29 - Surfadelica - entrevista

Carlos Nishimiya considera-se um verdadeiro adepto do R.I.P. (Rock Impopular Brasileiro e não Rest In Peace, boys!) em seu perfil no orkut. Mas Carlos é, isso sim, um maníaco por música desde muito jovem e por causa da música se divide em vários. Após passagens pelo Magazine, Maria Angélica Não Mora Mais Aqui e outras bandas, Carlos abraça um novo grupo, uma nova proposta: Surfadelica, uma mistura de surf-music com psicodelismo, garagem, shoegazer e muito mais. Apesar de ainda não terem debutado em palco, o Surfadelica já apareceu em uma coletânea do gênero editada em Portugal e apenas em vinil. Além disso, prepara um disco próprio. Nessa entrevista, Carlos conta um pouco de sua vida, dos seus antigos projetos, os atuais e o que esperar desse trio inspirado. Com vocês, Mr. Savage Fuzz Guitar...


 

Pergunta: - O trio tem menos de um ano de atividades, mas já está cheio de projetos. Conte um pouco desse começo, por favor...
Carlos Nishimiya: -
O trio começou suas atividades em novembro de 2006. Como eu já estava cheio de demos que havia feito em casa com meu antigo porta-estúdio de 4 canais, achei que era hora de fazer uma banda instrumental de surf music que tivesse apenas músicas próprias. Na época, eu ainda estava com o Los Tornados, mas o grupo estava mais voltado a executar clássicos do estilo e músicas obscuras e não tinha muito espaço para o que eu queria fazer, que eram minhas composições e também porque o background de Sonny e McCoy sempre foi o rockabilly e eu estava querendo enveredar por um caminho que fosse mais ousado, melódico e psicodélico. Com esse material em mãos escolhi dois amigos que achava que poderiam ter o perfil adequado ao Surfadelica, gente de mente aberta, que curtisse a vibração da surf music, mas que ao mesmo tempo não tivesse restrições em ousar: JC Góes Rock na bateria e Mauricio, um multi-instrumentista que conhecia por termos tocado numa banda cover dos Cardigans! Nessa época pensei que poderia conciliar ambas as bandas, o Surfadelica e o Los Tornados. Até que durou por um tempo.

No começo de 2007, o Los Tornados havia sido convidado a participar do maior festival de surf music no Brasil, o Sexto Primeiro Campeonato Mineiro de Surf, que ocorreu em 7 de abril de 2007. Para isso entramos em estúdio e gravamos três canções minhas. O show em Belo Horizonte foi ótimo, mas também foi o fim do Los Tornados porque ficou evidente que não existia muito interesse em continuar trabalhando no meu material. Assim, resolvi que teria apenas o Surfadelica como banda surf. Em fevereiro de 2007 gravamos na primeira sessão do Surfadelica uma música minha, “Surf Me To The Moons Of Saturn”, com a finalidade de inaugurar nosso perfil no MySpace. Alem disso, já havia um convite para o Los Tornados para participar de uma coletânea de bandas para a Cordelia Records da Inglaterra. Como o Los Tornados já era, fizemos, então, com o Surfadelica uma cover instrumental da música do Kaiser Chiefs, “The Modern Way”. Finalizando a história do Los Tornados: das três canções que foram registradas, escolhi uma, “Gypsy Surfer” para fazer parte da coletânea portuguesa Brazilian Surf A-Go-Go, The Attack Of the Tiki Waves Vol.1. Da segunda sessão de gravações do Surfadelica saiu a “Questionable Navigation”, que é a contribuição do grupo para a mesma coletânea. Assim eu tenho duas músicas com duas bandas diferentes na mesma coletânea! Acabamos de receber o vinil, um trabalho realmente fantástico, capa elaborada, com encarte, além de ser uma mostra realmente bastante abrangente da cena surf brasileira.

capa da coletânea Brazilian Surf A-Go-Go, The Attack Of the Tiki Waves Vol.1Pergunta: - Por que a coletânea Brazilian Surf A-Go-Go, The Attack Of the Tiki Waves Vol.1 está sendo lançada apenas em Portugal? Não é um contra-senso?
Carlos Nishimiya: -
Essa coletânea foi um projeto bolado pelo Gabriel, do Autoramas. Como o Autoramas tem seus discos lançados na Europa pela Groovie Records ficou mais fácil pensar em lançar por lá uma coletânea que desse a dimensão da cena de surf music brasileira. Realmente é um disco para um público internacional, já que existem algumas coletâneas lançadas aqui que tem o mesmo propósito, como é o caso das coletâneas lançadas pela Reverb Brasil. Mas o grande barato mesmo é poder ter um disco em vinil e poder atingir um público fora do Brasil. (Nota do editor: algumas cópias desse disco estão à venda na loja Sensorial Discos de São Paulo pelo telefone (11) 3333-1914).

Carlos e Fernando Naporano com o Maria Angélica, nos anos 80Pergunta: - Ao mesmo tempo em que está no Surfadelica, você toca com o Los Tornados, Kid Vinil Xperience, está tentando reativar o Maria Angélica, tem o Punk Beatles e entrou recentemente para o Continental Combo. Há tempo para todos? Esqueci de algum projeto?
Carlos Nishimiya: -
Como disse antes, no momento já não tenho mais atividade com o Los Tornados. Nosso único registro já foi lançado, ainda tenho duas gravações inéditas. Talvez disponibilize para download ou alguma outra coletânea em alguma época futura. Quanto ao Maria Angélica tenho discutido com o Fernando Naporano o lançamento de uma compilação de material inédito. Temos dezenas de faixas gravadas em demos, shows ao vivo, outtakes do primeiro disco, muita coisa inédita mesmo. O tempo todo ouço falar que os discos originais serão relançados em CD. Para nós, isso não tem interesse algum. Nunca ganhamos um centavo com isso, o selo nunca nos entregou as fitas master, não temos direito algum sobre o material. Culpa nossa, muita ingenuidade em não termos pensado no futuro. Assim se esses discos (Outsider, especialmente), forem lançados em CD serão com nossa total desaprovação. O Fernando está muito atarefado no momento e com vários problemas familiares, sem tempo ou foco para "mariangelicar", mas a possibilidade, segundo ele, jamais está descartada.


Kid Vinil Xperience em recente show em GoiâniaO Kid Vinil Xperience continua, faço shows pelo Brasil com o Kid há pelo menos 15 anos. Muitas vezes os promotores dos shows anunciam como Magazine. Tudo bem Kid = Magazine. E nossos shows são sempre legais, energéticos e mostram que o repertório original do Magazine continua bem vivo e relevante. Estamos compondo material novo, mas em passo muito mais lento que o Surfadelica, porque a agenda do Kid é bem cheia. O Punk Beatles hiberna, mas na verdade, é outro projeto inacabado. Infelizmente, o vocalista saiu logo após termos gravado todas as bases de um disco inteiro. Em essência só faltam os vocais. Mas não tenho, no momento, vontade de retornar a esse material, apesar da idéia ser muito, muito legal mesmo, acho que não conheço nenhum grupo com essa nossa proposta. Parece muito pretensioso, mas é verdade.

Continental ComboQuanto ao Continental Combo estou felicíssimo por estar tocando com uma das melhores bandas brasileiras. Já gravei algumas faixas, que estarão no novo disco da banda, que deverá se chamar A Vida É Um Mistério.

Entrei num momento onde a maioria das faixas já estava acabada, mas pude dar um toque a mais em algumas. Devo dizer que acho que o segundo álbum será ainda melhor do que o primeiro, que considero um dos melhores discos de bandas brasileiras contemporâneas.

Além disso, o Continental se dedica, esporadicamente, a projetos como esse show tributo aos Byrds, uma das grandes influências que temos.

 

Pergunta: - Há público para o tipo de som do Surfadelica? Ele fica mais restrito à São Paulo ou vocês fazem shows em outros estados?
Carlos Nishimiya: -
Ainda não consigo responder a essa pergunta porque não fizemos nenhum show até agora. Minha postura, desde o início, é que primeiro teríamos o disco de estréia lançado para só então começarmos a fazer shows. Claro que isso não é uma regra estrita, pode ser que façamos alguma coisa em algum local pequeno para sentirmos como a música flui num ambiente de show. Quanto à existência de público, posso falar um pouco pela minha experiência com o Los Tornados. O Los Tornados fez, em sua existência, mais de 50 shows, o que não é pouco para uma banda que não tem vocais. Claro que os locais são mais limitados, o público mais seleto, mas acho que existe um grande interesse no estilo pela quantidade de bandas que estão na ativa, incluindo as que estão fazendo sucesso internacional como o Dead Rocks, Estru’mental e os próprios Autoramas (apesar deles não serem estritamente surf). Já temos o convite para participarmos da próxima edição do Primeiro Campeonato Mineiro de Surf em 2008. Provavelmente estaremos lá.

Pergunta: - A música de vocês mistura a surf com psicodelismo, grunge e shoegazer. Como arregimentar tantos estilos díspares? E quais são as maiores influências de vocês?
Carlos Nishimiya: -
Bem, posso falar por mim, a mescla é simples, vem de tudo que sempre ouvi. Quando tenho uma idéia penso logo em que poderia fazer para soar mais original. Realmente uma de nossas canções se apropriou do esquema de dinâmica alta/baixa do grunge e ao mesmo tempo conserva seu sabor de surf music. Penso que a surf music vive um momento conservador. Muitas bandas ou fazem o som limpo e claro característico dos Shadows ou misturam com punk e o metal, usando só guitarras sujas. Por isso minha idéia era usar coisas que sempre tive em mente, sempre gostei dos solos psicodélicos de Hendrix, Jefferson Airplane, Bevis Frond. E sempre fui fã de Ride, My Bloody Valentine e outros shoegazers. Então porque não utilizar elementos que já estão no meu subconsciente mesmo? Mas no fundo isso tudo é um pouco o verniz por cima de tudo. O essencial mesmo é a composição, a canção, a melodia e a harmonia.

Pergunta: - Como estão as gravações do primeiro trabalho? Ele sairá por onde, será em vinil ou cd?
Carlos Nishimiya: -
No momento estamos com 8 músicas prontas para o disco de estréia, provavelmente serão 11 ou 12. Essas oito faixas já estão em diferentes estágios de finalização, duas outras bases estão gravadas e esperando eu colocar minhas guitarras. Daí falta gravar apenas mais uma ou talvez duas faixas para encerrar o disco e remasterizar. Nosso trabalho foi todo feito no estúdio Quadrophenia do Sandro Garcia do Continental Combo. Já fechamos o lançamento do disco com uma gravadora que ainda não posso revelar no momento. Está acertado que o lançamento deve ser até março de 2008. E os nossos planos incluem lançar um single em vinil logo após o CD. O legal também é que já estamos começando o trabalho no repertório do futuro segundo disco. Quem sabe já tenhamos o material pronto pela época em que estivermos lançando o primeiro.

Além disso, gravamos outras contribuições, uma delas, bem diferente do nosso estilo normal, uma cover de “Ocean” para um tributo brasileiro ao Sebadoh. No futuro estaremos contribuindo para uma coletânea italiana com um cover do Pink Floyd. Assim estamos revezando os ensaios e gravações entre as faixas para o debut e mais material para ser usado em coletâneas e futuros singles em vinil.

Pergunta: - No seu perfil do orkut você diz que é adepto ao RIP, rock impopular brasileiro. Pensando nisso, é possível viver de música?
Carlos Nishimiya: -
É uma velha piada...R.I.P., rest in peace ... Na verdade, só vivem de música os medalhões consagrados pela mídia e os empregados deles. O que eu faço é por mim mesmo e pelo amor que tenho pela música.

Saem dos nosso bolsos o dinheiro para ensaiar e gravar, para divulgar, o tempo que usamos na internet para propagandear nosso trabalho e quando chegar a época, bancar o custo de lançamento de nosso CD. Isso sem falar nos gastos com instrumentos, amplificadores e pedais e a manutenção dos mesmos. Para mim, se pudermos ganhar o suficiente para podermos continuar gravando e lançando disco está ótimo.

Pergunta: - Qual é a média de downloads das músicas da banda no My Space?
Carlos Nishimiya: -
Zero, porque não estamos disponibilizando ainda downloads grátis. Mas temos mais de 1300 amigos em nosso perfil, mais de 5000 visitas, muitos contatos foram feitos, muitos gostaram do som da banda, o que me faz extremamente feliz. Já temos músicas rolando em rádio em Portugal e logo, logo em programas nos USA e Europa. Quem quiser pode colocar o Surfadelica no seu playlist particular na Last.FM. Posso dizer que grande parte do nosso sucesso se deve ao MySpace, onde encontrei muita gente bacana, além de poder encontrar velhos ídolos, como Judy Dyble (ex-Fairport Convention, Trader Horn e Giles, Giles & Fripp).

Pergunta: - Você é o principal compositor, além de produtor e líder do grupo. O que mais te estimula?
Carlos Nishimiya: -
No Surfadelica sou o único compositor. Produzo o grupo porque eu sei melhor do que ninguém como o som deve ser. Mas ainda bem que posso contar com o auxílio inestimável do Sandro Garcia, líder do Continental Combo e engenheiro de som extraordinaire. Todas as etapas são estimulantes, mas a parte da composição e feitura das demos é a mais exaustiva. Mas gravar demos traz efeitos imediatos para a banda. Já adianta muito para passar aos outros músicos o que você quer. Eu gravo só com a guitarra, mas tento imitar linhas de baixo e elaboro as harmonias e melodias. É muito bom poder ouvir aquilo que você tinha em mente tomar forma e existir na realidade.

Pergunta: - Como anda seu lado produtor? Você já produziu algum outro artista que não alguma banda sua?
Carlos Nishimiya: -
Produzi, sim, uma banda no ano passado, o Deuces. Pena que os garotos não lançaram o disco. Deu um baita trabalho e eles acabaram não lançando, acho, por falta de grana. Gostaria de ser chamado mais para fazer isso, o estúdio é um habitat natural para mim. Depois da experiência de produzir o disco do Magazine, Na Honestidade, em 2002 adquiri o vício. Agora eu sou o produtor de todas as músicas onde gravo. Com exceção da minha participação em uma das músicas do disco de estréia das Lunettes, uma banda garage de Campinas, que deve ter seu disco lançado pela Scatter Records da Argentina no final deste ano. Fiz um solo de fuzz na faixa “Magic Fingers”.

Pergunta: - Deixe uma mensagem para os fãs. Valeu pela chance!
Carlos Nishimiya: -
Bem, eu sempre considero que não tenho fãs, mas sim, amigos. Eu agradeço o apoio constante que sempre recebo, como escrevi no MySpace, o Surfadelica é um sonho tornado realidade. Obrigado pela oportunidade de falar sobre meus sonhos!