidente que não existia
muito interesse em continuar trabalhando no meu material. Assim,
resolvi que teria apenas o Surfadelica como banda surf. Em fevereiro
de 2007 gravamos na primeira sessão do Surfadelica uma
música minha, “Surf Me To The Moons Of Saturn”,
com a finalidade de inaugurar nosso perfil no MySpace.
Alem disso, já havia um convite para o Los Tornados para
participar de uma coletânea de bandas para a Cordelia Records
da Inglaterra. Como o Los Tornados já era, fizemos, então,
com o Surfadelica uma cover instrumental da música do Kaiser
Chiefs, “The Modern Way”. Finalizando a história
do Los Tornados: das três canções que foram
registradas, escolhi uma, “Gypsy Surfer” para fazer
parte da coletânea portuguesa Brazilian Surf A-Go-Go,
The Attack Of the Tiki Waves Vol.1. Da segunda sessão
de gravações do Surfadelica saiu a “Questionable
Navigation”, que é a contribuição do
grupo para a mesma coletânea. Assim eu tenho duas músicas
com duas bandas diferentes na mesma coletânea! Acabamos
de receber o vinil, um trabalho realmente fantástico, capa
elaborada, com encarte, além de ser uma mostra realmente
bastante abrangente da cena surf brasileira.
Pergunta:
- Por que a coletânea Brazilian Surf A-Go-Go,
The Attack Of the Tiki Waves Vol.1 está sendo lançada
apenas em Portugal? Não é um contra-senso?
Carlos Nishimiya: - Essa coletânea foi um projeto
bolado pelo Gabriel, do Autoramas. Como o Autoramas tem seus discos
lançados na Europa pela Groovie Records ficou mais fácil
pensar em lançar por lá uma coletânea que
desse a dimensão da cena de surf music brasileira. Realmente
é um disco para um público internacional, já
que existem algumas coletâneas lançadas aqui que
tem o mesmo propósito, como é o caso das coletâneas
lançadas pela Reverb Brasil. Mas o grande barato mesmo
é poder ter um disco em vinil e poder atingir um público
fora do Brasil. (Nota do editor: algumas cópias
desse disco estão à venda na loja Sensorial Discos
de São Paulo pelo telefone (11) 3333-1914).
Pergunta:
- Ao mesmo tempo em que está no Surfadelica, você
toca com o Los Tornados, Kid Vinil Xperience, está tentando
reativar o Maria Angélica, tem o Punk Beatles e entrou
recentemente para o Continental Combo. Há tempo para todos?
Esqueci de algum projeto?
Carlos Nishimiya: - Como disse antes, no momento já
não tenho mais atividade com o Los Tornados. Nosso único
registro já foi lançado, ainda tenho duas gravações
inéditas. Talvez disponibilize para download ou alguma
outra coletânea em alguma época futura. Quanto ao
Maria Angélica tenho discutido com o Fernando Naporano
o lançamento de uma compilação de material
inédito. Temos dezenas de faixas gravadas em demos, shows
ao vivo, outtakes do primeiro disco, muita coisa inédita
mesmo. O tempo todo ouço falar que os discos originais
serão relançados em CD. Para nós, isso não
tem interesse algum. Nunca ganhamos um centavo com isso, o selo
nunca nos entregou as fitas master, não temos direito algum
sobre o material. Culpa nossa, muita ingenuidade em não
termos pensado no futuro. Assim se esses discos (Outsider,
especialmente), forem lançados em CD serão com nossa
total desaprovação. O Fernando está muito
atarefado no momento e com vários problemas familiares,
sem tempo ou foco para "mariangelicar", mas a possibilidade,
segundo ele, jamais está descartada.
O
Kid Vinil Xperience continua, faço shows pelo Brasil com
o Kid há pelo menos 15 anos. Muitas vezes os promotores
dos shows anunciam como Magazine. Tudo bem Kid = Magazine. E nossos
shows são sempre legais, energéticos e mostram que
o repertório original do Magazine continua bem vivo e relevante.
Estamos compondo material novo, mas em passo muito mais lento
que o Surfadelica, porque a agenda do Kid é bem cheia.
O Punk Beatles hiberna, mas na verdade, é outro projeto
inacabado. Infelizmente, o vocalista saiu logo após termos
gravado todas as bases de um disco inteiro. Em essência
só faltam os vocais. Mas não tenho, no momento,
vontade de retornar a esse material, apesar da idéia ser
muito, muito legal mesmo, acho que não conheço nenhum
grupo com essa nossa proposta. Parece muito pretensioso, mas é
verdade.
Quanto
ao Continental Combo estou felicíssimo por estar tocando
com uma das melhores bandas brasileiras. Já gravei algumas
faixas, que estarão no novo disco da banda, que deverá
se chamar A Vida É Um Mistério.
Entrei num momento onde
a maioria das faixas já estava acabada, mas pude dar um
toque a mais em algumas. Devo dizer que acho que o segundo álbum
será ainda melhor do que o primeiro, que considero um dos
melhores discos de bandas brasileiras contemporâneas.
Além disso, o Continental
se dedica, esporadicamente, a projetos como esse show tributo
aos Byrds, uma das grandes influências que temos.
Pergunta: -
Há público para o tipo de som do Surfadelica?
Ele fica mais restrito à São Paulo ou vocês
fazem shows em outros estados?
Carlos Nishimiya: - Ainda não consigo responder
a essa pergunta porque não fizemos nenhum show até
agora. Minha postura, desde o início, é que primeiro
teríamos o disco de estréia lançado para
só então começarmos a fazer shows. Claro
que isso não é uma regra estrita, pode ser que façamos
alguma coisa em algum local pequeno para sentirmos como a música
flui num ambiente de show. Quanto à existência de
público, posso falar um pouco pela minha experiência
com o Los Tornados. O Los Tornados fez, em sua existência,
mais de 50 shows, o que não é pouco para uma banda
que não tem vocais. Claro que os locais são mais
limitados, o público mais seleto, mas acho que existe um
grande interesse no estilo pela quantidade de bandas que estão
na ativa, incluindo as que estão fazendo sucesso internacional
como o Dead Rocks, Estru’mental e os próprios Autoramas
(apesar deles não serem estritamente surf). Já temos
o convite para participarmos da próxima edição
do Primeiro Campeonato Mineiro de Surf em 2008. Provavelmente
estaremos lá.
Pergunta:
- A música de vocês mistura a surf com psicodelismo,
grunge e shoegazer. Como arregimentar tantos
estilos díspares? E quais são as maiores influências
de vocês?
Carlos Nishimiya: - Bem, posso falar por mim, a mescla
é simples, vem de tudo que sempre ouvi. Quando tenho uma
idéia penso logo em que poderia fazer para soar mais original.
Realmente uma de nossas canções se apropriou do
esquema de dinâmica alta/baixa do grunge e ao mesmo tempo
conserva seu sabor de surf music. Penso que a surf music vive
um momento conservador. Muitas bandas ou fazem o som limpo e claro
característico dos Shadows ou misturam com punk e o metal,
usando só guitarras sujas. Por isso minha idéia
era usar coisas que sempre tive em mente, sempre gostei dos solos
psicodélicos de Hendrix, Jefferson Airplane, Bevis Frond.
E sempre fui fã de Ride, My Bloody Valentine e outros shoegazers.
Então porque não utilizar elementos que já
estão no meu subconsciente mesmo? Mas no fundo isso tudo
é um pouco o verniz por cima de tudo. O essencial mesmo
é a composição, a canção, a
melodia e a harmonia.
Pergunta: - Como
estão as gravações do primeiro trabalho?
Ele sairá por onde, será em vinil ou cd?
Carlos Nishimiya: - No momento estamos com 8 músicas
prontas para o disco de estréia, provavelmente serão
11 ou 12. Essas oito faixas já estão em diferentes
estágios de finalização, duas outras bases
estão gravadas e esperando eu colocar minhas guitarras.
Daí falta gravar apenas mais uma ou talvez duas faixas
para encerrar o disco e remasterizar. Nosso trabalho foi todo
feito no estúdio Quadrophenia do Sandro Garcia do Continental
Combo. Já fechamos o lançamento do disco com uma
gravadora que ainda não posso revelar no momento. Está
acertado que o lançamento deve ser até março
de 2008. E os nossos planos incluem lançar um single em
vinil logo após o CD. O legal também é que
já estamos começando o trabalho no repertório
do futuro segundo disco. Quem sabe já tenhamos o material
pronto pela época em que estivermos lançando o primeiro.
Além disso, gravamos
outras contribuições, uma delas, bem diferente do
nosso estilo normal, uma cover de “Ocean” para um
tributo brasileiro ao Sebadoh. No futuro estaremos contribuindo
para uma coletânea italiana com um cover do Pink Floyd.
Assim estamos revezando os ensaios e gravações entre
as faixas para o debut e mais material para ser usado
em coletâneas e futuros singles em vinil.
Pergunta:
- No seu perfil do orkut você diz que é adepto ao
RIP, rock impopular brasileiro. Pensando nisso, é possível
viver de música?
Carlos Nishimiya: - É uma velha piada...R.I.P.,
rest in peace ... Na verdade, só vivem de música
os medalhões consagrados pela mídia e os empregados
deles. O que eu faço é por mim mesmo e pelo amor
que tenho pela música.
Saem dos nosso bolsos o
dinheiro para ensaiar e gravar, para divulgar, o tempo que usamos
na internet para propagandear nosso trabalho e quando chegar a
época, bancar o custo de lançamento de nosso CD.
Isso sem falar nos gastos com instrumentos, amplificadores e pedais
e a manutenção dos mesmos. Para mim, se pudermos
ganhar o suficiente para podermos continuar gravando e lançando
disco está ótimo.
Pergunta: - Qual
é a média de downloads das músicas da banda
no My Space?
Carlos Nishimiya: - Zero, porque não estamos disponibilizando
ainda downloads grátis. Mas temos mais de 1300 amigos em
nosso perfil, mais de 5000 visitas, muitos contatos foram feitos,
muitos gostaram do som da banda, o que me faz extremamente feliz.
Já temos músicas rolando em rádio em Portugal
e logo, logo em programas nos USA e Europa. Quem quiser pode colocar
o Surfadelica no seu playlist particular na Last.FM. Posso dizer
que grande parte do nosso sucesso se deve ao MySpace, onde encontrei
muita gente bacana, além de poder encontrar velhos ídolos,
como Judy Dyble (ex-Fairport Convention, Trader Horn e Giles,
Giles & Fripp).
Pergunta:
- Você é o principal compositor, além de produtor
e líder do grupo. O que mais te estimula?
Carlos Nishimiya: - No Surfadelica sou o único
compositor. Produzo o grupo porque eu sei melhor do que ninguém
como o som deve ser. Mas ainda bem que posso contar com o auxílio
inestimável do Sandro Garcia, líder do Continental
Combo e engenheiro de som extraordinaire. Todas as etapas
são estimulantes, mas a parte da composição
e feitura das demos é a mais exaustiva. Mas gravar demos
traz efeitos imediatos para a banda. Já adianta muito para
passar aos outros músicos o que você quer. Eu gravo
só com a guitarra, mas tento imitar linhas de baixo e elaboro
as harmonias e melodias. É muito bom poder ouvir aquilo
que você tinha em mente tomar forma e existir na realidade.
Pergunta: - Como
anda seu lado produtor? Você já produziu algum outro
artista que não alguma banda sua?
Carlos Nishimiya: - Produzi, sim, uma banda no ano passado,
o Deuces. Pena que os garotos não lançaram o disco.
Deu um baita trabalho e eles acabaram não lançando,
acho, por falta de grana. Gostaria de ser chamado mais para fazer
isso, o estúdio é um habitat natural para mim. Depois
da experiência de produzir o disco do Magazine, Na
Honestidade, em 2002 adquiri o vício. Agora eu
sou o produtor de todas as músicas onde gravo. Com exceção
da minha participação em uma das músicas
do disco de estréia das Lunettes, uma banda garage de Campinas,
que deve ter seu disco lançado pela Scatter Records da
Argentina no final deste ano. Fiz um solo de fuzz na faixa “Magic
Fingers”.
Pergunta: - Deixe
uma mensagem para os fãs. Valeu pela chance!
Carlos Nishimiya: - Bem, eu sempre considero que não
tenho fãs, mas sim, amigos. Eu agradeço o apoio
constante que sempre recebo, como escrevi no MySpace, o Surfadelica
é um sonho tornado realidade. Obrigado pela oportunidade
de falar sobre meus sonhos!
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